sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Maior Espetáculo da Terra (1952): A Arte Cinematográfica e o Espetáculo de Cecil B. DeMille.


O nome de Cecil B. DeMille (1881-1959) ficou para sempre associado às superproduções da Sétima Arte, sendo sinônimo de suntuosidade quando se trata de grandes espetáculos. Entretanto, até 1952, quando dirigiu e produziu O Maior Espetáculo da Terra (The Great Show On Earth), este foi o filme que mais lhe rendeu honras, tanto por parte da crítica quanto da opinião pública. De forma grandiosa e impressionante, foi até aquele momento o maior êxito comercial do veterano cineasta em toda sua longa carreira, arrecadando só no mercado norte-americano 14 milhões de dólares, conquistando o Oscar de melhor filme e argumento de 1952, e ainda o Prêmio Irving Thalberg para DeMille. 


O Lendário Diretor Cecil B. DeMille 
O diretor iniciando o preparo das filmagens
Foi o penúltimo título da filmografia deste grande diretor, iniciada na fase ainda silenciosa do cinema, em 1913, e terminada em 1956, quando dirigiu outro grande espetáculo, Os Dez Mandamentos. Mas para poder realizar a proeza de dirigir tamanha obra a altura do seu título original, a Paramount pagou aos empresários John Ringling North (1903-1985) e Henry Ringling North (1909-1993), os donos do famoso Ringling Brothers & Barnum & Bailey, considerado então o mais famoso circo do mundo, a quantia de 250 mil dólares pelo uso da marca e pela cessão de artistas.


DeMille em seu escritório, entre projetos e
roteiros.

DeMille e alguns artistas do Ringling Brothers
e Barnum & Bailey.
Cecil e sua estrela Betty Hutton.
O filme pode ser espalhafatoso, como a maioria dos épicos de DeMille, mas aqui tudo funciona. Mas o que é o circo a não ser uma combinação de luzes, fantasias, e cores? Naturalmente, alguns críticos não foram tão clementes para com o cineasta. Segundo a revista Time Magazine, DeMille reforça sua reivindicação para outra distinção: "A Grande amostra da Terra provavelmente será vender mais pipocas do que qualquer filme feito". Outros críticos acharam que o filme era banal e com uma estúpida história de amor. O New York Times respondeu a favor do veterano diretor: "A história romântica é reflexo do romance diário da realidade do circo".


Charlton Heston e Cecil B. DeMille.
Brad (Heston), Holly (Betty Hutton) e Sebastian (Cornel Wilde):
Um provável triangulo amoroso.

Charlton Heston e um dos empresários
do Ringling Brothers, John Ringling North.
O filme poderia se sair melhor sem o apelo romântico do diretor para com os personagens de Charlton Heston e Betty Hutton, e o tendencioso triângulo amoroso entre os dois com Cornel Wilde, e isto sendo opinião de outros críticos, que acham que o circo não passa de uma meretriz um tanto conveniente para os personagens. DeMille não concordou com essa visão, mas tinha razão numa coisa: transformar sua fita numa novela de dimensões teatrais era tarefa para atrair o público para os cinemas, e foi isso que aconteceu, quando O Maior Espetáculo da Terra bateu recorde nas bilheterias.

Ramon Gomez de La Serna, o "primeiro"
Crítico de Circo.
James Stewart como o carismático
palhaço Buttons

Com toda a certeza, quem poderia nos falar da poesia do circo (sim, o circo não é só um espetáculo de entretenimento, mas como o cinema, também é uma arte) seria Ramon Gomez de La Serna (1888-1963), famoso escritor espanhol, inventor das famosas greguerias, uma espécie de varieté do humor, e que foi também o “primeiro” cronista de circo (e de certo, o único). Quando assistimos a O Maior Espetáculo da Terra, se reflete que só mesmo o espanhol La Serna poderia fazer uma crônica do jeito que o filme mereceria, afinal, toda a atmosfera do circo impregna inteiramente na fita, nos transbordando para o mundo maravilhoso e fascinante do circo, nos impedindo ao mesmo tempo de falar sobre ele com nossa prosa cotidiana, e muitas vezes, banal. 

Brad Braden (Charton Heston) e o
palhaço Buttons (James Stewart).
Além do Oscar conquistado por melhor filme de 1952, Cecil B. DeMille recebe das mãos do ator Henry Wilcoxon (que com o diretor também produziu o filme) o prêmio Irving Thalberg.
Uma obra prima de proporções à altura de seu diretor, vista por todos os ângulos em que se queira apreciar a este celuloide de sucesso, vindo de um cineasta experiente, o Mestre do Espetacular.  Com O Maior Espetáculo da Terra, o bom e velho DeMille chegou ao apogeu de sua carreira e de sua arte. Pode ser verdade que o venerando cineasta tenha sempre preferido o cinema mais como diversão do que propriamente arte, ou melhor dizendo, que tenha condicionado sempre ao longo de sua prolífica carreira a arte cinematográfica ao primado do divertimento.  


