domingo, 4 de maio de 2014

Montgomery Clift, o Ídolo Torturado.


Astro cadente no mundo estrelar de Holywood, Montgomery Clift (1920-1966) é um ator inesquecível: o Cowboy de Rio Vermelho e a represália que se pode justificar, o caça-dote de Tarde Demais, a vítima do segredo da confissão de A Tortura do Silêncio, O Medíocre arrivista de Um Lugar ao Sol, o soldado leal e amigo vítima da perseguição de A Um Passo da Eternidade, o desequilibrado de Os Desajustados...ente tantos. Sempre fazendo heróis vulneráveis e frágeis, ambíguos.

Teve um belo rosto (muito parecido com Tom Cruise, ou podemos dizer que Tom Cruise se parece com ele), belo rosto este que foi parcialmente desfigurado por um acidente automobilístico, aparentemente intencional, desfiguração esta que parece ter não atingido apenas seu rosto, mas também a sua alma, pois nunca mais foi o mesmo. Tornou-se desequilibrado, com mania de perseguição, e se tornava chato com frequência. Assim era Edward Montgomery Clift (seu verdadeiro nome), que apesar de todos os desajustes e problemas que enfrentou, era na realidade um homem sensível, versado em brincadeiras com seus amigos e colegas de profissão (como Elizabeth Taylor e Kevin McCarthy), e, sobretudo, um brilhante ator que deixou uma indelével marca na Sétima Arte.


Nascido a 17 de outubro de 1920, em Omaha, Nebraska, EUA, seus pais, William Brooks, um renomado banqueiro, e Ethel “Sunny” Clift, já tinham um filho de 18 meses. Clift era gêmeo de Roberta (depois chamada Ethel), que nascera horas antes dele. Podemos dizer que Montgomery Clift nasceu em berço de ouro e numa família abastada, e seu primeiro nome foi em homenagem ao seu bisavô paterno, que se chamava Montgomery Blair. Em maio de 1928, Monty (como era chamado), com a mãe, os irmãos e a governanta, viajou para a Europa, a bordo do IIe France. Brincando na piscina do navio, outro garoto o manteve por longo tempo sob a água e quase o afogou. Seriamente afetado pela brincadeira de mau gosto, a mãe o levou a um especialista que havia tratado o Kaiser, em Munique. Submetido a demorada e difícil operação, obteve sucesso, mas a cirurgia lhe deixou com enorme cicatriz, bem visível no lado direito do pescoço, nunca percebida nos filmes graças aos recursos dos maquiadores.


Com a queda da Bolsa de Valores do ano seguinte (1929), a situação da família e do seu patriarca, William Brooks, ficou muito abalada, mas a mãe de Monty estava decidida a fazer outra viagem pela Europa, e conseguiu meios de poder realizar, desta vez para a França e Alemanha, onde ficaram de junho a novembro de 1930. Antes de terminar 1931, o pai de Monty estava completamente falido e sem emprego, e foi obrigado a vender até sua casa em Highland Park e a maioria dos móveis que a guarneciam. E a família for morar num quarto mobiliado em Greenwich Village, tendo a mãe que trabalhar em dois empregos para sustento dela e dos filhos. Quando William finalmente encontrou emprego, era tarde: a família estava desagregada, morando na Flórida, onde a vida era mais barata. Moraram em Sarasota até 1933.

