sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Jock Mahoney: Dublê, Astro-Cowboy, e Tarzan.


...e Padrasto de Sally Field.

Jock Mahoney, cujo verdadeiro nome era Jacques O’ Mahoney, era de origem francesa e irlandesa, embora tivesse um pouco de sangue indio “Cherokee”. Nascido em Chicago, Illinois, a 7 de fevereiro de 1919, Mahoney antes de iniciar em Hollywood estudou na Universidade de Iowa, onde se tornou um proeminente atleta na natação, no basketball, e no football. Alto, atingido 1m93, se tornou bastante popular graças aos seus dotes esportivos.

Quando os Estados Unidos entrou na II Guerra Mundial, o jovem Mahoney alistou-se como piloto e instrutor de natação para Homens Rãs. Com o fim da Guerra, foi para Hollywood, onde conseguiu, graças as suas notáveis performances atléticas, o emprego de “Stunt Man”, ou melhor, dizendo, dublê.

Mahoney sabia cavalgar, laçar, e tinha experiência técnica em lutas, principalmente em judô e boxe. Realizou notáveis cenas de perigo para muitos astros das telas, como Errol Flynn, John Wayne , Randolph Scott, e Gregory Peck.



Diretor Vincent Sherman (1906-2006) lembrou das filmagens do clímax das cenas de luta do seu clássico de 1948 As Aventuras de Don Juan , ao encontrar apenas um dublê de Hollywood que estava disposto a pular de uma escada alta na cena, substituindo o astro da fita, Errol Flynn (1909-1959). Este dublê foi Jock Mahoney, que exigiu e recebeu US $ 1.000 para desempenhar a cena de perigo, aliás, uma das mais brilhantes e arriscadas do cinema.

Creditado em seu início de carreira com o nome artístico de Jacques O'Mahoney no final de 1940, ele atuou em várias produções, além de curtas e seriados para a Columbia Pictures . Ele conseguiu notoriedade como dublê de Charles Starrett (1904-1986) para sua fabulosa série Durango Kid . Durango Kid, que usava sempre uma máscara em volta do nariz e da boca, o que permitiu Mahoney substituir Starrett seguramente nas cenas de ação. As acrobacias usadas por Mahoney na série fez parecer que com que o próprio Starrett mesmo executasse as cenas, já que também era tão atlético quanto seu dublê.


Somente mesmo nossa concepção de infância outrora para não notarmos tais detalhes...

Como muitos contratados da Columbia, Mahoney atuou no estúdio em filmes de dois rolos (curtas). No Início de 1947, o roteirista e diretor Edward Bernds (1905-2000) convidou Mahoney para integrar em comédias pastelão estrelada pelos Três Patetas . Foi a primeira vez que Mahoney teve papéis com falas nesses filmes, e muitas vezes atuando em cenas hilárias, fazendo o público rir.

Foi estranho e, ao mesmo tempo, diferente em ver até então um destemido astro-cowboy, em porte heroico, atuar repentinamente em atitudes desajeitadas, tropeçando em algo ou se alastrar em quedas (que fazia ele mesmo com muita propriedade e competência). A Columbia tinha bem notado as habilidades de Mahoney, e deu-lhe papéis em seriados de aventura (os fabulosos seriados de cinema das matinês), iniciando esta fase em 1950.

Foi Gene Autry (1907-1998), famoso cowboy-cantor do cinema, que deu seu nome artístico, inicialmente, para Jack O’ Mahoney. Quando se tornou dublê de Charles Starrett em filmes de Durango Kid, o então dublê passou também a atuar como ator (ao tempo que Mahoney realizava ele mesmo suas cenas de perigo) na mesma série de filmes do personagem, sendo creditado com o nome artístico dado por Autry. Ele ainda teve seu nome artístico mudado por pelo menos três ou quatro vezes, até finalmente decidir por Jock Mahoney, em meados dos anos de 1950.




Em 1953, foi astro da série televisiva The Range Rider (inédito no Brasil, mas conhecido por fãs brasileiros de faroestes através de Histórias em Quadrinhos publicadas por aqui na revista “Aí Mocinho”, editada pela saudosa Editora Brasil-América (EBAL), com o nome de Tim Relâmpago). A série teve 79 episódios rodados de meia hora cada, entre temporadas de 1951 a 1953, e depois em 1959 (um episódio perdido mostrado seis anos após a série cancelada) e foi produzida pela empresa de Gene Autry. Mahoney foi creditado como Jack Mahoney. O personagem, no original, não tinha nome diferente de Range Rider. Jock teve na série como co-astro o ator Dick Jones , no papel de Dick Oeste, seu jovem parceiro de aventuras.



NO CINEMA , a Partir de 1955, Mahoney atuou em muitas produções B no gênero westerns, em cores, se firmando como um dos grandes mocinhos do gênero. São desta fase os ótimos O Covil da Desordem (Showdown at Abilene), de Charles Hass; Domingo Sangrento (Day of Fury), de 1956, direção de Harmon Jones; A Desforra do Estranho (Joe Dakota), de 1957, sob a direção de Richard Bartlett, e uma sequência impressionante de briga “suja” entre Mahoney e Charles McGraw (1914-1980) dentro de um reservatório de petróleo.

