sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A Vida e a Obra de Jeffrey Hunter


Os fãs de ficção científica costumam lembrar-se dele como o capitão Christopher Pike, da USS Enterprise, no episódio piloto da série de TV Jornada nas Estrelas(1966-1969). Mal agenciado por sua segunda esposa, Joan Bartlett, Hunter recusou a continuar na série, e o papel principal foi entregue a William Shatner — o que contribuiu também para o fim de seu segundo casamento.


Porém, esta belo ator, de apolínea beleza e olhos azuis (além de um triste destino), é mais lembrado pelos cinéfilos do mundo todo como um dos grandes intérpretes de Jesus Cristo no Cinema, no filme Rei dos Reis(King of Kings), dirigido por Nicholas Ray (1911-1979). Sua atuação até hoje como Cristo é considerada a mais destacada entre os demais atores que interpretaram o personagem nas grandes telas.


Jeffrey praticando piano aos cinco anos
Nascido na Luisiana a 25 de novembro de 1926 (outras fontes, mencionam 1925, mas em seu túmulo está inscrito 1926 como seu ano natalício), seu nome verdadeiro era Henry Mckinnies Jr.Filho de engenheiro, quando tinha quatro anos, sua família se mudou para Wisconsin.


Jeffrey nos tempos de universidade.
O jovem Hank, como era conhecido, fez algum trabalho de palco no colégio (onde chegou a ser colega de classe de Charlton Heston. Com ele, apareceu numa adaptação de "Julio César", de William Shakespeare, no teatro colegial), e fez também trabalho de rádio antes de concluir o ensino fundamental, em 1945.

Depois, alistou-se na Marinha dos Estados Unidos da América, nos fuzileiros navais, durante a II Guerra Mundial, servindo a Marinha nos dois anos seguintes. Fez faculdade de comunicações na Universidade Northwestern, em Illinois, entre 1946 e 1949 e chegou a fazer pós-graduação em rádio na Universidade da Califórnia em Los Angeles, entre 1949 e 1950.


Jeffrey no auge da forma física, já galã
em Hollywood
Nesta época, Hank queria independência e pagar seus estudos, logo, aproveitando seus apolíneos dotes, fazia trabalhos como modelo fotográfico e locutor de rádio, quando foi notado por um executivo de Hollywood.


Jeffrey com fãs.

Feito seus primeiros testes cinematográficos, foi aprovado. Tanto o estúdio da Warner Brothers quanto a 20th Century Fox estavam de olho no belo e iniciante ator de olhos azuis. Em Hollywood, acabou assinando contrato com 20th Century Fox, e escolheu seu nome artístico para Jeffrey Hunter (se desconhece os motivos por que adotou este nome artístico). Sua beleza máscula e porte(1m83), logo o levaram a tornar-se um dos ídolos do público feminino na década de 1950.

Jeffrey com Debra Paget: A PRINCESA DO NILO (1954)

Inicialmente, seus papéis eram de galãs juvenis em filmes considerados “água com açúcar”, mas rapidamente passou para papéis mais maduros, fossem como cowboys, ou soldados em filmes de guerra e aventura.


Hunter com sua primeira esposa, a atriz
Barbara Rush, e o filho do casal, Christopher.

Casou-se em 1950 com a atriz Barbara Rush (nascida em 1927), com quem teve um filho, Christopher. Divorciaram-se em 1955.


Jeffrey e sua segunda esposa, Dusty Bartlett

Jeffrey Hunter e Dusty Bartlett.

Foi em 1956, durante as filmagens de Um Beijo Antes de Morrer(A Kiss Before Dying), que Jeffrey Hunter conheceu sua segunda esposa, Joan Bartlett (1928-2005). A modelo, que serviu de dublê durante o filme, teve grande influência sobre o futuro da carreira do ator, pois a levou a gerenciar sua carreira como uma agente, levando inevitavelmente a seu trágico e prematuro final.

Os dois se casaram a 7 de julho de 1957. Hunter, de início, estava muito feliz com o casamento (que daria a ele mais dois filhos), chegando até a adotar um dos filhos da modelo de seu casamento anterior, e mais tarde, na vida artística, o rapaz assumiu o nome de Steele Hunter (com ele, passaram a ser quatro as crianças na casa: Christopher, filho do primeiro casamento de Jeffrey, Steele, do primeiro casamento de Bartlett, e Herman e Scott, do casal). A felicidade matrimonial levou o ator ao seu papel mais importante, em 1961: interpretar ninguém menos que o líder da cristandade, em Rei dos Reis/ King of Kings.