O NOVO TUTOR dos meninos, Walter Hayward, lhes ensinara a recitar Shakespeare. Amigo de um produtor teatral local, Hayward soube que ele estava procurando um menino de 12 anos para um papel em As Husbands GO. Pensando que Monty poderia gostar de fazer a parte, falou com Sunny sobre a peça. Ele aprovou a idéia e o adolescente se iniciou como ator profissional. Adorou trabalhar no palco, mas Ethel, a mãe, não estava bem segura acerca de uma carreira profissional para o filho, pois parecia ser pouco digno ser ator. Mas no ano seguinte, ela mudou de opinião. Em outubro de 1935, aos 15 anos, Monty conseguiu ser escalado como o Príncipe Peter, no musical Jubilee, de Cole Porter (1891-1964), que ainda é lembrado principalmente porque o score musical incuía “Begin the Beguine” e “Just One of Those Things”. Entre elogios e reparos, entre sucessos e fracassos, a carreira nos palcos durou até 1945, fazendo com que ele se impusesse como nome respeitável numa nova geração de atores. Muitos poucos sabem, mas Monty Clift também era fascinado pela Medicina. Anos mais tarde, um médico em Hollywood, Rex Kennamer, declarou sobre o ator: “ Tinha enorme conhecimento de Medicina. Com Monty, isso parecia uma extraordinária preocupação, pois tinha maiores conhecimentos de medicações, usos e efeitos do que qualquer pessoa que não fosse médico que jamais conheci”.


HOLLYWOOD estava de olho em Montgomery Clift desde 1941, e o belíssimo filme da Metro Goldwyn Mayer, com Greer Garson, Walter Pidgeon e Teresa Wright, sob inspirada direção do sempre competente William Wyler (1902-1981), Rosa da Esperança (Mrs. Miniver), poderia ter marcado sua estréia cinematográfica. Durante uma excursão de Monty com uma de suas peças teatrais, Louis B. Mayer (1884-1957) lhe ofereceu um papel no filme prestes a entrar em produção. Ele teria aceitado, se Mayer não insistisse no então contrato-padrão de sete anos. Receberia, a princípio, 750 dólares por semana, com aumentos progressivos automáticos. O pai de Monty quis se meter na negociação, insistindo que o filho assinasse o contrato, dizendo: “Você nunca mais terá outra oportunidade como esta”. Mas sabiamente, Monty acreditava que tudo era uma simples questão de tempo os estúdios lhe darem o que desejava. E o papel em Mrs. Miniver foi confiado a Richard Ney. Seu agente, Leland Hayward (1902-1971), sempre dizia que Clift era orgulhoso demais para ficar em Hollywood nas condições que ele queria. Hayward lhe pediu que ficassem em Los Angeles por alguns meses a fim de ter encontros com os chefões dos grandes estúdios. Com muita astúcia, lhe conseguiu um contrato de 6 meses com a MGM, apenas para que permanecesse na Califórnia. Os Big Bosses não podiam entender o desejo de Monty em manter sua independência, avisando-o que poderia “cometer enganos” se o fizesse. Monty respondia a eles: “Vocês não entendem. Quero ser livre para fazer isso”.


RIO VERMELHO (RED RIVER, 1947)

Para o público, o début cinematográfico de Montgomery Clift ocorreu com Perdidos na Tormenta, feito em 1948. Em 1947, porém, convidado por Howard Hawks (1896-1977), fez o papel do impetuoso jovem Matthew Garth, filho adotivo de Thomas Dunson (John Wayne, 1907-1979), em Rio Vermelho, seu primeiro filme, e terminado no mesmo ano.

Ao iniciar a produção do filme, Hawks assinara contrato de distribuição com a United Artist. Com o orçamento estourado em mais de um milhão de dólares, o diretor-produtor preocupou-se com as possíveis rendas do filme, e atrasou o lançamento por quase um ano, na esperança de conseguir outro distribuidor que pudesse lhe dar as garantias de rendas compensadoras. Conseguiu, mas a United recusou-se a liberar o contrato, certa de que poderia trabalhar o filme de maneira satisfatória para Hawks, e lançado somente em 1948, depois de Perdidos na Tormenta- os lucros internos de quatro milhões de dólares provaram que ela estava certa.
 


