domingo, 11 de setembro de 2016

Paixão dos Fortes (1946): Wyatt Earp na visão Lírica e Romântica do Mestre John Ford.


É sabido que o Marshal, o Homem da Lei Wyatt Earp (1848-1929) é um dos grandes mitos do Velho Oeste americano, cuja figura e história já foram retratadas inúmeras vezes nas telas de cinema, recebendo até mesmo grande exaltação por parte de muitos diretores e produtores. Earp se tornou popular da noite para o dia no ano de 1931, quando o escritor Stuart Lake (1889-1964) publicou o livro “Wyatt Earp, Frontier Marshall” (Wyatt Earp, o Delegado da Fronteira), narrando as “façanhas” do então desconhecido delegado, que dois anos antes apenas havia falecido. Diferente de outros mitos do Oeste americano, cuja fama já havia alcançado ainda em vida, com Wyatt Earp foi o contrário. Ele só ficou famoso mesmo dois anos depois de sua morte, em 1929.


JOHN FORD (1895-1973): Um dos maiores cineastas de todos os tempos!
PAIXÃO DOS FORTES (1946) - As filmagens.
O livro por ser quase inteiramente escrito na primeira pessoa, fez crer a todos que se tratava de uma verdadeira autobiografia. Stuart Lake assegurava aos seus leitores ter transcrito para o papel as palavras que ouvira do próprio Wyatt, sobre si mesmo e os acontecimentos. Mas anos depois, enquanto o livro atingira seu sucesso editorial, Lake declarou que tudo que havia escrito era de sua autoria e de sua inteira responsabilidade. Desmentia sua afirmação anterior, revelando que Wyatt não lhe havia fornecido dado algum e que o livro divulgava apenas boatos, sem fatos comprobatórios. 


Henry Fonda, Linda Darnell, e Victor Mature:
PAIXÃO DOS FORTES (1946).
Henry Fonda é Wyatt Earp, o Implacável
"mocinho" de Tombstone.
Mas produtores de cinema e roteiristas não se importaram com isso, e viu que mesmo sendo “boatos”, as “façanhas” de Wyatt Earp poderiam render uma boa bilheteria. Mas para isso, Hollywood precisou erguer um monumento ao finado “Leão de Tombstone”, como um heroico e implacável lawman e “homem sem máculas”, um “mocinho” ao estilo dos filmes de faroeste que o verdadeiro Earp nunca fora na vida. Foi assim que o cinema investiu na legenda romântica dos verdadeiros mitos do Velho Oeste, e um dos maiores cineastas de todos os tempos colaborou muito para a personificação de muitos destes, onde a lenda sempre é mais impressa do que os verdadeiros eventos.


Fonda é Wyatt Earp - Victor Mature como Doc Holliday, e
Linda Darnell como sua amante 
Chihuahua 

Paixao dos Fortes (My Darling Clementine), de 1946, é uma das versões cinematográficas mais clássicas da “história” do famoso Marshall, derivado justamente do livro de Stuart Lake, cujo enredo já havia sido lançado no cinema em 1939 com Randolph Scott no papel de Earp e Cesar Romero como Doc Holliday, no filme A Lei da Fronteira (Frontier Marshall), e cujo roteiro também serviu de base para Paixão dos Fortes. Sete anos depois o cineasta John Ford (1895-1973) resolveu recontar a saga de Wyatt e seus irmãos, e de suas ligações com o jogador John “Doc” Holliday (1851-1887), sem se preocupar com fatos históricos, mas impondo o lirismo romântico tipicamente fordiano na evocação da legenda.


Victor Mature é Doc Holliday, um médico fracassado que
virou alcoólatra e tuberculoso, mas um dos homens fortes de
Tombstone. 
Wyatt Earp (Fonda) rende "Old Man" Clanton, vivido por
Walter Brennan.
Paixão dos Fortes é uma das obras primas que lançou a mitologia do western no cinema americano, particularmente em torno do famoso confronto de OK Corral, um dos mais célebres tiroteios do Velho Oeste, ocorrido a 26 de outubro de 1881, entre Doc Holliday, Wyatt Earp e seus irmãos, contra os homens de Ike “Old Man” Clanton. Mas o que mais podemos contar a não ser a pretensão do diretor John Ford em contar as lendas e os mitos? Sem dúvida, ele era um bom contador de “causos” das lendas do Oeste Americano, se tornando até mesmo um “Homero” na cultura cinematográfica, e isto porque tal e qual o contador de histórias da Grécia Antiga, Ford criou um imaginário de heróis, mitos, bravura, e moral. Logo, a pretensão do diretor de Paixão dos Fortes não era de contar o que realmente aconteceu e sim em retratar a integridade e a coragem de alguns homens que formaram Oeste americano, que por sua vez, acabou formando os Estados Unidos.