Jeffrey com John Wayne no clássico
RASTROS DE ÓDIO (1956)
Jeffrey Hunter chegou no auge de sua fama em alguns dos grandes clássicos do cinema, muitos deles reverenciados por cinéfilos de todo mundo. Rastros de ódio/The Searchers, clássico do Western dirigido pelo Mestre John Ford (1895-1973), em 1956, e rodado nas locações no Monument Valley, no Utah, região preferida do cineasta para seus inúmeros Westerns, atuando lado do "Duke" John Wayne (1907-1979).

"Quando chegou a minha vez de disparar tiros em "The Searchers", me deram quase tanta munição como deram a John Wayne."- disse o ator na época.


Com Spencer Tracy e Diane Foster, em
O ÚLTIMO HURRAH (1958)
Em 1958, outra parceria entre Hunter e o cineasta Ford, no clássico O Último Hurrah/The Last Hurrah, de 1958, onde teve a honra de contracenar com o competente e talentoso Monstro Sagrado das Telas, Spencer Tracy (1900-1967), um drama político onde Jeffrey desempenha um jornalista que ajuda na reeleição do tio (interpretado por Tracy) a prefeitura de sua cidade.

Poster alemão de AUDAZES E MALDITOS(1960)
Faroeste de John Ford.

Logo em seguida, Ford escala Hunter para o papel principal de seu Western anti-racista, Audazes e Malditos/Seargeant Rutledge, em 1960, no papel de um Oficial da Cavalaria Americana, que defende seu subordinado sargento negro (Woody Strode, 1919-1994) numa corte-marcial, acusado de um crime sórdido que não cometera.


Hunter no dramático bélico
DO INFERNO PARA A ETERNIDADE (1960)

Ainda em 1960, fez Do Inferno para a Eternidade/Hell to Eternity, de Phil Karlson (1908-1985), vigoroso drama de Guerra biográfico, em que atua no papel de Guy Gabaldon (1926-2006), herói americano da II Guerra Mundial, que órfão, fora criado com todo carinho por uma família de japoneses, e quando os Estados Unidos entra na II Guerra após o ataque a Pearl Harbor, é convocado e obrigado a lutar contra o povo de seus pais adotivos, manifestando nele uma crise de consciência. O desempenho de Hunter foi elogiado pelo próprio Gabaldon.


Jeffrey Hunter como o mais famoso (e belo)
Cristo do Cinema: REI DOS REIS (1961)

Mas o ápice do sucesso veio em 1961, quando foi escolhido por Nicholas Ray para interpretar Jesus Cristo no filme Rei dos Reis (King of Kings), em uma interpretação magistral e de inigualável desempenho à altura do personagem.


Jeffrey Hunter, o Cristo de Nicholas Ray

Embora a película de Ray tenha sido um sucesso de público, e de uma parte da crítica malhar maldosamente o trabalho do ator com os dizeres "eu fui um Cristo adolescente", comparando-o a James Dean em Juventude Transviada, o drama bíblico não firmou por muito tempo a carreira de Hunter. Foi seu primeiro trabalho fora dos Estados Unidos, embora a película fosse uma produção norte-americana sob os auspícios de Samuel Bronston (1908-1994), o espetacular produtor de El-Cid, de Anthony Mann, em 1961.

O papel de Jesus Cristo impulsionou o rosto bonito de Hunter definitivamente para a fama. Até suas axilas tiveram que ser raspadas para as cenas da crucificação. Quem melhor define a situação é Leonard Maltin, em sua Movie Encyclopedia: "Ele pertence à pequena fraternidade de atores que interpretaram Jesus Cristo na tela e, embora possa ou não ser o mais convincente Filho de Deus dos filmes, ele certamente era o mais bonito".


Hunter em santidade no papel de Jesus:
REI DOS REIS (1961)
Hunter declarou a uma revista em março de 1962, um ano depois do lançamento do filme, a respeito de seu papel na saga bíblica de Cristo:

Não compreendi totalmente minha responsabilidade até achar-me nas vestes de Jesus, subindo a montanha para a cena do sermão das bem-aventuranças. Para minha surpresa, muitos habitantes do vilarejo caíram de joelhos enquanto eu passava. Eles sabiam muito bem que eu era um mero ator, porém sentiram que, de alguma forma, eu era uma apresentacão viva de uma figura que lhes era sagrada desde a infância. Eu não sabia o que fazer... foi aí que me conscientizei do que aceitara representar.

Senti minha responsabilidade crescer à medida que o filme prosseguia, e sinto-a ainda mesmo que o filme tenha terminado. Não creio entretanto que sou maior conhecedor de Cristo do que qualquer outra pessoa. Minha educacão religiosa foi como a de qualquer crianca americana. Conhecia a Bíblia, é claro, a história de Jesus era sagrada, mas nunca havia pensado muito sobre ele como Pessoa, de carne e sangue, como um Homem que viveu neste mundo como nós vivemos, entre pessoas e em um tempo não diferente dos atuais. Ao estudar o script, e enquanto prosseguia minha pesquisa, comecei a compreender pela primeira vez o significado de Sua vida e o que os Seus ensinamentos trouxeram ao mundo.

