quarta-feira, 7 de março de 2012

O Pequeno Grande Homem que Ruiu: A História de Samuel Bronston.

Quem assistiu as maiores superproduções do cinema lançados no início da década de 1960, como El-Cid (de Anthony Mann), A Queda do Império Romano (também de Mann), Rei dos Reis (de Nicholas Ray), e 55 Dias em Pequim (também de Ray), certamente viu nos créditos o nome de Samuel Bronston (1908-1994), magnata produtor de cinema que tinha sonhos de grandeza muito além de seu próprio tamanho. Nascido na Bessarábia (hoje República da Moldávia), Samuel era um homem baixo (cerca de 1,60 m de altura), mas compensava sua baixa estatura com um intenso espírito empreendedor e criativo. É assim que ele já foi definido por amigos e pessoas que o conheceram.

Vindo de uma família de nove irmãos, onde todos tiveram formação acadêmica, de onde vinham médicos, advogados, músicos e artistas, Samuel Bronston se formou no Sorbone University, em Ciências Políticas. Também se dedicou a música, como integrante da Orquestra Sinfônica de Páris, como Flautista, antes de iniciar sua carreira na produção de filmes. Para título de curiosidade, ele era sobrinho da famosa figura socialista Leon Trotsky (1879-1940), assassinado em 1940 por um estudante, cujo fato deu origem a um filme estrelado em 1972, O Assassinato de Trotsky (The Assassination of Trotsky), de Joseph Losey, com Richard Burton (como Trosky) e Alain Delon (como o jovem estudante).


Sugerir que Samuel Bronston era um visionário talvez seja um exagero, mas ele acreditava na proliferação do cinema como arte, e não havia nada de particularmente especial sobre a sua abordagem ao cinema. O que o caracterizou positivamente entre seus amigos e colegas na área cinematográfica foi seu otimismo inesgotável e sua consistência insaciável de gerar projetos que pareciam viáveis para ele.


Com U$$75.000 dólares conseguidos durante seu período na Holanda trabalhando na área empresarial da família, Bronston comprou uma casa confortável em Beverly Drive, em Los Angeles, onde ele ficou dois anos e meio sem concretizar algum tipo de trabalho, até que conheceu e travou amizade com o lendário produtor Budd Schulberg (1914-2009) que o levou a fazer um curso breve na Universidade de Columbia Studios para saber tudo que pudesse sobre a arte de se produzir filmes, onde Bronston produziu As aventuras de Martin Eden/ The Adventures of Martin Eden (Com Glenn Ford,1942) e Cidade Sem Homens/ City Without Men (1943), este último um filme de baixo orçamento estrelado por Linda Darnell (1924-1965) então em início de carreira. Foi durante este período que o Pequeno Bronston aprendeu rapidamente sobre a indústria cinematográfica.


Nos primeiros dias de sua sobrevivência, Bronston parecia agir como um camaleão astuto, tentando bajular e enganar as pessoas pelas ruas de Paris, por onde viveu durante três anos. Chegou à conclusão que poderia conseguir seus objetivos desde que fosse você o suficientemente simpático, e ao longo do tempo isto serviu como um treinamento ideal para os períodos que se seguiriam na Meca do Cinema. Chegou a participar, inclusive, de um ambicioso projeto para fotografar as maravilhas do Vaticano , isto lá pelos meados dos anos de 1930.


Após sua produção destacada de Jack London, em 1949, viajou por um período de dez anos por toda a Europa, penetrando na área cinematográfica de outros países para conseguir mais experiência. Durante este longo período, Bronston amou a Espanha, e quando finalmente se achou com firmeza para iniciar a fase de produções, inaugurou seus estúdios em terras espanholas. Em verdade, foi um pioneiro na prática de introduzir grande escala de produções na Espanha a fim de reduzir os enormes custos. O sucesso de seus filmes inspirou para ajudar a construir seu mega-gigantesco estúdio em Las Rozas perto de Madrid.


