quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Cinema Religioso Cristão – Parte 2


Por Paulo Telles

Continuando o artigo referente ao cinema religioso cristão, onde abordaremos sobre os filmes com temáticas bíblicas e religiosas, além de dramas de cunho religioso, onde não necessariamente sejam mensagens do Evangelho, mas podendo se tratar de maneira soberana a humanidade dos seus personagens dentro do pano da fé. 





A FÉ CATÓLICA SOB O PRISMA DO CINEMA – CONTINUAÇÃO


Embora não seja um drama religioso, mas sim um suspense psicológico dirigido pelo Mestre Alfred Hitchcock (1899 – 1980), A Tortura do Silêncio, de 1953, trata o drama humano vivido por um padre, encarnado aqui por Montgomery Clift (1920-1966). Clift foi uma escolha perfeita de Hitchcock para o papel do torturado Padre Michael William Logan.  I Confess, com roteiro de George Tabori e William Archbald, foi baseado na peça Nos Deux Consciences, escrita em 1902.


Otto Keller (O.E. Hasse, 1903-1978) confessa ao Padre Logan (Clift) que havia cometido um homicídio, na pessoa do advogado corrupto Villete (Ovila Legare, 1901-1978). Para praticar o crime, Keller tinha usado uma batina, obtida na igreja do Padre Logan, em Quebeck, onde ele era sacristão. Logan e uma mulher casada, Ruth Grandfort (Anne Baxter, 1923-1985), tiveram um love affair antes de ele ter se ordenado padre e estavam sendo chantageados pela vítima do crime, que sabia do caso. Por isso, recaíram sobre ele a suspeita e a acusação da autoria do crime.


O segredo da confissão não lhe permitia revelar o nome do verdadeiro assassino, nem mesmo ao seu advogado. Mas tarde, a esposa de Keller, o verdadeiro assassino, acaba denunciando o marido. A Polícia o persegue e Keller é baleado ao tentar fugir. Caído na rua, moribundo e cercado por curiosos, faz a confissão final ao Padre Logan, que lhe dá a extrema unção e ele morre em seus braços. Um estudo acurado analisado pela ótica de Hitch (que era ateu) sobre a ética de um sacerdote, que não abre a mão de suas convicções e de sua tarefa, mesmo que isto possa prejudicar o trabalho da lei em cumprir o seu dever.


 A Warner divulgou Uma Cruz a Beira do Abismo, uma das obras mais rigorosas de Fred Zinnemann (1907-1997) a respeito da fé e da abnegação. Ao ler o Best Seller de Kathryn C. Hulme (1900-1981), inspirado em fatos reais que envolveram a filha de um respeitado cirurgião belga, Gabrielle Van Der Mal, a partir de sua entrada para um convento, trabalhando como enfermeira no Congo até sua decisão de abandonar os votos, Zinnemann desejou ardentemente filma-lo. Nenhum estúdio se interessou por tema considerado pouco comercial, até Audrey Hepburn (1929-1992) manifestar interesse em interpretar a religiosa, a Irmã Luke.


Zinnemann, um judeu, efetuou com respeito, veracidade e gosto documental um acurado estudo da disciplina católica. Confessando-se profundamente tocado pelo que reproduzia, o cineasta exigiu que sua equipe técnica, assim como os atores, exercesse o máximo de fidelidade em seus trabalhos. Entre a elaboração e a produção um ano e meio, e Miss Hepburn passou meses visitando hospitais e convivendo com freiras, para compor em detalhes seu personagem.


Em 1930, a jovem Gabrielle Van der Mal (Audrey Hepburn), filha de um famoso cirurgião, decide largar tudo e se tornar freira, fazendo votos de pobreza, obediência e castidade. Ela tem dificuldades para se adaptar as novas regras, mas se dedica ao máximo nos seus estudos de medicina. Seu maior desejo é ir trabalhar como enfermeira no Congo Belga, mas após a primeira prova é enviada a enfermaria de um sanatório. Depois de alguns anos lá, ela finalmente consegue ir para a África, onde conhece o cínico, ateu e brilhante médico Fortunati (Peter Finch, 1916-1977).



