sábado, 29 de outubro de 2016

Amarga Esperança (1948): Nicholas Ray estreia em sua quintessência cinematográfica.



Amarga Esperança (They Live be Night), produzido em 1948, se resumiu para muitos críticos como a quintessência da arte de Nicholas Ray (1911-1979), o cineasta das paixões crepusculares e da juventude desajustada e incompreendida, que fez aqui sua estreia como diretor, onde a fita em tópico prefigura com sua obra mais famosa, Juventude Transviada, de 1956.

O Cineasta Nicholas Ray (1911-1979) - Diretor de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Farley Granger e Cathy O' Donnell, o par romântico e dramático
de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Em 1947, o produtor Dory Schary (1905-1980), então na chefia dos estúdios da RKO, decidiu dar chance a novos diretores com filmes de baixo orçamento, e por sugestão de outro produtor, John Houseman (1902-1988), que era amigo de Nicholas Ray, convidou este para levar a tela o romance escrito em 1943 por Edward Anderson (1905-1969), intitulado Thieves Like Us. Ray dirigiu Amarga Esperança em apenas sete semanas.

Lobby Card de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Entretanto, em 1948, o magnata Howard Hughes (1905-1976) comprou a RKO e engavetou o filme de Ray por dois anos depois de pronto, lançando somente a 5 de novembro de 1949, quando já haviam sido exibidos nos cinemas duas outras obras do cineasta: A Vida íntima de uma Mulher, de 1948, e O Crime Não Compensa, de 1949. 

Bowie (Farley Granger) e Keechie (Cathy O' Donnell). O
desespero de dois jovens que se amam.
Como geralmente acontece com algumas obras primas da Sétima Arte, Amarga Esperança teve seu mérito reconhecido como tal anos depois. Quando lançado em sua época, era considerado um filme policial Classe B. Mas com análise aprofundada, o primeiro filme de Nicholas Ray teve seu reconhecimento como clássico filme noir hollywoodiano, com síntese depurada de toda obra cinematográfica do diretor.

Bowie e Keechie
Um jovem casal que tem um mundo a enfrentar.
Amarga Esperança tem seu prólogo com uma inusitada cena, bem incomum, mas que funciona bem como forma de situar a trama. Ray abre o filme com um rápido plano dos dois amantes, onde aparece a seguinte legenda: “Este rapaz e esta garota ainda não foram realmente apresentados ao mundo”. O clima lúdico da cena e a frase que a acompanha deixam claro que Ray tem o objetivo de mostrar como o mundo pode ser um lugar cruel e opressivo, capaz de destruir sonhos e esperanças de felicidade, sobretudo quando se trata de dois jovens namorados. A partir daí, toda a desenvoltura da história esta prestes a ser apresentada. 

T-Dub (Jay C. Flippen), Bowie (Farley Granger) e Chickamaw
(Howard Da Silva). Três fugitivos da penitenciária do Mississipi.
Os três fugitivos já rendem uma vítima.


Com uma narração chiaroscuro  e clima de fatalismo, estampa a caçada policial de três fugitivos de uma penitenciária do Mississipi, e são eles: Bowie (Farley Granger, 1925-2011), Chickamaw (Howard Da Silva, 1909-1986), e T-Dub (Jay C. Flippen, 1899-1971). Bowie reencontra a namorada Keechie (Cathy O’ Donnell, 1923-1970), e o jovem casal se opõe a uma sociedade hostil em um amor sem ilusões. E é exatamente nesse sentido que o filme tem seus méritos. Ray é extremamente hábil na construção da atmosfera de desespero na qual o casal se encontra. A utilização da noite como prisão e, ao mesmo tempo, única condição na qual os personagens se sentem confortáveis é de uma eficácia inegável.

Keechie e Bowie: a utilização da noite como prisão, sendo 
a única condição na qual os personagens se sentem em liberdade.
Keechie e o trio de fugitivos.


O tema é constantemente arquitetado, tanto pela câmera de Ray quanto pelos diálogos, fazendo com que o próprio espectador sinta-se inseguro quando o casal está em plena luz do dia. A sensação é a de que o mundo construiu para Bowie e Keechie uma emboscada da qual eles não conseguem sair. As tomadas aéreas de helicópteros (uma inovação para o cinema até então) ainda colaboram para a criação desse clima, reforçando a ideia de que se trata de uma história de fuga, não de amor. O toque fotográfico de George E. Diskant (1907–1965) e a trilha sonora de Leigh Harline (1907-1969) dão mais brilho ao espetáculo. 

