domingo, 27 de abril de 2014

O Cinema Religioso Cristão – Parte Final



Por Paulo Telles

Continuando o artigo referente ao cinema religioso cristão, onde abordaremos sobre os filmes com temáticas bíblicas e religiosas, além de dramas de cunho religioso, onde não necessariamente sejam mensagens do Evangelho, mas podendo se tratar de maneira soberana a humanidade dos seus personagens dentro do  pano da fé.


A SEGUNDA PARTE DESTA MATÉRIA




IV-JOHN FORD E A PERSEGUIÇÃO AOS CRISTÃOS NOS TEMPOS MODERNOS.

John Ford (1895-1973) realizou uma de suas obras mais culturais (talvez a maior delas), para um cineasta que visava em não ser um intelectual, mas sim um rico contador de histórias, o que ele fez com tamanha maestria em toda sua carreira. Mas Domínio de Bárbaros (The Fugitive), de 1947,  infelizmente hoje é uma das fitas pouco lembradas do diretor, que ficou marcado como o “Mestre dos Westerns”, e principalmente, pela sua parceria com John Wayne, seu astro principal em inúmeros de seus clássicos, e seu compadre.



A história, baseada em livro de Graham Greene (1904-1991), baseada em fatos verídicos, se passa no México, no Estado de Tabasco. O governo é violentamente contra a religião católica; a religião foi proibida, diversos padres foram mortos ou obrigados a abandonar o sacerdócio. A obra conta a história de um padre (Henry Fonda, 1905-1982), sem nenhuma identidade, alcunhado de “Fugitivo.” Nesse cenário hostil, este padre tenta fugir em direção aos Estados Unidos, contando com a ajuda de uma índia (Dolores Del Rio, 1904-1982) e de um paroquiano fiel.  



Contudo, as coisas não dão certo para o religioso, que é perseguido e capturado, e como muitos que deram seu sangue pela fé, ele acaba sendo sacrificado. Os bárbaros na fita são as autoridades policiais, que caçam até as últimas consequências os religiosos que querem abraçar a fé em Cristo. Pedro Armendáriz (1912-1963) é o tenente da polícia mexicana; J. Carrol Naish (1896–1973) é o informante da polícia; Leo Carrilo (1881-1961) é o Chefe de Polícia; e Ward Bond (1903-1960) ainda desponta no elenco de tão fascinante obra fordiana.

Com deslumbrante fotografia expressionista de Gabriel Figueroa (1907-1997), Domínio de Bárbaros é uma obra de impressionante beleza, lirismo e religiosidade, e John Ford costumava dizer que era um de seus trabalhos favoritos.


V-A SANTIDADE NO CINEMA INGLÊS.

Em 1964 e 1966, o cinema inglês levou as telas duas biografias de santos católicos ingleses: São Thomas Becket (1118-1170), e São Thomas More (1478-1535). Os filmes, eram, respectivamente, Becket, o Favorito do Rei (1964) e O Homem Que Não Vendeu Sua Alma (1966).


O primeiro, dirigido pelo inglês Peter Glenville (1913–1996), também ator, conta sobre a vida de São Thomas Becket (Richard Burton, 1925-1984), mártir, que foi assassinado por seguidores do Rei Henrique II (Peter O’ Toole, 1932-2013) na Catedral de Cantuária. Tudo começa quando o monarca da Inglaterra vive em choque com a Igreja. Quando o Arcebispo de Canterbury (Felix Aylmer, 1889-1979) morre, ele tem uma ideia genial, que consiste em não nomear nenhum religioso para o cargo e sim Thomas Becket, um grande amigo de muitas farras e copos, que o apoiaria e ficaria contra a Igreja.



Henrique II desejava ser senhor absoluto dos seus domínios, tanto da Igreja como do Estado, e conseguiu encontrar um precedente nas tradições do reino para retirar privilégios especiais ao clero inglês, que ele considerava como empecilhos à sua autoridade.

Enquanto chanceler, Becket cobrou um imposto de proteção do reino contra invasores, uma tradição medieval cobrada de todos os proprietários de terras, incluindo igrejas e bispados, o que lhe criou dificuldades e ressentimentos do clero inglês. Becket aumentou ainda mais a sua imagem de homem secular ao tornar-se um cortesão bem sucedido e extravagante, e um alegre companheiro dos prazeres do rei. O jovem Thomas era dedicado aos interesses do seu soberano, de um modo tão firme apesar de diplomático, que quase ninguém duvidava da sua lealdade à coroa inglesa.