Bronston frequentemente trabalhou com uma equipe regular de artistas criativos: os diretores Anthony Mann (1906-1967) e Nicholas Ray (1911-1979) , os roteiristas Philip Yordan (1914-2003) e Jesse Lasky Jr (1910-1988), os compositores Miklós Rózsa (1907-1995) e Dimitri Tiomkin (1894-1979), os produtores Jaime Prades , Alan Brown e Michal Waszynski , o diretor de fotografia Robert Krasker (1913-1981) e o editor Robert Lawrence . Ele também favoreceu Charlton Heston e Sophia Loren como seus atores principais.


El Cid (1961) é geralmente reconhecido como sendo primeiro épico Bronston, mas na verdade Rei dos Reis/King of Kings (1961) merece essa honra. Lançado pela Metro Goldwyn-Mayer, o filme estrelado por Jeffrey Hunter(1925-1969) como Cristo e dirigido por Nicholas Ray, e tornou-se o peso das opiniões sem a menor cerimônia. Em uma avaliação, o New York Times apelidou o filme como “Eu era um adolescente Jesus”.


Para produção, Bronston, junto com o cineasta Nicholas Ray, chegou a ter uma audiência com o Papa João XXIII. Mas o público respondeu bem a religiosa produção que contava a vida de Jesus. Mas por outro lado, certos problemas entre a direção e a produção: Ray não demonstrava muito interesse pelo projeto, não que não quisesse filmar a vida do Redentor da Humanidade, pois na época Ray havia declarado que “Jesus também era um rebelde, mas com uma causa, e por isso foi vítima da injustiça social”, aliás, conhecemos muito bem Ray por demonstrar em seus filmes heróis sofredores que lutam por um objetivo. Mas Bronston, desde os primeiros dias de rodagem, interferia nos trâmites da direção, o que causava desconforto para o cineasta, que não foi até o fim do trabalho, embora devidamente creditado, onde podemos sentir a mão de Ray na cena do “Sermão da Montanha”, a mais bem elaborada na fita sacra. Mas mesmo com relativo sucesso de público e nenhuma quase da crítica, o filme não foi suficiente para se impor nas bilheterias.


O movimento de Bronston na Espanha, juntamente com um investimento seguido de US$ 6.000.000,00 em El Cid rapidamente solucionou a perda com o Rei dos Reis, e ressuscitou a reputação de Bronston dentro da indústria como um ás do investimento. El Cid, dirigido por Anthony Mann, arrecadou impressionantes US $ 26.000.000,00 só no mercado norte-americano e, pelo menos, um pouco mais que isso no restante do mundo, tornando um dos filmes mais bem sucedidos da época. Era o início da fase de ouro para o baixinho Bronston, uma fase que seria, infelizmente, bem breve.


Imediatamente após essa descarga inicial de sucesso, Bronston tentou garantir serviços com Charlton Heston para um próximo projeto; A Queda do Império Romano/The Fall of The Rome Empire (1964). Percebeu que o sucesso de El Cid tinha sido em grande parte devido ao poder de Heston como um ator de grande bilheteria (e campeão do Oscar não fazia muito tempo) – algo que segundo o produtor faltou em Rei dos Reis, por ter sido escalado um ator que foi ídolo de adolescentes como Jeffrey Hunter. Heston, no entanto, estava desinteressado no projeto, julgando-a muito perto de um “primo” de Ben-Hur (1959), seu filme que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator e o consagrou definitivamente. Logo, a parte que coube à Heston foi para Stephen Boyd (1931-1977), que havia sido seu “inimigo” na retumbante superprodução dirigida por William Wyler (1902-1981), fazendo permanecer, como garantia, a bela Sophia Loren como estrela de sua nova e faraônica superprodução.

Como era de seu costume Bronston tinha mais de um projeto simultaneamente. Ele já havia começado a produção de A Queda do Império Romano para dar sequência à 55 dias em Peking/55 Days At Peking, e o produtor voltou sua atenção a Charlton Heston, que já estava com o roteiro em mãos (escrito pelo competente e politizado Philip Yordan, ganhador do Oscar por A Lança partida, e que também escreveu para Ray e Bronston Rei dos Reis). Além disso, Bronston, a custo, conseguiu contactar Nicholas Ray para este projeto épico. Apesar das diferenças de gênios, Ray aceitou, mas durante as filmagens de 55 Dias em Peking (último filme do cineasta), Ray teve um ataque cardíaco quase fatal, devido às pressões provocadas durante toda sua produção, e os constantes desentendimentos com o produtor.