Em 1958, Falta um para Vingar (Women and Guns), onde Mahoney é o mocinho e o par romântico de Kim Hunter (1922-2002), a futura macaca Zira da primeira versão de O Planeta dos Macacos (e atuando ainda em mais duas sequencias da série). E ainda no mesmo ano, Cavalgada para o Inferno (The Last of the Fast Guns), onde Mahoney vem a contracenar com três ícones sagrados do cine Far-West americano: Lorne Greene (1915-1987), o futuro Ben Cartwright da série BONANZA; Gilbert Roland (1905-1994), veterano Latin Lover que com o passar dos anos atuou em diversas produções cinematográficas, mas peculiarmente um rosto conhecido no gênero western; e a bela Linda Cristal (nascida na Argentina em 1934), que atuaria em duas obras importantíssimas na Sétima Arte: O Álamo, dirigido e estrelado por John Wayne em 1960, e Terra Bruta (Two Rode Together), em 1961, sob a direção de John Ford, atuando com James Stewart (1908-1997). Em 1967, faria maior sucesso na TV, com a série CHAPARRAL, ao lado de Cameron Mitchell (1919-1994) e Leif Erickson (1904-1986).






Mahoney ainda atuou, nesta época, em diversas produções fora do gênero Cowboy, mas na maioria como coadjuvante. Como principal, atuou em filmes B de ficção, como A Terra Desconhecida (The Land Unknown), em 1957, e sob a direção de Virgil W. Voge.; e uma produção de guerra, Barcos ao Mar* (Away All Boats), realizada em 1956, e estrelada por Jeff Chandler (1918-1961) e Lex Barker (1919-1973), aponta para uma curiosidade: Mahoney integrou no elenco no papel de um marinheiro, como um dos subordinados de Barker, este como um oficial. Foi o primeiro encontro de um ator com quem dividiu um papel muito importante no cinema, como veremos a seguir.


JOCK E OS FILMES DE TARZAN.

Em 1948, Jock Mahoney foi testado para substituir Johnny Weissmuller (1904-1984), que entregava naquele momento o cetro de “Rei da Selva” como Tarzan, mas perdeu a vaga para Lex Barker. Entretanto, o também dublê chegou a fazer algumas cenas de perigo, dublando o recém-empossado Barker nas sequencias que exigiam mais ação. Contava então o ator 30 anos de idade.

Em 1960, ele apareceu como o vilão Coy Banton, em Tarzan, o Magnífico , estrelado por Gordon Scott (1926-2007) . Scott, em seu último filme como o personagem criado por Edgar Rice Burroughs (1875-1951), atuou com Mahoney nas cenas realísticas de ação e combate em plena selva africana. Além disso, foi o primeiro filme sobre o Rei das Selvas filmado realmente na África.

A determinação de Jock levou o produtor Sy Weintraub (1923-2000) a notar sua exuberante presença física e porte atlético, pois apesar de não ser tão musculoso como Scott (que era um fisiculturista) era um pouco mais alto, e demonstrava mais agilidade nas sequencias de ação. Sabendo da experiência de Mahoney como dublê, Weintraub resolveu empregá-lo para o lugar de Scott como o Homem-Macaco, já que queria mostrar ao público uma nova visão de Tarzan, uma releitura que precisava ser apresentada as platéias mundiais, apresentando o Homem Macaco como um personagem inteligente e articulado, conforme os romances originais de Burroughs. Esta interpretação seguiria adiante com os sucessores de Mahoney no papel, que foram Mike Henry, e Ron Ely na TV.


Em 1962, Mahoney tornou-se o décimo terceiro ator a interpretar Tarzan quando ele apareceu em Tarzan vai à India , rodado em locações na Índia. Um ano depois, novamente ele desempenhou o papel em Três Desafios de Tarzan, filmado na Tailândia





Quando este último filme foi lançado, Mahoney, tinha 44 anos, tornou-se o mais antigo ator a interpretar o rei da selva, um recorde que continua de pé. Entretanto, o ator não teve sorte, pois neste último filme contraiu disenteria e febre alta, o que atormentou o então atlético ator veterano. Durante as filmagens nas selvas da Tailândia, ele chegou a perder quase 30 quilos. Levou um ano e meio para recuperar sua saúde.




Devido a seus problemas de saúde e o fato de que o produtor Weintraub optou por escolher um ator mais jovem para o homem-macaco, seu contrato, que seria para mais três filmes como Tarzan, foi dissolvido através de um acordo mútuo. Assim foi escolhido o jogador de futebol americano Mike Henry, de 28 anos. Contudo, este também teve uma maré de azar pior do que Mahoney, mas isto já é outra história.

