segunda-feira, 10 de agosto de 2015

“Os Cowboys” de Mark Rydell – John Wayne como a Alma do Oeste e a Reminiscência de uma Era.


Durante uma entrevista concedida em 1972 em ocasião do lançamento de seu mais recente filme, Os Cowboys (The Cowboys), John Wayne (1907-1979) declarou “A morte pode chegar a qualquer hora e em qualquer lugar. Mas se o homem, na sua vida, procurou realizar o melhor de si, ele esta preparado para recebê-la”. Tal declaração poderia figurar no testamento do grande herói que tantas provas de bravura concedeu nas telas através de seus inesquecíveis clássicos westerns, principalmente os dirigido por John Ford e Howard Hawks.

O MITO DO WESTERN - JOHN WAYNE (1907-1979)
No filme aqui retratado, Os Cowboys, realizado em 1971, esta afirmação do Duke soa quase que uma profecia, já que na época de sua produção, o grande astro em seus 65 anos de vida e mais de 40 de carreira, estava lutando ainda contra o temível "Big C", era assim que ele chamava o câncer que acabaria por mata-lo a 11 de junho de 1979. Contudo, um paralelo existe entre Wayne e seu personagem nesta obra, o veterano vaqueiro Will Andersen. Wayne sabia que seus dias de glória já haviam passado, e tal quais seus personagens em Bravura Indômita (1969, como Rooster Cogburn, direção Henry Hathaway) e Jake Grandão (1970, como Jake McCandalls, direção George Sherman), ele trata de igual seu personagem em Os Cowboys, praticamente como uma caricatura de si mesmo, como um deprimente monumento à nostalgia.

John Wayne é Will Andersen
Finalmente, Will contrata onze meninos para serem Os Cowboys
Enquanto o cozinheiro de Will, o Sr Nigthlinger, não chega, é a Senhora Anderson que prepara a comida para toda esta galera.
A epopeia de Will Andersen (Wayne) aparentemente é a mesma de seu Thomas Dunson em Rio Vermelho, de Howard Hawks, realizado em 1947 – um herói a frente de sua boiada e ao seu lado rudes cowboys a quem ele ensina a maneira implacável de se viver segundo as leis do Velho Oeste. Só que ao contrário de Rio Vermelho, o vaqueiro Will Andersen (diferente de Thomas Dunson) não passa de um velho impertinente, tentando resgatar suas façanhas de outrora. Mas a diferença não para por aí: os cowboys de Will Andersen são crianças, crianças desajeitadas tentando imitar as proezas de seu ídolo, do “mocinho” de verdade.

Wayne, junto ao jovem diretor Mark Rydell. No carro, a lenda JOHN FORD
O Cineasta Rydell orientando Wayne nas filmagens
Algumas vezes, Will tem que apartar as brigas de alguns Cowboys
O cineasta Mark Rydell (ainda vivo, nascido em 1929), que nutria por John Wayne grande admiração, faz ao mesmo tempo um elogio ao mito do Western e ao seu passado lendário. Os Cowboys seria dirigido por Peter Bogdanovich, que não pôde pegar a direção, assumindo o jovem Rydell, que havia saído de trabalhos em séries de TV, onde dirigiu alguns episódios de James West, Gunsmoke, e Os Destemidos. Mas caso Bogdanovich tivesse realizado esta fita, Will Andersen, nas palavras do crítico de cinema brasileiro Paulo Perdigão, provavelmente iria constituir uma segunda versão do Sam The Lion (vivido por Ben Johnson) de “A Ultima Sessão de Cinema”. Como Sam, o personagem de John Wayne também morre, mas o seu fim não significa necessariamente o crepúsculo de uma era. Isso porque onze meninos que ele transformou em cowboys e a quem ele vê como filhos, faz com que no coração dele ocupe o lugar de dois filhos legítimos que morreram quando ainda eram crianças.