Heston concordou em fazer o filme contando sobre a Rebelião dos Boxers de 1900, mas para isso, Bronston derrubou alguns dos cenários então construídos para "Queda" , a fim de acomodar a construção da Cidade Proibida dos chineses na época dos boxers para a nova produção, o maior cenário até então construído para um filme - um recorde que Bronston iria quebrar um ano depois, quando ele ordenou a construção de uma réplica quase exata do fórum romano em A Queda do Império Romano.


Enquanto Bronston acreditava estar certo de que ele seria capaz de reverter os lucros de uma superprodução para o próximo projeto, este ciclo precário de giro financeiro permaneceu renovável, mas infelizmente para Bronston, 55 Dias em Pequim não funcionou tão bem nas bilheterias como El Cid, colocando uma pressão sobre próximo projeto do estúdio, A Queda do Império Romano.

Quando “Doc” Erikson, o produtor de Design, apresentou a Bronston um orçamento de US$ 9.000.000,00 (nove milhões) para este último projeto - dos quais o produtor só tinha garantido sete milhões e meio à sua disposição imediata - ele meticulosamente passou a trabalhar na aquisição de mais investimentos de fora para fazer a diferença ao invés de reduzir custos para se adequar aos fundos de seu capital.


Contudo, nada saiu certo, e o retorno que Bronston poderia esperar, não se sucedeu.

O custo faraônico da construção dos estúdios de cinema e, o inevitável fracasso de bilheteria de A Queda do Império Romano, deixaram Bronston em dificuldades financeiras e, em 1964, ele teve que parar todas as atividades empresariais.

A Empresa de Samuel Bronston declarou falência a 5 de junho de 1964 afirmando que ele tinha uma dívida de U$$ 564.775 mil ao seu credor, Pierre S. du Pont . Uma petição em agosto de 1964 declarou a Bronston Distributors, Inc. (uma empresa privada) a pagar a Paramount o valor de U$$ 6.75 milhões dólares, e a Pierre S. Du Pont, U$$ 323.191 mil dólares.


Dois anos mais tarde, ele foi interrogado durante uma audiência, pelo advogado de um dos seus credores com uma série de perguntas sobre as muitas contas bancárias que tinha na Europa. Um deles perguntou se ele havia tido uma conta na Suíça . "A empresa tinha uma conta em Zurique , durante seis meses ", ele respondeu, e respondeu também a todas as outras questões relativas a bancos suíços, cujas contas estavam em vermelho.

Mais tarde, foi descoberta que ele havia tido uma conta bancária pessoal muito ativa na Genebra durante os anos em que administrava suas produtoras de filmes na Europa. Ele foi condenado por perjúrio por procuradores federais, que argumentavam que a sua resposta, enquanto verdadeira em si e por si somente, tinha a real intenção de enganar ou iludir.


Todas as apelações a favor de Bronston foram em vão, e a Suprema Corte manteve a condenação contra Bronston, que foi anulada somente a 10 de janeiro de 1973. A justiça aplicou sua decisão julgando que o produtor fez suas declarações em ipisis literis da verdade ainda que dando respostas tecnicamente enganosas, para evitar de ser processado por perjúrio, o que acabou se formando uma parte importante da jurisprudência desde então.



A falência e ação penal devastou sua carreira cinematográfica. Ele completou em 1964, O Mundo do Circo/Circus Word, com John Wayne, Rita Hayworth, e Claudia Cardinale. Nem o “Duke”, nem Rita, nem Henry Hathaway (o diretor), ou Richard Talmadge (diretor de segunda unidade) conseguiram salvar a fita que deu a bancarrota final para Bronston. Deve ter sido praga do querido Frank Capra, segundo informações do saudoso João Lepiane quando escreveu uma matéria sobre Rita Hayworth na saudosa (e não canso de mencionar) revista Cinemim, nº 64 (agosto/setembro de 1990), que era ele sido escolhido para dirigir o filme, chegando a viajar para Madrid. Entretanto, as maquinações do roteirista James Edward Grant junto com Wayne, e para completar o trio, Samuel Bronston, levaram o notável cineasta de A Mulher faz o Homem e O Galante Mr .Deeds a ser afastado.

