domingo, 12 de março de 2017

O Tesouro de Sierra Madre (1948): John Huston, e a Ciclópica Aventura de Homens, de Ação, e de Ambição.



O TESOURO DE SIERRA MADRE (The Treasure of the Sierra Madre, 1948) é considerado, pelo consenso geral da crítica moderna, como uma das vinte maiores obras primas do cinema. Desde 1935, o cineasta John Huston (1906-1987) ficara seduzido pelo romance do escritor B. Traven (1882-1969), um polonês que vivia no México em um local ignorado, que fazia rocambolesco sigilo de sua identidade.  Huston precisava do apoio do produtor Henry Blanke (1901-1981) a fim de realizar as filmagens no México. O próprio produtor Blanke também ambicionava o projeto há algum tempo, mas como John Huston estava fora servindo durante a II Guerra, esperou o retorno do cineasta para o início dos trabalhos. 

O jovem cineasta John Huston
Jack Warner, chefão da WB
Contudo, a Warner e seu chefão, Jack Warner (1892-1978), considerava O Tesouro de Sierra Madre um “simples Western”, e pretendia reduzir custos rodando num rancho próximo a Calabasas, Califórnia. Mas com a ajuda de Blanke, Huston obteve autorização de levar toda sua equipe para o México Central, onde se colheu boa parte das locações

B. Traven, o autor do romance.
Tendo se tornado fã do livro de Traven , a oportunidade de trabalhar no México agradou profundamente John Huston, onde desejou conhecer o escritor pessoalmente.  O cineasta já acumulava experiências das mais diversas antes de ingressar no cinema, o que se reflete nitidamente em toda a sua obra. Boxeador profissional, chegou a conquistar um campeonato como peso leve (na vida real chegou as vias de fatos com Errol Flynn numa festa em Hollywood). Inquieto e itinerante, Huston não possuía o espírito de disciplina necessário para ingressar na carreira militar (estudou em West Point). Ser pugilista ou ingressar no teatro era o grande dilema do futuro diretor. Antes das filmagens de O Tesouro de Sierra Madre, Huston já conhecia o México, pois serviu por lá como Tenente de Cavalaria. Graças ao prestígio do pai, o ator Walter Huston (1883-1950), John conseguiu seu primeiro contrato cinematográfico como roteirista, em 1931, se tornando em pouco tempo um dos grandes escritores do primeiro time de Hollywood. 


John Huston concluiu o Script para O Tesouro de Sierra Madre, e remeteu uma cópia ao autor do romance, e este marcou um encontro com o diretor na cidade do México. Passado alguns dias, um homem se apresentou como agente de Traven. Este lhe apresentou consultoria durante as filmagens, mas como num passe de mágica, desapareceu em seguida, levando a crer que fosse o próprio B. Traven com quem agiu

Humphrey Bogart, o astro principal da fita, ao lado de Robert Blake.
Pai e Filho: Walter e John Huston, campeões da noite do Oscar, pelo trabalho em O Tesouro de Sierra Madre, 1948.
O Tesouro de Sierra Madre reuniu novamente Huston e Humphrey Bogart (1899-1957), astro de seu primeiro grande sucesso como diretor, Relíquia Macabra(The Maltese Falcon, 1941), e se tornou o quarto sucesso na vasta e gloriosa filmografia do cineasta, obtendo os Oscars de melhor direção e roteiro (ambos para John Huston), melhor ator coadjuvante (para Walter Huston, pai de John), e ainda de ser laureado como o “Melhor Filme do Ano”, concedido pela Crítica de Nova York. A Música, de autoria de Max Steiner (1888-1971) foi também a vencedora do Festival de Veneza em 1948. 

Os aventureiros do ouro, Dobbs (Humphrey Bogart) e Curtin (Tim Holt)
Dobbs e Curtin enganados por McCormick (Barton Maclane), um grandalhão vigarista.

Dobbs e Curtin conhecem o velho Howard (Walter Huston), um garimpeiro experiente.
A trama se passa na década de 1920, tendo como protagonistas principais dois americanos andarilhos e aventureiros: Dobbs (Bogart) e Curtin (Tim Holt, 1918-1973). Após serem tapeados por um vigarista, McCormick (Barton MacLane, 1902-1969), Dobbs e Curtin travam amizade com Howard (Walter Huston), um velho garimpeiro, cujas histórias sobre a existência de ouro em Sierra Madre acabam por excitar a imaginação dos dois amigos.

O último corte de cabelo e a última barba para Dobbs, antes de iniciar uma perigosa aventura.
Tim Holt como Curtin, um explorador com ambições limitadas. O papel estava destinado para John Garfield.
As desconfianças começam a surgir...
Ganhando algum dinheiro na loteria, e “acertando as contas” com o McCormick, Dobbs e Curtin decidem sair à procura de ouro, orientados pelo experiente Howard. Após muitas aventuras e percalços, eis que acabam reencontrando Howard e todos tem êxito em achar um grande tesouro, mas daí passa a surgir as desconfianças e a cobiça por parte de Dobbs, que acusa Curtin de querer rouba-lo e, e cada qual um passa a vigiar atentamente o outro. 

quando Dobbs desconfia de seus dois colegas, principalmente de Curtin.
Apesar de apaziguador da situação, o velho Howard se precavê de Dobbs.
A relação de Dobbs e Curtin é cada vez mais conflituosa.