Em 1162, Henrique II recompensou Becket fazendo-o arcebispo de Cantuária. A escolha teria sido olhada com desconfiança pelo clero inglês, e Thomas só conseguiu o cargo vários meses após a morte do anterior arcebispo, Teobaldo. O rei tencionava aumentar a sua influência ditando as ações do seu fiel e nomeado vassalo, e diminuir a independência e a influência da Igreja na Inglaterra.


Mas o caráter de Becket pareceu modificar-se imediatamente. Passou a viver uma vida de simplicidade e pobreza e, apesar de anteriormente ter ajudado Henrique a diminuir o poder dos bispos, passou a defender ativamente os direitos da Igreja. Thomas, repentinamente, encara a nova função com seriedade, se opondo mais ao rei que seus predecessores, e isto faz com que os dois outrora amigos entrem em choque. Becket se torna mais popular que o Rei, o que não demora em que Henrique arme uma conspiração contra o agora seu inimigo.

A maioria dos historiadores parece concordar que o rei não pretendia realmente assassinar Thomas Becket, apesar das suas duras palavras. Seja como for, quatro dos cavaleiros do monarca (Reginald Fitzurse, Hugh de Moreville, William de Traci e Richard le Breton) partiram para a Cantuária. Em 29 de Dezembro de 1170, entraram na catedral e assassinaram Becket, subindo alguns nos degraus do altar, quando os monges cantavam as vésperas do ano vindouro.


Depois do assassinato, descobriu-se que Becket usava um cilício (neste contexto uma camisa de tecido grosso e desconfortável) por baixo das suas vestes de arcebispo. Em pouco tempo, fiéis por toda a Europa começaram a venerar Thomas Becket como mártir, e em 1173, cerca de três anos após a sua morte, foi canonizado pelo papa Alexandre III na Igreja de São Pedro, em Segni

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O Homem Que Não Vendeu Sua Alma foi, em 1966, a nova incursão do cineasta Fred Zinnemann (1907-1997) pelo terreno da consciência atormentada através da fé (como retratado pelo diretor em Uma Cruz a Beira do Abismo 8 anos antes), com base na famosa peça de Robert Bold (1924-1995) que foi estrondoso sucesso nos palcos londrinos em 1960, e que também abordou o script. A trama versa sobre as relações de Sir Thomas More (Paul Scofield, 1922-2008) e o Rei Henrique VIII (Robert Shaw, 1927-1978). More, um dos mais respeitados católicos da Europa de então, em 1528, na sua recusa em aceitar o casamento do monarca com Ana Bolena (Vanessa Redgrave), sofre todo tipo de pressão para renegar seus princípios, defendida até a morte, por decapitação.


A sua cabeça foi exposta na ponte de Londres durante um mês, foi posteriormente recolhida por sua filha, Margaret Roper. A execução de Thomas More na Torre de Londres, no dia 6 de julho de 1535 "antes das nove horas", ordenada por Henrique VIII, foi considerada uma das mais graves e injustas sentenças aplicadas pelo Estado contra um homem de honra, consequência de uma atitude despótica e de vingança pessoal de um monarca. Devido à sua retidão e exemplo de vida cristã, foi reconhecido como mártir, declarado beato em 29 de dezembro de 1886 por decreto do Papa Leão XIII e canonizado, conjuntamente com São John Fisher a 19 de maio de 1935 pelo Papa Pio XI. O seu dia festivo é 22 de Junho.


Um homem para todas as épocas, conforme palavras do próprio cineasta, que foi um diretor para todos os filmes.  O roteiro se preocupa em não ter palavras recitadas, mas sim em mostrar o que os personagens sentem e o que pensam. Zinnemann ainda evitou que o esplendor adquirisse precedência sobre o drama. Isto não impede que, junto à angustia de More, transmitida com absoluta limpidez graças as cenas plasticamente rebuscadas, graças a excelente fotografia de Ted Moore (1914-1987), pois as imagens do Tâmisa, onde a fita fora rodada em especial não fogem da memória do espectador.



Tudo neste drama religioso sobre a vida de um santo inglês funciona em perfeita sintonia, graças à bem aventurada escolha do elenco, além dos mencionados Shaw e Scofield, temos Wendy Hiler (1912-2003) no papel de Alice, esposa de More; Orson Welles (1915-1985) como o Cardeal Wolsey; Leo Mckern (1922-2002); John Hurt como Richard Rich, o falso acusador de Thomas More; Nigel Davenport (1928-2013) como o Duque de Norfolk; A fascinante Vanessa Redgrave, já apontada, como Ana Bolena; e Susannah York (1939–2011) como Margareth, a filha de Thomas More.   O Homem Que Não Vendeu Sua Alma surpreendeu ante a entusiástica receptividade, ganhando os principais prêmios nos Estados Unidos e na Inglaterra, incluindo Oscar de melhor filme de 1966 e melhor diretor para Fred Zinnemann, assegurando lucro polpudo nas bilheterias mundiais.