Outra produção, desta vez realizada na Europa, veio a mexer os alicerces da Igreja Católica, mas que acabou sendo uma das fitas selecionadas entre os cem melhores filmes de acordo com o Vaticano, na categoria de Religião.  Trata-se de Nazarin, de 1959, obra prima de Luis Buñuel (1900 - 1983), que conta a história de um humilde padre privado de sua paróquia por uma hierarquia arrogante. Visto como louco perigoso, Nazarín sabe que sua loucura consiste na imitação de Cristo, e Buñuel o lança num fascinante "road movie". No caminho, em diversos momentos, a vontade cristã de Nazarín encontra apenas desprezo, enganação e violência. Sua fé no ideal cristão (a vida de Jesus) é comparável à fé de Dom Quixote no ideal cavalheiresco.



Antes de pôr sua fé à prova, Nazarín sabe que Cristo individualiza a salvação, pondo ao alcance de todos. Mas, depois de sua via-crúcis, o sacerdote ganha a consciência de que a imitação de Cristo significa escândalo, desordem, águas revoltas, e seus ideais, em deveras, o transforma num inimigo da ordem, tal como Jesus foi em seu próprio tempo. O padre, vivido pelo galã espanhol Francisco Rabal (1926-2001), um ótimo ator, é um dos grandes méritos deste filme.


O Cardeal, dirigido por Otto Preminger (1905-1986) é uma adaptação do romance de Henry Morton Robinson (1898-1961) e relata a vida do jovem Stephen Fermoyle (Tom Tryon, 1926-1991), um padre irlandês-americano que está para se tornar Cardeal. A longo de seus 175 minutos de projeção, acompanhamos as lembranças de Fermoyle, cujo forte compromisso com as questões sociais irão levá-lo através de um labirinto de política e preconceitos da igreja católica. Mas jornada Fermoyle terá de passar por varias provas que irão botar sua fé à prova.


Duas passagens do filme retratam bem essas situações: na primeira, uma série de ações dele termina por levar a irmã ao suicídio após engravidar; na outra, acaba espancado ao ajudar um padre negro no sul dos EUA. Tom Tryon, que era um ator limitadíssimo, não leva as plateias a se identificar com o personagem. Tryon seria mais bem sucedido como escritor tempos depois.


O diretor John Huston (1906-1987) brilha no papel do sarcástico Cardeal Glennon, e isto é constatado em uma frase dele na fita:  Nos nunca tivemos um padre que trabalhava com a máfia antes. Mas suponho que você fez alguns contatos interessantes em Roma”. Este papel deu a Huston o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante bem como uma indicação ao Oscar.

III-A ERA DAS SUPERPRODUÇÕES RETUMBANTES.


No início dos anos de 1950, a televisão já era um veículo cada vez mais acessível para os lares americanos, e novamente, os “fazedores de filmes” e os donos das salas exibidoras enfrentavam o fantasma da ausência de plateias nos cinemas. Parecia que o cinema, tanto como arte como entretenimento estava com seus dias contados, graças à nova e pequena mídia que estava tomando conta na vida dos americanos.

Além disso, o início dos anos de 1950 também marcou na vida dos americanos, no seu panorama político, em especial em Hollywood, a promoção da discórdia em que certo Senador Joseph McCarthy (1908-1957) resolveu difundir uma perseguição aos “comunistas” nos EUA, o chamado Caça as Bruxas, onde a liberdade de expressão dos artistas e de inúmeros profissionais da esfera cinematográfica (atores, diretores, roteiristas, técnicos) foi ceifada, incentivando mesmo que artistas integrantes do Partido Republicano denunciassem seus colegas de profissão de ideologia oposta, deixando eles sem emprego e sem identidade, já que como exemplo, muitos roteiristas não puderam sequer assinar seus nomes nos seus scripts, deixando muitos destes profissionais na Lista Negra de Joseph McCarthy.


Mesmo nesta época de medo e de listas negras, o cinema americano começou a produzir épicos religiosos piedosos, e de preferência, com orçamentos faraônicos, onde eram produzidos fora dos States.  Um belo e espetacular exemplo, foi o Colossal Quo Vadis, produzido em 1951 por Sam Zimbalist, e rodado nos estúdios de Cinecittá, em Roma, a Hollywood italiana.


