quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Os Profissionais (1966) de Richard Brooks – A Resposta Americana para os Westerns Italianos.



Em 1966, os faroestes italianos estavam em franca ascensão, após o estrondoso sucesso da trilogia de Sergio Leone (Por Um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais, Três Homens em Conflito) e de obras como Django, de 1966, dirigido por Sergio Corbucci, e O Dólar Furado, de 1965. O novo estilo de se fazer westerns por parte de cineastas europeus já haviam conquistado as plateias. O velho estilo americano não parecia mais cativar o público, que exigia mais ação do que qualquer outra coisa. Prova disso, é que não demorou que ambos os lados, americanos e europeus, duelassem entre si para quem era o detentor das verdadeiras superproduções do gênero Western, gênero este que há de convir, é genuinamente americano por excelência. Mas que os europeus moldaram e ainda ajudaram a dar sobrevida ao gênero.


O diretor Richard Brooks, de branco, com sua equipe nas locações de OS PROFISSIONAIS, no México
O Cineasta Brooks, sem camisa, conversando com Lee Marvin, sob os olhares de Burt Lancaster e Woody Strode, num intervalo das filmagens.
Em geral, os faroestes italianos situavam suas tramas no México, lugar bem sugestivo, onde o foco era os mercenários tão bem retratados por Clint Eastwood nas obras de Sergio Leone. Nos westerns Spaghetti não existe o herói tão externado nos westerns americanos de praxe. Logo, para que Hollywood não perdesse o duelo com os estrangeiros, precisou fazer uma releitura e levar os elementos bem estigmatizados nos faroestes italianos para os faroestes norte-americanos. E isso exatamente veio a acontecer em Os Profissionais (The Professionals) em 1966, dirigido por Richard Brooks (1912-1992), outrora um roteirista conceituado que se tornou cineasta, e dos bons.

OS QUATRO "PROFISSIONAIS"
Jake (Woody Strode), Ehrengard (Robert Ryan), e Fardan(Lee Marvin) 
Os Profissionais é um western de proporção bem aventuresca, reabrindo de alto a baixo a fronteira mexicana, estrada esta percorrida em muitos dos faroestes italianos e que até mesmo o lendário cineasta Eric Von Stroheim já havia feito o mesmo itinerário em sua obra Ouro e Maldição, de 1928. Quando pensamos no velho México como rota de bandoleiros, o que desenhamos nas nossas mentes? Muita tequila, muitas muchachas, e claro, bandidos e toda crueldade de violência. E isso sem contar ainda que uma revolução estava em processo em 1917, onde dela se emergiu alguns mitos, como Pancho Villa ou Emiliano Zapata, mitos estes que o próprio cinema se encarregou de levar suas vidas para as telas, sempre às vezes com um pouco de lenda e romance. O interessante que Brooks ao levar seu western recorre a estes elementos de ação tão divulgados por Leone e Corbucci, sem é claro de deixar de prestar uma homenagem ao clássico O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston, onde Brooks aproximou seu western a uma energética tensão comparado a obra de Huston. Aliás, Os Profissionais relembra numa só vez outros filmes do gênero, contudo cada um com seu enquadramento ou temática, como por exemplo, a densidade pictorialmente dramática de Ouro e Maldição, as colonizações políticas de Viva Zapata, e até mesmo, do sarcasmo mercenário de Vera Cruz, de Robert Aldrich, onde há quem diga que os cineastas italianos se inspiraram neste filme para compor eles mesmos seus trabalhos ao estilo.

Fardan e Dolworth, dois "Soldados da Fortuna"
Ehrengard e Dolworth, examinando os riscos
O Aventureiro Jake e Maria
Seja como for, Os Profissionais restaurou a carreira de Richard Brooks, que estava em momentâneo declínio após o fracasso de seu filme anterior, Lord Jim, que o deixou bem abalado. Brooks era um de tantos diretores da década de 1960 para quem a aventura, além de um objetivo dominante, pode ser um verdadeiro exercício ao estilo. A aventura indômita e sem subterfúgios, dela emergindo uma emoção, uma nuance psicológica, mas sempre a frente do perigo, que também não se desprende de uma intenção ética se esse perigo coloca personagens em crise ou acelera o processo de uma decisão individual. No caso, o que se decide é o valor da revolução mexicana de 1917 e “os profissionais” do título irão discuti-lo nos momentos de trégua de suas aventuras, quando é preciso pensar antes de prosseguir com a caminhada.

Maria (Claudia Cardinale) e Raza (Jack Palance)
O barão Grant, vivido por Ralph Bellamy
Claudia Cardinale é Maria
WESTERN com ritmo de bang bang a italiana, traz vários personagens embarcados numa aventura em comum, e chegam até mesmo a serem solidários, chegando ao ponto de decidir entre o amor de Maria (Claudia Cardinale) e a arrogância de Grant (Ralph Bellamy,1904-1991). Sim, nossos “heróis” são mercenários, mas ainda tem escrúpulos, embora sejam contratados por Grant, um fazendeiro e político muito rico, que os contrata para resgatar a jovem mexicana Maria, sua esposa, que fora raptada por Raza (Jack Palance, 1919-2006), um bandoleiro mexicano. A recompensa atraí “os profissionais”.

