quarta-feira, 21 de maio de 2014

No Mundo de 2020: Ficção Apocalíptica e Charlton Heston como Policial do Futuro.


O ANO DE 2020 – Faltam apenas seis anos para chegarmos lá, e no atual panorama geral, estamos presenciando um giro de mudanças radicais, graças a internet cuja informação se torna mais rápida e precisa, e a acessibilidade de recursos que parecem tornar a vida do ser humano mais prática e confortável. Mas não para todos.



Quando em 1973, Richard Fleischer (1916-2006), o cineasta de Vinte Mil Léguas Submarinas (1954) e Estranha Compulsão (1959) realizou NO MUNDO DE 2020 (Soylent Green), a ideia de futuro promovida pela ficção-científica não estava destinada apenas a espaçonaves ou seres alienígenas em galáxias distantes vindos para atacar a Terra, mas com a chegada dos anos de 1970, a ficção científica dava um tratamento mais reflexivo, pois seria hora de pensar nas guerras nucleares e no futuro da Humanidade. Isto era bastante pano para a manga de muitos produtores, que viam nas guerras armamentistas o perigo de todo o planeta, dando inspirações para muitos escritores e roteiristas.




Charlton Heston, que já foi A Última Esperança da Terra (de Boris Sagal, 1971), representa o derradeiro vislumbre de boa consciência. Tanto na fita de Sagal como em O Planeta dos Macacos (de Franklin J. Schaffner, 1968) – que aliás breve a sequencia do reboot estará nos cinemas – Heston estava só, num mundo dizimado pela guerra atômica e tentando arduamente conservar a espécie humana numa civilização de símios ou mutantes.  Os perigos da guerra nuclear e da mutação biológica acabaram sendo temáticas em desuso, sendo substituídos por outra solene advertência da ficção-científica: a hipótese de que a explosão demográfica e a poluição venham a saturar a beleza e os recursos naturais do planeta e a humanidade passe a vegetar em guetos urbanos, numa sociedade de plutocratas e escravos.




NO MUNDO DE 2020 faz esta premonição ecológica e Heston tem nova oportunidade de guerrear estoicamente contra a extinção da raça humana, o que ele faz com a mesma têmpera bíblica de Moisés e o titânico rictus facial Ben-Hur. Seu personagem, o detetive Thorn, é a rigor um herói de moral duvidosa e comportamento ambíguo. Investigando o assassinato de William R. Simonson (Joseph Cotten, 1905-1994), diretor da Soylent Corporation, responsável pela produção de alimento sintético em tabletes para os 40 milhões de habitantes de Nova York do ano 2022, Thorn age com petulância e o rigor ético dos melhores detetives da literatura policial, uma versão futurológica de Sam Spade ou Philip Marlowe.




Neste transe tão apocalíptico, este policial do futuro acaba por descobrir, horrorizado, que ante a carência de recursos de flora e fauna submarina, a Soylent continua alimentando seus consumidores com os últimos elementos de vida orgânica existentes na natureza poluída: a carne ainda fresca dos cadáveres humanos. Thorn desobedece a ordens superiores, rebela-se contra a engrenagem policial corrompida e sacrifica a própria vida em nome desse protesto desesperador.




Em compensação, é com idêntica sinceridade que Thorn desfruta de suas prerrogativas de agente do estado policial. Aproveita as imunidades legais para roubar comida dos ricos, repartindo com o amigo Sol (Edward G. Robinson, 1893-1972, em sua última atuação no cinema) em um nostálgico banquete de verduras, carnes, e frutas naturais – esse tesouro ecológico que o velho Sol revê com lágrimas nos olhos e degusta com requintes de apetite.




Sol é o personagem mais curioso desta ficção apocalíptica, parábola sobre os funestos destinos do homem. Depois de recordar para Thorn como eram verdes os vales de sua infância, ele se entrega à doce agonia proporcionada por uma organização significativamente chamada de “Lar” e dedicada a prestar aos anciãos, aleijados e desiludidos a mais feliz viagem para um mundo melhor. Diante de uma tela de cinerama, Sol exala o último suspiro, assistindo embevecido as imagens dos bons tempos em que os cavalos comiam a relva das planícies verdejantes, as flores vicejavam multicores, e a água corria fresca pelos regatos.




Embora tais evocações emocionem Thorn, ele nem parece perceber o papel que executa, como policial das forças de choque, na repressão aos pobres humanos. Nem se preocupa com as insinuações afetivas de Shirl (Leigh Taylor-Young), uma “garota alugada” que simboliza na sua resignada apatia, a radical conversão em objeto da mulher do futuro.



O verdadeiro arqui-inimigo deste policial do futuro é Tab Fielding (Chuck Connors, 1921-1992), ex motorista de Simonson, que Thorn descobre que é seu assassino. Mas Tab não age só e o agente sabe que por trás há uma terrível conspiração que pode muito bem fazê-lo calar em suas investigações. Com este estranho protagonista e uma narrativa lançada entre as saídas convencionais de aventura policial e os adornos da ficção-científica, esta fita de Richard Fleischer encantou o júri do Festival de Ficção-Científica de Avorias, que o laureou com o Grande Prêmio, de melhor filme, de 1974, chegando a convencer as plateias sobre os soturnos horizontes antecipados sem exagero pelos arautos da ecologia.




      NO MUNDO DE 2020
(Soylent Green)

·       Direção: Richard Fleischer

Ano: 1973

        Roteiro: Stanley R. Greenberg (roteiro), Harry Harrison (romance)

        Gênero: Ficção-Científica/Policial

        Origem: Estados Unidos

        Duração: 97 minutos

·       ESTÚDIO: METRO GOLDWYN MAYER

ELENCO


• Charlton Heston  - Detetive Thorn

• Leigh Taylor-Young- Shirl

• Joseph Cotten  - William R. Simonson

• Chuck Connors -Tab Fielding

• Brock Peters - Chefe Hatcher

• Paula Kelly – Martha

• Edward G. Robinson – Sol Roth

·       Stephen Young – Gilbert

·       Mike Henry – Kulozik

·       Roy Jenson- Donovan

·       Whit Bissel- Governador Santini

Produção e Pesquisa: 
Paulo Telles

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