Extraído da obra literária publicada em 1897 pelo polonês Henryk Sienkiewicz (1846-1916), prêmio Nobel de Literatura em 1905, e anteriormente levada às telas em três ocasiões na era do cinema mudo, sendo a mais famosa a versão de 1924, estrelado por Emil Jannings (1884-1950), como Nero. A primeira versão data de 1902, de Ferdinand Zecca (1864-1947), o mesmo pioneiro que dirigiu, em 1905, La vie et la passion de Jésus Christ, mas hoje a película esta perdida e não há maiores informações. A Segunda versão cinematográfica do romance de Sienkiewicz é de 1912.


A versão de 1951 levou 12 anos em preparativos e começou a ser filmado em 1949, sob direção de John Huston, e os astros principais eram Gregory Peck (como Marcus Vinicius) e Elizabeth Taylor (como Lygia). Porém, o Chefão da Metro, Louis B. Mayer (1884-1957), não gostou do script, que queria um épico religioso aos moldes de Cecil B. DeMille, e não um tratamento moderno, no então momento, dado a Nero, assemelhando-o a Adolf Hitler em sua obstinada perseguição aos Cristãos, seu protótipo parceiro de loucura. Afinal, não fazia muito tempo que a II Guerra havia acabado.


Dirigido por Mervyn Leroy (1900-1987), Nero é interpretado de forma soberba e espetacular por Sir Peter Ustinov (1921-2004), que foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante junto com Leo Genn, que faz a parte de Petronius, seu conselheiro.



Na Roma do Século I, o oficial Marcus Vinicius (Robert Taylor, 1911-1969), sobrinho de Petronius (Leo Genn, 1905-1978), conselheiro de Nero (Ustinov), apaixona-se por uma ex escrava cristã, Lygia (Deborah Kerr, 1921-2007), filha adotiva de um general e adepta do cristianismo emergente. Através dela, Marcus acata aos poucos a fé religiosa e indispõe-se com o regime de Nero e o paganismo romano.  Um opulento espetáculo, contendo alguma das mais grandiloquentes sequências do cinema épico: a marcha triunfal das legiões romanas, o sacrifício dos cristãos, a loucura de Nero, e o incêndio de Roma. A partitura musical célebre de Miklos Rozsa (1907-1995) foi a primeira trilha sonora do cinema que obteve grande vendagem de discos, inclusive no Brasil, e ajudou a garantir a extraordinária popularidade desta refilmagem para o cinema contemporâneo.




Destaque também para a luta do Gigante Cristão Ursus (interpretado pelo Lutador Buddy Baer, 1915-1986) contra um touro no Circo romano, para salvar Lygia, sua protegida, amarrada num tronco . Embora fascinante luta entre o gigante e o animal, esta versão de Quo Vadis foi a única a não respeitar o romance de Sienkiewicz, no tocante à cena em que Ursus enfrenta o touro na arena do circo de Roma. Baer foi dublado pelo toureiro português Nuno Salvação Barreto nas cenas em que o gigante tinha que segurar o touro.


 Mesmo depois do estrondoso sucesso de Quo Vadis, as salas de cinema perdiam concorrência com os televisores de casa, e para isso, os produtores e engenheiros precisaram inovar para vencer a concorrência com a TV. Era necessário expandir o formato de tela. O Cinemascope já era um processo antigo antes de seu lançamento oficial nos anos de 1950. Brilhantemente, Darryl F. Zanuck (1902-1979), o chefão da 20ª Century Fox, encontrou a solução para sobrepujar a concorrência com a telinha, quando se lembrou do invento do francês Henry Chrétien, patenteado em 1927, com o nome de Sistema Hypergonar, que consistia basicamente numa câmara de lente anamórfica, capaz de criar imagens destinadas a uma tela duas vezes maior que a tradicional. Aperfeiçoando e "estereofonizado", o processo criado por Chrétien ressurgiu com o nome de Cinemascope, e rendendo uma fortuna aos cofres da Fox.



Com esta vitória da Indústria Cinematográfica Hollywoodiana, que conseguiu com isto promover a volta do público para as grandes salas, O Manto Sagrado/The Robe ficou na história como o primeiro filme a ser lançado no formato Cinemascope, levando plateias no mundo inteiro aos cinemas, e um dos filmes mais exibidos nos feriados de Páscoa em muitos cinemas do Brasil (em alguns lugares, ficou em cartaz por quase 10 anos).




