terça-feira, 1 de maio de 2012

Matar ou Morrer: Clássico do Western e uma alegoria politica com Gary Cooper.




Clássico que estabeleceu as bases do chamado Western Psicológico, Matar ou Morrer (High Noon), de 1952, dirigido por Fred Zinnemann (1907-1997), e estrelado por Gary Cooper (1901-1961), em verdade é uma alegoria politica de um período nefasto ocorrido nos EUA. Um western aqui levado a dimensão de tragédia grega, que os americanos (até hoje), sobretudo os democratas, consideram muito importante esta obra de Zinnemann, tanto que uma cópia foi depositada numa capsula do tempo para ser aberta no ano 2213.


Gregory Peck havia sido a primeira escolha para o papel do honrado xerife Will Kane, mas Peck desistiu da idéia porque havia recentemente participado de um outro western ao estilo psicológico, O Matador(The Gunfighter), em 1950 e dirigido por Henry King. Logo, ofereceram a Cooper que aceitou no ato e a produção custou apenas 750 mil dólares.


Zinnemann considerou Gary Cooper como um ator que “faz a diferença entre um filme mediano e um filme muito melhor que o mediano”, mas parece que o notável cineasta peca pela modéstia, afinal, High Noon figura em qualquer lista dos maiores westerns e comumente é apontado como seu trabalho mais expressivo, e Will Kane possui todas as características de um personagem de Zinnemann:

“A Consciência de um homem que julga não poder fugir de uma situação adversa. Aconteceu de ambientar-se num western, poderia tomar lugar em qualquer parte onde um homem enfrenta essa decisão. É uma situação intemporal.”


Percebemos como Kane é diferente dos mocinhos de outros westerns dirigidos por John Ford e Howard Hawks, onde o medo é utópico para eles. Ao invés, Kane tem suas cautelas, não deixa de ter seus medos. Mas ele não foge a luta e enfrenta tudo com dignidade.


Zinneman reparte com quatro colaboradores o sucesso deste magistral western, como o fotógrafo Floyd Crosby (1899-1985), o roteirista Carl Foreman (1914-1984), o montador Elmo Williams (nascido em 1913 e ainda vivo), e o compositor russo Dimitri Tiomkin (1894-1979). Com o fotógrafo Crosby, Zinnemann optou por uma imagem oposta ao usual no gênero:

Eu disse a ele que gostaria que o filme se assemelhasse a um cine-jornal. Não havia filtros e o céu era sempre muito branco. Tentamos fazer o mesmo, e não usamos nada, somente iluminação frontal. E além disso, não procuramos glamourizar Cooper. Nós o mostramos como um homem de meia idade, e ele não objetou.  A comparativa “imperfeição” técnica resultante funcionou de modo sublíme, e isto fez com que o público sentisse a coisa mais realisticamente. Na maioria dos westerns, belas formações de nuvens são consideradas obrigatórias, mas queríamos enfatizar a esterilidade da cidade, a inércia de tudo e todos. Para contrastar isto, como os movimentos do xerife, vestimos Cooper todo de preto. Assim, seu vulto solitário se agita pela resplandecente inércia de tudo, parecendo seu destino ainda ser mais pungente”.


O dinamismo da obra nasce desses contrastes – branco/preto, inércia/movimento – e se intensifica na vibração da montagem de Williams e na inventiva distribuição musical de Tiomkin, alicerces do crescente suspense. Na trilha sonora, o astro-cowboy Tex Ritter (1905-1974) entoa os versos de Ned Washington (1901-1976).



Todos os incidentes então concentrados entre as 10h40m e meio dia de um domingo de 1870, em Hadleyville. Nessa quase hora e meia, o xerife Will Kane (Cooper), então recém casado com Amy Fowler (Grace Kelly, 1928-1982), uma Quaker, tenta obter o auxílio da população, para enfrentar um famoso pistoleiro, Frank Miller (Ian MacDonald, 1914-1978), que anos antes, Kane havia mandado para cadeia e que agora chegará no próximo trem para se vingar.



