sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Maior Espetáculo da Terra (1952): A Arte Cinematográfica e o Espetáculo de Cecil B. DeMille.


O nome de Cecil B. DeMille (1881-1959) ficou para sempre associado às superproduções da Sétima Arte, sendo sinônimo de suntuosidade quando se trata de grandes espetáculos. Entretanto, até 1952, quando dirigiu e produziu O Maior Espetáculo da Terra (The Great Show On Earth), este foi o filme que mais lhe rendeu honras, tanto por parte da crítica quanto da opinião pública. De forma grandiosa e impressionante, foi até aquele momento o maior êxito comercial do veterano cineasta em toda sua longa carreira, arrecadando só no mercado norte-americano 14 milhões de dólares, conquistando o Oscar de melhor filme e argumento de 1952, e ainda o Prêmio Irving Thalberg para DeMille. 


O Lendário Diretor Cecil B. DeMille 
O diretor iniciando o preparo das filmagens
Foi o penúltimo título da filmografia deste grande diretor, iniciada na fase ainda silenciosa do cinema, em 1913, e terminada em 1956, quando dirigiu outro grande espetáculo, Os Dez Mandamentos. Mas para poder realizar a proeza de dirigir tamanha obra a altura do seu título original, a Paramount pagou aos empresários John Ringling North (1903-1985) e Henry Ringling North (1909-1993), os donos do famoso Ringling Brothers & Barnum & Bailey, considerado então o mais famoso circo do mundo, a quantia de 250 mil dólares pelo uso da marca e pela cessão de artistas.


DeMille em seu escritório, entre projetos e
roteiros.

DeMille e alguns artistas do Ringling Brothers
e Barnum & Bailey.
Cecil e sua estrela Betty Hutton.
O filme pode ser espalhafatoso, como a maioria dos épicos de DeMille, mas aqui tudo funciona. Mas o que é o circo a não ser uma combinação de luzes, fantasias, e cores? Naturalmente, alguns críticos não foram tão clementes para com o cineasta. Segundo a revista Time Magazine, DeMille reforça sua reivindicação para outra distinção: "A Grande amostra da Terra provavelmente será vender mais pipocas do que qualquer filme feito". Outros críticos acharam que o filme era banal e com uma estúpida história de amor. O New York Times respondeu a favor do veterano diretor: "A história romântica é reflexo do romance diário da realidade do circo".


Charlton Heston e Cecil B. DeMille.
Brad (Heston), Holly (Betty Hutton) e Sebastian (Cornel Wilde):
Um provável triangulo amoroso.

Charlton Heston e um dos empresários
do Ringling Brothers, John Ringling North.
O filme poderia se sair melhor sem o apelo romântico do diretor para com os personagens de Charlton Heston e Betty Hutton, e o tendencioso triângulo amoroso entre os dois com Cornel Wilde, e isto sendo opinião de outros críticos, que acham que o circo não passa de uma meretriz um tanto conveniente para os personagens. DeMille não concordou com essa visão, mas tinha razão numa coisa: transformar sua fita numa novela de dimensões teatrais era tarefa para atrair o público para os cinemas, e foi isso que aconteceu, quando O Maior Espetáculo da Terra bateu recorde nas bilheterias.

Ramon Gomez de La Serna, o "primeiro"
Crítico de Circo.
James Stewart como o carismático
palhaço Buttons

Com toda a certeza, quem poderia nos falar da poesia do circo (sim, o circo não é só um espetáculo de entretenimento, mas como o cinema, também é uma arte) seria Ramon Gomez de La Serna (1888-1963), famoso escritor espanhol, inventor das famosas greguerias, uma espécie de varieté do humor, e que foi também o “primeiro” cronista de circo (e de certo, o único). Quando assistimos a O Maior Espetáculo da Terra, se reflete que só mesmo o espanhol La Serna poderia fazer uma crônica do jeito que o filme mereceria, afinal, toda a atmosfera do circo impregna inteiramente na fita, nos transbordando para o mundo maravilhoso e fascinante do circo, nos impedindo ao mesmo tempo de falar sobre ele com nossa prosa cotidiana, e muitas vezes, banal. 

Brad Braden (Charton Heston) e o
palhaço Buttons (James Stewart).
Além do Oscar conquistado por melhor filme de 1952, Cecil B. DeMille recebe das mãos do ator Henry Wilcoxon (que com o diretor também produziu o filme) o prêmio Irving Thalberg.
Uma obra prima de proporções à altura de seu diretor, vista por todos os ângulos em que se queira apreciar a este celuloide de sucesso, vindo de um cineasta experiente, o Mestre do Espetacular.  Com O Maior Espetáculo da Terra, o bom e velho DeMille chegou ao apogeu de sua carreira e de sua arte. Pode ser verdade que o venerando cineasta tenha sempre preferido o cinema mais como diversão do que propriamente arte, ou melhor dizendo, que tenha condicionado sempre ao longo de sua prolífica carreira a arte cinematográfica ao primado do divertimento.  