Em Roma, durante o reinado de Calígula (Jay Robinson, 1930-2013), o tribuno Marcellus Gallio (Richard Burton, 1925-1984) vai à Jerusalém crucificar Jesus Cristo e é enfeitiçado pelo manto de Cristo, que havia ganhado no jogo de dados.  Mais tarde, volta a Palestina em busca do manto, e converte-se a fé cristã, ao lado de seu escravo Demétrius (Victor Mature, 1913-1999) e sua amada Diana (Jean Simmons, 1928-2010), e São Pedro (Michael Rennie, 1909-1971). Superprodução de Frank Ross (1904-1990) e dirigida por Henry Koster (1905-1988) , extraída do Best Seller escrito em 1942 por Lloyd C. Douglas (1877-1951).  A trilha sonora foi encarregada por Alfred Newman (1901-1971), de A Canção de Bernadete. O direito do romance chegou a ser comprado pela RKO, que no início dos anos de 1950, vendeu para 20ª Century Fox, como veículo para Tyrone Power, mas este não se interessou.


 O Manto Sagrado foi um estrondoso sucesso e foi ocasião ímpar em toda História da Cinematografia, pois todas as salas de cinema tiveram que ser reformadas para recepcionar o lançamento deste êxito das telas.  A Fox, que detinha os direitos do livro de Douglas, não sabia o que fazer com as demais 200 páginas do romance, e aproveitando o embalo do sucesso de The Robe, o estúdio resolveu fazer uma sequência da obra, em 1954. The Robe ainda conquistou o Oscar de melhor cenografia a cores e um Oscar especial pela novidade técnica que viria a revolucionar esteticamente todo o cinema.



No ano seguinte a Fox lança Demétrius e os Gladiadores (lançado aqui no Brasil e exibido algum tempo na TV brasileira como Demétrius, o Gladiador), continuação da saga de O Manto Sagrado. Sob a direção de Delmer Daves (1904-1977) especialista em dramas e westerns (Galante e sanguinário), e repetindo Mature (Demetrius), Michael Rennie (São Pedro) e Jay Robinson (Calígula) nos seus respectivos papéis em The Robe. Produzida por Frank Ross, que havia também produzido a obra anterior, realizou juntamente com o diretor Delmer Daves uma fita superior, porque substituiu a religiosidade melodramática de O Manto Sagrado por exuberante ação física e estimulantes aspectos aventurescos, em detrimento da atmosfera de melodrama religioso do filme anterior.




Escrito por Philip Dunne (1908-1992) com base nos personagens de Lloyd C Douglas, Demétrius e os Gladiadores transcorre após a morte de Marcellus (Richard Burton) e Diana (Jean Simmons), ocorrida no desfecho de O Manto sagrado. O cristão Demétrius, perseguido pelo imperador por ter escondido o Manto de Cristo, é preso e feito gladiador na arena, comandada por Strabo (Ernest Borgnine, 1917-2012). Quando sua amada Lucia (Debra Paget) entra em estado de choque ao risco de ser violentada por um dos gladiadores, Dardanius (Richard Egan, 1921-1987), Demetrius perde a fé e sucumbe aos encantos de Messalina (Susan Hayward, 1918-1975). Trilha sonora de Franz Waxman (1906-1967), com base no repertório de Alfred Newman. As sequencias de treinamento na arena são excelentes e o espetáculo se impõe pelo nível de presença, constituindo um dos melhores exemplares realizados no cinema épico e religioso. 

Mas as superproduções épicas religiosas foram investimentos de outros estúdios, como a Colúmbia. Após a conversa em que o presidente da empresa Harry Cohn teve com seu irmão Jack, sobre produzirem um filme bíblico (que originou até mesmo uma aposta para saber se um sabia rezar o Pai Nosso, como vimos no prólogo da primeira parte deste artigo), este enfim concordou em produzir Salomé.




 Harry escolheu William Dieterle (1893-1972) para dirigir Salomé em 1953, épico bíblico em que retomava a personagem vivida anteriormente por Theda Bara (em 1918) e Nazimova (em 1922). Mesmo com constantes atritos entre Harry Cohn e a estrela principal contratada do estúdio, Rita Hayworth (1918-1987), esta aos 35 anos e executando a célebre dança dos sete véus, a trama  se direciona na história da Princesa Salomé (Hayworth) filha da rainha Herodiade (Dama Judith Anderson, 1897-1992),  que pede para que a filha volte de Roma, onde fora educada longe do padrasto, o rei Herodes (Charles Laughton, 1899-1962).