RED RIVER foi o único Western na filmografia de Clift, e ele atuou como um veterano no gênero, ao lado de “cobras” como John Wayne, Walter Brennan (1894-1974), John Ireland (1914-1992), e Harry Carey (1878-1947). Clift teve cenas espetaculares com o “Duke”, em especial a cena em que se enfrentam, em uma luta violenta usando braços e pernas. E Poética e romântica a cena de amor do filme, quando ele passa a noite com Tess Miller (Joanne Dru, 1922-1996), ao relento, sob uma árvore, com a chuva caindo impertinente.

 

PERDIDOS NA TORMENTA (THE SEARCH, 1948)

Fred Zinnemann (1907-1997) falou-lhe sobre The Search- que veríamos com o título de Perdidos na Tormenta- quando ele ainda estava filmando Red River, e prometeu-lhe, desde que pudesse fazê-lo, 75 mil dólares pelo filme todo, trabalho planejado para seis semanas em locações na Alemanha e na Suíça. Lazar Wechsler (1896-1971), o produtor, lhe deu consentimento verbal para proceder a alteração nos próprios diálogos. Monty preparou-se maravilhosamente para o papel do engenheiro militar Ralph Stevenson, que serve na zona de ocupação americana, na Alemanha do pós-guerra. Ele encontra um menos abandonado, faminto e andrajoso, perambulando por uma Alemanha em ruínas. Karel Malik (Ivan Jandi, 1937-1987), a quem socorre, leva para casa e passa a tratar como filho.

A interpretação que Montgomery Clift deu ao personagem foi extremamente sincera e feliz, valendo-lhe a primeira indicação para o prêmio da Academia, na categoria de melhor ator. E Ivan Jandi (que faleceu em 1987, aos 50 anos, por complicações do diabete) ganhou um Oscar na categoria especial de ator juvenil, pela destacada performance que teve no filme.


TARDE DEMAIS (THE HEIRESS, 1949)

Unanimemente considerado como a mais nova sensação masculina das telas, Monty foi escolhido por William Wyler, em 1949, para a parte de Morris Townsend, o namorado sem escrúpulos da rica herdeira Catharine Sioper (Olivia de Havilland), na adaptação cinematográfica da peça de Ruth e Augustos Goetz The Heiress, baseado no romance Washington Square, de Henry James- que no Brasil se chamou Tarde Demais. E ele foi um convincente caça dotes, um jovem charmoso e irresistível que subjuga a herdeira tímida, recatada e reprimida.

No ano seguinte, Clift quase que repete praticamente o mesmo papel que fizera de Tarde Damais, pois ele foi seriamente indicado para interpretar Joe Gillis em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), mas acabou indo para William Holden (1918-1981), que declarou: “Não consegui o papel pelo fato de Billy Wilder estar louco de que eu trabalhasse no filme. Consegui porque Montgomery o recusou”.

Billy Wilder (1906-2002) recordou anos depois certos fatos sobre Montgomery Clift e sua recusa de estrelar Sunset Boulevard: “A Parte do roteirista Joe Gillis, que se torna gigolô, foi escrita para Montgomery Clift. Duas semanas antes do início das filmagens, nos chega o agente de Monty, nos informando que não faria o filme, com receio do que poderia pensar suas fãs se ele tivesse um caso com uma mulher com duas vezes a idade dele? Bom, eu esperava isso de um ator de Hollywood, mas não de um ator sério que julguei acreditar. Diante disso, William Holden foi escolhido, e ele teve sua primeira indicação pela Academia como melhor ator”.



UM LUGAR AO SOL (AN AMERICAN TRAGEDY, 1951)

Baseado na obra prima de Theodore Dreiser (1871-1945), An American Tragedy – que já havia sido filmado em 1931 pela mesma Paramount, e dirigido por Josef Von Sternberg (que substituiu Sergei Eisenstein), com Sylvia Sidney, Phillip Holmes e Frances Dee e quando lançado no Brasil recebeu o título literal de Uma Tragédia Americana.

Um Lugar ao Sol foi dirigido pelo grandioso George Stevens (1904-1975), e é um dos dois filmes definitivos de Montgomery Clift, junto com A Um Passo da Eternidade.