A FAMÍLIA DO GÊNIO (1953)

Depois do papel em Rei dos Reis, as coisas começaram a piorar na vida familiar do ator. Bartlett decidiu que seria a responsável pela administração da carreira de seu marido e escolheria quais papéis ele deveria ou não fazer. E a modelo decidiu que ele definitivamente era um astro de cinema, não de televisão, a qual ela considerava um veículo menor e desprezível. Joan queria seu marido como um verdadeiro "Astro de Hollywood" na concepção da frase, no calibre de um Clark Gable, de um James Stewart, de um William Holden, ou a de Gary Cooper, coisa que Hunter, definitivamente, jamais foi, isto é, um astro de primeira grandeza na meca do cinema. Nem Robert Wagner, que era seu concorrente no mesmo estúdio e que provavelmente lhe roubou o título de galã para Hunter (por ser mais jovem), se solidou numa carreira extraordinária no cinema, mas faria grande sucesso na televisão nas séries O Rei dos Ladrões, e Casal 20, na década de 1980.

Jeffrey Hunter como astro da TV na
série TEMPLE HOUSTON (1963)



Hunter mesmo fez participações especiais em algumas séries televisivas, como Besouro Verde, Daniel Boone, FBI, e The Monroes. Nesta época, um ator que fosse fazer TV poderia ser boicotado no cinema dependendo do status de um astro, mas mesmo assim alguns atores resolveram experimentar e arriscar a nova sensação daquele momento.Em 1963, é escalado como protagonista da série televisiva de faroeste Temple Houston, do qual também foi produtor executivo, atuando ao lado de Jack Elam (1920-2003), mas a série não passou da 1ª temporada.


Hunter como o primeiro capitão de
JORNADA NAS ESTRELAS (1965), com
Leonard Nimoy
Surpreendentemente, Hunter venceu a batalha familiar e decidiu fazer TV, para um projeto que ele acreditava ter enorme potencial: Jornada nas Estrelas/Star Trek. Em janeiro de 1965, depois de ter filmado o piloto, ele deu uma entrevista em que elogiava o arrojo do programa de Gene Roddenberry (1921-1991). Na série, Jeffrey desempenhou o Capitão Christopher Pike, o antecessor de James Tiberius Kirk (William Shatner), no comando da nave estrelar "USS Enterprise"

Eis detalhes sobre esta fascinante entrevista do ator sobre a série, em entrevista a revista americana "Stalog" no fim de 1964:

Encontramos mundos pré-históricos, sociedades contemporâneas e civilizações muito mais desenvolvidas do que a nossa. É um grande formato porque os escritores têm a mão livre, e eles podem nos aterrissar num planeta infestado por monstros ou lidar com relações humanas envolvendo o grande número de pessoas que vivem nessa nave gigantesca. Nós vamos saber em algumas semanas se a série foi comprada.

Será de uma hora, colorida, com um elenco regular de meia dúzia de pessoas e um astro convidado a cada semana. A coisa que mais me intriga é que ele é na verdade baseado na projeção da Rand Corporation do que vem por aí. Exceto pelos personagens fictícios, será como dar uma olhada no futuro e algumas das predições certamente vão ser verdade ainda durante nossas vidas. Com todas as estranhas redondezas do espaço exterior, o tema básico subjacente à série é uma abordagem filosófica das relações dos homens com as mulheres. Há os dois sexos na tripulação e, na verdade, a primeiro-oficial é uma mulher.


A série não foi imediatamente comprada pela rede de televisão NBC, mas os executivos tomaram a inédita decisão de pedir um segundo piloto. Praticamente toda a tripulação deveria ser trocada, exceto Jeffrey Hunter e seu Capitão Pike. Entretanto, parece que num segundo momento, Joan Bartlett, sua esposa e agente, voltou a imperar.


Fita VHS do Piloto de JORNADA NAS ESTRELAS
com Jeffrey Hunter. Acervo Particular do
editor.
Os envolvidos na produção de Jornada nas Estrelas na época, contam que Bartlett foi até eles com exigências absurdas, sob o pretexto de proteger a carreira de seu marido. Mais uma vez ela vinha com aquele papo de que "o meu marido é um astro de cinema". A situação fez com que Hunter acabasse desistindo de voltar para o segundo piloto, apesar de seu entusiasmo inicial pela série. Em 1989, este piloto, então inédito, foi lançado em VHS nos EUA (aqui no Brasil também no mesmo ano, pela extinta CIC vídeo sob o título de Jornada nas Estrelas- Como tudo Começou), entretanto alguns trechos serviram para compor na série original o episódio de duas partes “A Jaula”, onde Hunter era o astro principal convidado, no papel do Capitão Christopher Pike.