Deixando em Roma o seu amante, Marcellus (Rex Reason), filho do imperador Tibério (Cedric Hardwicke, 1893-1964), Salomé vem a conhecer o comandante Claudio (Stewart Granger, 1913-1993), por quem se apaixona. Na Galiléia, vem a encontrar o profeta João Batista (Alan Badel, 1923-1982), que é preso e jogado aos ergástulos do palácio de Herodes, e que para salvar a vida do profeta, Salomé terá que dançar num banquete oferecido pelo monarca. Escrito por Jesse Lasky Jr (1910-1988) e Harry Kleiner (1916–2007), o roteiro foge do que rezam as Escrituras, pois Salomé como recompensa pela dança pediu a cabeça de São João Batista. Como ocorria de praxe em muitas produções ao estilo, a figura de Cristo aparece também, mas não o seu rosto e sim pelo gesto de suas mãos através de seus milagres ou mesmo pela sua silhueta.


Outro estúdio a investir no cinema épico bíblico foi a Warner, ao lançar, em 1954, O Cálice Sagrado, que tentou ser uma resposta ao clássico O Manto Sagrado, lançado no ano anterior pela Fox. Também baseado em romance de autoria de Thomas B. Costain (1885-1965), e dirigido pelo veterano Victor Saville (1895–1979), a fita foi a estreia de Paul Newman (1925-2008) nas telas.


Apesar de um grande elenco reunindo nomes como Jack Palance (1919-2006), Pier Angeli (1932-1971), Virginia Mayo (1920-2005), Joseph Wiseman (1918-2009) e o futuro astro da série de TV Bonanza, Lorne Greene (1915-1987, que interpreta São Pedro), o filme não emplacou bem nas bilheterias, talvez porque tivesse se preocupado mais em tratar a religiosidade do que a ação. Os cenários (muito artificiais), e também a fotografia em WarnerColor, foram itens que não ajudaram muito no êxito da película. Paul Newman sempre declarou em vida não gostar do filme, achando um “lixo”.



No século l d.C., Basílio (Paul Newman), um escultor grego, é vendido como escravo por seu vil tio. Logo, ele é de novo comprado por pessoas que sabem do seu grande talento como escultor para fazer um trabalho único: usando o cálice que Jesus usou na ultima ceia , fazer uma peça de prata na qual estariam esculpidas os rostos dos discípulos e do próprio Jesus.




Basílio então viaja para Jerusalém. Paralelamente um sórdido mágico, Simão (Jack Palance, em uma atuação esplendida e soberba), tenta convencer a multidão que é um novo messias, usando truques baratos. Basílio se casa com a judia Débora (Pier Angeli), mas sente-se fortemente atraído por Helena (Virginia Mayo), que é amante de Simão. Repentinamente o cálice é roubado pelos sicários para favorecer Simão, que quer irritar Pedro (Lorne Greene), ostentando o cálice em Roma, mas o cálice é recuperado. No entanto um futuro obscuro esta reservado para magnífica peça.


Em 1955, a Metro lançaria O Filho Pródigo também em Cinemascope, escrito por Joseph Breen (1918–1984), roteirista, ator e diretor (que dirigiria em 1959 o filme espanhol Os Mistérios do Rosário, uma versão da Vida de Jesus).  Baseado na parábola de Jesus do Novo Testamento, adaptado por Breen e Samuel James Larsen ,a trajetória do filho egoísta que deixa sua família em busca de riquezas.

Dirigido por outro veterano, Richard Thorpe (1896-1991), e com trilha sonora de Bronislau Kaper (1902–1983), o drama religioso também apresenta Edmund Purdom (1924-2009) no papel do jovem Micah, que abandona sua família e sua casa para viver em aventuras em país estrangeiro. Apaixona-se pela sacerdotisa pagã Samara (Lana Turner, 1921-1995), que o leva a ruína e ainda terá que enfrentar inimigos, como o sacerdote Nahreeb (Louis Calhern, 1895-1956) e seu guarda costas, Rhakim (Neville Brand, 1920-1991). Após a morte de Samara e dos inimigos em uma revolta armada, Micah volta a casa de seu pai Eli (Walter Hampden, 1879–1955), onde suplica para que fique em troca de escravidão, mas como reza a parábola, o pai o perdoa, mesmo sob censura do irmão mais velho (John Dehner, 1915-1992), que também o acaba perdoando.


