domingo, 4 de fevereiro de 2018

Farrapo Humano (1945): Billy Wilder Leva Ray Milland à “Bebedeira” e ao Oscar.


FARRAPO HUMANO (The Lost Weekend), produzido em 1945 e dirigido por Billy Wilder (1906-2002) tinha tudo para fracassar na época de sua realização por conta de um tema polêmico, o vício do álcool. Não era uma temática que o público de outrora tinha interesse ou, pelo menos, queria evitar maiores escândalos. Entretanto, o cineasta Wilder, um gênio bem a frente de seu tempo, ousou assim mesmo levar as telas o deprimente romance de Charles Jackson (1903-1968), sobre um escritor alcoólatra em processo de autodestruição.  Entretanto, não foi fácil o diretor levar a cabo uma de suas grandes realizações. 

O Cineasta Billy Wilder
O Roteirista Charles Brackett, colaborador de Billy Wilder.
O Romance de Charles Jackson no qual baseou o filme.
Viajando para Nova York onde comprou os direitos do livro de Jackson, Wilder se deparou de frente com Frank Freeman, que era chefe de produção da Paramount, estúdio que produziria e faria sua distribuição. Freeman não concordou em nenhum momento em levar o romance para o cinema, mas graças a Barney Balaban, que era presidente da companhia em Nova York, este aprovou o projeto e Wilder pôde levar adiante as filmagens daquele que seria uma de suas gloriosas obras primas de sucesso. 

Billy Wilder dirigindo Ray Milland e Doris Dowling
Ray Milland em sua atuação mais marcante:
FARRAPO HUMANO (1945)
Não fazia muito tempo, Wilder havia testemunhado, sentido e sobrevivido ao alcoolismo de Raymond Chandler, com quem trabalhou no roteiro de Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944). Charles Brackett (1892-1969), parceiro fixo do cineasta e que faria o script para Farrapo Humano, teve uma experiência ainda mais dolorosa: sua esposa e filha eram alcóolatras. A filha morreu ao cair de uma escada, embriagada. Em realidade, o sério e centrado Brackett parecia atrair os literatos alcóolatras de Hollywood. Tinha cuidado de Scott Fitzgerald em muitas de suas várias bebedeiras, e ainda cuidou de Bob Benchley, Dorothy Parker, e Dashiell Hammett.

Ray Milland como Don Birman, escritor arruinado que se submete ao vício do álcool... 
...que tem o apoio do irmão Wick (Phillip Terry) e da namorada Helen (Jane Wyman) para ser livrar da dipsomania.
O assunto era descaradamente cruel e não havia modo de tratar o assunto de forma sutil. Wilder se consagrou ao realizar uma obra em estilo cruel e cínico, opressiva e exasperante, ao retratar a decadência de um escritor falido, Don Birman (Ray Milland, 1905-1986), que caminha nas ruas de uma Nova York deserta aos finais de semana, sem rumo e sem trégua, trajeto que o leva dos bares para os hospitais, e daí a um possível suicídio. Longe por algumas horas da vigilância do irmão Wick (Phillip Terry, 1909-1993), e da namorada Helen St. James (Jane Wyman, 1917-2007), mas também sem dinheiro para comprar bebida, Birman entrega-se a uma busca mais desesperada que acaba por envolver o próprio espectador numa atmosfera de crescente e insuportável dramaticidade.

Como meio de obter bebida, Birman chega ao cúmulo de penhorar sua ferramenta de trabalho...
... e sair em busca de alguma loja de penhores.
Milland durante as filmagens em plena Terceira Avenida, em Nova York, num dia de domingo.

Rodado em locações de Nova York, FARRAPO HUMANO é uma obra noir sem contextos criminais. A atmosfera muitas vezes sinistra da ambientação ao qual o personagem central muitas vezes frequenta realça o clima de decadência a que é submetido. O bar de Nat (Howard da Silva, 1909-1986), que em alguns momentos procura ser paternal com Birman, é frequentado por vários tipos, desde os mais “sociais” até escórias. O elevado da Terceira Avenida, pavor e pesadelo dos doentes da ala psiquiátrica do Hospital  Belleuve, não foi ignorado na trama. 

