sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Confidências de Hollywood (1966) – Stephen Boyd e os Bastidores do Mundo do Oscar.


Estamos na época do Oscar, um dos eventos mais aguardados para os amantes do cinema. Contudo, não é de hoje que Hollywood retrata sobre ela mesma em seus filmes. Billy Wilder já havia explorado o tema em “Crepúsculo dos Deuses”(Sunset Boulevard) em 1952, abordando os bastidores do mundo cinematográfico e a decadência de seus ídolos, onde a capital cinematográfica, embora um “mundo de sonhos e fantasias”, também pode ser muito cruel. Hollywood não é um lugar onde apenas vivem as grandes estrelas e os grandes astros das telas. Pode ser um lugar onde vivem também marginais, oportunistas, e fracassados, como o personagem vivido por William Holden no clássico de Wilder, que ao se envolver com uma antiga estrela de cinema (vivida por Gloria Swanson), esta vivendo seu último crepúsculo, saudosa em suas reminiscências de grande atriz do cinema mudo, acaba sendo assassinado por ela. Seu corpo, encontrado na piscina na mansão da atriz, é uma das cenas mais antológicas desta grande obra que remete a capital considerada a “cidade das redes”.

Stephen Boyd é Frank Fane, um astro do cinema quase em decadência...
disposto à uma última cartada: levar o prêmio máximo da Academia, o OSCAR.
Tony Bennett é Hymie Kelly, o agente publicitário de Fane e seu ex-amigo, que relembra fatos passados entre os dois até chegarem a Hollywood.
Em 1966, é lançado "Confidências de Hollywood” (The Oscar), dirigido por Russel Rouse (1913-1987), tendo como protagonista Stephen Boyd (1931-1977), o eterno vilão Messala de Ben-Hur, de William Wyler, em 1959. Aliás, a fita é recheada de grandes astros e estrelas do passado, como também um cantor muito famoso. Produzido pelo produtor executivo da Paramount, Joseph E. Levine (1905-1987), o mesmo que produziu sucessos como “Harlow, a Vênus Platinada” (1965), e “Os Insaciáveis”(1964), películas estas que remetiam ao mundo cinematográfico da famosa capital dos sonhos e de seus bastidores, a história justamente começa durante a entrega do Oscar de 1966, em Santa Monica, Califórnia. Um dos candidatos à famosa estatueta, um astro semi-decadente, Frank Fane (vivido por Boyd), tem sua carreira recapitulada pelo amigo publicitário Hymie Kelly (vivido pelo cantor Tony Bennett, que nunca mais atuou como ator em Hollywood). Os dois haviam trabalhado juntos numa boate localizada em um vilarejo, onde a mulher de Fane, Laurel (Jill St. John), trabalhava como striper.

Frank e Hymie levam uma coça do brutal xerife vivido por Broderick Crawford
Frank também sabe ser violento quando é preciso.
Após uma briga com o dono da boate, Frank e Hymie fogem, mas são capturados por um brutal xerife, vivido por Broderick Crawford (1912-1986). Liberados, Frank e Hymie vão para Nova York. Frank vive de vigarices e trapaças, e como um individualista egoístico não se importa com ninguém e com nada, a não ser com ele mesmo. Nem mesmo com a mulher Laurel se importa. Ela morre pouco tempo depois, negligenciada por Frank.

