domingo, 4 de setembro de 2016

Casa de Bambu (1955): Samuel Fuller e um conto sobre Gangsters em Tóquio.


Casa de Bambu (House of Bamboo) realizado em 1955 pelo cineasta Samuel Fuller (1912-1997) foi uma das mais brilhantes utilizações do Cinemascope já exploradas no mundo da Sétima Arte. Com o surgimento desta nova técnica em formato de projeção que acabou revolucionando esteticamente todo o cinema desde então, nada mais imperativo do que levar suas câmeras para a “Terra do Sol Nascente”, o Japão.  O novo processo de tela exigia que fossem produzidas fitas onde as locações fossem lugares autênticos, e logo as plateias clamavam por novas paisagens. Se a Metro-Goldwyn-Mayer foi a pioneira no “continente negro”, a África, através da obra As Minas do Rei Salomão (King Solomon's Mines, 1950), de Andrew Marton e Compton Bennett- A Fox seria a primeira in loco a explorar o misterioso oriente.


O Cineasta Samuel Fuller (1912-1997)
Coube a Buddy Adler (1909-1960), produtor e roteirista, a responsabilidade de coordenar os quatro primeiros filmes da Fox rodados no Japão. Um deles conquistou as plateias, obtendo enorme sucesso de bilheteria: Suplício de uma Saudade, em 1955. Depois, dois filmes dirigidos por Edward Dmytryk, que em realidade nada acrescentaram de novo a sua carreira de diretor, embora fosse curioso ver Humphrey Bogart vestido de padre em Do Destino Ninguém Foge, e Clark Gable como “soldado da fortuna” em O Aventureiro de Hong Kong, ambos realizados também em 1955.  Entretanto, um quarto filme produzido por Buddy Adler chama a atenção por elevar-se acima dos três já destacados, e é justamente Casa de Bambu. Como podemos observar 1955 foi um ano de boa safra para a indústria de cinema da 20th Century Fox. 


O Produtor Buddy Adler (1909-1960)
Produzido há 61 anos, a fita não envelheceu e continua a fazer jus como um espetáculo de destaque onde resiste à erosão do tempo, esta, inimigo implacável do cinema e de tudo.  No entanto, é justamente quando se faz uma revisão dos clássicos, alguns podem perder parte da magia cinematográfica, mas não é o que ocorre com essa obra de Samuel Fuller, que soube solidar Casa de Bambu como um dos grandes trabalhos da fase pioneira do Cinemascope.

CASA DE BAMBU (1955) - Um Conto sobre Gangsters em Tóquio.
De fato, a trama não apresenta novidades, onde se trata de um conto de gangsters, cuja ação em vez de se passar em Chicago ou Nova York é transferida para Tóquio, sem todavia mudar os métodos de um excitante filme policial. Para o diretor Fuller, representou um de seus mais expressivos triunfos em sua carreira irregular, cheia de altos e baixos, onde o equilíbrio aqui exposto é tão raro que, quando corre, parece ser obra do acaso.


Robert Ryan é Sandy Dawson, o líder da organização criminosa.
Robert Stack é o Sargento Eddie Kenner, escalado para investigar
e desbaratar a quadrilha de Dawson.
Contudo, Sam Fuller era um cineasta imprevisível, admirado por Jean-Luc Godard, mas que mesmo sendo um dos grandes nomes da cinematografia mundial, foi um diretor que não soube manter seus filmes a altura dos prólogos. Quanto a isso, já se fez até piadas de humor bem construtivo sobre o cineasta e com alguma razão, pois as sequencias que antecedem os letreiros é sempre o que há de melhor em seus filmes. Entretanto, o mesmo não ocorre com Casa de Bambu, pois seu prólogo não oferece nenhuma surpresa excepcional, servindo apenas como introdução da trama, onde se revela os métodos da gang chefiada pelo mafioso americano Sandy Dawson (Robert Ryan, 1909-1973).