Bowie e Keechie, em um momento de paz.
Keechie e Bowie: um jovem casal que se ama
Nesse sentido, é possível notar o tom autoral que desenrola toda a fita. Nick Ray apresenta em Amarga Esperança o ponto de partida para alguns temas que seriam bem característicos em sua filmografia: além do clima noir, destaca-se um olhar de ternura para os personagens centrais que vivem à margem da sociedade. Bowie, em sua essência, não é uma pessoa ruim, ainda que seja visto assim pelas pessoas. Ray trata-o exatamente dessa forma, como se Bowie tentasse se encaixar no ambiente que o cerca para viver uma vida normal, mas sendo constantemente repelido por seus esforços, e o mesmo acontece com sua amada Keechie.

A ação é violenta por parte do trio de fugitivos.
Bowie, na esperança de se unir a mulher que ama.
A partir daí, nasceu à preferência do diretor por personagens amargurados, perdidos, que não conseguem encontrar seu lugar na sociedade. Ele fez isso com protagonistas vividos por grandes atores em outras obras por ele assinado. Basta vermos o policial amargo e estressado vivido por Robert Ryan em Cinzas que Queimam (1951), que não aceitava ser marginalizado em sua profissão pela sociedade; ou ainda o roteirista iconoclasta e violento vivido por Humphrey Bogart que prezava mais seu ego artístico do que viver sob as regras sociais em No Silêncio da Noite (1950). 

Mas o jovem casal anda sempre em fuga.
Bowie sendo ameaçado por Chickamaw
Deste modo, Nicholas Ray situa seus personagens em um mundo a parte, comunicando na pureza dessa relação amorosa de dois seres perdidos nas trevas da noite – Bowie um fugitivo da lei, e Keechie, a filha de um alcoólatra – uma romântica indignação social. E se coloca ao lado da poética solidão e da dignidade de seus sentimentos, que o meio circundante ameaçador quer destruir com suas regras petrificadas e desumanas.

O trio de fugitivos tem como aliada Mattie, vivida por Helen Craig
Keechie e Bowie, tentando fugir da lei
Amarga Esperança, apesar de um bom filme, sobrevive até hoje graças à curiosidade de ser o trabalho de estreia de Nicholas Ray. É uma obra bem construída e com diversos valores, ainda que a trama em si tenha sido prejudicada pela ação do tempo. Mas aqui é o momento no qual o cineasta coloca em celuloide, pela primeira vez, sua visão de mundo que se faria presente em toda a filmografia e o faria entrar para o rol dos maiores cineastas de todos os tempos. Um ponto de partida curioso para uma das carreiras mais prolíferas não somente em Hollywood como também em todo o cinema internacional.

AMARGA ESPERANÇA de 1948. Um clássico de Nicholas Ray 
Sem deixar pontos de similaridade com Vive-se só Uma Vez (1937), dirigido por Fritz Lang, onde outro inocente (vivido por Henry Fonda) parecia vencido por um trágico destino e uma sociedade injusta – Amarga Esperança é uma criação fundamental de Nicholas Ray, que segue aqui suas mais absolutas características compostas por grande parte de seu trabalho. A defesa da juventude desajustada, a convicção que nesta vida o amor e o lirismo são impossíveis, e finalmente um desesperado cântico para dois amantes que não pertencem a este mundo, existente no silêncio da noite, símbolo da morte inelutável. Assim é o cinema de Nicholas Ray. Assim é Amarga Esperança

Matéria dedicada em memória do Irmão
DANTE MONTEIRO PEREIRA


FICHA TÉCNICA

AMARGA ESPERANÇA
(They Live by Night)
Ano de Produção: 1948

Gênero: Policial

País: Estados Unidos

Direção: Nicholas Ray

Produção: John Houseman e Dory Schary – para a RKO

Roteiro: Charles Schnee, Nicholas Ray (adaptação) e Edward Anderson (romance original).

Música: Leigh Harline.

Fotografia: George E. Diskant (em Preto & Branco)

Metragem: 95 minutos.

ELENCO
Cathy O’ Donnel – Keech
Farley Granger – Bowie
Howard Da Silva – Chickamaw
Jay C. Flippen – T-Dub
Helen Craig – Mattie
Will Wright – Mobley
Ian Wolfe – Hawkins
William Phipps – Jovem Farmer
Harry Harver – Hagenheimer
James Nolan – Schreiber

PRODUÇÃO E PESQUISA DE PAULO TELLES

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