domingo, 26 de março de 2017

Os Imperdoáveis (1992): A Volta Triunfal do Gênero Western sob os auspícios do “Bom, Mal, e Feio” Clint Eastwood.


Em 1992, ano em que foi realizado OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven), produzido, dirigido, e estrelado por Clint Eastwood, o gênero Western já estava praticamente extinto. O estilo declinava desde o fim da década de 1970, e muito embora na metade da década de 1980 viessem sucessos como Silverado (Silverado, 1985) de Lawrence Kasdan, e O Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985), também de Clint Eastwood, ainda assim o gênero não conseguia mais atrair o público como foi em outros tempos. 

Clint Eastwood - Ator e Cineasta.
Entretanto, é curioso como deu origem à produção de Os Imperdoáveis, que parecia em 1992 um projeto altamente arriscado, mesmo para um ator e cineasta experiente como Clint Eastwood. Tudo começou na realidade em 1980, quando Clint comprou o roteiro de David Webb Peoples das mãos de Francis Ford Coppola. Coppola estava seduzido pelo script de Webb Peoples, mas desistiu de filmar, acabando por vender a Clint Eastwood. Entretanto, Clint viu que algo poderia não dar certo. Aos 53 anos, em 1983, já detentor dos direitos de filmagem, Clint se achou “jovem e imaturo demais” para prosseguir com o projeto. Por isso, o ator-cineasta arquivou o texto na gaveta por quase dez anos.


O saudoso Richard Harris, com Saul Rubinek,
conversando com Clint Eastwood.
Em 1992, Clint, aos 62 anos, achou que já era hora de rodar Os Imperdoáveis, acreditando que havia amadurecido o suficiente para seguir adiante com a produção. O diretor escolheu as vizinhanças de Calgary, na província de Alberta, no Canadá, para rodar seu Western. Clint sabia que a região de terreno íngreme e desigual se assemelhava ao seu “Oeste Americano dos fins do século XIX”.  Contudo, mais do que um faroeste, o filme representou uma volta, em grande estilo, ao gênero.  Vale lembrar que a trajetória deste carismático artista se deveu a uma grande transição de fatores, pois foi conquistando respeitabilidade à base de pólvora e músculos, mas na medida em que foi envelhecendo, também pelo cérebro e sensibilidade. 


Clint Eastwood, nos tempos da série COURO CRU.

Clint, o "Bom, Mal, e Feio" no cinema.
Clint na direção de OS IMPERDOÁVEIS (1992)


Revelado pelo grande público durante os oito anos em que atuou na TV na série Couro Cru (Rawhide, 1958-1965), Clint carregou desde então a imagem do Cowboy por excelência. Seja na trilogia de Sergio Leone (Três Homens em Conflito, Por Um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais), seja no clássico Josey Wales, o Fora da Lei (The Outlaw Josey Wales, 1976) em que ele se autodirigiu, ou mesmo como o policial Dirty Harry em cinco produções da série, o ator e diretor nunca se afastou da imagem de bruto, porém justo, ou ainda, O Bom, o Mal, e o Feio, fazendo alusão a um dos grandes westerns italianos que atuou sob a direção de Leone. Entretanto, ao provar somente atrás das câmeras seu talento como diretor na biografia do célebre músico Charlie Parker (1920-1955) em Bird, de 1988, é que o durão Clint também provou lidar com temas sensíveis. 
Clint Eastwood é William Munny...
viúvo, e com dois filhos. A miséria faz
Munny voltar a empunhar armas.
Ned Logan (Morgan Freeman): O melhor amigo de William Munny.
Assim que estreou no Rio de Janeiro, em 23 de outubro de 1992, Os Imperdoáveis veio enxurrado de críticas positivas, tal como foi nos Estados Unidos, onde o lançamento foi dois meses antes. Cerca de dez milhões de espectadores deixaram mais de US$ 74. Milhões de dólares nas bilheterias (só no mercado americano), e no Brasil, não foi exceção.  Mas pudera, afinal, foi mais um trabalho revisionista no gênero realizado por um grande cineasta, Clint Eastwood, que ainda assinou obras ao estilo, como o polêmico O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), um trabalho desmistificador que foi censurado até mesmo por John Wayne, um ídolo de Clint.