Henry Fonda como Wyatt Earp
Walter Brennan em um desempenho impecável como o vilão
"Old Man" Clanton.
Henry Fonda (1905-1982) vive Wyatt Earp, que acaba aceitando o posto de Xerife de Tombstone, Arizona, a fim de se vingar do assassinato de seu irmão caçula, James (Don Garner, 1923-2012), morto por “Old Man” Clanton (Walter Brennan, 1894-1974) e seus filhos. Para enfrenta-los, Earp conta com a ajuda de seus irmãos Morgan (Ward Bond, 1903-1960) e Virgil (Tim Holt,1918-1973), e ainda do jogador  “Doc” Holliday (Victor Mature, 1913-1999), médico fracassado que acabou se tornando alcoólatra e tuberculoso, que vive tumultuado romance com a mexicana Chihuahua (Linda Darnell, 1921-1965).


Doc Holliday (Mature) e Chihuahua (Linda Darnell) - Um
romance tórrido.
Wyatt e seus irmãos Morgan (Ward Bond) e Virgil (Tim Holt)
Quando Chihuahua e Virgil são eliminados pelo bando dos Clanton, Wyatt parte para a desforra contra “Old Man” e seus filhos, no famoso tiroteio de OK Corral, planejando um futuro pacífico com a doce Clementine Carter (Cathy Downs, 1926-1976), ex-noiva de Holliday, por quem se apaixonou.


Wyatt e Clementine (Cathy Downs), ex-noiva de Doc, que
chega a cidade.
Mesmo sendo um homem da lei, Wyatt é um exímio jogador,
sendo observado por 
Chihuahua 
Paixão dos Fortes marcou a volta de John Ford ao Western, pois desde 1939 quando lançou uma de suas obras máximas do estilo, No Tempo das Diligências, o cineasta não rodava um filme do gênero. Além disso, o filme é seu único Western a focalizar personagens históricos (sem contar um dos episódios que ele dirigiu para A Conquista do Oeste, em 1962), e passados 70 anos de seu lançamento, continua sendo para os críticos uma das mais admiráveis criações do Mestre John Ford.


Chihuahua, a namorada de Doc Holliday, antipatiza com Earp
Doc e Wyatt: amizade selada, confrontos à vista.
Henry Fonda, em magistral atuação, é um Wyatt Earp bem antológico, que não se preocupa em mostrar sua bravura, um ser sensível, mesmo que sem coragem para demonstrar, solitário, mas um amigo fiel e leal até o fim. Victor Mature, sempre considerado um canastrão ao longo de sua carreira, tem aqui o seu melhor papel (junto com outro western, O Tirano da Fronteira, de Anthony Mann, em 1956), graças aos esforços de Ford em lhe arrancar uma sólida interpretação como um decadente Doc Holliday, um médico que veio do mundo refinado do Leste, mas que foi atrás de aventuras no Oeste violento, onde acabou se tornando amigo de Wyatt, e ao lado dele combater os homens de Clanton.  Uma das coisas a fugir dos eventos verdadeiros neste clássico de Ford é ver Holliday como um médico, quando na verdade ele era um dentista formado, e outra que em Paixão dos Fortes, ele acaba morrendo no confronto de Tombstone, quando o verdadeiro Doc Holliday morreu num sanatório seis anos depois acontecimento, a 8 de novembro de 1887, de tuberculose. 


Chihuahua e Doc Holliday
Na "Paixão" de Ford, Doc Holliday perde a vida no confronto
do OK Corral.
Adeus, querida Clementine!
Com roteiro de Samuel G. Engel (1904–1984), que também é o produtor, e Winston Miller (1910–1994), Paixão dos Fortes tem a fotografia em preto & branco de Joseph MacDonald (1906-1968), e musica de Cyril J. Mockridge (1896–1979), com arranjos de Alfred Newman (1901-1970). No Brasil, o filme foi lançado em abril de 1947.