Jimmy Stewart (o palhaço Buttons) e o
palhaço mais aplaudido da América,
Emmett Kelly.
Na Plateia, Bob Hope e Bing Crosby.
Dorothy Lamour e Gloria Grahame,
"artistas" do Ringling Brothers.
Cecil pode ter cometido erros (e quem não os comete?), ter se enganado duas, dez vezes, através de sua copiosa obra de cinema. Contudo, tudo isto é perdoado e deixado de lado quando um diretor de idade provecta e que poderia estar aposentado (e que levaria sua função quase até as ultimas consequências, quando em 1956, ao dirigir Os Dez Mandamentos, DeMille, aos 77 anos, sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens no Monte Sinai, mas se recuperou e voltou à ativa) consegue realizar uma película como O Maior Espetáculo da Terra, onde a técnica, a arte, e os valores humanos se combinam na mais perfeita química. 


A atriz Helen Hayes visitou o set
durante as filmagens.
Betty Hutton e Gloria Grahame,
que disputam o afeto do patrão Brad.
Gloria Grahame é Angel, uma
domadora de elefantes.
Isso sem perder de vista o espetacular, nem o sentido de evasão do cotidiano que o cineasta imprime em todos os seus filmes, certo de que a multidão ingresse nas salas de cinema para fugir a realidade do ambiente, sem esquecer o toque poético no lirismo que transborda no próprio assunto: o circo – esta, por si mesma, a poesia do encanto e do mistério, e acima de todos os valores, nota-se a atmosfera, através de seus artistas humanos e sublimemente poéticos. A partir daí, o diretor nos transporta ao ambiente e passamos a viver em pleno circo.  É através desse clima que todo espectador ao assistir a este penúltimo trabalho de Cecil B. DeMille se torna também participante da obra, tal como os espectadores dos atos a que vamos assistindo ao longo da fita (que tem 152 minutos de projeção) e que é a anteface do outro espetáculo, aquele que não se desenrola no picadeiro, mas na existência dos artistas do circo, dos palhaços, dos trapezistas, da moça do elefante, do domador de leões, enfim. 



A atlética Betty Hutton treinou muito
no trapézio para viver Holly
Se DeMille conseguiu o máximo da manipulação de seus efeitos, um dinamismo plástico extraordinário, que segue num ritmo ágil e vibrante, e que por toda a fita, em perfeita harmonia, conduz como ninguém suas grandes manobras com multidões (sim, DeMille era craque em dirigir cenas de multidão), por outro lado seu sentimento épico, tanto linear e profundo tirou de seu elenco all-star um rendimento efetivo dos mais convincentes.


Brad Braden (Charlton Heston) e sua
namorada, a trapezista Holly (Betty Hutton)
Holly implora ao namorado e patrão Brad para ser a estrela do picadeiro central. Mas para segurança e investimento do espetáculo, Brad contrata o "Grande Sebastian" (Cornel Wilde).
A domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame) tem uma queda pelo patrão Brad (Charlton Heston).
A trama da obra se concentra num dos maiores circos do mundo, o Ringling Brothers –Barnum & Bailey. Seu gerente é o jovem Brad Braden (Charlton Heston), que anda cheio de problemas. O negócio anda fraco, e para piorar, um empresário inescrupuloso e meio gangster, Mr.Henderson (Lawrence Tierney, 1919-2002) quer comprar o circo abaixo do preço. A namorada de Brad, a trapezista Holly (Betty Hutton, 1921-2007), entende que a preocupação dele é fazer o espetáculo continuar e se consagrar exclusivamente para o trabalho. Entretanto, quando Brad resolve contratar outro trapezista, o astro francês “O Grande Sebastian” (Cornel Wilde, 1915-1989) para substituir Holly no picadeiro central, esta não aceita. 