Os habitantes de uma aldeia vêm buscar Howard para tratar de uma criança doente. Enquanto o velho garimpeiro esta na aldeia, Dobbs atira em Curtin e o deixa a mercê numa floresta, mas no dia seguinte quando vai procurar o corpo de Curtin, este desaparece. Arrastando-se pela floresta, Curtin consegue chegar à aldeia e procura Howard, e depois de cuidar de seus ferimentos, Howard parte junto com Curtin atrás do tesouro e de Dobbs. Este vem a ser morto por bandoleiros liderados por Gold Hat (Alfonso Bedoya, 1904-1957), que ignorando o valor daquela “areia dourada”, o verdadeiro Tesouro de Sierra Madre, largam os sacos abertos no deserto, onde o vento espalha diante da gargalhada filosófica do velho Howard: É uma grande brincadeira, Curti! Este lhe diz: O Ouro voltou para o lugar onde o encontramos
Uma noite, Dobbs consegue dominar Curtin e o deixa para morrer na floresta. Dobbs foge...
mas não consegue ir longe com o ouro, pois é interceptado por uma quadrilha de Foras da Lei mexicanos...
liderados por Gold Hat (Alfonso Bedoya).
Marcante exemplo das novas preocupações realistas no cinema americano pós a II Grande Guerra, O Tesouro de Sierra Madre se beneficiou do período de afastamento do diretor em Hollywood, devido a sua convocação para o serviço militar. O cineasta chegou a realizar três documentários de Guerra para promover a luta contra o Nazi-Fascismo: Relatório das Aleutas, A Batalha de San Pietro, e Que se Faça a Luz (Let There Be Light), este interditado durante décadas. Huston enfrentou a face atroz da guerra e lutou (literalmente) armado de câmera, ombro a ombro com os soldados na Batalha de San Pietro, Itália, onde morreram mais de mil soldados. De volta a Hollywood, o diretor levou seu antibelicismo às montanhas de Sierra Madre, no interior do México, expondo com sarcasmo e pungência a guerra por causas menos defensáveis – quando não são suicidas.

John Huston servindo na II Guerra.
John Huston entre Bogart e seu pai Walter, no intervalo das filmagens.

Momento de descontração: Walter Huston, Tim Holt, John Huston, e um extra não identificado.
Vale lembrar que Ronald Reagan queria o papel de Curtin, destinado originalmente para John Garfield, mas que acabou nas mãos de Tim Holt, que faria mais sucesso como cowboy em filmes de baixo orçamento. O chefão da WB, Jack Warner, ficou horrorizado em saber que o roteiro tinha situações trágicas no final, e apreensivo com o perfeccionismo de John Huston, o alongamento das filmagens elevou o orçamento do filme acima de US$ 3 milhões de dólares, valor altíssimo para a época. O diretor não teve prazer de discutir sua adaptação com B. Traven, mas conseguiu o que sonhava com a história. Plasmou um retrato grave nos 126 minutos de projeção, ainda que fértil em humor, sobre temas que se afirmariam com sua trajetória cinematográfica. 

John Huston faz uma ponta especial, não creditada.
O trio de aventureiros ainda trava conhecimento com outro explorador, vivido por Bruce Bennett.
O velho Howard: É uma grande brincadeira, Curti! Este lhe diz: O Ouro voltou para o lugar onde o encontramos

A ambição, a ganância, o individualismo do ser humano, a frustração inevitável quando o homem não mede seus limites ou as consequências de seus atos, ou a importância de sonhar e viver desafios através da ação – talvez esta a maior relevância do que seus resultados vitoriosos e adversos. O Tesouro de Sierra Madre foi rotulado pela publicidade do estúdio como uma “ciclópica aventura de homens, de músculos, e de ação, que vendem suas almas por ouro”, mas de fato, não passa de uma justa análise das reações humanas.


A grande Obra Prima de John Huston em duas divulgações pelos jornais cariocas. A primeira datada de 1949, e a segunda em 1964, com o filme em reprise pelas salas de cinema do Rio de Janeiro.
FICHA TÉCNICA
O TESOURO DE SIERRA MADRE
(The Treasure of the Sierra Madre)

Ano de Produção: 1948
País – Estados Unidos
Gênero: Aventura
Direção: John Huston
Produção: Henry Blanke e Jack Warner, para a Warner Bros
Roteiro: John Huston, baseado no livro de B. Traven.
Fotografia: Ted D. McCord, em Preto & Branco
Música: Max Steiner
Metragem: 126 minutos


ELENCO
Humphrey Bogart – Dobbs
Walter Huston – Howard
Tim Holt – Curtin
Bruce Bennett – Cody
Barton MacLane – McCormick
Alfonso Bedoya – God Hat
Arturo Soto Rangel – Presidente
       Manuel Dondé – El Jefe
Jose Torvai – Pablo
Margarito Luna – Pancho
Robert Blake – Menino da Loteria

Produção e Pesquisa
PAULO TELLES

4 comentários:

  1. Eu assisti e gostei muito. Principalmente pelos desempenhos de Walter Huston e Bogart.
    Olhando os anúncios dos cinemas brasileiros apresentando o filme: proibido para até 18 anos, mesmo em 1964 no Rio???
    E uma grande surpresa foi saber que Robert Blake (aquele do seriado Baretta) trabalhou neste filme.

