quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

John Ford e sua Trilogia da Cavalaria Americana.


Todos nós andamos à saber (e muito) que John Ford (1895-1973) foi um dos grandes mestres do Cinema, muito embora nos costumamos a associá-lo ao gênero Western, e de fato, também é a quintessência do estilo genuinamente norte-americano por excelência, e tanto quanto Cecil B. DeMille, sua história também se confunde com a origem da Sétima Arte.
Ford não se considerava um artista, mas a indústria, o público, e os colegas, sim. Por três vezes, foi eleito Melhor Diretor do Ano pelo Sindicato dos Diretores de Cinema da América. Recebeu quatro prêmios da Academia na categoria de melhor Diretor do Ano e outros dois por curtas-metragens de documentários que dirigiu. O American Film Institute lhe concedeu o seu Live Achievement Award, lhe honrando as realizações de toda uma vida dedicada ao cinema.
Ford tinha um estilo único, e tal como os cowboys que ele mesmo apresentou nas telas, ele era um homem de poucas palavras, ou podemos mesmo dizer, curto,prático e objetivo: Eu sou John Ford e eu faço westerns. Evidentemente que se vê o amor e a dedicação em que ele empenhava em conduzir grandes obras, mas era um diretor tão nobre que chegou a declarar, em 1968, numa entrevista, que seus filmes mais admirados e considerados não eram os westerns. Fosse como fosse, realizou tudo com maestria e nobreza.
O grande Orson Welles (1915-1985), outro gigante da cinematografia mundial, declarou quando questionado por um repórter qual era seu cineasta preferido: os velhos mestres, John Ford, John Ford, e John Ford. Sem dúvida, muitos diretores da geração de Ford quanto os que viriam mais tarde tiveram influências dele e de seus trabalhos.

Ford leu muito sobre a Cavalaria Americana, e partiu dele a ideia de contar o que sabia sobre a instituição, mas achou melhor contar numa forma de trilogia. A esta altura, John Wayne (1907-1979) já era seu grande astro, cujo impulso foi alavancado pelo próprio Ford na sua obra No Tempo das Diligências, em 1939. É verdade que Ford e Wayne tiveram altos e baixos ao longo de suas vidas (possivelmente, a única pessoa com quem pudesse “perder uma briga” para Ford era justamente o “Duke”), mas jamais deixaram de ser grandes amigos, apesar do grande cineasta tentar controlar a carreira de Wayne até o fim de sua vida, em 1973. Wayne estrelou a trilogia espetacular que faz parte da imensa filmografia do diretor, cuja lista de obras se inicia em 1914.


SANGUE DE HERÓIS (Fort Apache) de 1948 conta com cenas marcantes, entre elas as sequências em que a câmera corre lado a lado com a cavalaria em fúria. A paisagem desoladora e imponente do Monument Valley (a terra que Ford tanto amava e fez questão de frisar isto em seus primorosos westerns) é captada de forma épica, e com destaque para a atuação de Henry Fonda (1905-1982) como um coronel frio, arrogante, e preconceituoso, que odeia os índios, que antagoniza com o oficial interpretado por John Wayne, o oposto do personagem de Fonda, que tem a mente mais aberta e vem a entender os problemas indígenas sob sua ótica humana.


O verdadeiro protagonista é, sem dúvida, Henry Fonda, um dos atores preferidos do cineasta junto com John Wayne. Nunca vimos até então Fonda tão arrogante, afetado e cabeça-dura como o seu coronel Thursday, o novo comandante do Fort Apache, conglomerado militar em crise por conta de conflito com os índios daquele local.


Wayne também tem um ótimo desempenho, talvez o único que vem a diferir de outros personagens que tanto o fez consagrar ao longo de sua carreira. Temos também aqui Ward Bond (1903-1960) que não pode ser ignorado, pois para falarmos sobre Ford e Wayne, Bond também precisa ser citado, pois os três faziam além de grandes trabalhos no cinema, sempre boas e divertidas farras. Por falar em farras, é destaque lembrar também de Victor McLaglen (1886-1959), que junto com Pedro Armendariz (1912-1963) interpretam dois sargentos indisciplinados e trapalhões, que sustentam a parte cômica da fita. 




A despontar Shirley Temple, já uma jovem e atraente mulher, sem sombra da estrela infantil que encantou a todos, que faz a filha do Coronel interpretado por Fonda, no esplendor de seus 20 anos, interesse amoroso do oficial interpretado por John Agar (1921-2002), que era marido de Temple na vida real (foram casados entre 1945 a 1949, isto é, um ano depois do lançamento de Fort Apache, já estavam divorciados).
Quando SANGUE DE HERÓIS foi relançado no Brasil, na década de 1960, pela empresa Fama Filmes, recebeu o título original, assim como na dublagem antiga para a TV,que introduz como Forte Apache.




