sábado, 11 de fevereiro de 2017

A Um Passo da Eternidade (1953): Consciência e Integridade na Obra Ousada de Fred Zinnemann



No final de 1952, o cineasta Fred Zinnemann (1907-1997) estava enfrentando problemas com o fracasso de seu último filme, Cruel Desengano (The Member of The Wedding ), sob produção de Stanley Kramer. Zinnemann, apesar da falta de êxito quanto a este trabalho, ainda angariava os louros por Matar ou Morrer (High Noon), realizado também em 1952, entretanto, o insucesso por Cruel Desengano quase impediu o diretor de realizar uma de suas obras mais geniais, que se tonou uma das marcas registradas em toda sua filmografia: A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity), produzido em 1953. Entretanto, adaptar para as telas o volumoso Best-Seller de James Jones (1921-1977), publicado em 1951, não foi tarefa fácil. O livro From Here to Eternity tem uma linguagem pesada (cercada de palavrões) e situações fortes, mas isso não desmotivou o chefão da Colúmbia Pictures, o famoso Harry Cohn (1891-1958) de levar a frente o projeto, mesmo sendo considerado um homem polido dentro da esfera cinematográfica.


O Chefão da Columbia Harry Cohn.
O Cineasta Fred Zinnemann
O Astro Montgomery Clift


Cohn detestou Cruel Desengano e relutou muito para atender o apelo do roteirista Daniel Taradash (1913-2003) pela convocação de Zinnemann. E não demorou muito logo começaram as discussões pela escolha de elenco. Zinnemann insistiu muito para que seu ator preferido, Montgomery Clift (1920-1966), ganhasse o papel do atormentado soldado Prewitt, que Cohn pretendia entregar para Aldo Ray. E o diretor conseguiu. Monty havia atuado no ano anterior para um filme de Alfred Hitchcock, A Tortura da Suspeita (I Confess), onde interpretou um papel semelhante, e durante quase toda sua carreira haveria de interpretar o mesmo tipo: o do homem que luta pela sua integridade e consciência. Entretanto, Zinnemann não conseguiu que Julie Harris interpretasse a prostituta Lorene, por quem Prewitt é apaixonado, e Cohn optou por Donna Reed (1921-1986). 

Donna Reed e Montgomery Clift
Deborah Kerr é Karen Holmes.


Karen (Deborah Kerr) e Warden (Burt Lancaster)
Joan Crawford seria Karen Holmes, mas desentendimentos com seu guarda roupas (devido aos ombros largos, Joan sempre teve problemas com os figurinos) a afastaram da produção. Nisso entra o agente de Deborah Kerr (1921-2007), que ofereceu a atriz para viver a personagem, aceitos por insistência de Zinnemann, Taradash, e do produtor encarregado Buddy Adler (1909-1960). Mais uma vez, Cohn bateu de frente com os três, pois acreditava que uma atriz com perfil aristocrático inglês como Deborah Kerr não daria conta para um papel que exigia sensualidade e um toque de erotismo. Robert Mitchum e Edmond O’ Brien eram os reservas do favorito Burt Lancaster (1913-1994). Lancaster só conseguiu o papel do humanitário sargento Warden porque como ator contratado da Paramount, um dos chefões deste estúdio, Hal Wallis, permitiu que o ator aderisse à produção dirigida por Zinnemann.

O Sargento Milton Warden (Lancaster) e
o soldado Robert Lee Prewitt (Monty)
Montgomery Clift, Burt Lancaster, Frank Sinatra


Frank Sinatra no papel do desafortunado
soldado Maggio.
Mas certamente um dos fatos mais comentados sobre a produção de A Um Passo da Eternidade foi à integração de Frank Sinatra (1915-1998) no elenco, e cuja carreira estava em declínio. O cantor/ator estava numa verdadeira fase de ostracismo em sua carreira, e antevia antecipadamente uma possibilidade de reabilitação. Mas para isso, Sinatra teve que se submeter a um teste para o papel do soldado ítalo-americano Angelo Maggio, o melhor amigo de Prewitt. Na verdade, o papel já estava destinado a Eli Wallach, mas este ficou impossibilitado devido a um compromisso com a Broadway. De jeito nenhum Cohn queria Sinatra, mas Wallach estava obrigado a atuar na peça El Camino Real, de Tennesse Williams. Por um salário bem inferior ao que costumava receber, Sinatra, enfim, incorporou o infortunado Maggio e de quebra ainda arrebataria um Oscar como melhor ator coadjuvante pelo papel.

James Jones, o autor do romance A UM PASSO DA ETERNIDADE,
publicado em 1951.

