domingo, 9 de abril de 2017

Barrabás (1961): Anthony Quinn e Uma Análise Acurada da Fé e do Ceticismo, Através do Famoso Personagem Bíblico.


Em 1951, o renomado escritor sueco Par Lagerkvist (1891-1974) foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura pela publicação de seu Best-Seller Barrabás, lançado no ano anterior. A primeira vista, Lagerkvist não quis apresentar uma história bíblica, mas demonstrar como a fé e o ceticismo podem muito bem andarem em lados paralelos da sociedade. 

O escritor sueco Par Largkevist, o autor do romance BARRABÁS (1950), livro que o consagrou e lhe outorgou o Prêmio Nobel de Literatura em 1951.
Ilustração "Dá-nos Barrabás", de autor desconhecido - 1910

Barrabás é um personagem citado breve e exclusivamente no Novo Testamento, no contexto do julgamento de Jesus Cristo. Ele seria um criminoso condenado à morte pela justiça romana, que acaba libertado por vontade do povo judeu, posto a escolher entre ele e o Cristo, no célebre julgamento promovido por Pilatos. Historicamente, nada se sabe a seu respeito e mesmo se supõe que talvez nem tenha existido. Alguns historiadores o associam como um um integrante do partido judeu que lutava contra a dominação romana, nascido em Jopa, ao sul da Judeia. Entretanto, seja um personagem imaginário, simbólico, ou autêntico, o fato que Barrabás concebeu muitas interpretações ao longo do cinema.

Anthony Quinn, magistral e perfeito como BARRABÁS (1961)

O Cineasta Richard Fleischer
O romance de Par Largkevist já havia tido uma adaptação cinematográfica em 1953, na Suécia, sob direção de Alf Sjöberg, com Ulf Palmer no papel principal. Mas oito anos depois, o cineasta Richard Fleischer (1916-2006), juntamente com o produtor Dino De Laurentiis (1919-2010) realizaram basicamente a versão cinematográfica definitiva do livro, BARRABÁS (Barabbas), em 1961. Ainda haveria uma terceira versão, em 2012, desta vez para a televisão, dirigida por Roger Young e em formato de minissérie produzida na Itália, com Billy Zane no papel do condenado liberto no lugar de Jesus. Entretanto, esta adaptação é esquecível, não superando em hipótese alguma o trabalho realizado em 1961 por Fleischer e tendo o lendário Anthony Quinn (1915-2001) interpretando de modo soberbo e com muita propriedade e realismo um dos mais famigerados personagens bíblicos de que se tem notícia.  


Barrabás (Anthony Quinn) é libertado no lugar de Jesus...
E o vê carregando a cruz.
Quinn dá um show de interpretação como Barrabás, e seu desempenho ajuda intensamente na elaboração da história e de sua mensagem, onde o personagem expressa suas dúvidas diante dos mistérios da vida, dos ensinamentos de Jesus, e da morte. Um épico bíblico que acaba escapando do desleixo e das superficialidades muito costumeiras nas fitas do gênero. Quando foi lançada, a crítica estrangeira chegou a malhar “tão certo como a Judas”, acusando-o de sonolento e monótono.  No entanto, mesmo passados mais de cinquenta anos de seu lançamento, a obra estrelada por Quinn continua de pé, devido à seriedade com que foi realizado e, sobretudo, ao envolvimento reflexivo e aventuresco que leva o espectador.


Graças a um julgamento popular promovido pelo Procurador romano Pôncio Pilatos (Arthur Kennedy), Barrabás é libertado, e Jesus condenado. 


Adaptado por Christopher Fry (1907-2005), conforme o espírito do romance de Largkevist, o roteirista eleva Barrabás como um homem marcado pela figura de Cristo. O protagonista é submetido a um julgamento popular ao lado de Jesus. A plebe preferiu o desordeiro e criminoso sem escrúpulos para ser salvo da pena de morte na cruz, aliás, um dos grandes motivos a se suspeitar da ação popular, que tende sempre a julgar e condenar os justos e inocentes, e vangloriar os culpados e criminosos.  Aquele que lhes trazia mensagem de amor e fraternidade, e a certeza de uma vida sem sofrimentos, guerras, e infelicidades, é condenado.



Barrabás volta para casa, desejando atenção de sua mulher Rachel, vivida por Silvana Mangano.
Porém, foi justamente esse o estigma do criminoso que foi posto em liberdade no lugar de Jesus de Nazaré.  É exatamente o conflito interior de Barrabás que o diretor Richard Fleischer retrata em sua obra, já que o personagem começa a sofrer crise de consciência.  É inegável que o perfil psicológico de Barrabás traçado na fita possui um sentido muito peculiar, coisa muito rara neste estilo de filme. Por outro lado, o cineasta soube dosar (e muito bem) os elementos de competição e aventura que compõem o entrecho, que inexiste no romance original, o que facilitou a aceitação de grande parte dos espectadores (as cenas de combate entre gladiadores no Coliseu são das mais bem realizadas no cinema, capaz de atrair a atenção até hoje).