O Barman Nat (Howard Da Silva), que entende o problema de Birman e as vezes o aconselha a largar o vício.
Doris Dowling é Glória, frequentadora do bar de Nat e de queda por Birman.
Uma cena marcante tem Ray Milland, com barba por fazer, caminhando pela Terceira Avenida tentando penhorar sua máquina de escrever, sem notar que todas as lojas de penhor estão fechadas devido a um feriado (e com Milland realmente se arrastando da famosa Rua 55 até a 110, enquanto a câmera de Wilder o seguia, escondida dentro de um caminhão de padaria. A cena foi filmada num domingo).  Mas é a sequencia de Birman gritando no terror de um delirium tremens, enquanto que um morcego imaginário perseguia uma mosca imaginária na escuridão do apartamento que recebeu maior impacto em FARRAPO HUMANO.  

O Deliriun Tremens de Birman
Helen tenta ajudar o namorado Birman...
... que não consegue largar o vício.
A estreia de FARRAPO HUMANO em Santa Bárbara, Califórnia, foi recebida com risinhos, gargalhadas, e cartões dizendo que o filme era repugnante. O pessimista Frank Freeman, que desde o início não aprovou de levar o livro de Charles Jackson às telas, parecia triunfante e chegou a declarar que deveriam arquivar, abandonar, e “matar” o filme de Wilder. Houve até um boato de que o gangster Frank Costello, representando a indústria de bebidas, pagaria a Paramount a soma de 3 milhões de dólares para destruir o negativo. Mas nenhum apelo contra a obra de Billy Wilder fez efeito, ao contrário. Seis meses depois, Barney Balaban, ardoroso defensor do cineasta, chegou à conclusão de que fazer filmes para depois arquiva-los seria um desperdício, então ordenou a distribuição de FARRAPO HUMANO no outono de 1945, obtendo imediatamente críticas positivas e uma surpreendente acolhida do público.


Mesmo internado em um hospício, Birman não consegue ter paz com Nolan (Frank Finlay), um enfermeiro que mais o prejudica do que ajuda.
A devotada Helen St. James (Jane Wyman) não desiste de Birman e ainda tem esperanças de reabilitar o namorado.
FARRAPO HUMANO conquistou quatro Oscars: Melhor filme de 1945, Melhor Diretor (Billy Wilder), Melhor Roteiro (Charles Brackett), e Melhor Ator (Ray Milland). Milland recebeu merecidamente o prêmio, sua interpretação sustentou todo o filme. O primeiro convidado para fazer o papel foi Jose Ferrer, que não pôde aceitar a parte de Don Birman devido a um contrato com a Broadway. A escolha de Ray Milland para o papel foi considerada ousada, pois o público estava acostumado em vê-lo como galã em comédias leves. Mas Wilder e Brackett já vinham trabalhando com ele, e sabiam de suas grandes possibilidades. Durante algum tempo, o ator estudou o comportamento de bêbados em bares e nas ruas. Entretanto, ganhar a estatueta de Melhor Ator lhe rendeu, durante muitos anos, ser vítima de piadas e brincadeiras sobre alcoólatras. 

Ray Milland e seu Oscar de Melhor Ator de 1945 por FARRAPO HUMANO.
O filme de Wilder, em grande cartaz nos Estados Unidos.
Certamente, FARRAPO HUMANO é o maior impacto que o cinema teve na abordagem na dipsomania, ou da degradação humana que o diretor Billy Wilder voltaria a tratar em Crepúsculo dos Deuses (1950) e A Montanha dos Sete Abutres (1951). O Score musical é do húngaro Miklos Rozsa (1907-1995). FARRAPO HUMANO chegou às salas de cinema do Rio de Janeiro em agosto de 1946.

Miklos Rozsa escreveu a trilha para
FARRAPO HUMANO (1945)


A Obra de Billy Wilder chegou as nossas salas cariocas em agosto de 1946.
FICHA TECNICA
FARRAPO HUMANO
(THE LOST WEEKEND)

País- Estados Unidos
Ano de Produção – 1945
Gênero – Drama
Direção – Billy Wilder
Produção – Charles Brackett, em produção e distribuição da Paramount Pictures.
Roteiro – Charles Brackett e Billy Wilder, baseado no romance de Charles Jackson
Fotografia - John F. Seitz, em Preto & Branco
Música – Miklos Rozsa
Metragem – 101 minutos

ELENCO PRINCIPAL

Ray Milland – Don Birman
Jane Wyman – Helen St. James
Phillip Terry – Wick Birman
Howard Da Silva – Nat, o Barman
Doris Dowlling – Gloria
Frank Faylen – Bim Nolan
Mary Young – Senhora Deveridge
Anita Sharp-Bolster – Senhora Foley
Lilian Fontaine – Senhora St. James
Frank Orth – Atendente do teatro de ópera
Lewis Russell – Senhor St. James

Produção e Pesquisa de

PAULO TELLES