quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

As Aventuras de Robin Hood: O Maior Clássico Capa & Espada de Todos os Tempos.


Em toda a história dos filmes de aventura, uma obra se destaca como a maior de todas. Falo de As Aventuras de Robin Hood – The Adventures of Robin Hood.  Este clássico absoluto do cinema tem fãs de todas as idades, pois foi passado de geração para geração, graças às contínuas exibições na Sessão da Tarde na Tv Globo (quando ainda valia a pena assistir) dos anos 70 e 80 do passado século, bem como também se conta à admiração que pode ser passada de pai para filho, ou mesmo independente, pois o gosto pela arte pode surgir intrinsicamente.

Contudo a história de sua produção é bastante curiosa e vale a pena ser contada. Vamos lá?

Jack L. Warner
Em 19 de julho de 1935, Dwight Frankilin, que era o consultor visual especial de Capitão Blood, envia a Jack L. Warner (1892- 1978) um memorando vazado nestes termos:

“O Senhor não acha que James Cagney poderia fazer um ótimo Robin Hood? Será um filme inteiramente diferente daquele de Douglas Fairbanks. Tenho muitas idéias sobre isso se o senhor estiver interessado”.

James Cagney
Jack L aprova a sugestão, e James Cagney (1899-1986) é anunciado como astro do filme. No entanto, em novembro, em um litígio com o estúdio, Cagney vai embora e não volta a Burbank por dois anos. Logo, a 8 de setembro de 1936, telegrama de Hal B. Wallis para Jack L: Falei com roteiristas sobre “Robin Hood”. Depois de “Capitão Blood”, ninguém melhor que Errol Flynn para o papel. Acho bom divulgar essa notícia imediatamente e deixar Cagney ficar sabendo o que esta perdendo com sua atitude.


Hal B. Wallis (1899-1986) não gostou do primeiro script feito por Rowland Leigh (1902-1963) e recusa. A tarefa então é confiada a Norman Reilly Raine (1894-1971) e Seton I. Miller (1902-1974). Wallis lhes dá rígida orientação sobre o que quer para o filme e assim evitar os problemas e a perda de tempo tidos com o roteiro de Leigh.

William Keighley

A 7 de setembro de 1936, Anita Louise é escalada para fazer a donzela Marian. William Keighley (1889-1984)  é escolhido como diretor e é selecionado todo elenco de apoio: Basil Rathbone, Claude Rains, Patric Knowles, Eugenne Pallete, Alan Hale, e Una O’ Connor à frente. 

Anita Louise

A 16 de setembro do mesmo ano, a extremamente bem sucedida parceria de Olivia de Havilland com Errol Flynn (1909-1959), em Capitão Blood e A Carga da Brigada Ligeira leva o estúdio a decidir-se por Olivia para o papel antes oferecido a Anita Louise (1915-1970).

Anita Louise com Cornel Wilde em O FILHO DE ROBIN HOOD.
Quanto a Anita, a suave atriz loura que acabava de perder o papel de Lady Marian para De Havilland, acabaria por interpretar a donzela dez anos depois, em 1946, no mediano O Filho de Robin Hood (The Bandit of Sherwood Forest), dirigido por George Sherman e Henry Levin para a Columbia, e estrelada por Cornel Wilde no papel de Robin.

Para as filmagens de locação, escolheram os atrativos terrenos e matas de Bidwell Park, na cidade de Chico, a 560 quilometros ao norte de Los Angeles, para as cenas passadas na floresta de Sherwood. E os Busch Gardens, onde seria filmado o torneio de arco e flecha. Já outros exteriores, foram feitas em Lake Sherwood, a noroeste de San Fernando Valley, e em algumas áreas apropriadas, dentro do próprio estúdio.


A 7 de outubro, em telegrama enviado para Keighley, em Chico, o exigente Wallis elogia os copiões resultantes dos trabalhos dos três primeiros dias de filmagem, ao mesmo tempo em que reclamava ter ele levado outros três dias apenas para filmar o encontro entre Robin Hood e Little John, que sequer foi completado. Considerou as cenas líricas demais e lhe pediu para evitar tomadas sofisticadas, ângulos visualmente bonitos que não resultam em nada e que atente para mais emoções e a ação impulsora  de que o filme necessita. 

Michael Curtiz
Logo, Wallis viu que Keighley precisava de uma mãozinha mais experiente e dominante, e que o filme estava mesmo precisando de Michael Curtiz (1886-1962), um dos maiores cineastas da História da Sétima Arte. Curtiz já havia provado sua habilidade em filmes de época com Errol Flynn, e havia concluído a direção de Onde o Ouro se Esconde (Gold Is Where), também filmado em Chico, com George Brent, Claude Rains, Olivia De Havilland, e Tim Holt.


A 29 de novembro, Keighley filma sua última cena, aquela em que se passa no quarto de Lady Marian, com De Havilland e Una O’ Connor, levando quase 9 horas para faze-lo, chegando a concluí-la na manhã seguinte. Nesse mesmo dia, Keighley foi substituído por Michael Curtiz, que assume imediatamente as funções, fazendo inicialmente a extraordinária sequencia do banquete, para qual Robin Hood se convida.


Finalmente, em janeiro de 1936, as filmagens se completam, e Hal B Wallis, no dia 21, sugere a Jack L. Warner que os anúncios do filme sejam feitos em destaque ao título As Aventuras de Robin Hood, com Errol Flynn e Olivia De Havilland. A Ideia era vender o título do filme, a grandeza do assunto e a nobreza do personagem, vindo a seguir o nome dos atores principais. Ao custo final de produção, eleva-se a dois milhões e trinta e três mil dólares, tornando-se o filme mais caro da Warner Bross até então, mas valeu a pena.