"Desapareçam de minhas terras" - Will dá o recado para quem não quer trabalhar.
Will e um cowboy mirim em ação
Will, como bom pai e mentor, as vezes precisa ser duro
A falta de vaqueiros disponíveis, mais interessados na corrida do ouro, faz com que o velho criador de gados Will Andersen contrate onze meninos para ajudar a transportar 1200 cabeças de gado ao longo de 400 milhas até o mercado de Beele Fourche. A saga de 400 milhas percorridas pelo gado das planícies de Montana, faz com que estas crianças amadureçam, transformando-as de então desajeitadas, muitos filhinhos de papai e mamãe, em cowboys de verdade. E entenderão porque Will Andersen reconhece a severidade de seus princípios. “Eu sou um homem rude porque a própria vida é rude”.

Apesar do peso da idade, Will demonstra que ainda sabe lutar
O Bandido Long Hair, vivido por Bruce Dern
Derrotado na briga, não resta ao verme Long Hair atirar em Will pelas costas
Quando Will morre, covardemente alvejado a tiros nas costas pelo bandido Long Hair (Bruce Dern) após uma briga, os Cowboys mirins além de irem atrás do assassino de seu mentor, vão executar tudo o que aprenderam, levando todo o gado até o seu destino, o mercado Beele Fourche. Cumprida a missão, só resta o filme de Rydell prestar uma homenagem à legenda do faroeste americano, o ícone do Wild West representada por John Wayne, onde os meninos colocam uma lápide na sepultura de Will Andersen. Não podemos esquecer do elenco, que além de contar com as presenças de Wayne e Bruce Dern (o único ator que “conseguiu matar John Wayne”), também contam com as presenças de Roscoe Lee Browne (1925-2007), Colleen Dewhurst (1924-1991), e Slim Pikens (1919-1983).

Os Cowboys mirins não estão para brincadeiras e nem poupam o cozinheiro de Will, o Sr. Nigthlinger.
O Cozinheiro de Will, o Sr. Nitghlinger, vivido pelo falecido Roscoe Lee Browne.
Mentor, professor, e ídolo. Onde o personagem e o ator se confundem.
OS COWBOYS é um modelo perfeito de fidelidade às fontes clássicas do Western, além de Rydell fazer deste trabalho um conto de fadas a respeito da inocência das crianças”. Em 128 minutos de projeção, em narração bem ritmada, a película nem sempre consegue justificar a exagerada padronização dos tipos, ou deixar claro que a aventura é mais uma alegoria poética do que uma sequencia de episódios realistas e inverossímeis. Mas isso absolutamente não impede que, ao fim da fita, a obra ganhe uma estatura de elegia – o túmulo de Will Andersen, coberto pela vegetação, se confunde com a paisagem, e os meninos decidem cravar a lápide no alto de uma montanha, porque entendem que John Wayne (ou Will Andersen, ambos o ator e sua caracterização se confundem!) é a alma do Oeste americano que estará em toda parte, e a reminiscência de uma era de sonhos, onde a figura do cowboy era estilizada por lirismos e lendas, que só Hollywood em seus tempos dourados soube confeccionar.



FICHA TÉCNICA
OS COWBOYS
Título Original – The Cowboys
Ano de Produção – 1971
Direção – Mark Rydell
Gênero – Western
Roteiro - William Dale Jennings e Irving
Produção – Mark Rydell e Tim Zinnemann
Ravetch, baseado em romance de William Dale Jennings
Trilha Sonora – John Williams

ELENCO
John Wayne - Will Andersen
        Roscoe Lee Browne - Jebediah Nightlinger
               Bruce Dern- Long Hair
              Colleen Dewhurst – Kate
                  Slim Pickens – Anse
A.Martinez – Cimarron, o Cowboy
    Clay O'Brien - Hardy Fimps, Cowboy
     Sam O'Brien  - Sam, Cowboy
         Homer Weems - Cowboy

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