VI-A FACE DO REDENTOR NA VISÃO DE CINCO CINEASTAS

São incontáveis as montagens cinematográficas sobre a vida e paixão de Jesus Cristo. Sabemos que desde os primórdios da Sétima Arte, os pioneiros investiram em diversas adaptações dos Evangelhos. Acredita-se que mais de duas mil versões foram realizadas sobre a vida do homem que dividiu a História antes e depois del. Logo, seria impossível enumerar todas as películas feitas sobre a vida do Redentor. Contudo, enumeraremos aqui a passagem dos evangelhos sob a ótica de cinco grandes diretores: Julien Duvivier, Nicholas Ray, Pier Paolo Pasolini, George Stevens, e Franco Zeffirelli.

As Sagradas Escrituras inspiraram tanto respeito que o cinema durante muitos anos não ousava mostrar sequer o rosto de Cristo. A presença de Jesus era anunciada por gestos de sua mão, ou mostrado de costas para o público, sua voz fora de cena, ou ainda efeitos avassaladores, tais como imensos raios solares. Afinal, uma imagem ausente da figura redentora poderia causar impacto mais poderoso pelo próprio mistério que encerra. Contudo, nem todos os cineastas concordavam com este ponto de vista, e ousaram confeccionar a imagem de Jesus aos moldes dos pintores da renascença, ou mesmo, pelo imaginário popular cristão.


Muito embora a figura pictórica do personagem não seja a verdadeira, foi a imaginação dos pintores que vieram a influenciar muitos dos cineastas que ousaram filmar a vida de Jesus. Entretanto, para corporificar Jesus nas telas de cinema, o cinema adotou, na maior parte dos casos, o conceito europocêntrico: Jesus seria alto ou ruivo, louro e de olhos azuis.


Estreado no Brasil com o subtítulo de O Grande Drama da Humanidade, e baseado no romance O Mártir do Gólgota, de Enrique Perez Escrich (1829- 1897), Golghota foi produzido na França em 1935 e dirigido por Julien Duvivier (1896-1967). Além de obter aplausos de grandes críticos da época, foi rotulado pelo jornal francês Le Salut Public, como “a melhor construção da Antiguidade até agora conseguida”. Esta obra de Duvivier foi reprisada nos cinemas do Rio de janeiro na década de 1950, sob o título original do romance de Escrich.


A fita comprova a qualidade do intérprete de Cristo, Robert Le Vigan (1900-1972), sério, veemente, distanciado da linha do Cristo apostólico romano. Um Cristo quase hierárquico, cujo roteiro tem um diálogo fiel ao espírito do Evangelho, dito por astros como Harry Baur (1880-1943) como Herodes Antipas; Jean Gabin (1904-1976, foto acima), como Pilatos; Edwige Feuillère (1907–1998), como Prócula, esposa de Pilatos; e Lucas Gridoux (1896–1952), como Judas.


Robert Le Vigan, o intérprete de Cristo, após a conclusão desta magnífica obra de Duvivier (uma das melhores sobre a vida de Jesus), se tornou popular e bastante requisitado por muitos diretores franceses, mas quando a França foi invadida pelos alemães durante a II Guerra, tornou-se um membro radical do “Parti Populiste Français", um direitista partido pró-fascista, e não escondeu seu apoio ao antissemitismo, além de colaborar com as autoridades nazistas. Mais tarde foi preso e julgado, e mesmo tempos depois em liberdade condicional, sua carreira já tinha sido destruída e seus bens confiscados. Morreu pobre, esquecido, e louco na Argentina, em 1972.


Em 1961, Nicholas Ray (1911-1979) juntamente com o produtor Samuel Bronston (1908-1994) realizou uma das obras mais importantes da vida de Jesus Cristo, um tributo à iconografia cristã, estabelecida desde que Lumiere realizou sua La Passion em 1897:              Rei dos Reis.



A obra sacra de Ray, a penúltima em sua primorosa filmografia, foi rodada na Espanha, acarretando divisão de opiniões, tanto por parte da crítica, do público, e de líderes religiosos cristãos. Não contente de apenas se inspirar nas pesquisas dos maiores estudiosos sobre o tema, Ray, juntamente com o produtor Bronston, teve uma audiência com o Papa João XXIII (1881-1963), ao qual pediram sugestões para a coordenação e distribuição de cenas. Ray escalou seu colaborador e amigo de anos, o competente e ganhador do Oscar pelo roteiro de A Lança Partida, Philip Yordan (1913-2004), para confeccionar o script, que enfileira os principais episódios do Evangelho em seus 168 minutos de projeção, segundo uma postura cênica, hierática, e comovedora.