George Eastman (Clift) nega-se a oportunidade da escolha. Ele é impelido pela sociedade, pelo materialismo americano, pelas mulheres, e por quaisquer outras razões. Ambicioso e impulsivo, é este impulso que o encoraja, até que sua namorada grávida (Shelley Winters, 1920-2006) morre, e perde para sempre a mulher que verdadeiramente ama (Elizabeth Taylor, 1932-2011), acabando penalizado pela lei.

Mas George age por motivos que ele mesmo próprio não compreende. Durante o julgamento, tenta justificar seus atos, mas é tarde demais. Simpático, gentil, enigmático- como se desejável por essas razões, como Ângela Vickers (Elizabeth Taylor) o é por sua beleza e riqueza- chega as raias de incorporar a personalidade cinematográfica de Clift.

UM LUGAR AO SOL ganhou 6 prêmios da Academia, mas Montgomery Clift, na categoria de melhor ator, não ganhou o Oscar, perdendo para Humphrey Bogart (1899-1957) por Uma Aventura na África/The África Queen. Segundo palavras de Charlie Chaplin (1889-1977), Um Lugar ao Sol é "o melhor filme jamais saído de Hollywood". Este filme inspirou a novelista brasileira Janete Clair (1925-1983) a escrever SELVA DE PEDRA, lançado em 1972 na TV brasileira, onde o personagem de Francisco Cuoco, Cristiano Vilhena, era um facsimile  do personagem feito por Monty.


A TORTURA DO SILÊNCIO (I Confess, 1953)


MONTGOMERY CLIFT foi uma escolha perfeita de Alfred Hitchcock (1899-1980) para o papel do Padre Michael William Logan em I Confess, roteiro de George Tabori e William Archbald, baseado na peça Nos Deux Consciences, escrita em 1902.

Otto Keller (O.E. Hasse, 1903-1978) confessa ao Padre Logan (Clift) que havia cometido um homicídio, na pessoa do advogado corrupto Villete (Ovila Legare, 1901-1978). Para praticar o crime, Keller tinha usado uma batina, obtida na igreja do Padre Logan, em Quebeck, onde ele era sacristão. Logan e uma mulher casada, Ruth Grandfort (Anne Baxter, 1923-1985), tiveram um love affair antes de ele ter se ordenado padre e estavam sendo chantageados pela vítima do crime, que sabia do caso. Por isso, recaíram sobre ele a suspeita e a acusação da autoria do crime.

O segredo da confissão não lhe permitia revelar o nome do verdadeiro assassino, nem mesmo ao seu advogado. Mas tarde, a esposa de Keller, o verdadeiro assassino, acaba denunciando o marido. A Polícia o persegue e Keller é baleado ao tentar fugir. Caído na rua, moribundo e cercado por curiosos, faz a confissão final ao Padre Logan, que lhe dá a extrema unção e ele morre em seus braços.


A UM PASSO DA ETERNIDADE (From Here to Eternity, 1952)


Pelos direitos de filmagem do Best Seller de James Jones (1921-1977), sobre a vida na base militar em Pearl Harbor às vésperas da entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, Harry Cohn (1891-1958) pagou 82.000 dólares, sabendo que resultaria num grande filme para a sua Colúmbia Pictures. Mas ele não tinha idéias dos problemas terríveis que enfrentaria para levar adiante seu projeto de levá-lo as Telas. O livro de Jones se estendia pelas 860 páginas, e adaptá-lo sem ferir o espírito da obra não era tarefa nada fácil. Além disso, o romance de Jones guarda elementos quase impossíveis de serem filmados, sem ofender os brios do Exército ou ferir o vigente hiper Código de Produção de Hollywood, o famoso Código Hays, ainda bem vigente em 1952.

Finalmente, quando Daniel Taradash (1913-2003) o presenteou com um roteiro, Cohn sentiu que não era só exeqüível como também fiel ao espírito do romance From Here to Eternity.