O ousado e arrogante trapezista Sebastian...
Que sofre uma queda quase fatal, que o deixa com o braço paralisado, acudido por Brad e Buttons.
Angel e o domador Klaus, que tem pela
artista uma paixão não correspondida.
Arrogante e ousado, Sebastian acaba sofrendo uma dramática queda, e Holly fica a balançar o coração por ele e Brad. Toda essa atuação é explorada pela domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame, 1924-1981, em papel destinado a Lucille Ball, que desistiu porque engravidou), que também cobiça Brad. Isso vem a provocar ciúmes no treinador Klaus (Lyle Bettger, 1915-2003).  Este acaba sendo demitido por Brad. Outra trama paralela envolve o palhaço Buttons (James Stewart, 1908-1997), na realidade, um médico que nunca tira sua maquiagem, pois é procurado por um agente do FBI (Henry Wilcoxon, 1905-1984) pelo crime de eutanásia (matou a própria mulher que sofria de uma doença incurável).  


Holly se sente atraída por Sebastian,
mesmo amando Brad.
O terrível desastre de trem onde viajavam
todos os artistas do circo.

Entre os feridos, Brad se encontra em estado
mais grave, e precisará de uma transfusão
de sangue.
Ambas as tramas paralelas tem um fim em comum: um espetacular desastre de trem, justamente o trem que conduz o circo, desastre este provocado pelo ex-adestrador de elefantes Klaus, que tem morte trágica. Este acidente vem a provocar a descoberta da verdadeira identidade do palhaço Buttons, quando se percebe que ele é o único médico para atender os feridos, entre os quais se encontra Brad. 


Sabendo do passado de Buttons, um outrora
médico que matou a esposa por eutanásia e
que esta sendo procurado pelo FBI, Holly
implora ao amigo que salve a vida de Brad.
Na metade da década de 1960, James Stewart voltou a se maquiar como Buttons, em um evento beneficente. Notem atrás do ator o poster do filme A História de Dr. Wassell, filme dirigido por Cecil B.DeMille.

Esta obra de Cecil B.DeMille apresentou um dos grandes desastres de trem em toda a história das telas, somente equiparado à outra superprodução,
A Conquista do Oeste (How The West Was Won), em 1962. Embora o Western dirigido por John Ford, Henry Hathaway, e George Marshall, usou trens reais para as cenas de ação, O Maior Espetáculo da Terra usou de modelos de miniaturas pertencentes ao diretor, hoje um tanto ineficaz, mas para a época foi de impressionar. Como em todos os filmes do diretor, não é a história que conta e sim o espetáculo, e o cineasta conseguiu construir um em 2 horas e 32 minutos de duração, bem ao gosto da típica família americana dos anos de 1950 (o espectador de hoje deve assistir como se transportasse para este tempo. Muitos padrões de moralidade e conduta vieram a desabar, e o público era outro).
O Famoso palhaço norte-americano Emmett Kelly.
Os palhaços Buttons e Emmett.
Buttons fazendo a alegria da criançada.
Foi o último filme que DeMille fez em três tiras de Technicolor. No entanto, em termos de realidade cinematográfica, é uma impressionante nota de rodapé. Uma câmera dirigível de DeMille era do tamanho de uma mesa. O “garoto” Charlton Heston, como era carinhosamente chamado pelo diretor, lembrou o que certa vez DeMille lhe disse: "Você estará realmente empreendendo algo se você fizer um take de rastreamento com um daqueles bebês (as câmeras)".A película é recheada de grandes astros e com artistas de circo de verdade, como o maior palhaço americano Emmett Kelly (1898-1979), e entre os espectadores do circo estão Bing Crosby (1904-1977) e Bob Hope (1903-2003), e no picadeiro, o cowboy Hopalong Cassidy, vivido por William Boyd (1895-1972), amigo pessoal de DeMille.  Enfim, todo o filme é perfeito, graças à direção e a atuação dos atores, principalmente Jimmy Stewart, que como o dramático palhaço faz lembrar uma pintura viva de aquarela, que aparece sempre como uma pincelada de vermelho. 


DeMille e William Boyd, o famoso Hopalong
Cassidy, que aceitou o convite para uma
pequena participação.
O filme em divulgação nas grandes salas
do Rio de Janeiro, na metade dos anos de
1950.


E certamente, DeMille nos legou uma grande obra, um filme sensacional que veio a marcar não somente sua carreira, mas que com o Oscar conquistado por melhor filme, marcou no cineasta uma vitória extraordinária em sua vida. O Maior Espetáculo da Terra pode assim ser definido como arte cinematográfica e como espetáculo. Música de Victor Young (1900-1956). 
FICHA TÉCNICA

O MAIOR ESPETACULO DA TERRA

(THE GREATEST SHOW ON THE EARTH)

Ano de Produção: 1952

País: Estados Unidos

Direção: Cecil B. DeMille

Produção: Cecil B. DeMille e Henry Wilcoxon, para a Paramount.