Dificilmente, algum maquiador faria o mesmo com o rosto de Jeffrey Hunter (1925-1969), o intérprete de Cristo. A apolínea beleza do ator de olhos azuis e um triste destino (Hunter morreu aos 43 anos, em 1969, ao cair de uma escada em sua casa).  Com a escolha de Hunter, decerto o mais belo Cristo idealizado nas telas, e o roteiro inteligente de Yordan, que ajustou com perfeição a imagem de Jesus Cristo ao seu verdadeiro ambiente, respeitando acontecimentos históricos daqueles tempos agitados, Rei dos Reis se tornou um espetáculo tradicional e um dos preferidos em reprises da Semana Santa pela TV por assinatura hoje. A fita, motivada pelo script de Yordan, alivia até mesmo a culpabilidade pela morte de Jesus pelos judeus, dando a entender que foi uma conspiração do Império Romano, que durante três anos vinha investigando os passos do Nazareno e de seus discípulos.



Jeffrey Hunter atua como Jesus com inigualável carisma a altura do personagem. Sereno, sublime, humano, mas, ao mesmo tempo, colocado acima dos mortais. Ele declarou a uma revista americana, em março de 1962, um ano depois do lançamento do filme, a respeito de seu desempenho como Cristo:

 Não compreendi totalmente minha responsabilidade até achar-me nas vestes de Jesus, subindo a montanha para a cena do sermão das bem-aventuranças. Para minha surpresa, muitos habitantes do vilarejo caíram de joelhos enquanto eu passava. Eles sabiam muito bem que eu era um mero ator, porém sentiram que, de alguma forma, eu era uma representação viva de uma figura que lhes era sagrada desde a infância. Eu não sabia o que fazer... foi aí que me conscientizei do que aceitara representar.




Senti minha responsabilidade crescer à medida que o filme prosseguia, e sinto-a ainda mesmo que o filme tenha terminado. Não creio, entretanto, que sou maior conhecedor de Cristo do que qualquer outra pessoa. Minha educação religiosa foi como a de qualquer criança americana. Conhecia a Bíblia, é claro, a história de Jesus era sagrada, mas nunca havia pensado muito sobre ele como Pessoa, de carne e sangue, como um Homem que viveu neste mundo como nós vivemos, entre pessoas e em um tempo não diferente dos atuais. Ao estudar o script, e enquanto prosseguia minha pesquisa, comecei a compreender pela primeira vez o significado de Sua vida e o que os Seus ensinamentos trouxeram ao mundo.





No elenco, grande maioria de atores não muito notórios, mas que dão grande suporte à trama bíblica: a irlandesa Siobhán McKenna (1923-1986) como Maria; o ator alemão muito conceituado na Europa Gerard Tichy (1920-1992) como José;  Hurd Hatfield (1917-1998) como Pôncio Pilatos;  Rip Torn é Judas; Rita Gam é Herodiades; Carmen Sevilla como Maria Madalena; Antonio Mayans como o jovem discípulo João; Ron Randell (1918-2005) é o Centurião Lucios; Royal Dano (1922-1994) é Simão Pedro; Viveca Lindfors (1920-1995) é Prócula, esposa de Pilatos; Harry Guardino (1925-1995) como Barrabás; Brigid Bazlen (1944-1989) é Salomé; e Robert Ryan (1909-1973) o mais famoso do cast cujo nome era sinônimo de talento, é João Batista.



O Climax Maximus do filme é o Sermão da Montanha, onde foi utilizado 7.000 figurantes, mais do que na cena da crucificação, possivelmente, uma grande falha da produção, entretanto, não deixa de ser um espetáculo religioso dos mais belos vistos na Sétima Arte. Na descida da montanha, a equipe de operadores teve de construir cerca de 60 metros de trilhos ao longo das encostas. Na trilha sonora, a música marcante de Miklos Rozsa (1907-1995).



Rei dos Reis é um monumento esplendoroso, incapaz de arranhar o fervor das grandes plateias a santificada imagem de Cristo. Mesmo que, na época de seu lançamento, críticos arredios ao cinema de Nicholas Ray - um dos mais competentes cineastas do Século XX que foi um caloroso defensor da juventude desajustada- tivessem maldosamente crismado o filme como I Was a Teenage Jesus (Eu fui um Jesus adolescente), comparando talvez Jeffrey Hunter ao rebelde sem causa de James Dean, em Juventude Transviada (1955), outra obra do diretor. A narração, em off, é de Orson Welles, que não foi creditado.