Circus Word foi uma história originalmente escrita por Nicholas Ray, que vendeu os direitos a Bronston, e consumiu vários milhões de dólares na produção e fabulosas verbas de publicidade no seu lançamento, mas os resultados foram um mega-desastre de proporções irreparáveis.


NÃO EXISTE GÊNIO DE PUBLICIDADE que consiga vender um mau produto, gaste o quanto gastar, o que em definitivo, levou Samuel Bronston, talvez o mais extravagante, perdulário, e desorganizado produtor de cinema a uma ruina definitiva, perdendo todo o controle sobre seus filmes anteriores.


Bronston só produziria mais três filmes apenas: Terra Selvagem/ Savage Pampas (1966), filmado na Argentina , com Robert Taylor , Dr. Coppelius (1966) e Fort Saganne (1984), um filme francês com Gérard Depardieu e Catherine Deneuve . Um épico planejado sobre a vida de Isabel de Espanha nunca se materializou.

Nos últimos doze anos de vida, Samuel Bronston nunca parou e não ficava com sua mente inativa, e ainda sonhava com um grande retorno as telas, embora o aparecimento da doença de Alzheimer o fez reduzir suas atividades e eventualmente acabar com sua capacidade de conduzir os negócios que poderiam ter obtido uma recuperação de suas perdas. Ele morreu de pneumonia em 12 de janeiro de 1994, aos 85 anos, no Hopsital Mercy, em Sacramento na Califórnia e, onde foi socorrido por seu filho médico, o Dr. William Bronston. Conforme seu pedido, foi enterrado em Madrid, no cemitério de Laz Rozas.


Nos anos que se sucederam ao seu falecimento, a importância do legado cinematográfico de Samuel Bronston é de extrema admiração artística por grande parte dos amantes da Sétima Arte. Poucos de seus filmes foram acalorados pelos críticos durante o lançamento original nos cinemas: lamentável, embora não surpreendente. O ciúme é, muitas vezes, acompanhada por uma incômoda língua. E há muito de inveja na mantra pessoal de Bronston, um homem cujo épico idealismo foi ligado a uma necessidade decisiva para fazer as coisas à sua própria maneira e sem qualquer pensamento ou preocupação com a interpretação dos atores, ou percepção de como os altos investimentos não calculados podem ruir um grande império, até pior do que a própria Queda do Império Romano que, por ironia, acabou sendo a dele também.

Samuel Bronston era um fracasso? A pergunta invariavelmente surge. Financeiramente, parece haver pouco debate. No entanto, a medida de um homem só pode ser encontrada em sua carteira ou também em sua extravagância? O Grande talento de Bronston para o mundo será sempre os quatro épicos ele deixou para trás: Rei dos Reis, El Cid, 55 Dias em Pequim, e A Queda do Império Romano. Estas nobres fitas não são apenas grandiosas em tamanho, mas também em alcance e estilo. Elas falam sobre a capacidade de Bronston sonhar com vontade sobre as civilizações do mundo antigo ao seu sentido histórico, a sua paixão pela vida, e ao seu compromisso com a qualidade, muito embora não seja um sonho concretizado pelo diretor visto as perdas e os problemas financeiros que teria.


Samuel Bronston era um egoísta? Talvez – mas desde quando o orgulho pessoal é um mal imperecível, especialmente quando é acoplada a genialidade incrível que deu de si próprio à seus Filmes?

Samuel Bronston era um vigarista? Talvez ... mas que realmente acreditava na sinceridade de suas habilidades para “vender” para qualquer pessoa e em qualquer empreendimento durante sua vida. Bronston foi predado por aqueles mais próximos a ele durante seu breve período de ouro na Espanha, que o tem como um “cordeiro em sacrifício” do que um ambicioso e ganancioso produtor.


Então, é Samuel Bronston uma figura trágica? Dificilmente - pois há poucos homens, tanto em seu apogeu, ou mesmo durante seus últimos anos, que teria tanto empenho até em seu último sopro de vida. No coração e na mente, Bronston estava sempre a um passo de sua grande aventura fílmica. Ele nunca parou de planejar. Ele nunca parou de sonhar. Mas o sonho também se limita, até que o sonhador deixa de existir.