Sob uma identidade falsa, de Spanier, Kenner procura a todo
custo a localização da quadrilha.
Enfim, Kenner os localiza, e ainda se infiltra na quadrilha, conquistando a simpatia de Dawson (Robert Ryan), sob os olhares enciumados de Griff (Cameron Mitchell)
Em Tóquio na década de 1950, um soldado americano é morto durante assalto ao trem militar onde foram roubadas armas e munições. Contudo, é enviado para o Japão o sargento do exército americano Eddie Kenner (Robert Stack,1919-2003) para investigar e desbaratar esta quadrilha liderada por Dawson, formada por americanos que agem no Japão e que foram combatentes durante a Segunda Guerra. Para isso, o sargento precisa assumir uma nova identidade, sob o nome de Eddie Spanier.


Breve, Eddie Kenner tem um relacionamento amoroso com Mariko
(Shirley Yamaguchi), ex-namorada de um dos membros da
quadrilha de Dawson.
Mariko e Eddie.
O modus operandi de Sandy Dawson e sua quadrilha são muito peculiares. Eles assaltam os trens, mata quem estiver por perto estrangulando com correntes, e como norma de conduta da operação, é nunca socorrer os colegas feridos, mas sim elimina-los. A quadrilha sempre age como se estivessem em território americano, cujos métodos brutais eles fazem questão de repercutir em território japonês. Mais tarde, sem que a câmera revele, outro assalto desse porte é executado, ficando mortalmente ferido um membro da quadrilha com o mesmo tipo de projétil que foi morto o soldado americano.  Este fato e mais uma foto da amante japonesa do assaltante morto, permite que o sargento Kenner a conheça e trave contato com ela. O nome da amante é Mariko (Shirley Yamaguchi, 1920-2014) e o sargento a pressiona, contudo ele tem que se passar por chantagista barato para conseguir informações que podem leva-lo a quadrilha.


Sandy Dawson entre Eddie Kenner e Mariko
Eddie Kenner se torna braço direito de Dawson.
Após algumas investigações, Kenner descobre que a quadrilha “controla” a região, além de casas de jogos, e em um destes estabelecimentos, é que inesperadamente o sargento leva um soco de um dos membros da gang, Griff (Cameron Mitchell, 1919-1994), que acaba caindo aos pés do líder da quadrilha, Sandy Dawson. Após várias experiências, Kenner convence Dawson a entrar para a quadrilha, e convencido que ele pode ser de grande ajuda para a organização, Dawson o convida para ingressar, mal sabendo que é um espião infiltrado para desbaratar sua quadrilha. Mas Kenner implacavelmente combate de modo repressivo os marginais, onde ao fim se tem a clássica e vistosa perseguição deste a Dawson, com a indiscutível vitória da lei sobre o crime, perseguição esta que remete o espectador a um clima de suspense Hitchcockiano.


Uma das cenas mais fortes do filme: o assassinato de Griff (Cameron Mitchell) enquanto tomava banho, por Dawson (Robert Ryan)
Dawson descobre um traidor e informante...mas ele acabou
matando a pessoa errada.
Embora tenha um objetivo definido, Casa de Bambu não segue apressado numa linha reta, preferindo fazer algumas revelações ocasionais, deter-se no comportamento psicológico dos personagens, na questão racial, levantada através do suave romance de Kenner com Mariko. Talvez por influencia do ritmo oriental, Samuel Fuller conduz a narrativa com segurança sólida e tranquilidade, num clima de tensão latente, que por vezes  explode violentamente na cena em que Dawson (Robert Ryan) mata Griff (Cameron Mitchell) em pleno banho.


Robert Ryan, ator de competência, é o maior destaque entre
os intérpretes em CASA DE BAMBU (1955)
Fora esses rompantes sempre oportunos e cinematograficamente eficientes, Casa de Bambu é um filme tranquilo e dosado apesar do tema violento, onde o cineasta Fuller evidencia completo domínio do Cinemascope, e numa época em que este processo de projeção ainda era um problema, pois entre outras coisas, tinha a tendência a padronizar os estilos.  Quando exibido no Brasil, em abril de 1956, fez parte de um Festival de Cinemascope, promovido pelo Cine-Palácio, no Rio de Janeiro.