Atuou em três episódios da série estrelada por Ron Ely no papel do Rei das Selvas, entre 1966 e 1967, sendo que O Silêncio Mortal figura entre o melhor deles, onde interpretou um sádico e violento Coronel que domina e espalha o terror pela selva, e que tem como ajudante um sargento negro interpretado pelo saudoso Woody Strode (que foi seu vilão em Os 3 Desafios de Tarzan), acabando por atingir Tarzan (Ely) com granadas em pleno lago, que fica ferido e com perda da audição. Episódio de duas partes da série que acabou sendo até exibido nos cinemas brasileiros como um longa-metragem.




Nesta época, foi realizado um evento para promover a série televisiva com Ron Ely. Neste evento, participaram, além de Jock, Johhny Weissmuller e James Pierce (Tarzan no tempo do cinema mudo). Um segundo evento realizado em 1975, para celebrar o centenário de Edgar Rice Burroughs, reuniu além destes três, Gordon Scott, Buster Crabbe, e Denny Miller (última foto).

OUTROS TRABALHOS E VIDA PESSOAL

Jock Mahoney casou-se três vezes: Sua primeira esposa foi Lorena O’ Donnell, com quem teve dois filhos. Ignora-se o ano de casamento e divórcio. Em 1952, casou-se com a atriz Margareth Field (1922-2011), que já era mãe de uma menina, a futura atriz Sally Field. Desta união nasceu Princess O’Mahoney, que também viria a ser atriz e diretora de TV. Em 1965, Mahoney e Margareth Field se divorciaram. Finalmente, em 1969, Jock casou –se com Autumn Mahoney Russell, com quem viveu até o fim de sua vida.





Após um período de anos recuperando as forças e o peso após seu último filme de Tarzan, Jock retornou a trabalhar, inclusíve na Televisão onde participou das séries Batman (1966-1968), Havaí 5-0 (onde o vemos aqui atuando com Pernell Roberts), Daniel Boone, entre outras.

Mais gordo, e já assumindo uma barba cheia grisalha, Mahoney teve sua carreira interrompida em 1973, quando sofreu um colapso cardíaco quando filmava um episódio da série de TV Kung Fu, com David Carradine, em 1972. Recuperado, voltou a trabalhar, embora em um ritmo menor. Seu último filme para o Cinema foi contracenando com sua ex-enteada, Sally Field, em 1978, o Se não me mato, morro, estrelado por Burt Reynolds e Dom DeLuise, e dirigido por Burt.

Em 1981, Jock foi ainda o coordenador dos dublês e cenas de perigo para o filme Tarzan, o Homem Macaco, estrelado por Bo Derek e Richard Harris, dirigido por John Derek (1924-1998). Ainda participou, no início da década de 1980, de outras séries televisivas, como As Aventuras de BJ e Duro na Queda, esta estrelada por Lee Majors.


Durante os últimos anos de sua vida Mahoney era um convidado popular nas convenções de filmes e shows de autógrafos.

Jock Mahoney morreu em Bremerton, Washington, a 14 de dezembro de 1989, de acidente vascular cerebral. Tinha sido hospitalizado após acidente de carro dois dias antes. Deixou a esposa Autumn Russel, a filha Princess O’Mahoney(de sua união com Margareth Field), e um filho de seu primeiro casamento, Jim. O ator foi cremado e suas cinzas foram espalhadas pelo Pacífico.


Uma homenagem a Mahoney, intitulado Coming Home é encontrada na Internet no site do falecido colecionador Joe Bowman, de Houston, Texas, um amigo próximo Mahoney. Em 06 de fevereiro de 1990, o poema foi lido em uma homenagem ao memorial Mahoney realizada no Lodge de desportistas em Studio City , Califórnia. Mais de 350 pessoas, entre amigos e fãs, participaram, incluído Bowman. A leitura foi realizada pela viúva de Mahoney.


Eis o poema traduzido para português:


Para Jock O'Mahoney
07 de fevereiro de 1919 - 15 de dezembro de 1989

Estou voltando para casa
Estive longe por muito tempo.
Uma fogueira no deserto solitário;
O cheiro de sálvia, e distribuição de café;
Diamantes cintilantes em um céu de veludo preto,
Chamando-me para casa.
Eu estive aqui por muito tempo, eu paguei minhas dívidas.
Eu gastei meu tempo.
Eu estive dando meu amor
Eu não feri ninguém, ou coisas por vaidade.
Eu dei uma mão amiga, e recebi uma.
Eu conheci o frio, a fome, e a abundância.
Agora eu sinto as estrelas me chamando para casa.
Eu não sei como cheguei aqui.
Não me lembro de onde.
Mas em casa eu vou saber, quando eu vê-lo.
Eu sei que quando eu estou lá.
Minha mente está pronta.
Eu não tenho nada para se preparar.
O corpo é deste mundo, assim que eu deixá-lo.
Eu nada tomo para mim, para mudar meu destino.
O Senhor é meu pastor, me levando em casa.
As estrelas estão me chamando, me chamando para casa.
Site do original deste poema: http://www.joebowman.com/mahoneytribute.html


Produção e pesquisa de Paulo Telles

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