O mundo do entretenimento hoje não produziu mais um Samuel Bronston desde então. É bastante improvável que a geração de amanhã de futuros cineastas o fará, pois, quando tudo estiver dito, feito, e escrito, os críticos e os aproveitadores vão perder o interesse. O outro lado do “Sucesso” de Bronston é, talvez, melhor destilado nestas simples e poucas palavras de Benjamin Disraeli: "O legado dos heróis é a memória de um grande nome e da herança de um grande exemplo."

Nesse contexto, Samuel Bronston foi um dos melhores, ao menos, como herança, as épicas produções de esplendor que tão bem o conhecemos



Produção e pesquisa de Paulo Telles

domingo, 4 de março de 2012

Relembrando o Querido Randolph Scott.


No dia 2 de março de 1987, morria Randolph Scott. A Manchete, estampada em jornais e revistas do mundo todo pegou muita gente de surpresa, uma vez que um dos mais fabulosos cowboys do cinema já estava aposentado “das pistolas” havia mais de 20 anos. Afastado das telas e da mídia durante anos, e vivendo em seu rancho com sua esposa, Patricia, Randy (como carinhosamente o chamamos) para grande parte do público e dos fãs já estava morto.



Sobre o ano de seu nascimento ainda existem controvérsias. Segundo o Motion Picture Almanac, Randy nasceu a 23 de janeiro de 1903, no Estado da Virginia, sob o nome de batismo de George Randolph Crane . Contudo, outras fontes, incluindo o site IMDB, mencionam o ano de 1898 como seu ano de nascimento e este ano parece ser o mais correto, uma vez que na pedra tumular do ator encontra-se a data de 23 de janeiro de 1898 como do seu ano natalício.



Vindo de uma família abastada e fluente, e filho de um respeitado engenheiro industrial, Randolph Scott foi um dos principais astros de Hollywood. Durante uma visita a Charlotte, na Carolina do Norte, seus pais decidiram enraizar-se no local com o pequeno Randy. Anos depois, já um jovem de bela estampa, Randolph estudou no Instituto Universitário de Tecnologia da Georgia, graças a uma bolsa de estudos ganha por suas performances atléticas como jogador de futebol americano. Ferido em uma partida, Randy transferiu-se para a Universidade de Carolina, onde se formou em Engenharia, e logo começou a trabalhar numa empresa de produtos têxteis.



Em abril de 1917 os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial. Pouco depois, Scott, então com 19 anos , ingressou no exército e serviu na França como artilheiro no 2 º Batalhão Trench Argamassa, de Artilharia de Campanha 19. Após o Armistício com o fim da Guerra, Randy permaneceu na França e se matriculou na escola de oficiais de artilharia, mas como recebeu uma comissão pelos serviços de guerra, decidiu voltar para os Estados Unidos em 1919. A experiência e treinamento de guerra de Scott rendeu a idoneidade que lhe serviria anos mais tarde como prática em sua atuação no cinema, incluindo o uso de armas de fogo e a prática de combate corpo a corpo.




Descoberto por um agente hollywoodiano, que procurava um dublê para Gary Cooper, Randy largou seu emprego e foi para a Califórnia, onde se encontrou com o magnata Howard Hughes (1905-1976 - que conhecia o pai de Randy, que deu uma carta de apresentação a Hughes em favor do filho), que conseguiu para ele uma audiência com Cecil B. DeMille (1881-1959), com a finalidade de fazer um teste. Aprovado, foi logo empregado para treinar com o próprio astro Gary Cooper o sotaque virginiano para seu filme de 1929, Agora ou Nunca (The Virginian), além de ter feito uma ponta como ator no filme.


Enquanto não surgiam propostas de trabalho em Hollywood, Scott voltou a jogar, e desta vez profissionalmente em um time de futebol americano da Califórnia. Alguns agentes da Paramount o viram em uma partida e lhe ofereceram um contrato. Abandonando de vez o futebol, tornou-se definitivamente ator.