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    Respostas
    1. Olá Val!

      Robert Blake, que futuramente seria o policial BARETA, era ator desde criança. Hoje ele tem 84 anos e depois de acusado de matar a esposa, foi preso, julgado, condenado, mas numa segunda audiência conseguiu ser absolvido. Sobre a censura para menores de 18 anos em 1964, mesmo aqui no RJ, tenho pouco a comentar, visto que eu não era nascido. Mas fico imaginando como deveriam ser as coisas já que estávamos numa fase de transição, com o regime militar a postos pronto para tomar o Poder. Mas Isso é outra história.

      Abraços e uma ótima semana pra vc!

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  2. Telles,

    O mais maravilhoso de tudo, seria sempre rever cada filme antes de falar dele. Claro, não deixamos de falar de algo que nos restou na memória, porque o filme do Huston é de não se deixar esquecer dele jamais. Porém, com ele fresquinho na memória, poderia dizer mais e soltar mais detalhes.

    Posso citar aqui algumas coisas do filme, mas como amaria reve-lo antes de falar dele, já que o vi uma única vez e no cinema. Imaginemos há quanto tempo!

    O que recordo é basicamente da historia, da aventura dos dois pedintes, pois o Huston chega a dizer a Bogart: esta é a terceira e ultima vez que o ajudo. Algo mais ou menos assim, porque o Bogart se esquecia e, vendo um homem bem trajado, topdo vestido de branco e sapatos reluzentes passar por ele, sempre tentava sonegar um dolar para o almoço.

    Mas sei que vi um grande filme. E sei também que o Bogart é o dono quase que exclusivo do mesmo, com uma soberba atuação onde se via no seu rosto a ganancia, o medo de perder o que já havia conquistado, com aqueles olhos de criminoso lhe alquebrando o semblante, quase virando um sonanbulo tentando proteger o que era seu.

    Não recordo de que fez com o Holt e nem de quando o mataram. Mas recordo e, quero aqui pincelar a qualidade do Bedoya no papel de um bandido mexicano, papel que cabe inteirinho em sua performance como ator e com sua fala perfeita dentro do papel que vestia.

    Acabei de assistir o muito perfeito filme do Mann, Paixões em Furia, com o Walter Huston, a Barbara e o Gilbert Roland. É uma fita de 1950 e exatamente o ano do falecimento do grande ator e pai do John Huston. E ele esteve perfeito no filme do Mann, com aquela seu jeito rápido de falar, tal qual também o fez em O Tesouro de Sierra Madre assim como seus risos estridentes e que contagiava o Holt. Belo ator o pai do grande diretor.

    Uma fita daquela vista hoje em processos atuais encheria os olhos porque, mesmo em P&B já se tinha uma noção da beleza do lugar onde eles garimpavam assim como a viagem até lá. Também não tenho qualquer recordação da musica do Max.

    jurandir_lima@bol.com.br


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    Respostas
    1. Prezado Ju!

      Desculpe lhe falar e dar um “puxão de orelha”, mas vc não leu direito minha matéria, se não teria lido e até observado nas fotos com legendas que o Tim Holt acabou não morrendo, ele sobreviveu, apesar da tentativa frustrada de um ganancioso Bogart, que certamente, estava destinado ao fim que lhe outorgou. Holt e Walter Huston sobrevivem, mas voltam a ser pobres, mas felizes!

      Alfonso Bedoya, mais tarde, seria o Ramon no clássico de Wyler DA TERRA NASCEM OS HOMENS, em 1958, que foi seu último trabalho, morrendo no fim das filmagens.

      Outra correção meu querido:

      O grande western que vc menciona de Anthony Mann é ALMAS EM FÚRIA, estrelado por Walter Huston, Barbara Stanwyck e Gilbert Roland, por sinal sensacional. Curiosamente, PAIXÕES EM FÚRIA (KAY LARGO) é o título nacional de um filme do nobre JOHN HUSTON, tendo Bogart, Lauren Bacall, e Edward G. Robinson no elenco.

      De resto vc esta certo, e muito embora vc tenha assistido o filme uma única vez no cinema, vc lembrou muito bem das “investidas” de Bogart para com Huston, pedindo para “um americano” umas moedas para poder almoçar. Acho que o prólogo dessa obra prima não poderia ter saído melhor sem o encontro do astro e de seu diretor.


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