Bill Munny (Clint Eastwood), pronto para voltar
a ativa.
O fato é que Clint sempre foi um modelo de cowboy sem os antigos mitos do gênero, sem a legenda romântica tão costumeiramente vista nos filmes de John Ford ou Howard Hawks. Seu conceito do Velho Oeste é sem qualquer vestígio de mitologia romanesca, e é isso exatamente que ocorre com Os Imperdoáveis.  A história é penosa para o “herói”, William “Bill” Munny (Clint Eastwood), um ex-pistoleiro e assaltante de trens. Regenerado por sua mulher – que morreu prematuramente, deixando ele com dois filhos – Munny vive da criação de porcos, ocultando seu passado.


Munny e seu jovem parceiro Schofield Kid
(
Jaimz Woolvett)
Morgan Freeman é Ned Logan.

Ned e Munny partindo para a ação.
A princípio, recusa a proposta de um jovem que se apresenta como Kid  Schofield (Jaimz Woolvett), que procura um parceiro para compartilhar um prêmio para a eliminação de dois homens. Mas sob a pressão da miséria, Munny acaba aceitando a oferta, mas dentro de uma condição: levar consigo um velho amigo necessitado, o negro Ned Logan (Morgan Freeman).
O trio composto por Kid, Ned, e Munny, chegam ao pequeno vilarejo...
cujo xerife é o hipócrita Little Bill Daggett
(Gene Hackman)

Deliah (Anna Levine), a prostituta mutilada.
O trio parte para a sombria cidadezinha de Big Whiskey, onde as mulheres do bordel trabalham em dobro para reunir dinheiro do prêmio. Isto porque uma das prostitutas (Anna Levine), vítima dos dois cowboys procurados pelo trio, ficou marginalizada por cicatrizes no rosto e no corpo. Elas repudiam a cínica indiferença do xerife local, Little Bill Daggett (Gene Hackman), também um ex-pistoleiro, para qual basta impor como punição aos bandidos a “multa” de cinco cavalos.


Richard Harris é Bob English...
que chega a Big Whiskey com seu "biógrafo"...

e se recusa a entregar suas armas.
Little Bill proíbe o porte de armas a todos que se aproximem de Big Whiskey. Ele escorraça na base de socos, chutes, e pontapés um orgulhoso inglês, conhecido como Bob English (Richard Harris, 1930-2002) por se recusar a entregar suas pistolas. Bob é um matador de aluguel que chega a cidade com seu “biógrafo” W.W. Beauchamp (Saul Rubinek), na verdade um escritor de folhetins (os mesmos que criaram as lendas e os mitos do Velho Oeste).


O Xerife Little Bill e seus capangas.
Little Bill, o xerife de ferro, mas sem lei e
sem ordem, motivado pelos seus interesses brutais.
As mulheres do prostíbulo que querem justiça,
lideradas por Strawberry Alice (Frances Fisher). 
Mas contra os cowboys e a bem armada equipe do xerife, Munny conta apenas com a ajuda de seus dois parceiros e das mulheres do prostíbulo, lideradas por Strawberry Alice (Frances Fisher, na época, esposa de Clint Eastwood). Perto do confronto sangrento, os companheiros de Munny hesitam. Violentando sua nova concepção de vida, William Munny precisa enfrentar seus adversários como um verdadeiro “anjo exterminador” como fora no passado. Os Imperdoáveis é uma história onde não há inocentes à vista, nem heróis ou mocinhos, mas sim onde os mitos não conseguem resistir ao clima da realidade, e muito menos, a ausência da legenda romântica. 




Ned Logan (Morgan Freeman), torturado e
morto por Little Bill (Gene Hackman)
A obra foi dedicada pelo diretor a seus dois grandes mentores, Sergio Leone e Don Siegel, "professores" do ator na arte da direção. Clint Eastwood deixou declarado:

- Se tivesse que ser meu último Western, acho que seria uma despedida muito apropriada.




Munny, em um dialogo com Deliah.
Falar de Os Imperdoáveis é também falar da atuação de Gene Hackman, que aos 62 anos e ter participado de centenas de filmes e peças teatrais, recebeu do amigo Clint Eastwood um papel que lhe deu o Oscar de melhor ator coadjuvante de 1993. Sua atuação como o xerife psicótico Little Bill Daggett, um pretenso guardião da moral e dos bons costumes do pequeno vilarejo de Big Whiskey, que defende mais seus propósitos brutais do que a lei que deveria servir. 




A TRISTE FILOSOFIA DO VELHO OESTE SEGUNDO 
OS IMPERDOAVEIS : 
CRITICAS BRASILEIRAS A OBRA DE EASTWOOD 



Inocente de que? Indaga o xerife vivido por Gene Hackman a uma das prostitutas quando reclama do espancamento de um “homem inocente” (Clint Eastwood). Segundo o crítico Arthur Dapieve, que deu uma brilhante nota ao seu comentário no jornal O Globo, de 27 de novembro de 1992, ninguém é inocente em Os Imperdoáveis

- Todos são culpados e estão condenados, mais cedo ou mais tarde, a pena de morte.  Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Sem dúvida, Clint Eastwood deu ao faroeste filosófico um de seus melhores exemplares.