Robert Stack e Shirley Yamaguchi
O que torna Casa de Bambu capaz de despertar seu interesse é a inegável e absoluta competência do diretor Samuel Fuller, um realizador que deu provas constantes do domínio difícil de suas atividades. Fuller além de cineasta também era jornalista, romancista, e roteirista. Em Casa de Bambu, Fuller não é somente um artesão capacitado que soube manejar os recursos meramente técnicos. Sua direção é viva, através de uma narrativa ágil e na maneira inspirada de muitas das cenas, ou no controle vigoroso dos intérpretes. Além disso, o diretor soube captar com muita sensibilidade os exteriores japoneses, que valorizam o filme.


Robert Ryan e Robert Stack
Casa de Bambu em realidade é baseada no roteiro de Harry Kleiner (1916-2007) para o filme Rua Sem Nome (The Street with No Name), de 1948 e dirigido por William Keighley, onde a trama se concentra justamente sobre um agente do FBI (vivido pelo inexpressivo Mark Stevens) que se infiltra numa quadrilha liderada por um gangster (vivido por Richard Widmark) com o objetivo de desbaratá-la. O roteirista Kleiner reescreveu a história, dessa vez passando toda a ação para o Japão, e Samuel Fuller colaborou com diálogos adicionais. A trilha sonora de Leigh Harline (1907–1969) é também um dos pontos altos da fita.De acordo com o diretor Fuller, Gary Cooper estava praticamente escalado para interpretar Eddie Kenner, entretanto, por Cooper ser bastante conhecido no Japão, seria muito difícil ele passar incógnito no meio de tantos transeuntes  sem ser reconhecido, por isso, Robert Stack, menos popular na época, foi escolhido para o papel. Victor Mature também chegou a ser considerado para o mesmo papel. 


CASA DE BAMBU (1955) - Shirley Yamaguchi, Robert Stack, Robert
Ryan, e Reiko Sato
Entre os membros da equipe técnica, destaca-se a fotografia de Joseph MacDonald (1906-1968), fotógrafo de alto gabarito, grande aliado de qualquer diretor. O nível de interpretações é de alto nível, onde Robert Ryan lidera e domina graças a sua vigorosa presença, chegando a ofuscar até mesmo o desempenho de seu xará, Robert Stack, o herói da trama. Ryan era um dos atores prediletos de Samuel Fuller (outro era Lee Marvin), entretanto foi uma única que vez que esse brilhante ator atuou para o cineasta. Entre os coadjuvantes, destaque para o ótimo Cameron Mitchell, cuja figura tensa lhe proporciona uma de suas melhores atuações, no papel do enciumado braço direito de Sandy Dawson, cujo lugar perderá com a admissão de Kenner na quadrilha. 


CASA DE BAMBU foi exibido nas salas cariocas em abril de 1956, dentro de um Festival de CinemaScope promovido pelo Cine-Palácio, no Rio de Janeiro, juntamente com outras obras do estúdio.
Enfim, Casa de Bambu é um policial cheio de vícios e virtudes, próprios e naturais em histórias do gênero, mas realizado com muita competência e habilidade, em estilo inconfundível de Samuel Fuller.




FICHA TÉCNICA
CASA DE BAMBU
(House Of Bamboo)

País – Estados Unidos (locações no Japão)
Ano: 1955
Direção: Samuel Fuller
Estúdio: 20th Century Fox
Roteiro: Harry Kleiner e Samuel Fuller
Trilha Sonora: Leigh Harline
Fotografia: Joseph MacDonald (em cores)
Metragem: 102 minutos

elenco
Robert Ryan – Sandy Dawson
Robert Stack – Eddie Kenner
Shirley Yamaguchi- Mariko
Cameron Mitchell – Griff
Brad Dexter – Capitão Hanson
Sessue Hayakawa – Inspetor Kito
Biff Elliot – Webber
Robert Quarry – Phill
De Forest Kelley – Charley
Reiko Sato – Garota de Charley

PRODUÇÃO E PESQUISA
Paulo Telles

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