Mas nem todas as visões de Cristo no cinema ofereceram uma iconografia santificada aos moldes do imaginário cristão. Em 1964, Pier Paolo Pasolini (1922-1975), marxista e ateu, lança O Evangelho Segundo São Mateus, a versão mais polêmica (ao lado de A Última Tentação de Cristo, de 1988, de Martin Scorsese) da vida de Cristo. Sem a aura de santidade expressa em Rei dos Reis (1961) de Nicholas Ray, A Maior História de Todos os Tempos (1965) de George Stevens, e Jesus de Nazaré (1977) de Franco Zeffirelli, mas também sem recair no exotismo das óperas rock contidas em Jesus Cristo Superstar e Godspell, a esperança, o Cristo vivido pelo estudante espanhol Enrique Irazoque é um Messias bárbaro, um agitador das massas que usa seus sermões em defesa dos oprimidos, com o intuito de transformar um mundo socialmente injusto. Segundo cineasta, ele encontrou em Irazoqui um rosto belo e fero, humano e destacado dos Cristos pintados por El Greco. “Eu vim trazer a espada e não a paz”, declarou Pasolini e Mateus em seu Evangelho.


No entanto, o leitor poderá perguntar do por que um ateu se interessar em filmar a vida de Jesus Cristo. Muito simples: a figura de Cristo exercia nele uma fascinação não religiosa, mas poética e política. E em Cristo ele admirava sua poesia, força, e carisma. Apenas não aceitava Jesus conforme a Igreja Católica e a teologia, mas acreditava que a mensagem de Jesus conforme o Evangelho de Mateus era revolucionária, ao passo que, para o cineasta italiano, Cristo era uma personalidade corajosa, rebelde, e revolucionária tal qual sua mensagem. Era o Cristo que ia salvar o povo não das penas do inferno, mas da própria ignorância do ser humano.


A Igreja e os fiéis censuraram Pasolini pela falta de doçura do intérprete de Jesus, no entanto era um Cristo destinado a ser um nativo rebelde à prepotência colonialista profeta apocalíptico da riqueza ilícita, de açoite em punho fazendo a reforma agrária para perplexidade e horror dos falsos pregadores e beatos apegados à propriedade privada, que certamente, não leram a encíclica Populorum Progressio, e vieram a combater o Concílio Vaticano II, iniciado por João XXIII e só terminado na gestão de Paulo VI.


Como não deixara de ser, houve protestos violentos contra o filme, e a extrema direita jogou ovos podres no Palácio do Festival de Veneza durante seu lançamento, que, paradoxalmente, acabou ganhando o prêmio do Escritório Católico Internacional de Cinema, e cuja obra foi dedicada à memória de João XXIII, por Pasolini considera-lo o papa mais próximo das ideias progressistas do evangelista Mateus, que procurou mostrar Jesus Cristo para os judeus como o Messias esperado, o Messias das profecias, enfim, o Messias do povo. O filme foi rodado em austeros cenários da Calábria e obedece o tom sublimis et humilis do texto bíblico, numa linguagem despojada e naturalista que a muitos críticos recordou o estilo ascético de Dreyer (A Paixão de Joana D’Arc) e Rossellini (Francisco, arauto de Deus), sublinhando a longa narrativa de 138 minutos de projeção, e uma partitura musical com temas de Bach, Mozart, Prokofiev, “negro spiritual” e música sacra congolesa.


Em 1995, quando o cinema completou 100 anos de existência, esta obra de Pasolini foi inclusa entre os 100 melhores filmes de acordo com o Vaticano, que elaborou uma intensa lista, na categoria de Religião, ao lado de obras como A Vida e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (1905) de Ferdinand Zecca, Nazarin (1959) de Luis Buñuel, e Ben-Hur (1959) de William Wyler.


Após o lançamento de Rei dos Reis, em 1961, de Nicholas Ray, George Stevens (1904-1975), responsável por clássicos como Gunga Din, Os Brutos Também Amam, e Assim Caminha a Humanidade- manifestou interesse em filmar a vida de Jesus Cristo de forma que pudesse ser a versão definitiva. Para isso, o cineasta consumiu seis anos de produção e fez reunir um grande elenco, com 117 papéis dialogados, com atores famosos, muitos destes em pequenas pontas.