Daniel Taradash, o roteirista que adaptou
o livro para o cinema.
Apesar do teor antimilitarista do relato (suavizado no preciso script de Taradash), A Um Passo da Eternidade contou com a colaboração das Forças Armadas, que acabaram franqueando suas instalações no Havai para as locações. Fred Zinnemann tempos depois recordou:

- Isto se deveu aos esforços de Buddy Adler, que havia sido oficial. Eles apenas fixaram duas condições: Uma, que não mostrássemos o ambiente de prisão onde Frank Sinatra é aprisionado. A outra, que o capitão culpado pelo abuso de autoridade, no livro de James Jones promovido a Major, que no filme fosse forçado a abandonar o Exército. Achei necessário aceitar estas condições, que as achei razoáveis. Chamem de concessão se quiserem, mas se eu não as aceitasse seria obrigado a usar um monte de civis no lugar dos soldados, e todo sentido do filme seria jogado pela janela. 

O Beijo Clássico entre Karen e Warden
Os preparativos para a cena, gastos
ao longo de um dia inteiro de filmagem.


A obra foi filmada durante 41 dias, sendo que um deles foi dedicado inteiramente a ardente cena do beijo (clássico) de Kerr e Lancaster na praia. A Um Passo da Eternidade é uma das fitas mais coerentes com o pensamento do seu diretor. Junto com o roteirista Taradash, teve que suar para mandar para as telas uma história que fosse aceitável para os padrões americanos da época. Se no livro de James Jones tem soldados irreverentes, sexo e violência bem acentuados, esses ingredientes na obra cinematográfica teriam que ser atenuados, muito embora a sequência de amor entre Burt Lancaster e Deborah Kerr na praia seja de tirar o fôlego até os dias de hoje. 

Sensualidade e erotismo, ousado para a época.
Em marcha, os soldados Prewitt e Maggio.
O soldado Prewitt não cede as pressões
de oficiais para que ele participe do
campeonato de Boxe.


O filme tem o seguinte enredo: Numa base americana em Pearl Harbor, pouco antes do ataque japonês (ocorrido em 7 dezembro de 1941), ocorre os dramas pessoais vividos por esses personagens: O soldado Robert Lee Prewitt (Montgomery Clift), recém transferido, não cede as pressões do capitão Dana Holmes (Philip Ober, 1902-1982) para que o soldado integre a equipe de Boxe do quartel para o campeonato anual. Prewiit , um exímio boxeador, prometeu não mais lutar após deixar cego um oponente, mas logo é hostilizado pelo capitão Holmes e os demais oficiais e soldados. Contudo, o soldado não cede as pressões dos companheiros, mantendo sua consciência e integridade para seguir em diante, lutando contra tudo e contra todos sem se importar com o bullyng

Prewitt encontra no Sargento Warden a
solidariedade e o apoio que precisa.
Ernest Borgnine interpreta o sádico
Sargento "Fatson" Judson.

"Fatso" Judson e Angelo Maggio, inimigos
mortais.
A esposa do Capitão Holmes, a promíscua Karen (Deborah Kerr), tem um caso tórrido com o Sargento Milton Warden (Burt Lancaster), subordinado do marido. Warden, sendo um soldado de linha dura, tem características humanitárias. Solidariza-se com o soldado Prewitt quando este é vitimado pela hostilidade de seus colegas de farda e ainda intervém quando um sargento truculento de outro pelotão, o sádico “Fatso” (Gordo) Judson (Ernest Borgnine, 1917-2012), tenta agredir o soldado Angelo Maggio (Frank Sinatra), um ítalo-americano que integra o pelotão de Warden e melhor amigo de Prewitt.  Não demora e Maggio se mete em confusões, acaba preso, e na cadeia é morto pelo Sargento Judson.

Karen (Deborah Kerr) e Warden (Burt
Lancaster): Um amor proibido.
Robert Prewitt (Montgomery Clift) e Alma
(Donna Reed): Um amor fora das convenções
de sua época.


Prewitt (Clift) acode Maggio (Frank Sinatra),
prestes a morrer vítima da brutalidade de
Judson.
Lorene (Donna Reed) é uma prostituta que trabalha num estabelecimento de diversão para homens, mas seu verdadeiro nome é Alma. Uma mulher do interior com sonhos e ambições que sonha em ser dama da sociedade. Apesar da profissão, ela se apaixona por Prewitt ao seu modo. Ele a pede em casamento, mas ela não aceita, embora os dois venham a morar juntos numa casa próximos a Pearl Harbor. William Bayer, um crítico americano autor do livro The Great Movies, publicado em 1973, classificou  A Um Passo da Eternidade como um dos 60 (sessenta) melhores filmes de todos os tempos, assim ele descreve:

- A Obra de Zinnemann provoca impacto por seu apelo antimilitar e densidade humana de seus personagens centrais, sendo uma das raras obras do cinema cujos heróis parecem existir mesmo na vida real e não apenas nos limites da tela de projeção. 

Prewitt (Monty) encontra Judson (Borgnine)
para um definitivo acerto de contas pela
morte de Maggio.
7 de Dezembro de 1941, os japoneses atacam
Pearl Harbor, e o Sargento Warden (Lancaster)
e seu pelotão entram em ação para defender
a base militar.