Para o papel do soldado Robert Lee Prewitt, um corneteiro que é boxeador, o big shot da Colúmbia queria John Derek ou Aldo Ray, ambos contratados pelo estúdio. Mas Fred Zinnemann queria Montgomery Clift, que foi contratado por 150.000 dólares.

Eli Wallach originalmente foi escolhido para ser o tenaz e sofrido Ângelo Maggio, mas devido a outros compromissos assumidos na Broadway, ele acabou desistindo. Frank Sinatra (1915-1998), com a carreira em declínio, se interessou pelo papel, e embora endividado, ofereceu-se em fazer, trabalhando praticamente de graça. De início, Cohn nem queria saber dele, nem mesmo com uma falada interferência da Cosa Nostra. Somente depois, que Ava Gardner (1922-1990), então mulher de Sinatra, fez uma súplica pessoal por ele que o relutante magnata acabou concordando em testar o ídolo romântico de outros tempos e ex-astro da Metro.O teste impressionou Zinnemann, e a carreira de Sinatra, então em declínio, voltou a espeta, recuperada por menos de 8.000 dólares. E de quebra, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo seu papel.

O resultado de todo o trabalho de produção, o restante do elenco- Burt Lancaster (1913-1994) no papel do complacente Sargento Milton Warden; Ernest Borgnine (1917-2012) como o sádico sargento “Fatso” Judson, que fez do pobre Ângelo Maggio como vítima de sua perversidade; Deborah Kerr (1921-2007), na pele da pouco recatada esposa do comandante da base, Karen Holmes (papel que estava destinado para Rita Hayworth, que recusou, seguida de Joan Crawford) cujo aparente frescor e serena delicadeza britânica intensificaram a colisão das ondas que se encresparam pelas telas dos cinemas do mundo, quando ela e Lancaster usam a praia para uma das mais famosas cenas de amor jamais vistas num filme, ousadíssima para época;

E Donna Reed (1921-1985), no papel da prostituta Alma Lorene, interesse amoroso de Prewitt (Clift), que apesar de não ter sido a primeira escolha de Zinnemann (que queria Julie Harris, mas Harry Cohn achou a aparência da atriz muito “Família” para um papel que exigia muita sensualidade) é uma das grandes responsáveis pelo sucesso do filme que vem atravessando décadas, ganhando 8 Oscars - todo elenco, todos os atores desempenhando muito bem seus papéis.

Mas...e Montgomery Clift?

Mais uma vez, como tantas e tantas outras (e sempre será, afinal, nada é perfeito), a Academia falhou em não premiar Monty como melhor ator, na sua terceira indicação, e talvez, pela melhor performance de esta carreira.


O ACIDENTE
Hoje, sabe-se que Montgomery Clift era homossexual. Talvez para preservar sua imagem de galã, muitos de seus primeiros biógrafos afirmavam que o grande amor de sua vida fosse Elizabeth Taylor (1932-2011). Esta, sempre soube da orientação sexual de Clift, mas as barreiras e empecilhos da época- e fora a Indústria Cinematográfica que não aceitava que seus astros fossem “gays”, algo inaceitável e imperdoável tanto para o público que ia aos cinemas quanto para os padrões e sistema da época- impedia que ele assumisse sua condição.

Monty e Liz ficaram muito amigos, e durante as filmagens de Um Lugar ao Sol, Monty sempre desabafava com Liz. Houve sempre entre os dois uma amizade mútua, baseado sobretudo na confiança.

Na noite de 12 de maio de 1956, Liz, então casada com o ator Michael Wilding (1912-1979), seu segundo marido, ligou para Monty, que morava bem próximo a casa dela, a fim de convidá-lo para jantar. Kevin McCarthy (1914-2010) estaria presente, assim como Rock Hudson (1925-1985- outro homossexual muito amigo de Liz, amizade esta que durou até a morte do ator), e secretária Phyllis Gates.

