segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Duelo ao Sol: Um Western de Ousadia e Erotismo.


Quem poderia imaginar que a “sacrossanta “ Jennifer Jones (1919-2009), que encantou os corações religiosos revivendo o milagre de Lourdes em A Canção de Bernadette – pelo qual chegou a ganhar um Oscar de melhor atriz de 1943 – agora escandalizando tanta gente, prevaricando, totalmente lasciva de corpo e alma, nas imagens extravagantes no imortal clássico do Western DUELO AO SOL (Duel In The Sun).


Na estreia do filme, em dezembro de 1946, as ligas da decência americana preferiram denomina-lo Lust in the Sun (traduzindo: Luxúria ao Sol). Era mais do que um Super Western de 5,2 milhões de dólares, a celebração descabelada do erotismo, das paixões encolerizadas, dos pendores sadomasoquistas e da brutalidade glamurizada (adultério, assassinato, violação). 




No afã de superiorizar seu E O Vento Levou (1939), o produtor David O Selznick (1902-1965) ultrapassara os limites do Código Hays – A censura Hollywodiana – e, após muitos arranjos, teve de suprimir três minutos de metragem final, modificando uma cena em que Jennifer Jones, ameaçada por  Gregory Peck (1916-2003) – um cowboy cínico e atrevido- resiste aos avanços sensuais e por fim se rende com visível prazer, ao estupro.




O autor da novela original, Niven Busch (1903-1991, foto), negociava os direitos do seu livro para a RKO, em 1944, e cogitava de produzir o filme, tendo sua mulher, Teresa Wright (1918-2005) no papel que coube a Jennifer Jones, a sensual e selvagem mestiça Pearl (Perla) Chavez. Mas grávida, Teresa ficou de fora do projeto, e a RKO pediu a Selznick que cedesse Jennifer Jones, para contracenar com John Wayne (1907-1979), o primeiro escalado para o papel de Lewt McCanies. Em vez disso, Selznick comprou os direitos do filme e a lançou em uma superprodução, ao seu estilo.


A produção, como no caso de E O Vento Levou, foi atribulada. O próprio Selznick, em parceria com Oliver H.P. Garrett (1894-1952), escrevia e reescrevia o roteiro em plena filmagem, cujas as externas se iniciaram em março de 1945, perto de Tuckson, Arizona, com locações extras rodadas em San Fernando Valley, Califórnia. A 10 de agosto, o diretor King Vidor (1894-1982, foto) irritou-se com as constantes intervenções do produtor e largou o filme no meio. Para completa-lo, Selznick convocou William Dieterle (1893-1972)  -que foi o responsável pela sequencia de abertura da dança de Tilly Losch (1903-1975) num cabaré - William Cameron Menzies (1896-1957), este o planificador da produção, e Josef Von Sternberg (1894-1969), que foi o consultor visual.


Após nove meses de filmagem, foram rodadas 26 horas e meia de filme, afinal, reduzidas para 136 minutos. Ao todo, atuaram 8 cineastas, que além dos citados, os responsáveis pela segunda unidade, Otto Brower (1895-1946), B. Reeves Eason (1886-1956), e Chester Franklin, e o próprio Selznick, que dirigiu pessoalmente quatro cenas. No fim, Vidor ganhou na justiça o direito de figurar nos créditos como o único diretor.


Selznick tudo fez para perpetuar algo como um outro E O Vento Levou, mas desta vez passado no Oeste, mantendo vários elementos da equipe técnica do eterno clássico de 1939- Menzies como o designer, Jack Cosgrove (1902-1965) nos efeitos especiais, Hal C. Kern (1894-1965) na edição, e Ray Rennahan (1896-1980) no acabamento fotográfico.



Sua nova “Scarlett O’ Hara”, Perla Chavez, foi produto de verdadeira paixão: Selznick, que tinha colocado Jennifer Jones em Desde que partiste, em 1943, estava tão interessado na atriz, que acabou se divorciando da mulher Irene para casar com sua nova Estrela, em 1949. Não logrou, como pretendia, projetar Jennifer Jones como mito sexual. Em compensação, DUELO AO SOL ficou na história como o filme que introduziu o chamado “beijo francês” no cinema americano.  Com esta obra, Selznick arrebatou o prêmio especial de melhor conjunto de produção no festival de Veneza de 1948.