Zinnemann sem dúvida pelejou para que seu filme saísse como ele queria, comendo o pão que o diabo amassou como o personagem Prewitt para fazer valer suas ideias em Hollywood. As desavenças entre ele e o chefão Harry Cohn se estenderam do Havaí, aos sets de filmagem, até a sala de montagem. O chefão estipulou a metragem em duas horas, obrigando o cineasta a eliminar cenas importantes, e chegou a reeditar uma cena sem o conhecimento do diretor. Em compactos 118 minutos, as situações paralelas, desnudadas com toda maestria pela câmera de Zinnemann, foram devidamente defendidas por elenco de primeira grandeza, exercendo instantâneo fascínio sobre as plateias. Só no mercado norte-americano, o filme faturou nas bilheterias 2,5 milhões de dólares, a maior renda da Columbia até o então momento.

Prewitt também era corneteiro.
George Reeves, o Super-Homem da TV nos
anos de 1950, como o Sargento Stark, ao
lado de Frank Sinatra.


E ainda de quebra, sem contar todo o faturamento nas bilheterias, From Here to Eternity foi bombardeado de prêmios. Fred Zinnemann ganhou seu primeiro Oscar (um dos oito dados ao filme), e conquistou ainda os lauréis da Crítica de Nova Iorque e do Directors Guild of America.


 OS OSCARS
A UM PASSO DA ETERNIDADE ganhou oito
Oscars. Frank Sinatra e Donna Reed foram premiados como os melhores atores coadjuvantes do ano.

O Diretor Fred Zinnemann, o produtor Buddy Adler, e o roteirista Daniel Taradash, também
foram premiados, juntamente com Donna Reed
Uma pausa para descontração das filmagens,
onde vemos Zinnemann em agradável conversa com Reed, Monty, e Sinatra.
A Um Passo da Eternidade foi a grande barbada do Oscar de 1953. Na noite de 25 de março de 1954, a obra de Zinnemann levou nada menos do que 8 (oito) Oscars. Melhor Filme de 1953 (sobrepujou os outros filmes indicados para categoria do ano, que foram Julio César/Julius Caesar, de Joseph L. Mankiewicz;  O Manto Sagrado/The Robe, de Henry Koster; A Princesa e o Plebeu/Roman Holliday, de William Wyler; e Os Brutos Também Amam/Shane, de George Stevens.), Melhor Diretor (Fred Zinnemann), Melhor Ator Coadjuvante (Frank Sinatra, que com o Oscar conquistado reabilitou consideravelmente sua carreira), Melhor Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Melhor Fotografia em Preto & Branco (Burnett Guffey, 1905-1983), Melhor Trilha Sonora (George Duning, 1908-2000), Melhor Montagem (William A. Lyon, 1903-1974), e Melhor Roteiro Adaptado (Daniel Taradash, 1913-2003). Em 1979, houve um remake da obra literária de James Jones para a televisão, em forma de minissérie exibida em três partes sob direção de Buzz Kulik, onde estrelaram Natalie Wood, William Devane, Steve Railsback, Joe Pantoliano, Kim Basinger, e Peter Boyle, nos papéis respectivamente vividos por Deborah Kerr, Burt Lancaster, Montgomery Clift, Frank Sinatra, Donna Reed, e Ernest Borgnine no clássico absoluto de 1953. A Um Passo da Eternidade, segundo fontes do site IMDB, estreou no Brasil a 19 de outubro de 1953. 


Marlon Brando visitou os amigos Montgomery Clift e Fred Zinnemann durante as filmagens.
Fred Zinnemann orienta Ernest Borgnine para
uma das cenas.

FICHA TÉCNICA
A UM PASSO DA ETERNIDADE
(FROM HERE TO ETERNITY)

País: Estados Unidos
Ano de Produção: 1953.
Direção: Fred Zinnemann
Produção: Buddy Adler, para a Columbia Pictures
Roteiro: Daniel Taradash, com base no livro de James Jones.
Fotografia: Burnett Guffey – Em Preto & Branco.
Música: George Duning
Metragem: 118 minutos.



ELENCO
Burt Lancaster – Sargento Milton Warden
Montgomery Clift – Soldado Robert Lee Prewitt
Deborah Kerr – Karen Holmes
Donna Reed – Alma, vulga Lorene.
Frank Sinatra – Soldado Angelo Maggio
Philip Ober – Capitão Dana Holmes
Mickey Shaughnessy – Sargento Leva
Harry Bellaver – Soldado Mazzioli
Ernest Borgnine – Sargento “Fatso Gordo” Judson
Jack Warden – Cabo Buckley
John Dennis – Sargento Ike Galovitch
Claude Akins – Sargento “Baldy” Dhom
George Reeves – Sargento Maylon Stark
Robert  J. Wilke - Sargento Henderson
Kristine Miller – Georgete

Produção e Pesquisa de
PAULO TELLES

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