Argumento: Fredric M. Frank, Theodore St. John, Frank Cavett.

Roteiro: Fredric M. Frank, Barré Lyndon, Theodore St. John.

Fotografia: George Barnes – em Cores

Montagem: Anne Bauchens

Direção de Arte: Hal Pereira e Walter H. Tyler

Figurinos: Edith Head, Dorothy Jeakins, e Miles White

Música: Victor Young

Metragem: 152 minutos

ELENCO

Betty Hutton – Holly

Cornel Wilde – O Grande Sebastian

Charlton Heston – Brad Braden

James Stewart – Palhaço Buttons

Dorothy Lamour – Phyllis

Gloria Grahame – Angel

Henry Wilcoxon – Agente Gregory, FBI

Lyle Bettger – Klaus

Lawrence Tierney – Mr. Henderson

Emmett Kelly – ele mesmo.

John Kellogg – Harry

Frank Wilcox – Médico da trupe

Lillian Albertson – Mãe de Buttons

Julia Faye – Birdie

PARTICIPACOES ESPECIAIS

Bing Crosby, Bob Hope, William Boyd (Hopalong Cassidy), e CECIL B.DeMILLE como narrador.

PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES

13 comentários:

  1. Esse filme é fantástico e sempre revejo, quando posso. Lendo o seu texto, eu me lembrei de uma passagem do filme na biografia de Charlton Heston, que gostaria de compartilhar. Palavras de Charlton Heston:
    Eu estava passando perto os escritórios de DeMille, na Paramount, em passagem para pegar meu voo para Nova York, para fazer uma peça que eu tinha gostado.
    Por acaso, ele estava de pé nos degraus da entrada, conversando com um pessoal dele.
    Eu estava dirigindo um Packard conversível, que tinha comprado do meu pai. Quando ele olhou para mim ao eu passar perto, eu acenei para ele. Ele levantou a mão e acenou. Depois, eu soube que ele se virou para a secretária dele e perguntou, “Quem era aquele?”. Olhando em seu caderno de anotações, a secretária respondeu. “É um jovem ator da Broadway que o Hal Wallis trouxe: Charlton Heston. Ele já fez um filme, Dark City (Cidade Negra). O senhor viu na semana passada e não gostou.”
    “Umm, eu gostei do modo como ele acenou agora pouco. Acho que seria bom conversar com ele sobre o papel do gerente do circo.” E de fato aconteceu. DeMille conversou comigo por uma hora e me deu o papel para “O Maior Espetáculo da Terra”. Um filme que ganhou o prêmio da Academia de Melhor Filme do Ano e arrecadou $40 milhões de dólares, o equivalente hoje a mais de $300 milhões.
    O elenco para o filme era excelente: James Stewart, Betty Hutton, Cornel Wilde, para destacar alguns. Meu papel ,como o gerente do circo, era muito bom, mas o foco do filme era o circo.
    Para completar meu figurino, tivemos que escolher um chapéu, que parecia coisa fácil. Não era, porque foi DeMille quem escolheu. Me chamaram para uma antessala em seu escritório e vi que no chão havia pelo menos uns 50 chapéus Fedora. “O chapéu certo é muito importante,” disse DeMille. “Os sapatos não fazem muita diferença... geralmente, ninguém vê. Mas se você usa um chapéu, ele vai estar em cada cena e filmado em cada close-up. Ele acabou achando o que mais agradou. Chapéus são importantes, sapatos não, especialmente em filmes de época. Jimmy Stewart usava sempre o mesmo chapéu em todos os faroestes que ele fez.
    A primeira cena que eu filmei foi com James Stewart em um Jeep até a tenda maior do circo, onde os acrobatas ensaiavam. Na primeira tomada de cena (a primeira que eu fiz com DeMille), eu saltei, mas tropecei em alguma coisa e cai de cara no chão no centro do ringue. Ao me levantar, chateado, DeMille disse, “Eu acho que temos de tentar de novo. Não foi bem a entrada que eu tinha em mente.”
    DeMille tinha a fama de ser devorador de pessoas. Mas eu nunca vi ele fazer isso com os atores. Pelo seguinte, ele sabia muito bem que um ator irritado com um diretor, ou mesmo com medo dele, provavelmente não daria o seu melhor desempenho. Se Betty Hutton estivesse atrasada, como sempre estava no começo das filmagens, ele era simpático com ela, mas brigava com o pessoal da maquiagem, cabelos e figurino. Ele nunca gritava, nunca xingava, mas ele sempre fazia ser entendido. A equipe de Betty ficava vermelha e quietinha , mas Betty sabia que era ela quem não estava sendo responsável. Ela entendeu a mensagem. Trabalhando para ele, com um ator como James Stewart , era um curso básico de profissionalismo. Como Spencer Tracy falava: “Chegue na hora, saiba dizer as suas frases e não esbarre nos móveis.”
    O filme foi um grande sucesso. Eu ganhei um grande impulso em minha carreira. Quando eu fui ao seu escritório, para dar-lhe os parabéns pelo Oscar, ele disse, “Chuck, você ganhou vários elogios pelo filme, mas tem um que quero ler para você, que pode ter sido o melhor elogio que vai conseguir na vida.”
    Então, ele leu uma carta de um homem que tinha ficado encantado com o filme. DeMille tinha captado perfeitamente o espírito do circo. O elenco esteve maravilhoso, especialmente James Stewart como o palhaço. Betty Hutton nunca esteve melhor, assim como Cornel Wilde. “E eu fiquei impressionado”, concluiu a pessoa, em como o gerente do circo trabalhou tão bem, junto com os atores de verdade.”

