domingo, 27 de agosto de 2017

Sargento York (1941): Obra Bélica com Misto de Canto Pastoral, com Gary Cooper Arrebatando seu Primeiro Oscar, Sob Direção de Howard Hawks.



1941 foi o ano do ataque japonês à Pearl Harbor, o que motivou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra no ano seguinte. Entretanto, 1941 foi também o ano do lançamento de SARGENTO YORK (Sergeant York, 1941), dirigido e produzido pelo lendário Howard Hawks (1896-1977). A história real de Alvin C. York (1887-1964), fazendeiro do Tennessee, homem pacato, pacifista e religioso, que acaba se conscientizando da importância da guerra, tornando-se herói da I Guerra Mundial (1914-1918)e o soldado americano mais condecorado do conflito, matando 25 soldados alemães e capturando sozinho outros 132 inimigos. York compreende que, para conquistar a paz e a liberdade, às vezes pode ser preciso lutar com armas nas mãos.

O Verdadeiro Sargento Alvin C. York
(1887-1964)
York era um herói democrático, e a obra de Hawks fez questão de frisar que não há nenhuma noção aristocrática e nem hierarquia implicada em seu conceito de democracia. Alvin York, a quem o povo americano rendeu entusiásticas homenagens, era um homem simples e bastante comum, um camponês rústico e laborioso, com noção rígida do dever, que dava a sua honestidade estrutural uma feição muito marcada de puritanismo.  Em seu retumbante heroísmo no front, York não agiu levado por desejo de fama ou egocentrismo, e mesmo com o fim do conflito, seus ideais religiosos e ideológicos permaneceram os mesmos, onde deixou até mesmo  de aceitar pompas maiores, regressando a vida que sempre desejou: seus trabalhos rurais nos campos do Tennessee. 

O Cineasta Howard Hawks
Justamente por essa defesa do conceito democrático do herói e pela sua justificação ideológica da guerra, é que Sargento York age também como um filme de propaganda. A circunstância, no entanto, não lhe prejudica o mérito artístico e técnico. Trata-se de uma obra prima vista pela ótica de seu realizador, ou então, pela primorosa atuação do elenco. Howard Hawks realizou um filme autoral, principalmente pelo ritmo que nunca é acelerado e se mantém num compasso mais ou menos retardado, para se ajustar aos efeitos psicológicos do personagem, lento nas suas reações. 

Gary Cooper viveu o SARGENTO YORK (1941) no cinema
Há cenas magníficas na fita de Hawks, merecendo destaque como as mais belas e bem realizadas no cinema, através do ângulo da emoção, como as que seguem com a conversão de York, que nem sempre fora um homem pacífico e religioso. No começo, Alvin era um arruaceiro e bêbado, que arranjava confusões nos campos do Tennessee, para desgosto da mãe, uma mulher religiosa. A rebeldia e a fúria de York só são aplacadas quando, em certa noite chuvosa, um raio atinge seu rifle, sem que Alvin e seu burro em que estava montado fossem feridos. Ao ver o estado do rifle destruído, York interpretou isto como um sinal divino. Imediatamente, se dirige a um culto, onde é recebido e abençoado pelo pastor local. É daí, como em muitas outras sequencias que dão brilhantismo ao filme, é que a obra de Hawks se impõe com admirável coerência, onde as cenas são articuladas com muita habilidade pelo diretor.

Alvin York (Gary Cooper), bom com um rifle
bem antes de ingressar na guerra
Há sequencias que já parecem pré-anunciar outras passagens do filme. A cena inicial com o sermão baseado na parábola da ovelha perdida do Evangelho de Lucas - Capítulo 15 e versículos de 1 ao 7- prepara a cena de conversão do personagem principal. O concurso de tiro, onde Alvin abate um peru, já antecipa o que ele fará com os alemães no front. Destarte, SARGENTO YORK mostra uma feliz harmonia de conjunto, onde se tem uma aventura bélica adicionada a um canto pastoral com importante mensagem de fé, esperança, patriotismo, coragem, e otimismo – valores importantes para os americanos no então momento, que atravessavam os horrores da II Guerra Mundial.

O Fotógrafo Sol Polito
O Compositor Max Steiner
SARGENTO YORK foi levado às telas sob uma equipe técnica para ninguém botar defeito. Além da direção perfeita de Hawks, o cineasta John Huston (1906-1987) colaborou com o script (outros roteiristas foram Howard Koch, Harry Chandlee, e Abem Finkel), que teve como base dois livros sobre York e no diário de guerra do próprio biografado. Max Steiner (1888-1971) contribuiu com a trilha sonora, e Sol Polito (1892-1960) com a magistral fotografia em preto & branco, denegrido anos depois quando resolveram colorizar o filme por computador na década de 1980.