Exibido nas salas cariocas em abril de 1947.
FICHA TECNICA
PAIXAO DOS FORTES

ANO DE PRODUÇÃO: 1946

TÍTULO ORIGINAL: MY DARLING CLEMENTINE

DIREÇÃO: JOHN FORD

PRODUÇÃO: SAMUEL G. ENGEL - PARA 20th CENTURY FOX

ROTEIRO: SAMUEL G.ENGEL, WINSTON MILLER – Baseado em livro de STUART LAKE

FOTOGRAFIA: JOSEPH MACDONALD (PRETO & BRANCO)

MUSICA: CYRIL J. MOCKRIDGE- ARRANJOS DE ALFRED NEWMAN

METRAGEM: 97 MINUTOS

ELENCO

HENRY FONDA – WYATT EARP
LINDA DARNELL – CHIHUAHUA
VICTOR MATURE – DOC HOLLIDAY
CATHY DOWNS – CLEMENTINE CARTER
WALTER BREENAN – OLD MAN CLANTON
TIM HOLT – VIRGIL EARP
WARD BOND – MORGAN EARP
ALAN MOWBRAY – GRENVILLE THORNDYKE
JOHN IRELAND – BILLY CLANTON
ROY ROBERTS – PREFEITO
JANE DARWELL – KATE NELSON
GRANT WITHERS – IKE CLANTON

PRODUÇÃO E PESQUISA DE

PAULO TELLES

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EM TEMPO
IN MEMORIAN 


HUGH O’ BRIAN (1925-2016)

Esta semana o cinema e a televisão perdeu um de seus grandes ícones, Hugh O’ Brian, que participou de centenas de filmes, e foi um nome muito conceituado no gênero Western, participando de inúmeros trabalhos do gênero, tanto que em 1955 estrelou a série de TV Wyatt Earp, em seis temporadas entre 1955 a 1961, onde viveu o legendário Marshall. A série impulsionou a notoriedade de O’ Brian, que já havia feito inúmeros trabalhos no cinema, como em A Lei do Bravo (1955, de Robert D. Webb), A Lança Partida (1954, de Edward Dmytryk), Pacto de Honra (1954, de Raoul Walsh), Tambores da Morte (1954, de Nathan Juran), entre outros.


Hugh O' Brian junto a Earl Holliman, Robert Wagner, Jean
Peters, e Richard Widmark: A LANÇA PARTIDA (1954)
Hugh O' Brian e Jeffrey Hunter, índios Cheyennes em
A LEI DO BRAVO (1955)
Hugh O`Brian, nasceu a 19 de abril de 1925, em Rochester, Nova York. Foi descoberto para a televisão pela atriz e diretora Ida Lupino (1918-1995), que lhe abriu as portas para um contrato com a Universal Studios, mas ficando restrito a papéis secundários. Ao término do contrato com a Universal, em 1955, estabeleceu um grande sucesso na televisão com a série Wyatt Earp por um período de seis anos. Direcionou seus talentos como cantor e atuou em espetáculos da Broadway. 


Hugh O' Brian como Wyatt Earp, na famosa série de 1955 a 1961.
Hugh O' Brian na década de 1980
Em 1976, O’ Brian participou do último filme de John Wayne, O Último Pistoleiro, de Don Siegel, onde interpretou um dos tantos pistoleiros que queriam mata-lo. Em 1994, O' Brian, então com 69 anos, reviveu Wyatt Earp num filme especial para a TV. Na vida particular, permaneceu um solteirão convicto praticamente a vida inteira, até se casar em 2006, quando já contava 81 anos de idade, com Virginia Barber, sua companheira de relacionamento durante 18 anos. O’ Brian, que não atuava desde o ano 2000, estava cotado para participar de um filme esse ano. 


Foto mais recente de Hugh, ao lado de outra lenda
televisiva do faroeste, o gigante Clint Walker.
Hugh O' Brian e Robert Wagner (com quem contracenou em
A LEI DO BRAVO e A LANÇA PARTIDA), em evento de 2015.
Hugh O’ Brian morreu a 5 de setembro em sua casa em Beverly Hills, de causas naturais, aos 91 anos de idade.

PAULO TELLES -  EDITOR

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