Não demorou muito, foi se tornando um ator de destaque, e o público feminino não deixou de atender ao belo louro de 1m89, que foi avançando para os papéis principais, graças a sua boa dicção e voz privilegiada, muito embora seu encanto de "homem calmo" nas telas não fosse o bastante para indicar o tremendo sucesso que viria mais tarde como um dos mais autênticos “Man of The West” do cinema.


Apesar de suas qualidades físicas, Randy foi um ator mediano em comédias, dramas, e em aventuras ocasionais, até se projetar nos westerns, onde decididamente se consagrou como um dos maiores astros do gênero, entre 1935 até 1962, quando se despediu das telas. Sua personalidade artística alterou-se da figura calma para uma figura estoica, de homem resistente, imponente, e duro como uma rocha.




Depois de pequenos papéis em vários filmes, alguns inclusive sem receber créditos, Randy fez para a Paramount, entre 1932 e 1935, uma série de dez faroestes de baixo orçamento baseados em histórias de Zane Grey (1872-1939), que serviram para consolidar sua imagem, não só na indústria cinematográfica, mas principalmente entre a massa de espectadores. Sete desses filmes foram dirigidos por Henry Hathaway (1898-1985), que estava em início de carreira.




Em 1935, Scott foi firmemente estabelecido como um astro popular do cinema e, portanto, após o lançamento de Inválido Poderoso/Mystery Mountain Rocky (1935), a Paramount Pictures o escalou para produções de alta escala, ou seja, de ator classe B não demorou para ser incluso no círculo de atores Classe A.



Scott fez quatro filmes para a RKO Radio Pictures durante 1935 e 1936. Dois deles estavam na popular série de musicais estrelados por Fred Astaire e Ginger Rogers : Roberta (1935), também estrelado por Irene Dunne e Nas águas da Esquadra (Follow the Fleet) em 1936. Em ambos os filmes Scott interpretou o simpático amigo de Astaire. Os outros dois estavam entre os melhores da carreira de Scott: Conto de Aldeia/Village Tale(1935), um comovente melodrama obscuro sobre uma pequena cidade onde reina as fofocas e a hipocrisia, dirigida por John Cromwell (1887-1979), e Ela/She (1935),de Irving Pichel (1891–1954), uma aventura fantástica adaptada do romance de H. Rider Haggard (1856-1925), publicada em 1886.



Até 1945, Randy esteve em fitas de diversos gêneros, como Minha Esposa Favorita/My Favoriter Wife, de 1940, e dramas de guerra, como A Batalha Final/Gung Ho!, em 1943, ao mesmo tempo em que se firmava como herói dos westerns, mesmo co-estrelando com Tyrone Power e Henry Fonda em Jesse James, em 1939, Errol Flynn e Humphrey Bogart em A Caravana do Ouro/Virginia City, 1940, e Gene Tierney em Formosa Bandida/Belle Starr, em 1941.




Foi co-astro junto com John Wayne (1907-1979) em dois espetaculares filmes estrelados por Marlene Dietrich (1901-1992), e em ambos Scott parte para luta livre com o “Duke”: A Indomável/The Spoilers (1942), faroeste dirigido por Ray Enright (1896-1965) onde Scott interpreta um crápula de primeira, e uma luta memorável, uma das mais espetaculares do cinema; e Ódio e Paixão/ Pittsburgh, de Lewis Seiler (1890–1964), um drama realizado no mesmo ano, onde Randy interpreta um personagem avesso ao seu Alexander McNamara do filme anterior, e dá uma tremenda lição ao personagem rebelde e aproveitador feito por John Wayne nesta fita.


A partir de 1945, todos os seus filmes são faroestes, com exceção de dois: a comédia Lar, Doce Tortura /Home, Sweet Homicide, de 1946 e o drama Véspera de Natal/Christmas Eve, 1947. Entre fitas de rotina e outras com atrativos diversos, Scott trabalhou com os diretores Ray Enright, Andre de Toth, Gordon Douglas, Lesley Selander, John Sturges, entre outros. Nesta época, destacam-se os faroestes Abilene, o Fim da Trilha/ Abilene Town, de 1946; Terra dos Homens Maus/Badman’s Territory (1946); Sem Deus e Sem Lei (ou Rua dos Conflitos)/ Trail Street (1947); Albuquerque (1948); e A Volta dos Homens Maus/ Return of the Bad Men, em 1948.