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    1. Saudações Val!

      Contar sobre um filme como O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA não é nada fácil, porque por trás dos bastidores sempre há fatos que podem render diversos livros, que nem todas as bibliotecas de cinema no mundo são capazes de comportar tanto peso em suas prateleiras.

      DeMille não gostava de filmes “noir”, o que pode explicar porque não gostou de CIDADE NEGRA (1950), que foi justamente a estreia de Charlton Heston em Hollywood. Mas gostou da presença de espírito do jovem ator, e depois de escala-lo bem para o papel do jovem gerente do circo, tudo foi de extremo profissionalismo e confiança entre ator e diretor.

      Existem várias histórias como DeMille tratava seus atores, mas em termos humanitários, acredita-se que ele considerava melhor os atores do que John Ford, que embora também tivesse sua companhia de atores (Ward Bond, Ana Lee, Carleton Young, Andy Devine, e claro, Victor Mclaglen e John Wayne) e até os tivesse em amizade, ele podia ser muito maldoso e sacana às vezes. Ford mesmo já cansou de maltratar John Wayne. Com DeMille, não.

      Nem com um dos atores mais problemáticos com quem teve que dirigir, que foi Victor Mature em SANSÃOE DALILA (1949), o diretor se demonstrou desumano. Entretanto, existe um fato (não confirmado) entre DeMille e Vic durante as filmagens deste clássico. Na cena em que Sansão luta com os filisteus, o vento forte vindo daqueles enormes ventiladores assustou Mature, que prontamente saiu das filmagens e correu para o camarim, e isso porque o ator sofria constantemente de fobias (inclusive de cavalos). DeMille alertou Mature na frente de todos com um microfone na mão, para todos do set escutarem. Contudo essa história não é confirmada, passando-se entre tantas lendas por trás de inúmeros bastidores.

      DeMille e Heston se tornaram admiradores recíprocos, e o cineasta acabou por escolhe-lo como Moisés em OS DEZ MANDAMENTOS (1956) pelo ator ser um homem correto e de família. Em sua autobiografia, DeMille dedicou algumas linhas sobre o ator e que se resolvesse refilmar O REI DOS REIS, seu grande sucesso de 1926 ainda na fase silent do cinema estrelado por H. B. Warner como Jesus, que Charlton Heston seria o ator ideal para interpretar Cristo. Contudo, não deu tempo, e mesmo porque, pouco depois Heston faria um contemporâneo de Cristo, Judah Ben-Hur no clássico campeão de William Wyler, e seria João Batista em A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS (1965), de George Stevens.

      Do elenco principal, Charlton Heston teve uma carreira prolífica como bem sabemos. Cornel Wilde resolveu estrelar e dirigir filmes com sua esposa, a bela Jean Wallace, cuja melhor fita do casal é LANCELOT, O PRIMEIRO CAVALEIRO, que Wilde dirigiu. Nos anos de 1970, a carreira de Wilde já decaíra e ele já havia se separado de Jean, mas realizou vários trabalhos para a TV. Já Betty Hutton, depois desta obra de DeMille, não conseguiu mais bons papéis no cinema e foi para a televisão. Na década de 1960 ela já não conseguia mais trabalhos e foi trabalhar como cozinheira e empregada numa casa paroquial (ela era católica). Seu último trabalho foi participando num episódio da série de TV BARETTA, em 1977, e veio a falecer 30 anos depois, em 2007.

      Obrigado por estas informações, Val! Uma ótima semana.