Frank seduz Sophie (Eleanor Parker), uma empresária teatral, para conseguir seus objetivos.
Sophie cai nos encantos de Frank mas acaba descobrindo que ele não passa de um gigolô.
Sophie e o agente de Frank, Kappy Kapstetter, vivido por Milton Berle.
Na capital da Broadway, por um acaso, Frank inicia-se no teatro, vendo nisso oportunidade de ganhar dinheiro. Afinal, ele é um homem bonito, alto, e sedutor, muito confiante em si. Sendo descoberto por uma empresária teatral, Sophie Cantaro (Eleanor Parker, 1922-2013), ela vai introduzindo o iniciante no mundo das artes cênicas. Não demora muito, Sophie cai nos encantos de Frank. Seu único intento é seduzir Sophie para conseguir seus objetivos e interesses. E consegue. Logo, Sophie arranja um agente para Fane, Kappy Kapstetter (Milton Berle, 1908-2002). Através dos auspícios deste, Frank consegue um teste em Hollywood e é introduzido no mundo do cinema, sendo apresentado para os executivos e para a imprensa por um rico produtor, Kenneth Regan (Joseph Cotten, 1905-1994). Com esta rápida escalada para o sucesso, Fane não deixa de levar seu amigo Hymie para a “capital das redes”, e o torna seu agente de Marketing. Contudo, como grande parte dos astros e estrelas de Hollywood, que tem suas vidas pregressas ocultas antes de atingirem o estrelato, a vida anterior de Fane não seria uma exceção.

Através de Sophie, Fane conhece Kay (Elke Sommer)
Kay se apaixona por Frank
E resolvem se casar.
Chegando ao sucesso, conhece a figurinista Kay Bergdahl (Elke Sommer), que se apaixona por Frank. Os dois se casam em Las Vegas, tendo como testemunhas Barney Yale (Ernest Borgnine, 1917-2012), um detetive particular nada honesto, e sua esposa Trina (Edie Adams, 1927-2008). Entretanto, as ocupações profissionais de Frank e as chantagens de Barney, que investigara a sua vida pregressa, acabam fracassando o seu casamento e sua carreira em Hollywood. Até mesmo a amizade antiga com Hymie é abalada.

Os dois se casam em Las Vegas, tendo como testemunhas o casal Yale (Ernest Borgnine e Edie Adams)
Não demora, Fane é chantageado pelo desonesto detetive vivido por Borgnine.
Frank Fane e o produtor de Hollywood Kenneth Regan, vivido por Joseph Cotten.
Mas Frank é o que chamamos de “macaco-velho”. Ele sempre foi um mau caráter e só ascendeu a carreira de astro de cinema graças aos seus méritos incontestáveis e a uma falta de escrúpulos levadas ao extremo. Mas o que o levou a ser assim? O motivo de sua frustração emocional são as prevaricações da mãe e o suicídio do pai, que são brevemente reveladas ao longo da película. Frank Fane é um imediatista, descrente do próximo, que procura um lugar ao sol sem se importar com os meios, ou se vai magoar as pessoas. Mas é justamente em Hollywood que Fane é impelido a um culto maior de suas más inclinações. E é por conta disso, vendo o fracasso matrimonial  e de sua carreira, que Fane é impelido para uma última cartada, quando surge a chance do Oscar, que Frank disputará desesperadamente, contudo, usando de praxe seus métodos fraudulentos de autopromoção. Ele tem inimigos que querem ver sua arrogância caída por terra.

O agente Kapstetter (Milton Berle) falando para Frank que ele nunca ganhará o Oscar, e que não sabe atuar.
Kay (Elke Sommer) desabafa para Hymie (Tony Bennett) os problemas matrimoniais com Frank.
Sob os olhares de Hymie (Tony Bennett) e em apoio a ela, Kay (Elke Sommer) pede o divórcio para Frank (Stephen Boyd).
Seu agente, Kappy, já não nutre mais simpatias por Fane, e ainda declara ao seu cliente que ele não é um ator, pois o papel que desempenhou em seu filme não passou de um reflexo de seu próprio caráter, e que suas chances de ganhar o prêmio da Academia são mínimas. O produtor Kenneth Regan também não gosta nem um pouquinho de Frank e se arrepende de lança-lo em Hollywood. Hymie, o ex-amigo, sente repulsa por ele. A ex-esposa, Kay, só lhe restou sentimento de pena, apesar de ainda ama-lo. Não demora pelas leis demiúrgicas da moralidade decidir pela punição de Fane, por todos os bem pensantes cidadãos da cidade das redes e do glamour que, empolgados, veem a frustrada e patética luta do vigarista para a conquista do Oscar.