Jeffrey em ARMA PARA UM COVARDE (1957)
O ator começou a fazer filmes de calibre cada vez menor, e seu nome foi desaparecendo da lista dos potenciais astros de Hollywood. Simultaneamente, o plano pessoal parecia cada vez mais insuportável. As pressões da mulher e a crise familiar levaram o ator à bebida. Após várias crises que beiravam casos de polícia, em 28 de fevereiro de 1967, Hunter e Bartlett se separaram.


Jeffrey no western europeu FACE A FACE COM
O DIABO (1967)
Com várias oportunidades perdidas nos Estados Unidos, depois do segundo divórcio, Jeffrey Hunter foi para Europa trabalhar em filmes de baixo orçamento, muitos deles Western Spaghetti, trabalhos que nada ajudariam na reabilitação de sua carreira.

Jeffrey em seu último filme: O PODEROSO
FRANK MANNATA (1969)

Em novembro de 1968, Jeffrey Hunter sofreu um grave acidente durante as filmagens do que seria seu último (e póstumo) filme, O Poderoso Frank Mannata (Viva América,) na Espanha. Recuperado, encerrou a película e voltou para os Estados Unidos, mas queixava-se de fortes tonturas e dores de cabeça. Nada foi constatado em seus exames médicos.

Emily McLaughlin, última mulher de Hunter
Em janeiro de 1969, conhece a atriz Emily McLaughlin (1930-1991), conhecida pela série de TV Hospital Geral/General Hospital, e casam-se no mês seguinte, a 4 de fevereiro do mesmo ano.

Jeffrey Hunter se despediu das telas como
O PODEROSO FRANK MANNATA (1969)

Na tarde de 26 de maio de 1969, Jeffrey Hunter cai de uma escada de apenas três degraus em sua residência, em Van Nuys, Califórnia, e sofre uma violenta fratura no crânio. Levado para o Hospital, não resiste a uma cirurgia de emergência, e morre na manhã seguinte. Tinha 43 anos. Seu funeral foi uma reunião simples e privada na Igreja Episcopal de São Marcos, com o enterro no Glen Haven Memorial, onde o ator esta sepultado, em San Fernando, Califórnia.


Túmulo do ator Jeffrey Hunter

Filmografia Parcial

Montanhas Ardentes(Red Skies of Montana)- 1951
o Marinheiro do Rei(Saylor of the King)- 1952
A Roleta Fatal(The Three Youngs) - 1953
A Princesa do Nilo(Princess of The Nile) - 1954

Como o jovem guerreiro Cheyenee Cão Pequeno: A LEI DO BRAVO(1956)
A Lei do Bravo(White Feather)- 1955

As 7 Cidades de Ouro(Seven Cities Of Gold)- 1955
Têmpera de Bravos(The Locomotive Chase)- 1956
Rastros de Ódio(The Searchers)- 1956
A Borda da Morte(The Proud Ones)- 1956
Um Beijo antes de Morrer(Kiss Before Die)- 1956

Socando John Larch: ARMA PARA UM COVARDE (1957)

Quem foi Jesse James?(True of Story Jesse James)- 1957

Armas para um Covarde (Gun for a Coward)- 1957
Três Encontros com o Destino(Love in War)- 1958
O Último Hurrah(The Last Hurrah)- 1958
A Testemunha Chave(Key Witnnes)- 1959


Com Robert Wagner e Hope Lange:
QUEM FOI JESSE JAMES (1957)
Do Inferno para Eternidade(Hell to Eternity)- 1960
Audazes e Malditos(Sergeant Rutledge) - 1960
Rei dos Reis(King of Kings) - 1961
O Mais Longo dos Dias(The Longest Day) - 1962
A Beira do Inferno(No Man is a Island) - 1962

Escravo arquiteto em OURO PARA OS CÉSARES (1963)

Ouro para os Césares(Oro per Cesari-Itália; Gold for The Caesars-EUA) - 1963

Jornada nas Estrelas - A Jaula(Star Trek - The Cage)- 1964
Braistorm(Brainstrom)- 1965
Joaquim Murieta(Murieta)- 1965
Dimensão 5(Dimension Five)- 1966
Condenado a Forca(The Christmas Kid)- 1967
Face a Face com o Diabo(Find A Place to Die)- 1967

OS BRAVOS NÃO SE RENDEM (1968)
Os Bravos não se Rendem (Custer of the West)_ 1968
O Marujo Tremendão(Private Navy of Sargent O'Farrell)- 1968
Viva América(Viva America)- 1969



Produção e pesquisa de Paulo Telles
ATUALIZADO EM 22 DE NOVEMBRO DE 2016.

Outras Matérias

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...