 Como se pode perceber, as produções bíblicas no cinema estavam em alta roda, principalmente depois do sucesso de Os Dez Mandamentos, em 1956, dirigido por Cecil B.DeMille (1881-1959), que levou multidões as salas de cinema de todo mundo. Anos atrás, o próprio cineasta havia previsto o milagre da multiplicação de renda através das superproduções baseadas na Bíblia Sagrada, e isso veio a se solidar quando o cinema conseguiu ampliar suas técnicas visuais, pois não era só o Cinemascope que veio a mudar esteticamente todo o cinema para evitar perder para a televisão, pois vieram outros formatos como o processo VistaVision, lançado pela Paramount, a Câmera 65 (que viria se tornar Panavision), e o Techinirama 70mm, entre outros. Toda estas inovações cabiam bem melhor em altas superproduções.

Em 1958 a Metro se encontrava em grave situação financeira, a ponto de declarar falência. A empresa queria relançar um de seus grandes sucessos, o clássico religioso Ben-Hur, de 1925, estrelado por Ramon Novarro (1899-1968) e dirigido por Fred Niblo (1874-1948), mas desta vez com outros atores e em superprodução de Sam Zimbalist (1904-1958), que pretendia rodar em Roma, nos estúdios de Cinecittá (o mesmo estúdio onde sete anos antes havia produzido o monumental Quo Vadis), e também em Anzio e no Egito.



A história, baseada no dramático Best Seller escrito em 1880 pelo general Lew Wallace (1827-1905), herói da Guerra Civil Americana (1861-1865), e traduzido para vários idiomas, poderia voltar a ser um sucesso de público e crítica, mas o projeto parecia ser muito arriscado para a quase falida Metro.  Para dirigir, um Mestre responsável pelos maiores clássicos do cinema americano: William Wyler (1902-1981).



O papel principal foi oferecido primeiramente a Burt Lancaster (1913-1994), que recusou. Depois ofereceram para Marlon Brando (1924-2004), que também recusou, até oferecerem a Rock Hudson (1925-1985), que quase aceitou, mas numa última hora teve que declinar do convite, já que estava preso a um contrato com outro estúdio, a Universal. Finalmente, o papel foi oferecido a Charlton Heston, que já estava cotado para ser o vilão Messala, com Rock Hudson no papel principal.


Robert Ryan (1909-1973) estava cogitado para ser Messala ao lado de Heston, mas um problema o impediu de aceitar, e logo, o irlandês Stephen Boyd (1928-1977) ganhou o papel de um dos mais famigerados vilões do cinema. A sugestão do papel principal para Heston foi dada por Cecil B. DeMille a Wyler, já que o cineasta de Os Dez Mandamentos havia dirigido o ator neste estrondoso clássico religioso, e em suas memórias, traçou muitos elogios ao jovem astro de 35 anos.


Poucos acreditavam que William Wyler seria o nome mais indicado para levantar e controlar um projeto tão faraônico. Sua carreira confirmava seu talento em obras íntimas e diferentes, nas quais dirigiu talentos como Bette Davis, Olivia de Havilland , Montgomery Clift, Laurence Olivier, entre outros.

Disse ele numa entrevista pouco antes de sua morte, em 1981:

Me pediram para que me encarregasse do filme. Não era o estilo cinematográfico que vinha fazendo, mas senti curiosidade para ver se era capaz de fazer algo ao estilo de Cecil B. DeMille", disse o cineasta, em alusão ao filme como Os Dez Mandamentos. "Além disso, pensei que este filme faria muito dinheiro e que eu poderia ficar com algo", acrescentou Wyler, que cobrou US$ 1 milhão para dirigir o filme.


A Saga do Príncipe judeu Judah Ben-Hur (Charlton Heston), que vive na Jerusalém ocupada pelos romanos. Um dia, ele é injustamente acusado de atentado contra a vida do novo procurador de Roma, Valerius Gratus (Mino Doro, 1903-2006) por um amigo de infância, o segundo em comando e Tribuno Messala (Stephen Boyd).