A impressionante cena da Crucificação, filmada em pleno eclipse solar.




Alguns críticos chegam a apontar, no entanto, que certas sequencias de ação desequilibram o ritmo, criando inclusive tempos monótonos que poderiam ser perfeitamente evitados, ao longo de 135 minutos de projeção.

Silvana Mangano é Rachel, a mulher de Barrabás...
que adere aos ensinamentos de Jesus Cristo...
e por conta disso, acaba perdendo a vida nas mãos do Poder do Sinédrio. 
A procura, a ânsia de Barrabás, que se demora em Jerusalém, quando após a crucificação de Jesus “nada mais tinha que fazer” e tudo lhe era indiferente, é bem característica. O protagonista passa por várias situações críticas. Acaba perdendo a mulher que amava, Rachel (Silvana Mangano, 1930-1989), que se converte ao cristianismo e acaba martirizada pelos sacerdotes  do Sinédrio. Como vingança, Barrabás organiza um grupo de ladrões para roubar o tesouro dos sacerdotes, mas acaba preso e enviado para as minas da Sardenha pelo Procurador Pôncio Pilatos (Arthur Kennedy, 1914-1990), o mesmo juiz que o havia libertado no lugar de Cristo pela vontade popular.


Barrabás nas minas da Sardenha.
Nas minas, Barrabás acaba conhecendo um cristão grego, Sahak (Vittorio Gassman), e acabam se tornando amigos.
Barrabás e Sahak, que sobrevivem aos serviços das minas para se tornarem escravos de um nobre romano.
Seja como escravo-mineiro, ou como gladiador em plena capital do Império Romano, em todas elas, a lembrança de Jesus Cristo (interpretado por Roy Mangano, irmão de Silvana Mangano) parece persegui-lo através de outros personagens, como o seu companheiro de infortúnio, o cristão grego Sahak (Vittorio Gassman, 1922-2000), que se torna seu melhor amigo e o ensina sobre os princípios da fé cristã - e um servo, Lucius (Ernest Borgnine, 1917-2012), em realidade, um pseudo líder cristão mais preocupado em julgar suas atitudes do que em ajuda-lo e instruí-lo na fé do Redentor.  Entretanto, Barrabás e Sahak são enviados ao Coliseu para serem gladiadores e lutarem por suas vidas.


Já como gladiadores na Capital do Império Romano, Barrabás e Sahak conhecem Lúcius (Ernest Borgnine), um líder cristão que serve como ajudante no Coliseu.
A crença de Sahak é descoberta, e logo será enviado para a morte pelas mãos de...
Torvald (Jack Palance), o campeão da arena, capitão dos gladiadores.
Após a morte de Sahak pelas mãos de Torvald (Jack Palance, 1919-2006), campeão dos gladiadores, Barrabás resolve vingar, mesmo sabendo que tal atitude seria contrária ao pensamento de seu finado amigo cristão.  Tendo matado Torvald na arena, Barrabás consegue sua liberdade depois de muitos anos, e sendo um homem livre, ele acaba assistindo o famoso incêndio de Roma, provocado pelo imperador Nero (Ivan Triesault, 1898-1980), e acaba interpretando isso como um prenúncio do advento de uma nova era, prometida pelo Cristo. Até no fim, ele se mantem atado a Jesus, posto que também morre no suplício da cruz. Mas se o Nazareno expira dizendo: "Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito!", Barrabás, que apesar de tudo não conseguiu converter-se a nenhum deus, encerra sua vida murmurando para a noite: "Escuridão, entrego-me à tua guarda! Eu...BARRABÁS!".


Sahak (Vittorio Gassman) e Lúcius (Ernest Borgnine) - dois cristãos a seguirem a mesma doutrina, mas com atitudes bem diferentes de amor e tolerância pelo próximo.
Sahak (Vittorio Gassman) pronto para liquidar seu oponente na arena. Mas mesmo ovacionado pelo clamor popular dos espectadores do Coliseu, ele se recusa a tirar a vida de seu semelhante, conforme suas convicções. 
Sahak, um dos primeiros mártires da Igreja
BARRABÁS vale ainda como testemunho de um homem que transformou sua vida a partir do momento que sua consciência se esclareceu. Seu gesto final tem evidentemente dois sentidos que se complementam. De um lado a opressão dos romanos, e de outro a divulgação de um mundo novo anunciado pelo Salvador.


Torvald (Jack Palance), prestes a receber as palmas da vingança...
pelas mãos de Barrabás, decidido vingar a morte de Sahak.