Todos aconselham a Kane a partir para sua lua de mel com Amy e sair da cidade, e a própria esposa apela ao marido para esquecer Frank e seus asseclas. Porém, Kane é um homem consciente do seu dever, e não somente, ele acha que precisa fazer alguma coisa, ou se não, não terá paz.



Kane dá meia volta em sua carroça e volta a cidade, deixando Amy num posto. Como Quaker, Amy é pacifista e não concorda com a decisão do marido em pegar em armas e enfrentar Miller, já que este havia prometido a ela não mais ser um Homem da Lei.  Aos poucos, Kane vai percebendo a solidão, a partir do momento em que a população, para quem muitas vezes serviu, se recusa a ajudar num momento crucial. Onde estão os amigos nesse momento?  Afinal, o povo se esqueceu dos serviços do xerife que tão bem cuidou da cidade e a manteve em ordem?




A hipocrisia e o medo são imperantes.  Todos querem ver Kane fora da cidade, não porque gostam dele ou querem protege-lo, mas porque ele traria ainda mais o temor à população com o duelo com Miller. Na hora fatídica,  Kane sabe dos riscos e deixa uma carta caso ele morra no combate, e todos se recolhem para suas casas. Quem se ofereceu para ajudar, na última hora foge porque Kane não conseguiu reforços. É o cúmulo, mas o herói parte para a luta e enfrenta. Consegue liquidar dois dos capangas de Miller, e um deles é morto pela esposa de Kane, Amy, que estava decidida a sair da cidade, mas volta quando percebe o perigo.




Miller consegue capturar Amy, mas ao fim, Will Kane consegue liquida-lo. O momento clímax, além do duelo do homem solitário, é também quando tudo já esta sob o controle, o povinho sai das suas casas e fica em volta de Kane e da esposa. Numa magnífica interpretação de Gary Cooper, que merecidamente arrebatou seu segundo Oscar de melhor ator (o primeiro havia sido em Sargento York, de Howard Hawks, em 1941), Kane olha para aquele pessoal com total desprezo e joga ao chão a sua estrela de xerife, como se dissesse: “retribuo a vocês por toda "ajuda", fiquem com isso”, e parte com sua carroça e vai embora com sua amada e fiel Amy, sem olhar para tras.




MATAR OU MORRER funcionou como uma verdadeira metáfora sobre o Caça as Bruxas de Hollywood. O script de Foreman é “uma investigação da anatomia do medo; uma destilação de encontro com parceiros, associados e advogados”. A ênfase foi conferida em meio a construção do texto, quando Foreman teve de depor perante a nefasta, louca, neurótica, e absurda comissão de investigações do Senador Joseph McCarthy. Depois, Carl Foreman caiu na “lista negra”, só voltando a assinar o próprio nome em 1958.


Enfim, um verdadeiro clássico, do gênero Western Classe A, que é ao mesmo tempo um dos retratos mais pungentes que o cinema já produziu sobre a solidão humana, onde exprime o comportamento de toda uma sociedade paralisada pelo medo, arrebatando assim mesmo, três Oscars – de montagem (Elmo Williams), ator (Gary Cooper, merecido) e música e canção (Dimitri Tiomkin).


FICHA TÉCNICA – MATAR OU MORRER (High Noon)
Diretor: Fred Zinnemann
Elenco: Gary Cooper, Grace Kelly, Thomas Mitchell, Lloyd Bridges, Katy Jurado, Otto Kruger, Lon Chaney Jr., Harry Morgan, Ian Macdonald, Lee Van Cleef..
Produção: Carl Foreman, Stanley Kramer
Roteiro: John W. Cunningham, Carl Foreman
Fotografia: Floyd Crosby
Trilha Sonora: Dimitri Tiomkin
Duração: 85 min.
Ano: 1952
País: EUA
Gênero: Faroeste
Cor: Preto e Branco

BASE PARA ESTE ARTIGO: Livro Huston, Lubitsch e Zinnemann – edições Cinemin- ano 1985- Autores: A. C. Gomes de Mattos e Sérgio Leemann.

Produção e pesquisa de Paulo Telles


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