Stevens se baseou num romance chamado A Maior História de Todos os Tempos (The Greatest Storie Ever Told), de Fulton Oursler (1893–1952), além dos textos do Novo Testamento, e sua intenção era contar a vida do grande líder da Cristandade com um elenco All-Star, rodada mesmo nos Estados Unidos, em locações do Arizona, Utha, Nevada, e em estúdios da MGM em Culver City- mas que veio a fornecer um panorama ao estilo Cartão Postal, com narrativa hiper- acadêmica, com conceituação medievo-renascentista.


Narrado de forma majestosa e clássico rigor estilístico a Vida de Cristo, a obra sacra de Stevens teve apoio de diversos roteiristas, como o poeta Carl Sandburg (1878-1967), este foi o penúltimo filme do cineasta, rendendo um espetáculo grandioso. A Maior História de Todos os Tempos foi originalmente lançada com 225 minutos de duração (exibida no Brasil com 10 minutos a menos, a versão hoje a disposição em DVD), mas a metragem original seria de 260. Em alguns países, foi lançado com 141 minutos, inclusive na época do Vídeo Home System (VHS), foi esta a duração lançada no mercado de vídeo.


Destaque para a beleza pictórica (consultoria a cores do mestre Eliot Elisofon) e o esplendor lírico e dramático de uma encenação suntuosa. Em especial realce, a sequência da ressurreição de Lázaro (Michael Tolan, 1925-2011) ao som de Aleluia de Handel, que é um dos grandes momentos do filme. Elenco vigoroso: Carroll Baker, como Verônica; Richard Conte (1910-1975), como Barrabás; Jose Ferrer (1912-1992) como Herodes Antipas;  Ina Balin (1937-1990) como Martha de Betânia; Van Heflin (1910-1971) como Bar Armand; Martin Landau, como Caifás; Sal Mineo (1939-1976); Neremiah Persoff;


Telly Savalas (1922-1994) que raspou definitivamente o resto de seu cabelo para viver Pôncio Pilatos; David McCallum como Judas; a carismática e talentosa Dorothy McGuire (1916–2001), como Maria; Angela Lansbury como Prócula; Claude Rains (1889-1967) como Herodes o Grande; Sidney Poitier como Simão de Cireneu;  Pat Boone como o anjo da Ressurreição; Sal Mineo (1939-1976) como Uriah;



Charlton Heston, o ícone do cinema épico bíblico, como João Batista, o maior destaque de todas as interpretações, embora não supere a atuação de Robert Ryan em Rei dos Reis, realizado quatro anos antes; John Wayne (1907-1979) numa curta aparição como o soldado que conduz Cristo até ao Calvário e perante a cruz recita: “este homem era realmente o Filho de Deus”.


E um dos atores favoritos de Bergman, Max Von Sydow, ainda um ator bem ativo e de prestigiado sucesso, como Jesus. Entretanto, não deu ao personagem um ar caloroso e doce, e não comoveu. Apesar de um trabalho primoroso por parte de George Stevens, o filme não teve o retorno tão esperado pelo diretor, prejudicado pela alta metragem e excesso de personagens, além do desgaste das superproduções bíblicas. A Música também é outro ponto culminante, uma das últimas composições de Alfred Newman (1901-1970), o mesmo compositor de A Canção de Bernadette e O Manto Sagrado,  para o cinema.



Embora uma requintada produção feita para a TV italiana, Jesus de Nazaré, de 1977, dirigido por Franco Zeffirelli, foi exibido nas nossas salas de cinema e em grande parte do mundo em duas partes, totalizando 6 horas de projeção.  Na TV brasileira, estreou na Rede Globo em 1981, como minisérie em capítulos. Jesus Cristo volta aqui a sua moda tradicional, mas o sensível cineasta de Romeu e Julieta (1968) não satisfeito consultou católicos, protestantes, judeus, e até islamitas. Filmado na Tunísia, Itália e na Inglaterra, mesmo com toda reverência excessiva a figura de Jesus, acarretou protestos e o filme acusado de herético por alguns fanáticos católicos, por apresentar Maria (interpretada por Olivia Hussey) gemendo as dores do parto.


Com dramaticidade de uma grande telenovela, José (Yorgo Voyagis) é aconselhado pelo rabino Yehuda (Cyril Cusack, 1910-1993) a continuar com sua mulher grávida por obra do Espírito Santo.


A trilha sonora de Maurice Jarre (1924-2009) é um dos mais marcantes comentários musicais entre todas as trilhas sonoras em filmes do estilo. Zeffirelli eliminou a tentação de Jesus pelo demônio no deserto e o Sermão da Montanha na edição, assim como fizera Pasolini. O inglês Robert Powell, com a fisionomia de judeu pálido e esquálido, conforme as concepções de Lucas Cranach, El Greco, e Andréa del Castagno, é um dos grandes intérpretes de Cristo em todos os tempos.