A Família de York: a mãe (Margaret Wycherly) e os irmãos George (Dickie Moore) e Rosie (June Lockhart).
A trama
Em 1916, no Tennessee, Alvin York (Gary Cooper) vive com sua mãe (Margaret Wycherly, 1881–1956) e os irmãos mais jovens, George (Dickie Moore, 1925-2015) e Rosie (June Lockhart), numa fazenda cujas terras não são boas para cultivo.  Juntamente com os amigos Ike Botkin (Ward Bond, 1903-1960) e Buck Lipscomb (Noah Beery Jr, 1913-1994), Alvin se mete em brigas e bebedeiras. Quando se apaixona pela bela Gracie Williams (Joan Leslie), York lhe diz que vai trabalhar para conseguir uma boa fazenda e, assim, poder casar-se com ela.  Ao participar de um concurso de tiro ao alvo, York ganha todos os prêmios, mas fica desapontado ao saber que Zeb Andrews (Robert Porterfield, 1905-1971), um fazendeiro um pouco mais abastado, comprara as terras que ele tinha em vista. Furioso, pretende matar Zeb em certa noite chuvosa, mas um raio atinge seu rifle sem feri-lo, e Alvin interpreta isso como um sinal de Deus. Ajudado pelo pastor Rosier Pile (Walter Brennan, 1894-1974), ele se volta para a religião, e assim, o antes arisco e encrenqueiro Alvin York se torna um homem pacífico e responsável.

York (Gary Cooper) com o amigo de farras e bebedeiras Ike Botkin (Ward Bond, em um desempenho bem humorado).
O Pastor Rosier Pile (Walter Brennan) e outros tentando conter a ira de Alvin (Gary Cooper).
Alvin se interessa por Gracie Williams (Joan Leslie).
Quando os Estados Unidos entram na I Guerra Mundial, Alvin encontra-se ensinando a Bíblia para um grupo de crianças.  Inicialmente, resiste à ideia de se alistar, pois matar é contra seus princípios religiosos.  Entretanto, aconselhado pelo pastor Pile, ele se despede da família e de Gracie, e se alista no exército. Durante os treinamentos, sua habilidade com o rifle chama a atenção do Oficial Comandante.  No entanto, ele recusa uma promoção, justificando que matar é contra seus princípios bíblicos.  O Oficial lhe entrega um livro sobre a história dos Estados Unidos, com informações sobre Daniel Boone e outros homens que, no passado, lutaram pela liberdade, e lhe dá uma licença de 10 dias para que ele o leia e pense a respeito. Depois de ler o referido livro, ele retorna ao exército convencido de que, muitas vezes, as pessoas devem lutar pela liberdade e pela Pátria.  Assim, após o período de treinamento, ele segue para o front, na França.

Alvin acaba aderindo a religião, se tornando um cristão convicto e pacifista.
Mesmo motivado pelas convicções religiosas, Alvin é obrigado a se alistar no Exército e lutar na guerra. Para isso, ele tem como conselheiro o Pastor Rosier Pile (Walter Brennan), que o orienta a como servir à Deus e a Pátria.
No front, York tem como companheiros de luta
"Pusher" Ross (George Tobias) e o Sargento Early (Joe Sawyer).
Em 8 de outubro de 1918, quando da ofensiva de Argonne, França,  Alvin York mata 25 alemães com 25 tiros e consegue capturar outros 132 soldados.  O então soldado é promovido a Sargento York e agraciado com a Medalha de Honra. Ao terminar a guerra, Alvin retorna à sua terra e aos braços de sua amada Gracie.  Uma vez lá, recebe do Estado do Tennessee, a título de doação, uma boa fazenda, como gratidão por seus atos de heroísmo e patriotismo.


O OSCAR PARA
GARY COOPER
Gary Cooper (1901-1961) era então o astro mais popular e requisitado em Hollywood no início da década de 1940, e estava sob contrato de Samuel Goldwyn (1879-1974) pela United Artists. A popularidade de Cooper era tanta que seu salário era maior até que o do Presidente dos Estados Unidos. Entretanto, seria a Warner a rodar o filme baseado nos feitos e heroísmo do Sargento Alvin. C. York. 