Em Rua dos Conflitos e A Volta dos Homens Maus, Scott tem a satisfação de contracenar com dois grandes ícones cinematográficos: o barbudo George "Gabby" Hayes (1885-1969), figura engraçada e carismática que era parte constante no mundo dos westerns e foi o Sidekick de Scott, Wayne, e Roy Rogers; e o ótimo Robert Ryan (1909-1973) que não fazia muitos anos no cinema já emplacaria numa carreira de sucesso, tendo recebido uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo psicopata anti-semita no filme Rancor/Crossfire, em 1947, de Edward Dmytryk.



Transformou-se em um dos grandes campeões de bilheteria no gênero western, tendo ganhado muito dinheiro, o que fez o já rico Randy ainda mais milionário, e quando veio a falecer em 1987, seu patrimônio já havia atingido cerca de US $ 100 milhões. Sua prosperidade veio a crescer logo no início dos anos 1950, quando se aliou ao diretor Budd Boetticher (1916-2001), com quem fez uma série de faroestes. Já nesta época, Scott havia se associado ao produtor Harry Joe Brown (1890-1972), e juntos fundaram a Randbrow Enterprises, uma produtora que realizou muitas películas do astro, tanto para a Warner Brothers quanto para a Columbia Pictures.


Justamente a partir da década de 1950 que os westerns se produziram em grande escala na fabulosa meca do cinema, época frutífera para o gênero. E o nobre Randy não perdeu tempo. Com sua empresa recém fundada, Scott, em parceria com Boetticher, originou fitas notáveis como Sete Homens sem Destino/ Seven Men from Now (1956), O Resgate de Bandoleiro/ The Tall T (1957), Entardecer Sangrento/ Decision at Sundown (1957), Fibra de Herói/Buchanan Rides Alone (1958), Um Homem de Coragem/Westbound (1959), O Homem que Luta Só/Ride Lonesome (1959) e Cavalgada Trágica/ Comanche Station (1960). O sucesso destas produções sob a ótima parceria Scott & Boetticher deve-se também aos roteiros bem elaborados escritos pelo especialista em westerns Burt Kennedy (1922-2001) , que começou sua carreira de escritor e depois como diretor. Ao longo da década de 1950, esta parceria bem sucedida produziu muitos dos melhores westerns B já feitos e, no processo, Scott se tornou uma das dez maiores bilheterias daquela década, e não é pra menos.



Em 1961, Scott já havia anunciado sua aposentadoria, não sem antes de uma saída com Chave de Ouro. Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country )é um western Classe A realizado em 1962, que retrata, com sensibilidade, o fim de uma era, retrato este muito bem executado por Randy e outro grande nome do Far-West, Joel McCrea (1905-1990). Realizado pelo cineasta Sam Peckinpah (1925-1984), o filme marca o encerramento da brilhante carreira de Randolph Scott como ator, aos 64 anos. Em Pistoleiros do Entardecer, o diretor Peckinpah alterna temas de filmes como Matar ou Morrer e O Homem Que Matou o Facínora.


A fotografia de Lucien Ballard (1908-1988) reflete a beleza do Velho Oeste. Cada tomada mostra a grande atenção que é dada aos detalhes. A trilha sonora, assinada por George Bassman (1914-1977), complementa com perfeição a narrativa cinematográfica. O duelo final, os dois veteranos combatentes Scott e McCrea contra os irmãos interpretados por James Drury (o futuro HOMEM DE VIRGINIA da TV), Warren Oates (1928-1982), e John Anderson (1922-1992) é simplesmente magistral, resultando na morte dos irmãos e, no último momento, no de McCrea, morrendo poeticamente nos braços do amigo Randy, quando este lhe diz: “nos veremos logo mais”, como se Randy dissesse para McCrea que breve seguiria o mesmo destino. Vemos na sequencia, McCrea olhar o horizonte e morrer como ele mesmo dissera ao amigo anteriormente, com a “Sensação de dever cumprido”.É assim que Randolph Scott, na vida real, deveria também ter se sentido ao realizar esta obra para Sam Peckinpah, e encerrar seu ciclo de filmes com toda dignidade, para depois viver sua vida.


