domingo, 9 de outubro de 2016

As Sete Caras do Dr. Lao (1964): Fantasia com Mistura de Faroeste, e Tony Randall em Sete Papéis.


Em celebração pela passagem do dia das crianças, que ocorrerá na próxima quarta feira, dia 12 de outubro, nada me deu mais lembrança que um filme que assisti tantas vezes desde meus oito ou nove anos de idade. A princípio, não pude compreender com exatidão muito dos significados que a fita queria expressar, mas com as devidas reprises ao longo dos anos poderia compreender o quanto que As Sete Caras do Dr. Lao (7 Faces of Dr. Lao, 1964) era uma obra simplicista, mas de entendimento individual (mais filosófico do que moral), de como o ser humano poderia conhecer a si próprio apesar de todas as dificuldades de se discernir. Afinal, em vez de milagres, que exigem fé e sentimento, algo tão escasso nos nossos dias, na resenha aqui em apresentação se observa a humanidade e seus erros clamando por um benfeitor homem de circo. Como? Sim, e pelo visto não é qualquer homem de circo. O circo nada mais é do que a vida e o mundo em que vivemos, sendo todos nós artistas, trapezistas, malabaristas, palhaços, num show de obstáculos que estão sempre a nos desafiar no cotidiano da existência.


O Diretor George Pal (1908-1980)
George Pal ao lado do "Abominável Homem das Neves"
Este Homem de Circo precisa ser indispensavelmente, um sábio, filósofo, e de preferência, chinês. E mais ainda: ele precisa ser um mágico capaz do impossível. Entretanto, se deduz que o mundo prosseguirá do mesmo curso, mesmo tendo um mágico com todas estas qualificações, porque não existem mágicos capazes de transformar “temíveis tubarões em angelicais sardinhas”.  Mas a magia do cinema é capaz desta façanha, e somente a Sétima Arte para ter este poder de execução. As Sete Caras do Dr. Lao (nos cinemas brasileiros foi exibido em fevereiro de 1965 com o título As Sete Faces do Dr. Lao – “caras” é título em exibição na TV) foi o último filme dirigido por George Pal (1908-1980), produtor de diversos espetáculos sustentados por recursos de animação e trucagem. Pal ainda recebeu o Oscar de melhores efeitos especiais por Destino à lua/1950, O Fim do Mundo/1951, Guerra dos Mundos/1953, O Pequeno Polegar/1958, e A Maquina do Tempo/1960.


O estranho e místico chinês Dr. Lao (Tony Randall) chega a um vilarejo do Velho Oeste.
Dr. Lao e seu circo de atrações.
O misterioso Dr. Lao pede a um jornal para divulgar seu circo
Nossa história começa no fim do século XIX, num vilarejo do Velho Oeste, Abalone, no Arizona, dominado por um poderoso latifundiário, Clint Stark (Arthur O’ Connell, 1908-1981). Chega a este vilarejo um estranho oriental, o misterioso e místico Dr. Lao (Tony Randall, 1920-2004), que ali passa a apresentar seu circo ambulante – um bizarro espetáculo com criaturas mitológicas, como o mago Merlin, a Medusa, o cego vidente Apolônio de Tiana, Pan- o Deus da Alegria, uma Serpente Gigante que visa refletir as imperfeições das pessoas, e claro, o Abominável Homem das Neves (todos eles interpretados de modo magnífico por Randall, sendo que o ator impressiona mais como Apolônio).


O inescrupuloso latifundiário Clint Stark (Arthur O' Connell)
O editor do jornal do vilarejo, Ed Cunninghan (John Ericson),
inimigo de Clint Stark.
Clint Stark (Arthur O' Connell) em "caloroso" debate com
Ed Cunningham (John Ericson)
Dr. Lao acaba usando seus personagens para mudar a vida das pessoas, fazendo com que vejam a verdade e com que enxerguem melhor seus problemas, induzindo cada morador do vilarejo a melhor conhecer a si mesmo. Pan e sua flauta mágica hipnotizam a bibliotecária viúva Angela Benedict (Barbara Eden) fazendo com que ela descubra o valor do amor e desperte seus desejos escondidos pelo homem que ama, o jornalista Ed Cunningham (John Ericson, que também personifica Pan no momento da transformação). Aliás, é Cunningham, editor de um pequeno jornal local, o único com coragem para desafiar a prepotência de Stark e de seus ridículos capangas, Carey (Royal Dano, 1922-1994) e Lucas (John Doucette, 1921-1994), porque o latifundiário, por modos escusos, quer vender a pequena Abalone para instalar uma estrada de ferro, enquanto a terra é barata. 


A bibliotecária Angela (Barbara Eden) seduzida pelo deus Pan (na
caracterização de John Ericson).
Angela Benedict (Barbara Eden) deixando soltar seus desejos reprimidos.
O Deus da Alegria Pan, uma das "Sete faces do Dr. Lao", na
caracterização de Tony Randall
A Medusa testa a incredulidade da Senhora Kate Lindquist (Minerva Urecal, 1894-1966) que insiste em não olhá-la pelo espelho e acaba se transformando em pedra; com a Serpente, Dr. Lao toca em verdades secretas demais para o vilão Clint Stark , que se acha poderoso e intocável.  O adivinho Apolônio toca na parte mais triste da solteirona fútil Howard Cassin (Lee Patrick, 1902-1981). Entretanto, nada mais é impressionante do que a amizade que nutre entre o menino Mike Benedict (Kevin Tate), filho de Angela, e o misterioso sábio oriental, que confessa a ele que tem 7.322 anos. 