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  2. Saudações grande Paulo.Como vai? Revi esse clássico um mês atrás, quando soube que o gigantesco Ringling Bros anunciou o fechamento de suas portas a partir de maio. Sempre é muito bom visitar seu blog, e ler essa reportagem foi um prazer. Parabéns pelo ótimo texto. Grande abraço!

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    1. Olá Jefferson, quanto tempo, rapaz!!! Eu não sabia que este circo que deu tantas graças esta com seus dias contados. Realmente é uma pena saber, e cheguei a pensar que já não existia. Prazer em tê-lo aqui. Abraço do diretor.

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  3. Telles,

    Somente quem conheceu ou frequentou verdadeiramente o Espetáculo de Um Grande Circo, como eu em diversas ocasiões, pode avaliar a grandiosidade de tudo o que acabei de rever há 20 minutos.

    Não existe isso de ficar pondo que o Mille errou aqui, pecou nisso, criou situações demais, fez um triangulo amoroso desnecessário e tudo o mais. O que importa é a verdade de se assistir, deveras, ao O Maior Espetáculo da Terra, porque ele, o filme, mesmo com todos os erros que colocam determinados críticos ou seja lá quem for, ele é mesmo O Maior Espetáculo da Terra, é belo, é bem feito, é bem fotografado, tem uma cor sensacional, é divertido, é alegre, tem interpretações acima do que esperava, como a Betty, e tudo mais. Vejo-o assim.

    Gente: dentro de um circo com uma dimensão daquela, nada do que Mille mostrou é impossível de ocorrer. Nada. E até tem possibilidades de muito mais que o Mille mostrou.

    Apenas como observação, eu já coordenei cargos de Chefia em um Setor da Petrobras. E quem não conhece algo assim não faz ideia o que é lidar com gente! Cada qual com seus problemas particulares, suas desavenças, suas ganancias, seus egos e etc, porque aquilo ali, o Circo, não passa de uma grande Empresa sujeita a todo tipo de situações. Não há diferença.

    No entanto, o que vale verdadeiramente na hora das dificuldades, como aquele acidente,é o AMOR que observamos todos sentirem pelo que fazem. Um amor tão grande e sincero que chegamos a ter inveja de não sermos ou termos sido trabalhadores, na vida real, vestindo a camisa de suas Empresas como aqueles ali vestem. Claro que não o que cito não é uma regra geral, mas que amor igual por tudo aquilo ali eu nunca vi. E sem cara feia ou resmungos.


    Uma beleza de filme, que deve ter dado um trabalho dos infernos ao Diretor e Equipe, tendo de filmar cenas com astros principais e cenas simultâneas com os verdadeiros artistas do circo.

    A Betty, que acho ter sido o único filme que vi com a mesma é perfeita, doada, entregue e faz muitos números de verdade. Como falaste, ela treinou muito para isso.
    O Wilde, ator que era um dos meus heróis, tinha 40 anos, esteve e estava muito bem.
    O Heston, ainda com 29, fez quase que acima de perfeito seu papel. Nasceu para brilhar.
    A Lamour que há tempos não via ali estava com seus 38 anos e ainda uma mulher bonita.
    O Jimmy, com 44, deve ter feito logo depois E o Sangue Semeou a Terra/53, do Mann. E o dono e maestro de tudo aquilo, Sr. Mille, já estava com 71. E este filme lhe deu muito trabalho, como não podemos negar depois de ver todo o espetáculo que nos presenteou.

    Amei ter de rever a fita para dizer algo dela. E neste filme não existe mal algum que precise justificar para uma critica negativa. O filme é todo ESPETÁCULO.

    jurandir_lima@bol.com.br


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    1. Amigo Ju!

      Vc fez aqui uma comparação verdadeira entre O CIRCO E A VIDA, ao fazer menção de seu cargo de chefia na Petrobrás. Ou seja: quem é chefe como o Brad Bailay (Heston) que tem uma imensa responsabilidade pelas costas, tendo que bater de frente até com a namorada trapezista (meia que egocêntrica) como a Holly (Betty Hutton) e com outros demais artistas com personalidades diferentes não é tarefa mole. Ser chefe é uma arte, e não é para todos.

      Parabéns por sua dissertação, amigo. Tudo isso é o MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA.

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  4. Valdemir,

    Acho que já nos falamos mais até que uma vez. O que ocorre é que sou rato de bastidores, adoro saber tudo que ocorreu e etc.

    O que narras não se trata de um bastidor de uma fita, porém ao mesmo tempo o é, porque tu falas da linda Betty, fala do Heston trabalhar com o monstro Jimmy e até cita orientações de um dos maiores astros do cinema, o Tracy. Adorava seu trabalho.