Começou a dedicar-se ao seu rancho, na Carolina do Norte, onde passava o primeiro semestre todos os anos. Chegando o semestre seguinte, voltava para sua mansão em Beverly Hills, na Califórnia, e a seu passatempo preferido: o golfe. Desde que entrou para comunidade de Hollywood, Randy adorava golfe, e ao tentar ingressar como sócio num clube de Beverly Hills, teve sua proposta recusada. O motivo justificado pelos proprietários foi de que não aceitavam, naquele recinto, "judeus e atores". Em contrapartida, Scott se defendeu, dizendo o seguinte: "Amigos, os senhores estão enganados. Eu não sou ator, e os vinte e cinco filmes que fiz (até aquele momento) provam isso. Sei brigar, sei cortejar a mocinha, sei usar o revólver, mas ator, nunca fui!". Imediatamente, sua proposta de sócio foi aprovada.



Sua vida particular foi aparentemente sem escândalos e pode-se dizer que foi relativamente calma. Scott foi casado duas vezes. Sua primeira esposa foi Mariana Sommervile Dupont, da rica família das indústrias Dupont. Após o divórcio, dividiu até 1944 quando se casou pela segunda vez com a ex-atriz Patricia Stillman (e com quem teve dois filhos, Christopher e Sandra), uma casa com o ator Cary Grant (1904-1986). Aliás, é discutida há anos a relação entre estes dois astros das telas. Por mais de 30 anos, Scott e Cary Grant foram amigos inseparáveis, o que causou, mais tarde, rumores de que os dois astros fossem homossexuais e amantes.



Em fim dos anos de 1930, Grant e Scott eram companheiros de quarto, em uma casa de praia, alugada pelo próprio Grant. Na ocasião, os dois jamais foram vistos com mulheres ou outras estrelas, e muitas fotos dos dois atores foram tiradas na piscina. Mesmo depois de casados com suas mulheres, fala-se que eles ainda mantinham encontros. Ao saber do falecimento de Grant, em 1986, o velho Scott, que já estava com sua saúde abalada, veio a piorar.



Durante toda sua carreira, Randy era avesso à publicidade, tanto que declarou um ano antes de se aposentar o que ele pensava de sua fama e glória no cinema: “Sempre recordo o que dizia o produtor David Belasco, que acreditava que astros e estrelas não deveriam se deixar ver em público, a menos que fossem pagos para isso. Para mim, a afirmação de Belasco faz muito sentido. Ora, a estrela mais fascinante do mundo cinematográfico é Greta Garbo. Por que? Porque ela era inteligente o suficiente para se manter afastada do público. Assim, cada espectador ou fã tinha sua própria idéia do que ela realmente”. Aqui, uma rara foto colorida (acima) de Randy em 1985, tirada em Beverly Hills dois anos antes de seu falecimento, ao lado de Victor French, Neil Summers, e do ex dublê Al Wyatt (de óculos).



Túmulo de Randolph Scott e sua esposa.

Isento de qualquer escândalo fatal ou publicidade negativa, não há notícias de que o saudoso cowboy de figura estóica jamais tenha prejudicado alguém ou se metido em encrencas sérias. Scott foi casado e foi feliz até o fim de sua vida com sua esposa Patricia e os filhos. No fim da vida, Randy já era um multimilionário graças aos seus bons investimentos e se deu ao luxo de gastar seus últimos anos naquilo que mais gostava de fazer: jogar golfe. Morreu no dia 2 de Março de 1987, aos 89 anos de idade, após ter sofrido vários ataques de pneumonia e ter o coração muito debilitado. Em seu lugar de descanso eterno está inscrito a seguintes palavras: George Randolph Scott, 23 de janeiro de 1898 – 2 de março de 1987- amado marido de Patricia e pai devotado de Sandra e Christopher – E onde o saudoso cowboy repousa em Charlotte, Condado e Mecklenburg, na Carolina do Norte.

Obrigado, Randy, por tantas emoções que nos proporcionou!

Produção e pesquisa de Paulo Telles


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