Um fim merecido para Little Bill.
Há alguma virtude no bem? Os fins justificam os meios? Há alguma nobreza na morte? São questões como estas que ricocheteiam através do filme, atingindo o espectador em cheio.  

Ely Azeredo, na mesma coluna e no mesmo jornal, deixou seu parecer:

- Este filme poderia ser a “chave de ouro” de muitas filmografias ilustres. Sem deixar de encantar como espetáculo, é uma reflexão sobre o Western e sua moral. Ultrapassa os limites da “trama”, instigando reflexões de ordem existencial. A dor moral de sua volta às armas é apenas atenuada pela “meia razão” de resgatar a humilhação do amigo torturado (Morgan Freeman). O final só é “feliz” na aparência. Se o amor redimiu Munny, a compaixão e a amizade o levaram de novo para o inferno. Crítica e autocrítica: a mídia (reprsentada pelo escritor mambembe) não enxergou o grande artista por trás da máscara circunstancial de Dirty Harry.



A crítica Miriam Alencar no mesmo tabloide nacional, comentou sobre Os Imperdoáveis:

- Em OS IMPERDOÁVEIS, Clint Eastwood conseguiu juntar um tema com as características clássicas que deram ao Western um lugar de honra na história do cinema. Defende a mulher, pela justiça que deve ser feita à prostituta, cujo rosto foi deformado, e rejeita violentamente o racismo na defesa de seu velho companheiro na luta, Ned Loogan (Morgan Freeman). Não contente com isso, relembra através do duelo final, no bar, um também derradeiro  e brilhante duelo dirigido por Don Siegel, O ÚLTIMO PISTOLEIRO, despedida do maior dos cowboys, seu ídolo confesso, John Wayne.


QUATRO PRÊMIOS DA ACADEMIA 


Clint Eastwood, com seus dois Oscars: Melhor filme e melhor direção.
Há quem dissesse que a 65ª entrega do Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, na noite de 29 de março de 1993, em Los Angeles, teve barbadas, mas nenhuma goleada.  O veterano Gene Hackman já havia subido ao pódio para receber o prêmio como melhor ator coadjuvante, e dedicou o prêmio a um tio, Orin Hackman, jornalista que havia falecido horas antes da cerimônia.  Hackman declarou:

- Mas eu não vou continuar fazendo tantos filmes assim daqui pra frente. Vou dar uma freada.  – emendou Hackman, fazendo um paralelo entre a morte de seu tio e sua própria saúde, que na época de Os Imperdoáveis, estava fragilizada por problemas cardíacos. O ator hoje conta com 87 anos e desde 2004 está aposentado.

Clint e Gene Hackman: Campeões da Noite.
Clint Eastwood provou ser realmente um gigante na noite do Oscar. Na saída da sala de imprensa foi cumprimentado por Al Pacino, que ofereceu um belo contraste à Clint, já que de tão baixinho, Pacino nem chega aos ombros do ator e diretor que vinha com seus dois prêmios , e cedeu-lhe a vez no pódio. Clint, ao verificar que a altura do pedestal do microfone ainda estava ajustado para Al Pacino, fez uma brincadeira, abaixando desajeitado para falar.

Clint Eastwood, entre Jack Nicholson e
Barbra Streisand, na entrega do Oscar de 1993.
Um repórter perguntou a Clint se não havia um “gostinho de vingança” na vitória de Os Imperdoáveis, já que a Academia de Cinema sempre o esnobara. Eastwood respondeu:

- É muito fácil considerar menores os filmes que fiz no início de minha carreira. Talvez porque eles fossem de fato menores. Eu era jovem e estava aprendendo, buscando. Acho que mudei através dos anos.


Clint ainda explicou que foi melhor receber o Oscar naquele momento:

- Se tivesse ganhado antes, talvez não fosse maduro o bastante para apreciar o prêmio.


OS IMPERDOÁVEIS ganhou quatro Oscars: Melhor Filme, Melhor Direção (Clint Eastwood), Melhor ator Coadjuvante (Gene Hackman) e Melhor Montagem (Joel Cox). 