    Agora veja como não deve ter ficado o Heston em sua primeira cena rodada com o diretor, que todos diziam ser fera. Pobre do Heston! Posso imaginar como ele se sentia.

    E eis que calmamente ele ouve, " eu acho que vamos ter de tentar de novo. Não foi bem o que eu tinha em mente" Magnifico momento para um ator que deveria estar desesperado, envergonhado e tudo mais.

    Muito cavalheirismo do Grande De Mille.

    Uma delicia de narrativa o que contas a partir do aceno do Heston ao passar pelo Mille, assim como todo o demais deserolar. E tenho certeza que foi dali que ele ganhou o papel de Moises, assim como o que fez em The Big Country o levou ao seu maior sucesso na vida cinematográfica, que foi Ben Hur.

    Andei sabendo que algum diretor, que não sei o nome, falou do Heston para o Willer. Não sei de verddde quem. E se souber fala para o bahiano, que sente-se muito feliz por ter acabado de ler tão importante passagem nas vidas do Heston e do Mille.

    Por favor amigo. Sempre que for por seus comentários, nunca esqueça de aderir novidades com estes toque que são um verdadeiro presente para nós cinéfilos.

    Grande abraço

    jurandir_lima@bol.com.br

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  5. Telles,

    Mesmo sem falar de bastidores, falar deste filme como se gostaria de fazer, como eu, sairia daqui meio romance.

    Não conheço Cidade Negra. Mas vou à Internet cata-lo.
    E sobre o De Mille, não dá de cara para caracteriza-lo como um brutamontes, um mal educado ou mesmo um homem sem qualidade para tratar seus empregados. Nunca consegui captar no mesmo tais qualidades negativas.

    Vê-se isso em Crepúsculo dos Deuses/50, quando ele trata Gloria Swanson com toda aquela compreensão, atenção, carinho e uma paciência ilimitada. O mesmo fez com o Heston quando falou o dito pelo amigo Valdemir quando da queda do astro. Mas, existe tempo para tudo e até mesmo para um desabafo, porque ele é humano como nós.

    O Mature era um homem cheio de fobias. E isto tem de ser compreendido e respeitado porque eu considero isto uma doença. Eu, não posso nem ouvir falar no nome lagarta. Já fico suando, tremendo e corro para o outro lado. Isso é um fato que ocorre com todo mundo! E porque o simpático Vitor seria diferente. Observe-se e a alguns amigos ou amigas suas e veja se eles não têm alguma fobia. É isso amigo. E o Mille deve ter compreendido isso.

    O De Mille passou a amar o Heston porque ele mesmo, o Mille, era um homem correto, católico ao extremo e apanhou estes detalhes no jovem ator, que era também deste modo.

    Foi uma bela conversa que tiveste com o merecedor Valdemir, de quem passei a saber coisas que jamais conheceria sem aqueles informes belissimos e interessantes que nos passou.

    Sobre o Wilde, que eu amava como ao Douglas, Lancaster, Copper e todos daquela época, vi inúmeros filmes com ele (14 filmes), onde se percebia que ele explorava por demais sua beleza física, mas era um muito bom ator, e casou-se com a bonita loira Jean Wallace, com quem fez alguns filmes, como O Trampolim do Diabo/57, Fogo em Maracaibo/58 dentre muitos outros mais.

    Não conheço Lancelot, O Primeiro Cavaleiro. Acho que este titulo foi dado ao filme do Richarg Gere com a Ormond e o Connery. Mas tenho aqui nos meus ALFARRÁBIOS um filme dele com o titulo Lancelot, O Cavaleiro de Ferro. Não sei se é o mesmo e nem me lembro de absolutamente nada dele. Rsrsrsrsrs - Salve minhas antigas anotações!!!

    Finalizando, bela resposta endereçada ao comentário do Valdemir e que me induziu a participar do mesmo com muita alegria e coisa que agora vou espalhar com alguns amantes de cinemas, mas que não sabem dessa.

    A coisa é: UNS ENSINANDO AOS OUTROS. E assim vamos avolumando nossos conhecimentos.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. BAIANO!!!

      Amigo, como todo ser humano (e nenhum deles é computador, vc bem sabe), posso dizer que confundi por um momento o título de dois grandes filmes com temáticas parecidas. Realmente, o filme que me referi com Cornel Wilde é LANCELOT – O CAVALEIRO DE FERRO, que ele mesmo dirigiu e estrelou com a mulher Jean Wallace. LANCELOT, O PRIMEIRO CAVALEIRO, foi estrelado por Sean Connery e Richard Gere. De fato, agradeço de imenso pela correção.