Separado de sua família, de sua mãe Miriam (Martha Scott, 1912-2003) e de sua irmã caçula Tirzah (Cathy O’ Donnell, 1923-1970), os legionários conduzem Ben-Hur com outros condenados pelo deserto em direção as galés. Durante o caminho, os soldados romanos param para se abastecer no pequeno vilarejo de Nazaré, e saciar a sede dos condenados, exceto a Judah, que por ter atentado contra a vida de uma autoridade, mereceria morrer de sede. Mas um carpinteiro da aldeia lhe dá água e este homem era Jesus de Nazaré (Claude Heather). Aqui novamente, a figura de Cristo é misteriosa, sua face não é apresentada ao espectador, apenas sua silhueta ou normalmente de costas.




Condenado as galés na tropa de Quintus Arrius (Jack Hawkins, 1910-1973), no Mar Vermelho, enquanto seus bens são confiscados e sua mãe e irmã encarceradas, Ben-Hur salva o comandante de um naufrágio e com isso reconquista sua liberdade, sendo adotado por Arrius como filho e herdeiro. Mais tarde, Judah volta a sua terra natal, encontra a mãe e a irmã no reduto de leprosos e busca se vingar de Messala, numa espetacular corrida de quadrigas, o Climax Maximus da História do Cinema, como anunciado pela própria Metro. Mas o filme também reflete sobre o termo da Redenção, já que Ben-Hur é testemunha ocular da Paixão de Cristo, depois que sua mãe e sua irmã são milagrosamente curadas.




Produzido por 12,5 milhões de dólares por Sam Zimbalist, este morreu de um ataque cardíaco fulminante pouco antes de encerrar as filmagens em Cinecittá, Egito e Anzio.  Ben-Hur recuperou a Metro da bancarrota e até hoje rendeu no mercado norte-americano 38,9 milhões de dólares, além de conquistar 11 Oscars, recorde este (ao lado de Titanic, em 1998) jamais superado, incluindo melhor diretor para William Wyler, melhor ator para Charlton Heston, melhor ator coadjuvante para Hugh Griffith (1912-1980) - que interpretou o Xeique Ilderim-  e melhor trilha sonora, de Miklos Rozsa (1907-1995). Este clássico absoluto do cine-épico-religioso esta listado entre os cem melhores filmes de acordo com o Vaticano, na categoria de Religião, juntamente com Nazarin, de Buñuel.

TYRONE POWER, durante uma filmagem de SALOMÃO E A RAINHA DE SABÁ
Com o êxito do épico de Wyler, que se tornou um retumbante sucesso de crítica e público, a United produziu em 1959  Salomão e a Rainha de Sabá, que foi  rodado com a exuberante estrela italiana Gina Lollobrigida e o galã Tyrone Power (1913-1958), que contava então com 44 anos. Ty chegou a rodar mais da metade das cenas de seu personagem, mas sofreu um colapso cardíaco em meio à realização de uma cena de duelo com George Sanders, vindo a falecer poucos dias depois, interrompendo as filmagens, que foram realizadas em Madri. Após o sepultamento do galã, nos Estados Unidos, cujo funeral foi acompanhado por mais de 1.500 pessoas no Hollywood Forever Cemetery, a equipe voltou para Espanha, e Yul Brynner (1920-1985) foi então contratado em seu lugar, tendo que refilmar todas as cenas já rodadas por Power.




Produzido com um orçamento de US$ 5 milhões e dirigido por King Vidor (1894-1982), Salomão e a Rainha de Sabá retoma a um assunto já tratado em outros dois filmes anteriores: The Queen of Sheba, de 1921, com Betty Blythe (1893–1972) no papel da Rainha de Sabá, e A Rainha de Sabá, produção italiana de 1952, estrelada por Leonora Ruffo (1935-2007) como a amante do Rei Salomão, enquanto Gino Cervi (1901-1974) vivia este. Este último trabalho de Vidor lembrava, de certa forma, os primeiros trabalho de DeMille no gênero épico bíblico, pois além de religião quis dar uma dosagem de erotismo a trama.



Com a morte do rei David (Finlay Currie, 1878-1968), o trono passa a ser ocupado por Salomão (Yul Brynner), a contragosto do irmão rival, Adonijah (George Sanders, 1906-1972). O povo de Israel prospera e fortalece tanto que os egípcios, seus inimigos, resolvem mandar ao local a rainha de Sabá (Gina Lollobrigida), para descobrir os pontos fracos de Salomão e assim poder derrotá-lo.