Elenco All-Star reunindo Anne Bancroft (1931-2005), como Madalena; Ernest Borgnine (1917-2012), o Bom Centurião, James Farentino (1938-2012), como Simão Pedro; Rod Steiger (1925-2002), como Pôncio Pilatos; James Mason (1909-1984) como José de Arimatéia; Sir Laurence Olivier (1907-1989) como Nicodemus; Christopher Plummer como Herodes Antipas;



Stacy Keach como Barrabás; Claudia Cardinale, a Mulher Adúltera; Anthony Quinn (1915-2001) como Caifás; Peter Ustinov (1921-2004) fabuloso como Herodes o Grande; Ian McShane como Judas (ótima interpretação); e Michael York, como João Batista. Um elenco de estrelas internacionais contando a trajetória do fundador do Cristianismo, desde o nascimento até sua ressurreição, com os habituais requintes deste grande cineasta italiano.



VII-OUTROS FILMES BÍBLICOS- FOCO GERAL

Conforme vimos até aqui, o cinema explorou das mais variadas formas a religião e a fé em todas as suas esferas. Como também foi visto a década de 1950 e metade dos anos de 1960 foram produtivas na confecção de filmes épicos com contos bíblicos.



Hollywood explorou com constância histórias do Velho Testamento, sempre em concorrência com outro filme similar, como foi o caso de David e Betsabá, de 1951, que foi uma resposta de Darryl F Zanuck (1902-1979), chefão da Fox, ao êxito de Sansão e Dalila, estreado dois anos antes, dirigido por Cecil B DeMille e produzido pela Paramount. David e Betsabá, com roteiro de Philip Dunne, conta a história do Rei Davi (Gregory Peck, 1916-2003), o Leão de Judá, que se apaixona por Betsabá (Susan Hayward, 1918-1975), mulher de seu comandante, o leal Urias (Kieron Moore, 1924-2007). Para se livrar deste, o rei o envia a uma batalha suicida.


Após a morte de Urias, Davi passa a sofrer crises de consciência e se submete a duras penitências, durante os quais recorda sua antiga fé, e sua luta contra o gigante Golias quando menino. A paixão proibida quase compele Davi a perder o trono. Produção que se impôs como dos mais respeitáveis no gênero devido aos aparatos da produção, dirigido por Henry King (1886-1982) e música de Alfred Newman.



Em 1953, a Colúmbia após a produção de Salomé estreada por Rita Hayworth produziu em baixo orçamento uma aventura bíblica Escravos da Babilônia, dirigida por William Castle (1914-1977), que ficaria mais tarde notório por seus filmes Trilhers de horror B. Estrelado por Richard Conte (1914-1975) no papel de um pastor judeu, Nahum, que no Século V a.C, organiza um exército para combater o tirânico rei da Babilônia  Nabucodonosor (Leslie Bradley, 1907-1974), que conquistou Jerusalém em 597 a.C, e submeteu milhares de judeus a escravidão. Linda Christian (1923–2011), na época casada com Tyrone Power, é o interesse romântico de Nahum. Ainda no elenco Michael Ansara (1922-2013) e Julie Newmar, a futura Mulher Gato da série de TV Batman (1966-68).



Em 1958, outra produção baseada no Novo Testamento foi o italiano A Cruz e a Espada, dirigido por Carlo Ludovico Bragaglia (1894-1998) e estrelado pela norte americana Yvonne De Carlo (1922-2007).  A trama se concentra quando Roma, para investigar os passos do Procurador Poncio Pilatos (Philippe Hersent, 1912–1982), envia o agente Caio Marcellus (Jorge Mistral, ator que se suicidou em 1972 aos 51 anos de idade). Pelo mesmo navio que viaja Caio em direção a Judéia, viaja Maria Madalena (De Carlo), irmã de Lázaro (Terence Hill) e concubina de Anan (Massimo Serato, 1916-1989), que vive protegendo o bando criminoso de Barrabás. A palavra de Cristo impressiona muito a Maria Madalena e, quando Cristo ressuscita dos mortos seu irmão Lázaro, resolve seguir Jesus. No elenco ainda, Rossana Podestá (1934-2013).