Frank Fane, um verdadeiro narcisista.
Fane discute com Hymie e seu agente Kapstetter seus trâmites profissionais.
Confidências de Hollywood é um melodrama sobre Hollywood e os bastidores do prêmio máximo da Academia. Russell Rouse dividiu a direção desta obra com Clarence Greene, um roteirista. Os dois já haviam realizado juntos “O Poço da Angustia” (1951), e “Gatilho Relâmpago” (1955). Para o produtor executivo Joseph E. Levine, Rouse e Greene já haviam realizado “Uma Certa Casa Suspeita”(1964). Com The Oscar”, é mais uma parceria do trio, cuja produção obedece às fórmulas que Levine já havia utilizado em “Harlow” e “Os Insaciáveis” – sexo, amor, poder, glamour, e ambição.  O filme produzido em 1966 (e lançado nos cinemas cariocas em fevereiro de 1967) conta com um elenco de estrelas que despontam ainda Ed Begley (1901-1970), Walter Brennan (1894-1974), James Dunn (1901-1967), e as breves aparições de Peter Lawford (1923-1984), Merle Oberon (1911-1979), Bob Hope (1903-2003), e Nancy Sinatra, além da figurinista da Paramount Edith Head (1897-1981) e a fofoqueira de Hollywood Hedda Hopper (1885-1966).

As duas belas mulheres seduzidas por Frank: Sophie (Eleanor Parker) e Kay (Elke Sommer)
Contudo, para ele, são apenas negócios.
Frank Fane, e seu olhar para um futuro vitorioso, que pode ser passageiro.
Em verdade, uma fita com uma inigualável competência artesanal, alcançando dos intérpretes principais (principalmente Stephen Boyd) participações muito expressivas e convincentes. O filme foi baseado em romance de Richard Sale (1911-1993). Certamente uma fita capaz de interessar quem curte uma abordagem sobre Hollywood, seus bastidores, e as maquinações na “Meca” da Sétima Arte.  A trilha sonora é assinada por Percy Faith (1908-1976).

Filme visto pelo editor em 1983.


Ficha técnica
CONFIDÊNCIAS DE HOLLYWOOD
(THE OSCAR, ESTADOS UNIDOS, 1966)
Direção: Russell Rouse e Clarence Greene (roteiro)
Ano: 1966
País: Estados Unidos
Roteiro: Harlan Ellison , Clarence Greene , Russell Rouse
Gênero: Drama
Fotografia: Em cores
Duração: 119 minutos.

A desesperada e patética luta de Frank Fane pela conquista da estatueta.
ELENCO
Stephen Boyd .......Frank Fane
Elke Sommer .........Kay Bergdahl
Milton Berle .........Alfred ('Kappy') Kapstetter
Eleanor Parker ........Sophie Cantaro
Joseph Cotten …... Kenneth Regan
Jill St. John ........... Laurel Scott
Tony Bennett ..........Hymie Kelly
Edie Adams ............Trina Yale
Ernest Borgnine .......Barney Yale
Ed Begley ..............Grobard
Walter Brennan .........Orrin C. Quentin
Broderick Crawford ........... O Xerife
James Dunn ......... Executivo da emissora
Jean Hale ............ Cheryl Barker
Edith Head .............Edith Head
Bob Hope ..............Bob Hope
Hedda Hopper ........Hedda Hopper
Peter Lawford .............Steve Marks
Merle Oberon .............Merle Oberon
Frank Sinatra ............... Frank Sinatra
Nancy Sinatra ............... Nancy Sinatra

Anúncio do filme em um jornal carioca, fevereiro de 1967.
PRODUÇÃO E PESQUISA DE PAULO TELLES

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