Dr. Lao (Tony Randall) faz amizade com o menino Mike (Kevin Tate)
Dr. Lao começa a espalhar cartazes pela pequena cidade
anunciando o seu circo.
Tony Randall como Apolônio de Tiana, uma das "Sete caras do Dr. Lao", e uma das mais expressivas das sete caracterizações do ator.
Mike se deixa fascinar pelas mágicas de Merlin, o famoso mago da côrte do Rei Arthur, mesmo que ele algumas vezes falhe em seus números.Não demora e o menino quer também fazer parte do espetáculo. Chega até mesmo a fazer perante o misterioso chinês alguns truques e malabarismos, mas em vez de aceitar Mike, Dr. Lao oferece conselhos e observações sobre o mundo. O garoto não entende as palavras de sabedoria do mágico chinês, e este acaba afirmando que também não.  É daí que parte uma das citações mais memoráveis da fita, quando Dr. Lao explica para Mike que o mundo já é um circo:

"O mundo todo é um circo. Quando olhamos para um punhado de areia e vemos mais do que areia, vemos um mistério, o circo do Dr. Lao estará lá."


O Dr. Lao abre o seu circo para o público.
Dr. Lao, apesar de simpático, também conquista inimigos, como
os capangas de Clint Stark: Carey (Royal Dano) e Lucas (John Doucette)
Tony Randall, no meio da plateia, como ele mesmo.
Todas as “sete caras” são empregadas de acordo com o desarranjo moral de cada habitante do vilarejo.  Abalone é uma cidade pequena, mas capaz de comportar todos os tipos de “males espirituais” representativos do lado cínico e hipócrita da humanidade. Com seus dedos mágicos, o fascinante Dr. Lao, talvez numa alusão a Cristo, de maneira que sobrenatural vai colocando amor onde faz falta, altruísmo onde existem ganância, e esperança onde não existe fé. Seria sem dúvida um santo a maneira como bem entendemos, se não fosse um velho mágico chinês de sete milênios. 


A MEDUSA - Uma das atrações do circo, na caracterização de Tony Randall
A SERPENTE GIGANTE: Nas feições de Arthur O' Connel, mas dublada
por Tony Randall.
O MAGO MERLIN - Uma das grandes  atrações do circo direto da
Côrte do Rei Arthur, na interpretação de Tony Randall).
Baseado no romance O Circo do Dr. Lao (The Circus of Dr. Lao), de autoria de Charles G. Finney (1905-1984) e publicado em 1935, As Sete Caras do Dr. Lao tem o roteiro de Charles Beaumont (1929-1967), tendo ainda a colaboração (não creditada) de Ben Hecht (1894-1964). A trilha foi composta por Leigh Harline (1907–1969). As Sete Caras do Dr. Lao ainda conquistou um Oscar especial pelo primoroso trabalho de maquiagem de William Tuttle (1912-2007). Vale ainda destacar a fotografia de Robert J. Bronner (1907–1969).


O maquiador William Tuttle trabalhando na maquiagem de Randall,
postos a entrar em cena para ser Pan.
As Sete Faces de Tony Randall
O Fabuloso e mágico Dr. Lao.
A preocupação da historia é mostrar que o ser humano às vezes pode ter suas percepções meio distorcidas, podendo estar preparados para acreditar em criaturas bizarras, mas são incapazes de ver e sentir os bons valores que fazem de uma sociedade ordeira e equilibrada, seja pelos costumes e cultura, o que nenhum dinheiro paga. Afinal, um enredo onde predominam poesia, puerilidade, mitologia, filosofia, fantasia, e até pitada de faroeste, se levar em conta que a trama se passa em um vilarejo do Velho Oeste e todos estão caracterizados ao estilo. Este é o fantástico circo do Dr. Lao.  


O Circo do Dr. Lao é a própria vida, e tudo nele é uma maravilha”.


Divulgação da estreia do filme em um jornal carioca, em
fevereiro de 1965.
FICHA TÉCNICA

AS SETE CARAS DO DR. LAO
(7 Faces of Dr. Lao)

PAÍS – ESTADOS UNIDOS
ANO -  1964
GÊNERO - FANTASIA/INFANTIL
DIREÇÃO - GEORGE PAL
PRODUÇÃO - GEORGE PAL
ROTEIRO- CHARLES BEAUMONT, com base no livro de CHARLES G. FINNEY
MÚSICA – LEIGH HARLINE
FOTOGRAFIA – ROBERT J. BRONNER - EM CORES
METRAGEM: 100 MINUTOS
“O Circo do Dr. Lao é a própria vida, e tudo nele é uma maravilha”.
ELENCO

TONY RANDALL – DR. LAO/ MEDUSA/ ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES/MERLIN O MÁGICO/APOLÔNIO DE TIANA/ PAN/ A SERPENTE GIGANTE (VOZ)

BARBARA EDEN – ANGELA BENEDICT
ARTHUR O’ CONNELL – CLINT STARK
JOHN ERICSON – ED CUNNINGHAM/ PAN TRANSFORMADO
NOAH BEERY JR – TIM MITCHELL
LEE PATRICK – SENHORA HOWARD CASSIN
MINERVA URECAL – KATE LINDQUIST
JOHN QUALEN – LUTHER LINDQUIST
ROYAL DANO – CAREY
JOHN DOUCETTE – LUCAS
PEGGY REA – SENHORA PETER RAMSEY
FRANK KREIG – PETER HAMSEY
ARGENTINA BRUNETTI – SARAH BENEDICT
EDDIE LITLE SKY – GEORGE C. GEORGE

PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES

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