No mesmo ano, outra produção europeia com tema bíblico e histórico: Herodes, o Grande, dirigido por Viktor Tourjansky (1891–1976) e estrelado por Edmund Purdom (1924-2009) que interpreta Herodes, rei da Judéia, aceito tal pelos dominadores romanos, que reina despoticamente sobre os judeus, e também sonha com o domínio do Oriente Médio.  O imperador romano desconfia de Herodes, e este lhe propõe um pacto. Manda seu filho Aron (Alberto Lupo, 1924–1984) matar a sua esposa, Miriam (Sylvia Lopez, 1933–1959), caso Herodes não volte deste pacto. As intrigas palacianas, sobretudo a mãe de Herodes, fazem crer que o rei foi assassinado pelos romanos. Aron não tem coragem de matar Miriam e foge com ela para o deserto. Herodes retorna e começam os ciúmes, as represálias e os assassinatos. Em seus últimos momentos de vida e motivado pela loucura, sob o peso de muitos crimes e atrocidades cometidas, ele ouve falar do Messias e de um novo rei que estaria a governar a Judéia.


A História de Ruth, de 1960, outro drama bíblico da Fox que remete ao Antigo Testamento, rodado pelo mesmo diretor de O Manto Sagrado, Henry Koster (1905-1988) e filmado nos cenários de Viagem ao Centro da Terra. Ruth (a israelense Elana Eden, que só realizou mais três trabalhos depois desse, entre os quais Missão Secreta no Cairo, estrelado por Audie Murphy) – Ruth, quando criança, fora vendida para servir ao deus Chemosh dos Moabitas, povo vizinho e inimigo dos judeus.


O israelita Mahlon (Tom Tryon, 1926-1991), condenado a prisão perpétua por pregar o monoteísmo, foge com Ruth e, gravemente ferido, casa-se com ela antes de morrer. Em companhia da sogra, Naomi (Peggy Wood, 1892-1978), Ruth vai aos campos de Boaz (Stuart Whitman) e Tob (Jeff Morrow, 1907-1993), onde passará a trabalhar e desperta o interesse dos dois homens. Trilha sonora de Franz Waxman (1906-1967).


A Lenda de Davi embora seja um filme feito para a TV, de 1960, foi exibido nos nossos cinemas brasileiros (sob o título de Davi e o Rei Saul) e exibido na nossa telinha diversas vezes (a última vez na extinta TV Manchete), e foi rodada em Israel. O guerreiro Davi, interpretado por Jeff Chandler (1918-1961) em um de seus últimos trabalhos, vence os palestinos e é aclamado por seu povo, provocando a inveja do rei Saul (Basil Sydney, 1894-1968). Instigado por um conselheiro, Doeg (Peter Arne, 1920-1983), e supondo que Davi deseja usurpar o trono, Saul tenta destruir o guerreiro, mas Davi é auxiliado pelo próprio filho do monarca, Jonatas (David Knight).



Esther e o Rei foi à incursão do lendário diretor Raoul Walsh (1887-1980) pelo cinema épico bíblico, em 1960, e rodado na Itália, onde remete outra passagem dos textos bíblicos. No Século IV a.C, depois de renegar sua esposa adúltera, o rei Assuero da Pérsia (Richard Egan, 1921-1987), consente em escolher uma nova esposa: Esther (Joan Collins), incluída à força entre as candidatas. Ester, cuja origem judia o rei desconhece, logo lhe oferece sua afeição, tentando ao mesmo tempo libertar o povo judeu e humanizar o governo de Assuero, afastando os traidores do trono.


Davi e Golias trouxe Orson Welles (1915-1985) numa produção italiana de 1960, onde viveu o Rei Saul, em uma adaptação da história do Velho Testamento. Os filisteus declaram guerra aos israelitas. Saul, rei de Israel, decide ouvir as palavras dos profetas que avisam que seu sucessor será um jovem pastor chamado Davi (Ivica Pajer, 1934-2006). Após isso, o pastor terá que enfrentar o inimigo que vem na forma do gigante Golias (Aldo Pedinotti). Welles também ajudou a dirigir esta fita, junto com Ferdinando Baldi (1917–2007).



O Velho Testamento, 1963, é um  outro exemplar de épico bíblico a italiana baseado em dois livros apócrifos contidos no Antigo Testamento, em parte inspirado em textos de Jasão de Cyrene, historiador judeu helenista que viveu por volta do ano 100 a.C. Descreve a Revolta dos Macabeus, quando o patriarca Matatias (Carlo Tamberlani, 1899–1980) e seus cinco filhos conhecidos como os Macabeus expulsaram os pagãos do templo e inspiraram e restabeleceram a unidade do povo hebreu, dois séculos antes de Cristo. O relato começa com a invasão de Jerusalém por Apolonius (Jacques Berthier, 1916–2008), governador enviado pela Síria para destruir a cidade e apoderar-se do templo sagrado. Após a morte do irmão, Simão Macabeu (Brad Harris) se torna um dos líderes do povo israelita que enfrenta as tropas inimigas em defesa do templo.


PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES

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