Monty aceitou o convite. Ele havia tomado decisão de não dirigir mais carro, pois ele ficava amedrontado no volante, e por isto, tinha contratado um motorista particular. Nesta noite, ele estava tão cansado que decidira ficar em casa, dando noite livre para o motorista. Não dirigia a meses, mas, assim mesmo, pegou o carro e tomou o rumo da casa de Liz, aonde chegaria em 4 a 5 minutos.

Durante o jantar, apenas tomou um pouco de vinho e nada mais bebeu durante toda noite. Por volta da meia noite e meia, despediu-se e saiu com McCarthy, deixando a luxuosa mansão, localizada bem do alto de uma colina, com a expressa recomendação de Liz para que seguisse de perto o carro de Kevin, para sua maior segurança. E ele prometeu que assim ele faria, para ela não se preocupar.

De repente, ouvi um terrível estrondo”, contou Kevin (foto). “Parei meu carro e dei marcha a ré dentro da noite, para encontrar o dele, destruído contra um posto telefônico. Senti cheiro de gasolina e procurei desligar a ignição, mas estava tãoescuro que não podia ver nada, nem mesmo Monty. Aterrorizado, voltei rápido para a casa dos Wildings, batendo forte na porta e gritando para que chamassem uma ambulância, sem saber se Monty estava vivo ou morto”.

Tanto Kevin como Michael tentaram impedir Elizabeth Taylor de descer a colina e ir até o local do acidente em eles, mas, como acrescentou Kevin: “Ela estava desesperada, ela lutou conosco como um tigre e desceu correndo a colina”.

E LIZ TAYLOR diria: “O rosto de Monty escorria sangue e mal podia vê-lo. Mas me arrastei para dentro do carro e coloquei-lhe a cabeça no meu colo. Finalmente, ele voltou a si e começou a tentar puxar um dente solto. E Pediu-me para puxar outro e eu o atendi. Tive que me controlar para não passar mal”.

Chega o Dr. Rex Kennamer, que auxiliado por Rock Hudson, consegue retirá-lo do carro. Liz entrou na ambulância com ele, e chegaram ao Hospital Cedros do Líbano. Quando Clift foi levado para a sala de operações, Liz entou em forte crise de histerismo.

O Dr. Kennamer detalhou os estragos na face e no corpo de Monty: lacerações no lado esquerdo da face, com um nervo cortado, deixando aquele lado entesado e a boca torta; nariz quebrado e esmagamento da cavidade óssea; ambos os lados do maxilar quebrados, três dentes frontais perdidos; grave concussão cerebral; deslocamento do pescoço.

Clift recuperou-se por algum tempo no hospital, onde depois de três semanas, os médicos descobriram que um lado do maxilar havia sido engastado incorretamente. Tiveram de quebrá-lo e reengastá-lo.

Com o rosto sensivelmente desfigurado, evitaram de lhe dar papéis que pediam rostos bonitos e perfeitos, e desde aquele momento ele passou a fazer personagens sofridos, que iam de acordo com seus novos traços faciais, seu novo visual. Montgomery Clift, que já tinha tendências depressivas, nunca mais foi o mesmo. A alma também fora profundamente atingida e ele se transformou num homem amargurado e triste. Um homem torturado.




A ÁRVORE DA VIDA (Raintree County, 1957)

Em abril de 1956, a MGM havia iniciado a produção de A Árvore da Vida, com status de superprodução, tendo como principais destaques do enorme elenco Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, e Eva Marie Saint. Preocupado de Clift estar bebendo exageradamente (mesmo antes do acidente), o produtor (e depois chefe da MGM) Dore Schary (1905-1980) fez um seguro do filme, o que nunca havia acontecido antes por 500.000 dólares, para cobrir qualquer problema que pudesse ocorrer durante a produção. Estavam as filmagens em meio quando aconteceu o acidente com o carro do ator, e elas foram interrompidas por nove semanas.