Mas ao contrario de Ben-Hur, a fita não teve boa recepção de público e crítica, talvez por não tratar de nenhuma novidade, e o desgaste das produções ao estilo. Segundo King Vidor, Tyrone Power no papel principal teria sido um filme mais interessante, que certamente agradaria as plateias, e o próprio astro substituto, Yul Brynner, concordou com a opinião do cineasta.


Em 1961, Dino de Laurentiis (1919-2010) produziu Barrabás, rodado em locações autênticas, e trilha marcante de Mario Nascimbene (1913-2002) que combina orquestração sinfônica e efeitos eletrônicos, e que também compôs Salomão e a Rainha de Sabá. A partir das escassas informações bíblicas sobre o personagem, o escritor sueco Pär Lagerkvist (1891 - 1974) concebeu uma obra de ficção na qual se baseia o filme, o que acabou se tornando um Best Seller,  publicado em mais de dez idiomas. Por sua obra, o escritor recebeu o Prêmio Nobel de 1950.


Barrabás, aqui num desempenho magnífico de Anthony Quinn (1915-2001) é um personagem misterioso, citado breve e exclusivamente no Novo Testamento, no contexto do julgamento de Jesus. Ele seria um criminoso condenado à morte pela justiça romana, que acaba libertado por vontade do povo judeu, posto a escolher entre ele e o Nazareno. Tanto a obra literária de Lagerkvist quanto a versão cinematográfica (aliás, a segunda, pois também existe um filme homônimo baseado na mesma obra produzida em 1953, na Suécia) expressa com bastante precisão à atitude do personagem diante dos mistérios da vida e da morte. Como em outras obras sacras, O Manto Sagrado, Salomé, Quo Vadis, e Ben-Hur, a face de Jesus Cristo nunca é mostrada (aqui, Cristo é interpretado por Roy Mangano, irmão de Silvana Mangano).





O protagonista passa por várias situações críticas: desde tentar se vingar dos sumos sacerdotes judeus pela morte de sua mulher, Raquel (Silvana Mangano, 1930-1989), que havia aderido ao Cristianismo, sendo novamente preso e enviado as minas como escravo, até se tornar, em idade avançada, um gladiador em plena capital do Império Romano. E, em todas elas, a lembrança de Jesus parece persegui-lo através de outros personagens, como o seu companheiro de infortúnio, o cristão Sahak (Vittorio Gassman, 1922-2000), o campeão dos gladiadores, o arrogante Torvald (Jack Palance, 1919-2006),  e um líder cristão discriminador, Lucius (Ernest Borgnine, 1917-2012)




Por força disso, Barrabás quase se torna cristão e é nesse estado que ele interpreta o incêndio de Roma, ocorrido no reinado de Nero, como um prenúncio do advento de uma nova era, prometida pelo Cristo. De qualquer foma, Barrabás, finalmente, parece encontrar sua redenção, pois acaba sendo crucificado e dando sua vida, ainda que de forma confusa, em defesa da fé. O destaque do filme também fica por conta da sequência da crucificação de Jesus, filmado durante um verdadeiro eclipse solar.Dirigido por Richard Fleischer (1916-2006), Barrabás é um estudo acurado sobre a fé e o ceticismo.



O mesmo produtor italiano De Laurentiis lançou em 1966 uma das últimas superproduções da era de retumbância dos grandes épicos: A Bíblia, onde foi reconstituído os primeiros 22 capítulos do Gênesis, desde a criação até o sacrifício de Isaac, passando por Caim e Abel, Noé e a Arca, o Dilúvio, a Torre de Babel, Abraão, e Sodoma e Gomorra.




Em 1962, Laurentiis já anunciava um espetáculo de 12 horas, com episódios dirigidos por Bresson, Fellini, Orson Welles, e Luchino Visconti, mas o projeto acabou nas mãos de John Huston (1906-1987), que também interpretou Noé, e sua projeção foi reduzida para 175 minutos (No Brasil, foi lançado na TV com 157 minutos e foi exibido nos nossos cinemas com o título de A Bíblia...no princípio). Um elenco Mega Star  onde reuniu além de Huston, George C Scott (1927-1999, como Abraão), Ava Gardner (1924-1990, como Sara, esposa de Abraão), Richard Harris (1930-2002, como Caim), Franco Nero (como Abel), Stephen Boyd (1928-1977, como Nimrod) e Peter O’ Toole (1928-2013), este em triplo papel, os três anjos.


PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES


Próxima Semana  
Parte 3 e conclusão.

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