Divulgação do filme nos jornais cariocas, em 1992.
FICHA TECNICA
OS IMPERDOAVEIS
Ano de Produção: 1992
País: Estados Unidos
Gênero: Western
Direção: Clint Eastwood
Produção: Clint Eastwood - Julian Ludwig - David Valdes, para Warner Bross
Roteiro: David Webb Peoples
Música: Lennie Niehaus
Fotografia: Jack N. Green (em cores)
Montagem: Joel Cox
Metragem: 131 minutos.


ELENCO
CLINT EASTWOOD – WILLIAM “BILL” MUNNY
GENE HACKMAN – LITTLE BILL DAGGETT
MORGAN FREEMAN – NED LOOGAN
RICHARD HARRIS – BOB ENGLISH
JAIMZ WOOLVELT – SCHOFIELD KID
SAUL RUBINEK – W.W BEUCHAMP
FRANCES FISHER – STRAWBERRY  ALICE
ANNA LEVINE – DELIAH FITZGERALD, A MULHER MUTILADA
ROB CAMPBELL – DAVEY BUTTING
BEVERLEY ELLIOT – SILKY
E
Walter Marsh- Barber
Frank C. Turner – Fuzzy
Lochlyn Munro - Texas Slim
Philip Maurice Hayes - Lippy MacGregor
Anthony James - Skinny Dubois

Produção e Pesquisa
PAULO TELLES

6 comentários:

  1. Tem que acreditar muito que tudo vai correr bem para guardar um filme por cerca de 10 anos. No final, tudo se encaixou perfeitamente. Você citou Silverado, Paulo, e eu gostaria de fazer uma menção a Os Jovens Pistoleiros - 1988 -, Jovens Demais para Morrer - 1990 e ao excelente clássico DANÇA COM LOBOS - 1990 - que, ao meu ver,contribuíram para preparar o caminho para o inesquecível OS IMPERDOÁVEIS, em 1992. Bela homenagem e matéria. Abraços.

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    1. Saudações, Ovídio!

      Bem verdade que depois dos clássicos SILVERADO e PALE RIDER em 1985, no começo da década de 1990 vieram JOVEM DEMAIS PARA MORRER (uma releitura de Billy The Kid) e DANÇA COM LOBOS, que na época do lançamento confesso que tive um pouco de preconceito e achei chato na ocasião. Passado mais de 20 anos gostaria de revisita-lo, pois hoje acredito que pudesse vê-lo com outros olhos e análise acurada.

      Quando OS IMPERDOÁVEIS foi lançado, depois de conquistar os louros, outros cineastas se entusiasmaram em lançar outros faroestes. Só em 1994 foram rodadas duas “biografias” de Wyatt Earp (TOMBSTONE e WYATT EARP, de Kevin Costner), sem contar QUATRO MULHERES E UM DESTINO, com Sharon Stone e Gene Hackman. O sucesso de OS IMPERDOÁVEIS, de Clint Eastwood ajudou, mesmo que por um período ou modismo naqueles tempos, a voltar o Velho Oeste nas salas de cinema. Nos últimos anos, Tarantino lançou dois: DJANGO LIVRE (2012) e OS OITO ODIADOS (2016).

      Abraços do editor.


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    2. Paulo, outro dia falava sobre isto com um amigo. Tem filmes que gostamos de primeira e,com o passar dos anos, os elogios só aumentam. Outros detestamos de início. E há aqueles intermediários, que vemos mas sem tanta empolgação, e que somente o tempo pode modificar esta primeira impressão.

      Espero que possa rever DANÇA COM LOBOS, e que com um novo olhar até se sinta confortável para postar aqui no blog, pois, daria uma ótima matéria. Sobre o filme, disse certa vez :
      "Dança com Lobos" (Dances with Wolves), 1990 – Kevin Costner. Um épico. Reflexão: a destruição da cultura indígena pelo imperialismo americano ou o fortalecimento da mesma ao escancarar a verdade. A direção e o desempenho de Kevin Costner, cenografia, fotografia, roteiro e trilha de John Barry fazem deste filme uma obra-prima, que foi fundamental para impulsionar o gênero western em 1990.

      Ah, Paulo, como citou também os de Tarantino, vi semana passada a um filme incrível, chocante mas indispensável - BRIMSTONE - que demonstra que o gênero western está vivo, basta que se tenha profissionalismo e respeito pelo espectador e pelo gênero, com um roteiro brilhante, direção e atuações impecáveis e um vilão que vai ficar marcado, por ter sido monstruosamente bem construído e interpretado. Grande abraço.