Derrotado por Barrabás, Torvald pede clemência do povo para que o deixem viver. O povo não atende a seus apelos, e Barrabás executa, por fim, sua vingança.
A tentativa de conversão de Barrabás não esta, portanto, desligada na nossa realidade. A aceitação das doutrinas de Jesus se faz as duras penas e na própria experiência de homem marginalizado e marcado pelo episódio que lhe fez um homem liberto pelo populacho. É justamente este enfoque que dá ao filme estrelado por Anthony Quinn uma categoria que raramente se encontra em outros filmes épicos religiosos. Aliás, o astro principal soube como ninguém entender com perfeição a figura que seu personagem foi idealizado na imaginação de Richard Fleischer. Todos os demais intérpretes se sobressaem bem em suas partes, como a mexicana Katy Jurado (1924-2002), como Sara, a prostituta amante de Barrabás, e o inglês Harry Andrews (1911-1989), como São Pedro. Um épico com um elenco internacional para nenhum cinéfilo botar defeito. Entre os espectadores do anfiteatro, encontra-se a novata Sharon Tate (1943-1969), em figuração.  O espetáculo teve locações em Roma, Lazio, e Itália, e também nos famosos estúdios de Cinecittà.


O cenário do Coliseu (na verdade, o circo de Nero) segundo o filme BARRABÁS (1961), de Richard Fleischer - entre animais e gladiadores lutando por suas vidas.
O filme ainda conta com a participação de Katy Jurado, como Sara, uma amante de Barrabás.
Harry Andrews é Pedro, o líder dos apóstolos.
A trilha sonora de Mario Nascimbene (1913 - 2002) foi notada pela sua originalidade à frente de seu tempo, com o uso de sons eletrônicos provenientes da gravação de notas em velocidades diferentes nas fitas de áudio. Um dos efeitos especiais mais interessantes acontece na cena de crucificação de Cristo, filmada durante um verdadeiro eclipse solar. A primorosa fotografia de Aldo Tonti (1910-1988) é um dos grandes destaques da superprodução. 


Barrabás consegue resgatar o corpo de seu amigo Sahak, para lhe dar sepultura nas catacumbas.
A liberdade de Barrabás não durará muito...
acusado de incendiar Roma com outros cristãos, Barrabás sofre pela fé...sem ter fé.
O evangelho do amor não tinha nenhum significado para este ladrão e assassino liberto, pois apesar de suas dúvidas, considerava ignóbil, servil, e fabulosa a fé dos seguidores de Cristo. Não obstante, se sente perseguido pela lembrança da Cruz e daquele que morreu em seu lugar nela. O filme Barrabás é um extraordinário estudo de crença, ceticismo, e fé, centralizado num personagem de interesse universal – o criminoso que assistiu ao nascimento do Cristianismo, e sem saber, deu testemunho do poder do Cristo sobre o seu próprio espírito rebelde. Barrabás estreou nos cinemas cariocas em agosto de 1963, sendo reprisada nas mesmas salas em outubro de 1969. Pela TV brasileira, estreou em 23 de setembro de 1973, pela sessão "Domingo Maior", pela Rede Globo.



Divulgação do filme nos cinemas do Rio de Janeiro.
Programação de estreia do filme pela televisão, em 1973.




Ficha técnica
BARRABÁS

(BARABBAS)

ANO DE PRODUÇÃO: 1961

PAÍS: ITÁLIA

gênero: épico religioso/aventura

DIREÇÃO: RICHARD FLEISCHER

PRODUÇÃO: DINO DE LAURENTIIS, para a COLUMBIA PICTURES

ROTEIRO: CHRISTOPHER FRY, baseado no romance de PAR LARGKEVIST

FOTOGRAFIA: ALDO TONTI, EM CORES

MÚSICA: MARIO NASCIMBENE

METRAGEM: 135 MINUTOS


ELENCO

ANTHONY QUINN – BARRABÁS

SILVANA MANGANO – RACHEL

Arthur kennedy – pôncio Pilatos

Katy jurado – sara

Harry Andrews – Pedro, o apóstolo

Vittorio gassman – sahak

Valentina cortese – julia

Morgan wooland – rufio

Jack palance – torvald

Ernest borgnine – Lucius

Arnold foá – josé de arimatéia

Michael gwynn – lázaro

Douglas fowley – vasasio

Joe Robinson – gladiador

Salvatore borghese – gladiador

Roger Browne – gladiador

Sharon tate – patrícia romana na PLATEIA

Paola pitagora – maria Madalena

Piero pastore – nicodemus

Burt nelson – escravo nas minas

Vanoye aikens – escravo nas minas

Harold bradley – gladiador

Alfio Caltabiano – treinados dos gladiadores

Roy mangano – jesus cristo


PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES 

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