Jimmy Stewart (o palhaço Buttons) e o
palhaço mais aplaudido da América,
Emmett Kelly.
Na Plateia, Bob Hope e Bing Crosby.
Dorothy Lamour e Gloria Grahame,
"artistas" do Ringling Brothers.
Cecil pode ter cometido erros (e quem não os comete?), ter se enganado duas, dez vezes, através de sua copiosa obra de cinema. Contudo, tudo isto é perdoado e deixado de lado quando um diretor de idade provecta e que poderia estar aposentado (e que levaria sua função quase até as ultimas consequências, quando em 1956, ao dirigir Os Dez Mandamentos, DeMille, aos 77 anos, sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens no Monte Sinai, mas se recuperou e voltou à ativa) consegue realizar uma película como O Maior Espetáculo da Terra, onde a técnica, a arte, e os valores humanos se combinam na mais perfeita química. 


A atriz Helen Hayes visitou o set
durante as filmagens.
Betty Hutton e Gloria Grahame,
que disputam o afeto do patrão Brad.
Gloria Grahame é Angel, uma
domadora de elefantes.
Isso sem perder de vista o espetacular, nem o sentido de evasão do cotidiano que o cineasta imprime em todos os seus filmes, certo de que a multidão ingresse nas salas de cinema para fugir a realidade do ambiente, sem esquecer o toque poético no lirismo que transborda no próprio assunto: o circo – esta, por si mesma, a poesia do encanto e do mistério, e acima de todos os valores, nota-se a atmosfera, através de seus artistas humanos e sublimemente poéticos. A partir daí, o diretor nos transporta ao ambiente e passamos a viver em pleno circo.  É através desse clima que todo espectador ao assistir a este penúltimo trabalho de Cecil B. DeMille se torna também participante da obra, tal como os espectadores dos atos a que vamos assistindo ao longo da fita (que tem 152 minutos de projeção) e que é a anteface do outro espetáculo, aquele que não se desenrola no picadeiro, mas na existência dos artistas do circo, dos palhaços, dos trapezistas, da moça do elefante, do domador de leões, enfim. 



A atlética Betty Hutton treinou muito
no trapézio para viver Holly
Se DeMille conseguiu o máximo da manipulação de seus efeitos, um dinamismo plástico extraordinário, que segue num ritmo ágil e vibrante, e que por toda a fita, em perfeita harmonia, conduz como ninguém suas grandes manobras com multidões (sim, DeMille era craque em dirigir cenas de multidão), por outro lado seu sentimento épico, tanto linear e profundo tirou de seu elenco all-star um rendimento efetivo dos mais convincentes.


Brad Braden (Charlton Heston) e sua
namorada, a trapezista Holly (Betty Hutton)
Holly implora ao namorado e patrão Brad para ser a estrela do picadeiro central. Mas para segurança e investimento do espetáculo, Brad contrata o "Grande Sebastian" (Cornel Wilde).
A domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame) tem uma queda pelo patrão Brad (Charlton Heston).
A trama da obra se concentra num dos maiores circos do mundo, o Ringling Brothers –Barnum & Bailey. Seu gerente é o jovem Brad Braden (Charlton Heston), que anda cheio de problemas. O negócio anda fraco, e para piorar, um empresário inescrupuloso e meio gangster, Mr.Henderson (Lawrence Tierney, 1919-2002) quer comprar o circo abaixo do preço. A namorada de Brad, a trapezista Holly (Betty Hutton, 1921-2007), entende que a preocupação dele é fazer o espetáculo continuar e se consagrar exclusivamente para o trabalho. Entretanto, quando Brad resolve contratar outro trapezista, o astro francês “O Grande Sebastian” (Cornel Wilde, 1915-1989) para substituir Holly no picadeiro central, esta não aceita. 


O ousado e arrogante trapezista Sebastian...
Que sofre uma queda quase fatal, que o deixa com o braço paralisado, acudido por Brad e Buttons.
Angel e o domador Klaus, que tem pela
artista uma paixão não correspondida.
Arrogante e ousado, Sebastian acaba sofrendo uma dramática queda, e Holly fica a balançar o coração por ele e Brad. Toda essa atuação é explorada pela domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame, 1924-1981, em papel destinado a Lucille Ball, que desistiu porque engravidou), que também cobiça Brad. Isso vem a provocar ciúmes no treinador Klaus (Lyle Bettger, 1915-2003).  Este acaba sendo demitido por Brad. Outra trama paralela envolve o palhaço Buttons (James Stewart, 1908-1997), na realidade, um médico que nunca tira sua maquiagem, pois é procurado por um agente do FBI (Henry Wilcoxon, 1905-1984) pelo crime de eutanásia (matou a própria mulher que sofria de uma doença incurável).  


Holly se sente atraída por Sebastian,
mesmo amando Brad.
O terrível desastre de trem onde viajavam
todos os artistas do circo.