A WB faturou perto de quatro milhões de dólares só no mercado norte americano e no Canadá, e naturalmente, outros bons milhões de bilheteria nos cinemas do mundo inteiro. Caso fosse realizado nos nossos dias, segundo o saudoso jornalista João Lepiane, seu custo não seria inferior a 60 ou 70 milhões de dólares.




ERROL FLYNN Já havia sido revelado espetacularmente em Capitão Blood, em 1935, e confirmado como ator exemplar em A Carga da Brigada Ligeira, no ano seguinte. Indubitavelmente, Errol foi a escolha ideal da WB para reviver na tela o lendário herói da floresta de Sherwood.


Ao tempo da produção do filme, Errol contava com 28 anos de idade e em sua melhor forma atlética, apesar de ter problemas de saúde. Errol, inclusive, havia sido recusado para servir o exército por conta de sua saúde. Sofria de malária, de tuberculose, e do coração e chegou a ter enfarte durante uma filmagem e o duelo de Robin Hood teve que ser feito aos poucos para ele poder aguentar. Mas o estúdio também não queria que o público soubesse a verdade.




Mas tudo isso foi superado graças à insistência vitalidade, o bom humor, e o charme irresistível, feito dele uma figura sem par em toda a Hollywood. Flynn foi escolhido tão bem que não dá para pensar em outro ator que leve o personagem a perfeição, com ele se identificando definitivamente. Em suma, quando se fala de Robin Hood no mundo do cinema, se lembra de Errol Flynn. Parece que nasceu para fazer este papel, como se ele fosse o herói em uma outra encarnação. 


Errol Flynn recebe a visita da esposa, a bela atriz Lili Damita, durante as filmagens
Treinado por um dublê
Nenhum outro ator foi tão belamente heroico, e em sua sublime hora, ele tem tudo: a elegância, o porte, a boa aparência, o ótimo físico, mas o mais importante, um brilho no olhar que o torna ainda mais atraente, sobretudo, para o público feminino.



A TRILHA SONORA é também uma das maiores glórias do filme, com marcante menção musical de Erich Wolfgang Korngold (1897-1957), uma das mais perfeitas combinações de som e imagem jamais conseguidas num filme, pois cerca de dois terços da duração da fita são apoiadas pela musica de Korngold, que é praticamente um libreto de ópera menor. Os resultados valeram ao compositor austríaco o Oscar pela Melhor Música original de 1938, e pensar que estava a recusar a compor por não se tratar de um estilo seu. Caso recusasse, Erich voltaria a Viena, onde certamente teria sérios problemas para fugir à perseguição dos nazistas, que o declararam persona non grata . Até o fim de sua vida, em 1957, Korngold sempre declarava que fora Robin Hood que lhe salvara a vida.




O ELENCO MAGISTRAL – Nunca se havia reunido numa obra cinematográfica um cast numeroso que chegasse a homogeneidade, portanto, As Aventuras de Robin Hood se incluí no privilegiado grupo de filmes chegado a perfeição interpretativa. Errol Flynn já foi destacado. Olivia De Havilland, com a suavidade de sua beleza e ao ser talentoso charme, dão um fascínio especial as cenas de que participa, pois sua Lady Marian parece sair de um livro de histórias de um conto de fadas.


Basil Rathbone (1892-1967) como o arrogante e perverso Sir Guy de Gisbourne, com a conhecida eloquente e sarcástica dicção, dá um tremendo show de vilania. Outro vilão de alta classe, Claude Rains (1889-1967), como o astuto, hipócrita, traidor e usurpador do trono do irmão Ricardo Coração de Leão (Ian Hunter, 1900-1975),  o Príncipe John, conhecido na História Universal como o João Sem Terra.




Alan Hale (1892-1950, pai de Alan Hale Jr, alguns o confundem por pai e filho serem muito parecidos) repetiu o papel de Little John que havia feito na versão de 1922 com Douglas Fairbanks, valeu a pena ser revisto, pois sempre foi bom ver Hale numa obra clássica.




Eugene Pallete (1889-1954) como Frei Tuck; Patric Knowles (1911-1995), sensacional como Will Scarlet; Melville Cooper (1896-1973) como o Xerife de Nottingham; Una O’ Connor (1880-1959), como Bess, a dama de companhia de Lady Marian; Herbert Mundín (1898 – 1939), ator prematuramente falecido aos 40 anos de idade em um acidente de carro, como o baixinho e divertido Much; e Ian Hunter, já mencionado, faz um Rei Ricardo com dignidade. Todos magníficos e exuberantes em seus papéis.


AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD  esteve entre outros nove filmes indicados para a premiação da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, na categoria melhor filme, mas o grande vencedor da noite foi Do Mundo nada se Leva, de Frank Capra. Mas foi premiado com os Oscars de melhor Trilha sonora, já mencionada, por Erich Wolfgang Korngold e melhor direção de arte para Carl Jules Weyl (1890-1948).




Passados mais de 70 anos, AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD continua eletrizando muitos cinéfilos, sejam veteranos ou jovens, afinal desde o seu lançamento foi um filme que não envelheceu e veio conquistando plateias por mais de cinco gerações, graças as suas reprises nos antigos cinemas poeirinhas nos anos de 1960/70, ou mesmo pela televisão. Na opinião deste editor também, um dos dez maiores filmes de todos os tempos e um dos grandes filmes Capa & Espada da História de Hollywood.


Paulo Telles, com base em artigo de João Lepiane para a revista Cinemim, julho de 1993.

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