LEGIÃO INVENCÍVEL (She Wore a Yellow Ribbon), de 1949, tem Wayne como Nathan Brittles, um capitão veterano da cavalaria americana que não quer aceitar a ideia de se retirar do serviço ativo. Ele aceita a reforma, mas não sem antes cumprir todas as suas obrigações com a tribo local e, assim, sai em sua última patrulha para impedir um impiedoso ataque indígena que pode se transformar em um grande massacre. Atrapalhado pelas mulheres a quem precisa salvar, Brittles vê sua missão em grande perigo. Mais uma vez, o “Duke” nos brinda com um desempenho memorável, num papel que requer o dobro de sua idade (Wayne estava com 42 anos e interpreta um personagem de, no mínimo, 60). 



É emocionante a cena em que Nathan “conversa” com a finada esposa perante seu túmulo, falando dos velhos tempos e de sua futura aposentadoria, até a chegada de Olivia Dandridge (Joanne Dru, 1922-1996), que flagra a atitude de Nathan.

Olivia é o interesse amoroso entre o tenente Flint Cohill ( John Agar, 1921-2002) e o segundo tenente Ross Pennell (Harry Carey Jr, ainda vivo, hoje com 90 anos, e um dos ícones mais lembrados do gênero Western por sua enorme contribuição em grandes obras ao estilo, incluindo é claro John Ford), contudo o coração de Olivia é voltado para Flint. 

 

RIO BRAVO foi o título brasileiro de RIO GRANDE (Título Original), e assim foi lançado em nossos cinemas. A princípio, o título original desta última trilogia seria Rio Bravo, entretanto Ford trocou por Rio Grande, mas Rio Bravo já tinha sido registrado aqui no Brasil pela Republic Pictures, que o manteve. A Título de Curiosidade, em 1959, Howard Hawks (1899-1977) faria para a Warner um filme que deu o nome de...RIO BRAVO, descartado em 1950 por John Ford. Como aqui no Brasil já tínhamos tido um filme com o título local de RIO BRAVO, a Warner no Brasil não poderia usa-lo novamente, ao que deram o nome de Onde Começa o Inferno.  


       

RIO GRANDE, realizado em 1950, é o terceiro e último da série da trilogia, e retrata a trajetória do Tenente-Coronel Kirby Yorke (Wayne), que foi designado para um posto da fronteira com o México, próximo ao Rio Grande (Rio Bravo para os mexicanos) no qual defende os colonos contra os Apaches renegados. O coronel pediu 180 novos recrutas, mas recebeu apenas 18, sendo que um deles é seu filho Jeff (Claude Jarman Jr, de Virtude Selvagem), que ele não via desde quando o mesmo era recém-nascido, e que se alistou após ser expulso da academia de oficiais (foi reprovado em Matemática). Outro recruta é Tyree (Ben Johnson), um fugitivo da lei por ter matado um texano em duelo. Os recrutas são treinados pelo sargento Quincannoon (Victor Mclaglen, repetindo seu papel de Legião Invencível, a obra anterior de Ford). Jeff logo faz amizade com Tyree e Boone (Harry Carey Jr), que se mostram dois exímios cavaleiros.



Yorke fica tenso e preocupado com o filho quando os índios atacam, mas procura não demonstrar. Depois sua preocupação aumenta quando chega ao forte a mãe de Jeff, a bela sulista Kathleen (Maureen O’ Hara, lenda viva da Sétima Arte), que deixou o coronel quando este destruiu a plantação de sua família no vale de Shenandoah durante a Guerra Civil. A mulher quer que o filho deixe o exército e volte aos estudos, embora seja compreensiva com ele e continue a gostar do coronel.

O coronel recebe ordens não-oficiais para perseguir os apaches até o México, mas, logo a seguir, crianças que mandou escoltar para um local seguro são raptadas pelos índios. Tyree descobre onde elas estão escondidas e escolhe seus dois amigos, Boone e Jeff, para ir com eles resgatar as crianças. O coronel não gosta, mas não intercede pelo seu filho que assim parte para a perigosa missão.

Uma das grandes obras magistrais do Mestre John Ford, que de início queria filmar Depois do Vendaval, mas o presidente da Republic Pictures (produtora do filme), Herbert J. Yates (1880-1966),insistiu com ele para que fizesse esse faroeste usando a dupla formada por John Wayne e Maureen O'Hara, pois Yates não achava o roteiro de The Quiet Man muito bom e queria que Rio Grande garantisse os recursos financeiros para a produção. Novamente, o Monument Valley foi o cenário de tão espetacular produção, formando assim uma das trilogias mais importantes de toda a cinematografia mundial, importante para os cinéfilos, críticos, e todos os amantes da Sétima Arte em geral.


Três grandes clássicos tradicionais do Oeste Americano para os amantes da Sétima Arte, para os admiradores de John Wayne, e para os fãs deste grande cineasta chamado John Ford...John Ford...John Ford.
Produção e Pesquisa: 
Paulo Telles.
Atualizado em 8 de julho de 2014

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