Recebendo alta dos médicos, Clift apresentou-se prontamente aos estúdios para o reinício das filmagens. Em dores constantes e tomando regularmente codeína e um sortimento de pílulas que trazia numa sacola. Clift sentia que devia aos colegas e ao estúdio a imediata volta ao trabalho. Era cedo ainda, mas os sensos de responsabilidade e coleguismo prevaleceram. O rosto ainda estava inflamado. O perfil direito foi menos danificado e, assim, ele foi mais fotografado por este ângulo, com mais freqüência. Os olhos- sempre o melhor de sua imagem- nem sempre estavam claros e limpos. Mesmo com o uso contínuo de colírios, mostravam-se muito irritados e vermelhos, redobrando os cuidados de Robert Surtees (1906-1985), diretor de fotografia (Ben-Hur).


Pela extrema dedicação de Monty e seu amor ao filme, Edward Dmytryk (1908-1999) conseguiu terminá-lo; o lançamento ocorreu a 4 de outubro de 1957, com 165 minutos de projeção condensando o massudo romance de Ross Lockridge Jr (1914-1948), que são de 1.066 páginas. Com o roteiro de Millard Kaufman (1917-2009), seguindo muito perto a obra em que se baseia, acontecimentos históricos e personagens matizados, cujos diálogos dão vida a trama que se inicia em 1859, quando o “Professor” Jerusalém Webster Stilles (Nigel Patrick, 1913-1981) fala aos alunos John Wicklift Shawnessy (Clift) e Nell Gaither (Eva Marie Saint), formandos em curso secundário, em Fairhaven, Indiana, da existência de uma árvore dourada, que representa a verdade e a realização, oculta em algum lugar do condado- e eles logo se põem a procurá-la.

Embora Nell e John sejam namorados, ele se casa com a bela Susanna Drake (Liz Taylor), quando ela lhe revela esperar um filho dele. Susanna mentia para forçá-lo ao casamento. Em visita ao Sul, John fica sabendo do confuso estado mental de Susanna, envolvendo temores de miscigenação e um mistério cercando a morte dos pais num incêndio. Nasce um filho do casal. Irrompe a Guerra Civil Americana (1861-1865), e John fica em casa, dando aulas e cuidando de seu filho Jimmy e de sua esposa cada vez mais perturbada.

Um dia Susanna foge de casa com o menino e John se alista no Exército da União para tentar encontrar vestígios deles. Acaba por descobrir Jimmy abrigado por antigos escravos de Susanna e o leva consigo. Terminada a Guerra, localiza Susanna num hospício e volta para Indiana.

Aparentemente recuperada, mas acreditando que seu comportamento vem impedindo John de buscar a árvore fabulosa, Susanna foge uma noite à procura dela, sendo seguida por Johnny, que dera sua falta. No dia seguinte, é encontrada morta no pântano, e John e Nell, reunidos finalmente, encontram Jimmy (Mickey Maga) ao sopé de uma árvore dourada.


ÚLTIMOS FILMES

Entre 1958 e 1966, fez seus últimos seis filmes. Os Deuses Vencidos, como o insignificante e odiado soldado judeu Noah Ackerman. Em Paris, onde o filme estava prestes a ser rodado, Monty desapareceu, prejudicando toda equipe e atrasando as filmagens. Foi descoberto muitos dias depois, no Sul da Itália, em um bordel imundo.

De 1959, Por um pouco de Amor, fazendo um colunista sentimental, contracenando com Robert Ryan (1909-1973), a veteraníssima Myrna Loy (1905-1993, em 115º filme) e Dolores Hart. De Repente no Último Verão, baseado na peça de Tennessee Williams (1911-1993), roteiro de Gore Vidal e do próprio Williams, pela terceira e última vez contracenando com sua grande amiga Elizabeth Taylor, e pela primeira (e única) vez com a Diva Katharine Hepburn (1907-2003). 1960, um encontro com Elia Kazan (1909-2003) em Rio Violento, que dirigiu Clift em um drama estranhamente perturbador, contracenando com Lee Remick (1935-1991), Albert Salmi (1928-1990), e Jo Van Fleet (1914-1996).