Entre os feridos, Brad se encontra em estado
mais grave, e precisará de uma transfusão
de sangue.
Ambas as tramas paralelas tem um fim em comum: um espetacular desastre de trem, justamente o trem que conduz o circo, desastre este provocado pelo ex-adestrador de elefantes Klaus, que tem morte trágica. Este acidente vem a provocar a descoberta da verdadeira identidade do palhaço Buttons, quando se percebe que ele é o único médico para atender os feridos, entre os quais se encontra Brad. 


Sabendo do passado de Buttons, um outrora
médico que matou a esposa por eutanásia e
que esta sendo procurado pelo FBI, Holly
implora ao amigo que salve a vida de Brad.
Na metade da década de 1960, James Stewart voltou a se maquiar como Buttons, em um evento beneficente. Notem atrás do ator o poster do filme A História de Dr. Wassell, filme dirigido por Cecil B.DeMille.

Esta obra de Cecil B.DeMille apresentou um dos grandes desastres de trem em toda a história das telas, somente equiparado à outra superprodução,
A Conquista do Oeste (How The West Was Won), em 1962. Embora o Western dirigido por John Ford, Henry Hathaway, e George Marshall, usou trens reais para as cenas de ação, O Maior Espetáculo da Terra usou de modelos de miniaturas pertencentes ao diretor, hoje um tanto ineficaz, mas para a época foi de impressionar. Como em todos os filmes do diretor, não é a história que conta e sim o espetáculo, e o cineasta conseguiu construir um em 2 horas e 32 minutos de duração, bem ao gosto da típica família americana dos anos de 1950 (o espectador de hoje deve assistir como se transportasse para este tempo. Muitos padrões de moralidade e conduta vieram a desabar, e o público era outro).
O Famoso palhaço norte-americano Emmett Kelly.
Os palhaços Buttons e Emmett.
Buttons fazendo a alegria da criançada.
Foi o último filme que DeMille fez em três tiras de Technicolor. No entanto, em termos de realidade cinematográfica, é uma impressionante nota de rodapé. Uma câmera dirigível de DeMille era do tamanho de uma mesa. O “garoto” Charlton Heston, como era carinhosamente chamado pelo diretor, lembrou o que certa vez DeMille lhe disse: "Você estará realmente empreendendo algo se você fizer um take de rastreamento com um daqueles bebês (as câmeras)".A película é recheada de grandes astros e com artistas de circo de verdade, como o maior palhaço americano Emmett Kelly (1898-1979), e entre os espectadores do circo estão Bing Crosby (1904-1977) e Bob Hope (1903-2003), e no picadeiro, o cowboy Hopalong Cassidy, vivido por William Boyd (1895-1972), amigo pessoal de DeMille.  Enfim, todo o filme é perfeito, graças à direção e a atuação dos atores, principalmente Jimmy Stewart, que como o dramático palhaço faz lembrar uma pintura viva de aquarela, que aparece sempre como uma pincelada de vermelho. 


DeMille e William Boyd, o famoso Hopalong
Cassidy, que aceitou o convite para uma
pequena participação.
O filme em divulgação nas grandes salas
do Rio de Janeiro, na metade dos anos de
1950.


E certamente, DeMille nos legou uma grande obra, um filme sensacional que veio a marcar não somente sua carreira, mas que com o Oscar conquistado por melhor filme, marcou no cineasta uma vitória extraordinária em sua vida. O Maior Espetáculo da Terra pode assim ser definido como arte cinematográfica e como espetáculo. Música de Victor Young (1900-1956). 
FICHA TÉCNICA

O MAIOR ESPETACULO DA TERRA

(THE GREATEST SHOW ON THE EARTH)

Ano de Produção: 1952

País: Estados Unidos

Direção: Cecil B. DeMille

Produção: Cecil B. DeMille e Henry Wilcoxon, para a Paramount.

Argumento: Fredric M. Frank, Theodore St. John, Frank Cavett.

Roteiro: Fredric M. Frank, Barré Lyndon, Theodore St. John.

Fotografia: George Barnes – em Cores

Montagem: Anne Bauchens

Direção de Arte: Hal Pereira e Walter H. Tyler

Figurinos: Edith Head, Dorothy Jeakins, e Miles White

Música: Victor Young

Metragem: 152 minutos

ELENCO

Betty Hutton – Holly

Cornel Wilde – O Grande Sebastian

Charlton Heston – Brad Braden

James Stewart – Palhaço Buttons

Dorothy Lamour – Phyllis

Gloria Grahame – Angel

Henry Wilcoxon – Agente Gregory, FBI

Lyle Bettger – Klaus

Lawrence Tierney – Mr. Henderson

Emmett Kelly – ele mesmo.

John Kellogg – Harry

Frank Wilcox – Médico da trupe

Lillian Albertson – Mãe de Buttons

Julia Faye – Birdie

PARTICIPACOES ESPECIAIS

Bing Crosby, Bob Hope, William Boyd (Hopalong Cassidy), e CECIL B.DeMILLE como narrador.

PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES

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