      Quanto à DeMille ainda:

      Não creio que o cineasta fosse católico, mas como os americanos em geral ele deveria ser de formação protestante ou presbiteriana. Não sei ao certo, mas de acordo com suas convicções, ele respeitava o Cristianismo em qualquer um de seus segmentos, tanto que quando realizou O REI DOS REIS, com H.B.Warner em 1926, ele promoveu um clima de retiro religioso nas filmagens, quando chamou um padre católico para celebrar missas antes de fazer qualquer rodagem.

      Humanamente falando sobre este grande cineasta, é bem provável que ele interpretou ele mesmo do jeito que era em CREPÚSCULO DOS DEUSES. Um profissional querido e humano, mas ao mesmo tempo, severo em sua profissão. DeMille deveria sim ter seus defeitos (e não poucos), mas afinal, quem não os tem? Se tivéssemos que julgar apenas por isso não haveria mais ninguém para legar a posteridade sua arte.

      O editor.

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  6. Telles,

    Menino, Telles: e é este o ponto culminante da questão. Se o dono de seu rebanho não estiver à frente dele dirigindo-o, orientando-o e tudo o mais, a VACA vai pro brejo.

    E era o que o grande homem do cinema fazia. Dar um esporro, fazer uma reclamação, falar um pouco mais alto ou coisas assim, somente faz engrandecer o papel do castigado, pois os gritos e reclames somente foram para seu bem e para que tudo saísse conforme a cabeça Mágica do Mestre De Mille já tinha desenhado. E os resultados sempre eram perfeitos!

    Quanto à sua religião eu dei aquele toque de catolicismo porque já lera algo sobre sua fé e que a resgatava em dezenas de filmes do gênero. Andei olhando sua filmografia e lá estavam diversos títulos de filmes tirados de Testamentos, onde se inclui aí os dois DEZ Mandamentos, Rei dos Reis e mais uma porrada de filmes, que devem ser todos belos.

    Como é bom e delicioso falar de cinema, não? Se me der corda eu fico aqui falando e falando até não aguentar mais. Mas...quem manda a SENSACIONAL ARTE SE ENCARNAR EM NOSSOS CORAÇÕES?

    Abraço a ti, ao Valdemir e aos demais seguidores deste blog por tudo que nós ficamos conhecendo quando eles nos abrem suas cartilhas de sabedoria!

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Ju!

      DeMille foi um cineasta extraordinário, sem dúvidas. Mas no quesito da religião, não devemos ser ingênuos, pois sabemos que este grande diretor usou a Bíblia para arrecadar o MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DE BILHETERIAS. Há quem diga que nunca e nem depois dele alguém soube ser ao mesmo tempo sagrado e profano. Ousou mesmo desafiar a Igreja Católica quando realizou O REI DOS REIS, tendo H. B. Warner como Jesus, pois havia uma regra (hoje um tanto sem sentido) que não se deveria apresentar o rosto de Cristo no cinema. Assim o cineasta justificou: "Jamais filmei a figura de Deus por questão de respeito. Como Deus esta fora de cogitação, me contentei com seu filho unigênito, Jesus Cristo". DeMille era austero e levava a sério sua profissão, mesmo que obrigasse os atores e toda a equipe técnica a assistir as missas celebradas todas as manhãs antes de iniciar as filmagens, e para que garantisse que nada desse errado, chegou a pagar a uma mulher para que deixasse o astro filme e intérprete de Cristo em paz. Motivo? ah sim...B. Warner se envolveu com essa mulher e ela ameaçou o ator com um escândalo, que não foi levado adiante.

      Seja sempre bem vindo nobre baiano!!!

      Abraços do editor carioca!

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  7. Telles,

    Primeiro me perdoe por te chamar de Eugenio em um ou dois tópicos. Podes alterar isso na edição, não? Se não, saiba me perdoar. É que estou devendo ao Eugenio uma cacetada de comentários e fico me preocupando com isso.

    Olha; sobre esta novidade que me passas eu não tenho nada a dizer. Afinal, também nunca li nada de sério sobre o Mille e nem soube de nada destas novidades. Fica então como o amigo, que tem mais conhecimento que eu, dar a ultima palavra.

    Mais uma vez perdoa o bahiano por trocar os nomes.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Olá meu nobre baiano!!!

      Pois é meu velho!!! Eu vi! Já cheguei a pensar que vc tomou itinerário errado, mas o nosso querido amigo Eugenio também merece a nossa preferência, não acha?

      Quanto aos adendos fatos sobre o grande cineasta DeMille, ficou a título de curiosidade. Nada mais!

      Forte abraço!

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