O verdadeiro Sargento York e sua mãe, em 1918.
O casamento do Sargento Alvin York e Grace Williams, tendo o governador do Estado do Tenneesse como testemunha, em 1919.
O Produtor Jesse L. Lasky promove o encontro entre Gary Cooper e Alvin C. York.
O verdadeiro Alvin York já tinha quase 55 anos quando SARGENTO YORK foi lançado nos cinemas americanos. Entretanto, uma cinebiografia sobre o herói já era planejada desde 1919 pelo produtor Jesse L. Lasky (1880-1958), com York fazendo o próprio papel, mas na ocasião ele recusou, alegando que sua farda “não estava à venda”. Na época em que vivia como um jovem fazendeiro no Tennessee e recrutado para o exército, Alvin tinha cerca de 20 e 21 anos de idade, e a Warner buscava astros mais próximos para desempenhar o biografado – entre eles Henry Fonda, Ronald Reagan (este mais de preferência com o estúdio), e James Stewart. Mas Alvin York reprovou todos os três e veio com a exigência de que o filme baseado em sua vida e em seus feitos gloriosos na I Guerra Mundial só seria rodado se Gary Cooper fizesse seu papel.  O mesmo Lasky estaria por trás da produção, juntamente com Hal B. Wallis e o diretor Howard Hawks.

Bette Davis visitou o amigo Gary Cooper no set de filmagem de SARGENTO YORK (1941).
Samuel Goldwyn.
A princípio, Cooper ficou com receio de interpretar uma celebridade que ainda estivesse viva e relutou bastante em pegar o papel. E ainda havia outro problema, porque Gary não era um ator contratado pela Warner e sim dos estúdios de Samuel Goldwyn. Mas após longas negociações entre os executivos da Warner e os executivos de Samuel Goldwyn, ficou resolvida que a empresa de Goldwyn cederia para Warner Brothers Gary Cooper para fazer Sargento York, e em troca, a contraparte emprestaria sua estrela de maior constelação, Bette Davis, para fazer Pérfida (The Little Foxes, 1941) de William Wyler, a ser realizado pela companhia de Samuel Goldwyn e distribuído pela RKO.

Gary Cooper e Alvin C. York.
Cooper, que já tinha 40 anos, era considerado velho para viver um jovem matuto do Tennessee, mas isto não impediu que o verdadeiro York requisitasse o astro para desempenhar seu papel, pois segundo palavras do próprio biografado, somente Gary Cooper exercia este poder. York participou como consultor técnico e acompanhou inúmeras filmagens ao lado de Howard Hawks. Mas certo dia, um membro da equipe, sem o menor tipo de noção ou tato, lhe perguntou quantos alemães ele havia matado. York começou a soluçar de forma tão veemente que acabou passando mal no set de filmagem. Este membro da equipe só não foi demitido porque, de forma muito nobre, York pediu que não o despedissem.

Joan Leslie, de 16 anos, viveu a personagem Gracie Williams, namorada de York.
Além da exigência de ter Gary Cooper fazendo seu papel, Alvin York ainda exigiu que parte das rendas do filme fosse beneficiada para a escola bíblica que ele havia construído no Tennessee, e que nenhuma atriz adepta do tabagismo interpretasse Gracie, sua esposa, muito embora Ann Sheridan e Jane Russell, fumantes inveteradas, fossem consideradas para o papel. A parte da esposa do biografado recaiu para a jovem Joan Leslie (1925-2015), de 16 anos, a mesma idade da verdadeira Gracie na época em que namorava York. 

Alvin York se torna o bastião de seu pelotão durante a Primeira Guerra Mundial...
matando 25 soldados alemães e capturando outros 132. Por sua bravura e coragem demonstradas no front...
SARGENTO YORK recebe as maiores condecorações e honras concedidas à um herói.
Cineastas como Victor Fleming, Michael Curtiz, Henry Koster, e Norman Taurog, se recusaram a dirigir o filme antes mesmo que o projeto fosse oferecido a Howard Hawks, que aprovou a atuação de Gary Cooper, sendo o diretor um dos grandes responsáveis pela sua indicação para um prêmio na Academia. A festa anual da premiação da Academia de Hollywood havia sido cancelada, pois dois meses antes, com o ataque a Pearl Harbor pelos japoneses, os Estados Unidos entraram na II Guerra. Mas Bete Davis, que era então presidente da Academia naquele ano, resolveu abrir a cerimônia para o público, vender entradas, e entregar os prêmios num grande auditório, e doar os lucros a Cruz Vermelha. Os diretores do evento, no entanto, acharam que, apesar da Guerra, a cerimônia deveria continuar, sendo privativa da indústria cinematográfica. Bette não concordou com isso e prontamente pediu renúncia do cargo. Ao jantar, compareceram 1.600 pessoas – recorde até então.