A História é a seguinte:

Scott Chávez (Herbert Marshall,1890–1966) mata sua mulher adúltera (Tilly Losch) e o amante. Enquanto aguarda na prisão sua execução por enforcamento, ele conforta sua filha Pearl, dizendo-lhe que já acertou para que ela vá morar com sua prima e ex-noiva, Laura Belle McCanles (Lillian Gish, 1893-1993), agora casada com um senador e rico barão de gado, Jackson McCanles (Lionel Barrymore, 1878-1954).


Assim, após a morte do pai, Pearl viaja até Paradise Flats, no Texas, onde é bem recebida no rancho por Laura Belle e por seu filho mais velho, o advogado Jesse (Joseph Cotten, 1905-1994), e com certa hostilidade pelo senador, preso a uma cadeira de rodas.



Logo ao chegar, Pearl passa a ser o centro de uma luta entre Jesse e seu irmão Lewt (Gregory Peck), ambos atraídos pela bela mestiça.  Certa manhã, ao vê-la nadando nua num pequeno lago, Lewt fica até o fim da tarde esperando que ela saia d'água para vê-la.  Ao chegarem atrasados para o jantar, Laura Belle suspeita, pelos cabelos molhados de Pearl, que os dois estiveram nadando juntos.


Ao tomar conhecimento que a ferrovia pretende se expandir através de suas terras, o senador e outros barões de gado se juntam para tentar impedi-la.  Como Lewt encontra-se fora, em El Paso, Jesse é obrigado a acompanhar o pai.  No encontro com o presidente da ferrovia, Jesse se posiciona contra o pai, sendo por este expulso de casa.


Quando Lewt retorna ao rancho, descobre que Pearl encontra-se sozinha em seu quarto e a estupra.  Mais tarde, ao se preparar para deixar a casa do pai, Jesse ouve a voz do irmão vindo do quarto de Pearl.  Antes de sair, confessa seu amor por ela, embora acredite que seja tarde demais.

Os meses se passam e todos agora admitem que Lewt e Pearl são amantes.  Perguntado se ele se casaria com ela, Lewt responde que sim.  Por trás, entretanto, assegura ao pai que Pearl  é apenas um passatempo.


Durante um baile, Pearl pretende anunciar seu noivado com Lewt, mas este a menospreza.  Ao sair do local em lágrimas, encontra Sam Pierce (Charles Bickford, 1891-1967), um homem bem mais velho com idade para ser seu pai.  Este se diz atraído por ela e lhe propõe usar suas economias para comprar um rancho para eles, caso ela o aceite.  Momentos depois, ela concorda em se casar com Sam, embora admita que não o ame.


Na noite anterior à data do casamento de Pearl, Lewt procura Sam e o mata, tornando-se um fora-da-lei cuja captura será recompensada com US$ 2000.  Embora foragido, Lewt procura Pearl, mas esta inicialmente o rejeita.  Depois, quando ele lhe diz que pretende comprar um rancho no México, ela lhe pede para que a leve consigo.  Desapontando-a, ele lhe diz que não pretende se casar, mas que, uma vez ou outra a procurará como naquela noite.


Laura Belle adoece e morre pouco tempo depois.  Ao tomar conhecimento da doença da mãe, Jesse retorna ao rancho, onde não a encontra mais com vida.  Na ocasião, ele pede à Pearl para que ela vá morar em Austin com ele e com Helen Langford (Joan Tetzel, 1921-1977), a filha do presidente da ferrovia, com quem ele pretende se casar.  Pearl agradece o convite mas não o aceita.


Jesse envia um bilhete para Lewt, propondo um duelo por causa de Pearl.  Lewt encontra-se com ele na rua de Paradise Flats, ferindo à bala seu irmão desarmado.  Pearl cuida de Jesse até a chegada de Helen.


Chocada com o ato praticado por Lewt, e com receio de que mais tarde ele volte para matar o irmão, Pearl decide ir ao seu encontro e enfrentá-lo.  Depois de uma viagem a cavalo de dois dias, ela o encontra.  Ao vê-lo de longe, começa a atirar.  Ele responde da mesma forma.  O duelo continua até que os dois são mortalmente feridos.


Arrastando-se, ela consegue chegar até ele.  Abraçados, os dois confessam seu amor mútuo, morrendo ambos em seguida.


Por este enredo, tão bem elaborado e avançado para sua época, que DUELO AO SOL se tornou um grande clássico, não apenas no gênero Western, mas em geral para o Cinema, capaz de prender a atenção do espectador do começo ao fim, onde inovou ousadia e erotismo como nunca visto antes em Hollywood. A imponente trilha sonora foi magistralmente composta por Dimitri Tiomkin (1894-1979).

Produção e Pesquisa de PAULO TELLES.

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