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    3. Exatamente isso Ovídio. Talvez tenha me faltado empolgação ou interesse maior, pois ao assistir DANÇA COM LOBOS pela primeira vez em vídeo (na época das saudosas locadoras de VHS) eu esperava mais ação e menos reflexão. Hoje eu vejo que um filme tem que ter embasamento por estes dois ângulos, mas na época (1991 ou 92) eu ainda estava despertando pelo entendimento da Sétima Arte. Se eu puder revisita-lo tenho certeza que minha opinião não será a mesma de mais de 20 anos atrás. E muito provavelmente merecerá uma resenha aqui neste espaço.

      Não faz muito tempo que dei uma entrevista para um blog, e que me perguntaram se o gênero western estaria morto. Eu respondi que não, mas que ficou apenas inerte ou adormecido por um período, mas que agora acordou e parece que com força total, e a prova esta aí. Ainda não assisti BRIMSTONE, mas pelo visto já atiçou minha curiosidade. E viva o Western!

      Um forte abraço!

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  2. Telles,

    Não é apenas o filme do excelente Clint, o importante de tudo ali é o Clint, que não nos dá chances de encontrar um defeito neste trabalho. Ele está simplesmente perfeito num dos grandes westerns que o cinema já criou. Isto sem desmerecer outras grandes obras que seguem nos enchendo os olhos e fazendo ama-las sem medição.

    O que desejo dizer é até a maquiagem dele, com aqueles cabelos ralos e de corpo meio arqueado quando tentava pegar os porcos e caia na lama. É ele, que havia parado de beber há anos, pois quando fazia suas asneiras estava sempre bêbado, e ao saber que mataram seu amigo ele pega a garrafa e quase a engole inteira. Pronto. Ali estava plantado o mal na alma do velho Manny. E que aqueles sacanas agora iriam pagar, não apenas pela a surra infame e covarde que lhe deram, mas pagar também pela morte de seus amigos.

    Não quero me estender muito falando do filme inteiro, pois todos já o conhece demais. Tenho precisão de enumerar cenas incríveis que ele protagonizou naquele epílogo (por sinal bem ensaiado e bem representado por todos). No momento em que sua arma falha, depois de matar o explorador das mulheres, parecia que o nosso heroi estava em maus lençois.

    Mas não, ele deu um desfecho perfeito em tudo ali dentro, até acabando de fulminar um que ainda gemia baleado no chão depois de toda a escaramuça. Tomou alguns goles e cá fora a zorra estava armado para ele. Ele sentiu e nós vimos o homem com o rifle apontado em sua direção.

    E é quando ele diz aquelas palavas tão assustadoras para quem estivesse pensando em fazer alguma besteira, dizendo que quem se atrevesse a maltratar as prostistutas, que ele voltaria, mataria quem fez o ato, mataria sua mulher e todos seus filhos.

    E vai saindo lentamente em seu cavalo sob a chuva que caia e valente algum mexeu com ele.

    Um final para ser bem analisado, visto mais vezes, pois ali, no meu ver, está a grandiosidade da valentia de um homem, que apenas com sua fala ameaçadora, quebra a valentia de alguns supostos vingadores.

    Explendido, filme espetacular e digno de tudo o que recebeu. E se dedicou o filme aos seus dois grandes mestres, não fez menos do que deveria ter feito, porque aquele foi seu derradeiro western mesmo.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    Respostas
    1. Grande análise meu amigo Ju!

      Quando redigi o artigo, a primeira coisa que veio em minha mente foi a imagem de William Munny beber a garrafa de whisky ao conversar com o parceiro Kid, e a medida que digeria cada gole, sua expressão mudava consideravelmente, um trabalho de expressionismo inigualável de Clint Eastwood como ator.

      Perceba: quase ao longo do filme, mesmo motivado em pegar os caras e querer parte da recompensa, ele ainda era meio pacato, tão pacato que mesmo numa noite fria de chuva, ele se recusava a beber whisky oferecido pelo amigo Ned (Morgan Freeman) por conta da promessa que fez para sua finada esposa. Mas tudo vem a mudar quando chega a cidade, com febre devido a exposição da chuva (se ele tivesse bebido o whisky, ele não teria chegado a esse estado) e leva uma surra de Hackman e de seus homens, e a coisa viria a detonar depois que o mesmo xerife corrupto e mal caráter mata Ned e decoram o corpo dele no bar.

      Sem dúvida, Clint demostrou não só ser um diretor mais do que excepcional, mas também um ótimo ator, e creio que foi justamente sábio em esperar mais um pouco para amadurecer e poder viver o “imperdoável” William Munny.

      Abraços do editor

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