No mesmo ano, John Huston (1906-1987) dirigiu Clift e um elenco all star no que é considerado um de seus piores filmes- Os Desajustados. Só elenco era de primeira, trazendo Clark Gable em seu último filme (ele morreria em novembro de 1960), e Marilyn Monroe (1926-1962), que como Clift, também andava dando problemas durante as filmagens, e como Gable, também se despediu das telas com este filme.

Julgamento em Nuremberg, como o esterilizado deficiente mental Rudolf Petersen, papel de 7 minutos. Stanley Kramer ofereceu 50.000 dólares (pelo filme Os Desajustados, Clift recebeu 200.000), mas os agentes do ator aconselharam a não aceitar, para não abrir um precedente, mas Kramer insistiu pessoalmente com ele e o contrato foi assinado por uma quantia mínima, a título simbólico, mas despesas. Pelos 7 minutos de presença na tela, teve pela quarta e última vez o nome indicado pela Academia para suas premiações anuais, desta vez como melhor ator coadjuvante. Dele disse Stanley Kramer (1913-2001): “Clift é um dos três ou quatro maiores atores que existem".

Voltou a ser dirigido por John Huston em Freud, além da Alma, filme difícil, de cujo elenco também participou Susannah York, Larry Parks (1914-1975), Susan Kohner e David McCalum. Do seu trabalho, Huston se recordaria: “Ao fim, penso que ele deu uma interpretação extraordinária. Freud era um homem torturado. Ao menos, conseguiu um ator torturado.”

Em outubro de 1965, foi recomendado pelo escritor Salka Viertel ao produtor-diretor Raoul Lévi (1922-1966) para fazer o papel principal de um thriller de espionagem que ele havia escrito com base num romance de Paul Thomas – The Defector. Inteiramente filmado em locações na Alemanha, o filme foi lançado em 1966 e marcou a despedida de Clift das telas.

As condições de saúde de Montgomery Clift se deterioravam ano após ano. Em janeiro de 1962, foi operado de uma hérnia e veias varicosas. Em dezembro do mesmo ano, à primeira de duas operações de catarata. O trabalho no Cinema, cada vez mais escasso, e com problemas de saúde e de bebida, tornou-se um ator pouco confiável. A memória, sempre considerada excelente, já não era a mesma.

Na manhã de 23 de junho de 1966, Montgomery Clift foi encontrado morto, às 6 horas da manha, por um amigo que cuidava dele em seus últimos anos. Levado para o necrotério da cidade, o legista fez a necropsia, e declarou que o ator tinha morrido de explosão da artéria coronariana. O ator esta sepultado em um cemitério Quaker, em Broklyn, Nova York(foto).


O TEATRO E O CINEMA- DECLARAÇÕES DE MONTGOMERY CLIFT


Não tenho medo de ser estereotipado. O maior perigo é demonstrar segurança, ser digno de confiança. A Mais forte motivação, em um ator é a prova, o experimento. Tudo o que nos desenvolve é digno de ser interpretado, mesmo se for um fracasso.”

Em muitos aspectos, a tela é um meio mais satisfatório do que o palco. A sinceridade chega melhor ao ator e há mais oportunidade para sutilezas, porque a câmara nos esta em cima o tempo todo”.

E SE CONTRADIZ:
O desafio de interpretar nos palcos é maior no que nos filmes. Não há policiamento diante de uma personalidade isolada. Se você tem um papel extenso, tem que agüentá-lo, e bem.

Criticado pela escassez do guarda-roupa, disse: “Tenho um terno de que gosto muito e pretendo mantê-lo enquanto as boas traças o pouparem”.

Reprodução de uma matéria de 17 de outubro de 2010, mais atualizada, com base em artigo de João Lepiane, da Revista Cinemim nº 82- março/abril de 1993.


PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES.
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