Robert Ryan é Ehrengard
Lee Marvin é Fardan
Burt Lancaster é Dolworth
Woody Strode é Jake
Grant contrata quatro “profissionais” de guerrilha para resgata sua mulher. São eles: Fardan (Lee Marvin, 1924-1987) e Dolworth (Burt Lancaster, 1913-1994), outrora adeptos de Raza; Ehrengard (Robert Ryan, 1909-1973), um especialista em cavalos; e um caçador de recompensas negro, Jake (Woody Strode, 1914-1994), que é perito em arco e flecha. De repente, tudo parece se modificar, e os “profissionais” contratados por Grant partem juntos com os homens de Raza, a luta continua contra um adversário comum. A situação parece se inverter, mas na verdade esta apenas se renovando à medida que a aventura desliza, ereta, em trânsito, para outras façanhas. Entre um acordo fraudulento e a simpatia política pelos revolucionários, os quatro “profissionais” não vacilam e escolhem a sua segunda chance. Aliás, é a oportunidade da “segunda chance” o tema abordado nesta fita de Brooks, que ele abordara em Lord Jim, mas que em Os Profissionais ele restaura não com tanto manifesto como o fez na sua adaptação cinematográfica do livro de Joseph Conrad, mas sim, categoricamente enquadrado. Como Lord Jim, Os Profissionais promovem com a reviravolta final, a sua retratação ética.

Com Fardan não se brinca.
A estratégia de Dolworth

O crítico inglês David Adams comparou Os Profissionais a Sete Homens e Um Destino, a conversão ao Western da coreográfica violência de Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa. Entre os pontos de identidade entre os dois filmes, o ator mexicano Jorge Martinez de Hoyos (1920-1997) em papel equivalente, o prólogo apresentando em sua especialidade os heróis convocados para a missão; a música de Maurice Jarre (1924-2009), recompondo a suíte mexicana de Elmer Bernstein; e na trama, a recaptura de uma mulher em pleno deserto. Em vez dos “sete magníficos”, quatro “profissionais” que são mercenários, aventureiros, “soldados da fortuna”.


O revolucionário Raza, vivido por Jack Palance, sendo cuidado por Maria

Os “Profissionais” agem juntos, mas cada um tem uma personalidade. Dentre eles, o caráter de Dolworth (Lancaster) antagoniza com a personalidade de Fardan (Marvin), e muito embora amigos, trava-se um conflito entre os dois que irá conferir ao filme seu suplemento ideológico.

Jack Palance é Raza.

Mas é a categoria do elenco, que nem sempre Hollywood pode reunir uma constelação de estrelas como se reuniu para a composição desta fita, que dá equilíbrio a trama, e não deixou de ser de propósito a escalação de Claudia Cardinale para o papel de Maria. Se Brooks quis mesmo realizar um trabalho no gênero Western aos moldes dos cineastas europeus, a convocação da atriz italiana não foi coincidência. O roteiro redigido por Brooks, que nem sempre foi disciplinado a sua vocação literária, por sua vez adaptou a novela de Frank O’ Rourke (1916-1989) intitulada A Mule for the Marquesa, e pôde colocar na boca da protagonista feminina e do revolucionário Raza, vivido por Jack Palance, verdades românticas e frases feitas, cuja função, na imagem ríspida da aventura, chega a ser inadequada e postiça. 

Woody Strode e Lee Marvin conversam durante uma folga das filmagens.
A Bela italiana Claudia Cardinale num Western americano
Robert Ryan como Ehrengard em ação
Talvez essa deficiência na estruturação dos personagens com a linha política não entrava, porém, a marcha indômita dos “Profissionais” não diminui a tensão, a tenacidade, e o ritmo tão bem enquadrados num bom espetáculo de ação. A partir desta obra é que os cineastas americanos passaram a inovar o bom e tradicional cinema de faroeste, afinal, não queriam perder o terreno para os italianos. Seja como for, passados quase 50 anos de seu lançamento, Os Profissionais foi a resposta americana para os então producentes faroestes italianos que vigorava na moda, sendo até hoje capaz de prender o espectador, mesmo o mais jovem, pois expressa o perfeito domínio do cineasta Richard Brooks e o dos astros Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan, Woody Strode, Jack Palance, e claro, Claudia Cardinale, sobre as leis do espetáculo e o avanço do tempo. 


Marie Gomez é Chiquita, uma revolucionária a serviço de Raza
OS PROFISSIONAIS
FICHA TECNICA

Título Original – The Professionals
Ano – 1966
Direção – Richard Brooks
Roteiro – Richard Brooks e Frank O’ Rourke, baseado no livro A Mule for the Marquesa, de Frank O’ Rourke.
Gênero - Western
País- Estados Unidos

Elenco
Lee Marvin...Henry "Rico" Fardan
Burt Lancaster...Bill Dolworth
Robert Ryan...Hans Ehrengard
Woody Strode...Jake Sharp
Jack Palance...Jesus Raza
Claudia Cardinale...Maria
Maria Gomez...Chiquita
Ralph Bellamy...J.W.Grant
Joe De Santis …Ortega
Jorge Martínez de Hoyos...Eduardo Padilla
Marie Gomez...Chiquita

Producao e pesquisa
PAULO TELLES

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