O regresso do Sargento Alvin York (Gary Cooper) aos Estados Unidos, e ao seio da família.
De volta ao lar, o Sargento York (Gary Cooper) recebe mais honrarias e condecorações.
Gary Cooper recebe sua primeira premiação ao Oscar nas mãos do Tenente James Stewart (que estava servindo na II Guerra) por seu desempenho como o SARGENTO YORK (1941).

E SARGENTO YORK concorreu para sete indicações: melhor filme, melhor diretor (Howard Hawks), melhor ator (Gary Cooper), melhor ator coadjuvante (Walter Brennan), melhor atriz coadjuvante (Margaret Wycherly), melhor montagem, e melhor roteiro adaptado. E o filme foi premiado com duas estatuetas: Melhor montagem (William Holmes, 1904-1978) e melhor ator do ano para Gary Cooper, que conquistou seu primeiro Oscar (o segundo viria 11 anos depois, por sua performance em Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann). Ao receber a premiação das mãos de James Stewart, que então estava servindo como Tenente da Força Aérea e que havia vencido no ano anterior por seu papel em Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story), Gary Cooper dedicou o prêmio ao verdadeiro Sargento York, que estava na plateia. Cooper lamentou não poder ter se alistado na II Guerra como os demais astros de sua época devido à idade e a uma antiga lesão em seu quadril, mas sentiu que seu desempenho em SARGENTO YORK foi uma forma de contribuir para a causa. Cooper ainda ganhou pelo papel o Prêmio da Crítica de Nova York em 1941. 


Gary viria a dizer tempos depois:

- O Sargento Alvin C. York e eu tínhamos algumas coisas em comum antes mesmo que eu pudesse interpreta-lo: nós dois fomos criados nas montanhas. Ele vem das montanhas do Tennessee e eu das montanhas de Montana, e ambos aprendemos a andar e a atirar como parte do crescimento. “Sargento York” me deu um Oscar, mas não é por isso que seja meu filme favorito. Eu gostei do papel porque, no fundo, eu retratava um ícone que simbolizava o caráter e a grandeza dos Estados Unidos.

O Herói real e seu intérprete nas telas.
A estreia americana de SARGENTO YORK foi em Nova York, a 2 de julho de 1941, tendo como anfitriões Gary Cooper e o próprio Alvin. C. York. No Brasil, a obra de Howard Hawks chegou aos nossos cinemas em 1943, onde o público brasileiro prestigiou a quieta e energética atuação de Gary Cooper. Sua atuação foi base de um filme de inteligente manipulação a favor da causa americana na II Guerra, mas ao mesmo tempo, se tornou um delicioso entretenimento com misto de drama pastoral adicionada à uma eletrizante aventura bélica aos moldes da era de ouro de Hollywood.

O busto do Sargento Alvin C. York, no Tennessee.
E o autêntico Alvin Cullom York morreu em sua casa, em Nashville, Tennessee, a 2 de setembro de 1964, três anos depois da morte de Gary Cooper, seu intérprete no cinema, deixando sua esposa Gracie (falecida em 1984) e sete filhos. 

Divulgação do filme pelos jornais do Rio de Janeiro, em 1943.
FICHA TECNICA

SARGENTO YORK
(SERGEANT YORK)

País – Estados Unidos

Ano – 1941.

Gênero: Guerra/Biográfico

Direção: Howard Hawks.

Produção: Howard Hawks, Jesse Lasky, e Hal B. Wallis, para a Warner Brothers.

Roteiro: John Huston, Abem Finkel, Harry Chandlee, e Howard Koch, baseado no diário de Guerra do Sargento Alvin C. York.

Música: Max Steiner.

Fotografia: Sol Polito, em Preto & Branco.

Edição: William Holmes.

Metragem: 135 minutos.



ELENCO
Gary Cooper -  Alvin C. York
Walter Brennan - Pastor Rosier Pile
Joan Leslie      - Gracie Williams
George Tobias - Ross
Stanley Ridges -    Major Buxton
Margaret Wycherly      - Mãe de Alvin York
Ward Bond - Ike Botkin
Noah Beery Jr. - Buck Lipscomb
June Lockhart - Rosie York
Dickie Moore - George York
Clem Bevans - Zeke
Joe Sawyer      - Sgt. Early
Gig Young - Soldado
Harvey Stephens - Capt. Danforth
Carl Esmond - Major alemão
Pat Flaherty - Sgt. Harry Parsons
Frank Wilcox - Sargento
Charles Middleton - Alpinista
Charles Trowbridge - Cordell Hull
David Bruce - Bert Thomas
Robert Porterfield - Zeb Andrews
Erville Alderson - Nate Tomkins
Tully Marshall- Tio Lige
Douglas Wood - Major Hylan

PAULO TELLES
Produção e Pesquisa.

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