domingo, 11 de dezembro de 2011

A Grande Ilusão: Obra Política Estrelada por Broderick Crawford.

Fala-se que o homem é um “animal político”, pelo menos nas célebres palavras do filósofo Aristóteles (384 a.C – 322 a. C). Todos os projetos em prol da civilização e da ordem adquirida dependem de nossas atitudes através da política. No entanto, o que fica registrado na História, é que grandes celebridades ao longo de quase mil anos tem usado a política como meio de atingir seus interesses próprios, e o oportunismo é vigente. O filme que elaboraremos neste post exemplifica bem o que estamos falando, afinal, tudo não passa de uma GRANDE ILUSÃO.
A GRANDE ILUSÃO (All the king's men) – alias, na tradução literal do inglês, "Todos os Homens do Rei". Dirigido por Robert Rossen (1908-1966), que também assinou o roteiro e a produção, o enredo retrata a vida de Willie Stark (Broderick Crawford, 1911-1986) um idealista da Louisiana que vive a fazer campanha contra os políticos que dominam o Estado, por considerá-los corruptos e criminosos. Seu sonho é ser governador para dar um cabo em tanta sujeira. Na capital, trabalhando para um órgão de imprensa, Jack Burden (John Ireland, 1914-1992) é enviado ao Condado de Kanoma para contatar Willie e escrever uma série de artigos sobre ele.
Ao chegar lá, procurando pelo idealista Willie, Burden é hostilizado pelos manda-chuvas locais que, para intimidá-lo, tomam logo sua máquina fotográfica. Mesmo assim, ele se encontra com Willie e com sua esposa, Lucy (Anne Seymour, 1909-1988), conseguindo obter as informações de que precisa para escrever a matéria. Ao deixar Kanoma, Burden acaba se convencendo de que realmente se trata de um homem honesto, corajoso e com uma vontade indomável de progredir e ajudar os necessitados.
Ao terminar seu serviço, o jornalista sai de férias e viaja até Ancoradouro Burden, a fim de visitar sua mãe e os Stanton, seus vizinhos. Anne Stanton (Joanne Dru, 1922-1996), sua namorada, é sobrinha do respeitado Juiz Monty (Raymond Greenleaf, 1892–1963) e irmã do médico Adam Stanton (Shepperd Strudwick, 1907–1983).
Ao se candidatar a governador, Willie não consegue derrotar os homens que tomaram de assalto a máquina do Estado. Decide, então, concluir a faculdade de direito e passar a ser bastante atuante na área, defendendo principalmente os injustiçados da zona rural. Paralelamente, não se descuida de sua luta para acabar com a prática da corrupção em seu Estado. Com seus discursos inflamados e virulentos ao extremo, vai proporcionando uma verdadeira revolta entre os mais desfavorecidos.
Burden vai mais uma vez à Kanoma, a fim de acompanhar de perto a trajetória política de Willie Stark. Numa nova disputa eleitoral, Harrison, candidato dos "manda-chuvas" locais, observa que o prestígio de Willie está fazendo com seu opositor, McMurphy, comece a crescer nas pesquisas. Como forma de reverter esse quadro, manobra para que o ainda ingênuo Willie se candidate, dividindo os votos de seus opositores. A estratégia dá certo e Harrison é eleito. Persistente, o idealista não desiste e se prepara para o próximo pleito, quatro anos depois.
Ao chegar a época da nova campanha, ele se apresenta como o único candidato com possibilidades de desmascarar os "manda-chuvas", gasta muito dinheiro e acaba utilizando métodos que ele sempre combatera. Surgem boatos de acordos com todo tipo de gente. Burden é contratado para trabalhar pra ele. Nesse trabalho, o jornalista o leva a Ancoradouro Burden, onde consegue o apoio político dos Stanton. Willie finalmente é eleito governador da Louisiana e o juiz Monty Stanton é nomeado promotor público.
Construindo estradas, escolas, barragens, cada vez mais conquista popularidade, principalmente nas zonas rurais do Estado. Contudo, seus métodos acabam por se revelar piores do que aqueles que tanto combatera contra seus inimigos. Chantagem e suborno passam a ser coisas banais e corriqueiras para o outrora idealista Willie. Também inicia um declínio moral, quando Stark toma Anne, namorada de Burden, como sua amante.
Burden tem uma rápida relação com a indomável Sadie Burke, na estréia cinematográfica da sensacional atriz Mercedes McCambridge (1916-2004), em seu primeiro trabalho no cinema. Sadie é a terrível coordenadora da campanha política de Willie Stark. Antes deste trabalho, McCambridge era atriz de rádio, e ganhou o Oscar de atriz coadjuvante por este papel.
Quando um de seus colaboradores mete a mão nos fundos de pensão, Stark abafa o episódio, o que faz com que o correto juiz Monty peça demissão da promotoria e denuncie o escândalo à imprensa. Com base num pequeno deslize cometido por Monty em seu passado, Willie o chantageia, resultando no suicídio do magistrado.
Na mesma época, o filho do governador Stark, interpretado pelo jovem John Derek (1924-1998) sofre um terrível acidente ao dirigir embriagado. Como resultado, fica preso numa cadeira de rodas (para seu desespero, ele era um esportista, jogador de futebol americano), e uma jovem, que se encontrava no veículo, morre. O pai da jovem procura Willie e este, mais uma vez, se submete ao suborno para conseguir seus objetivos, tentando o pai da jovem morta. Não se dobrando à proposta recebida, o pai da moça denuncia a tentativa de suborno e termina aparecendo morto.
Esses dois escândalos levam o governador a enfrentar um processo de impeachment. No dia da decisão de seu julgamento, o Congresso é cercado por multidões vindas principalmente do meio rural, as quais passam a pressionar os congressistas a absolverem o governador. Assim, Willie é considerado inocente, pois não diferente de muitos políticos “protetores dos pobres, dos fracos e oprimidos”, onde com sua retórica consegue envolver e emocionar as mentes mais despreparadas e incautas a fim de justamente coloca-los na palma de suas mãos, e assim Willie Stark consegue ter em seus domínios a todos, que mal sabem eles o que se passa por dentro de tanta conspiração.
Na saída do Senado, entretanto, Adam Stanton o mata em sinal de vingança pelo suicídio de seu tio. Strantom também é morto pelo guarda costas de Stark, aliás, Stark é que sempre o protegia, pois no fundo não passava de um pobre coitado que mal falar sabe e que era hostilizado pelos cacifes. Stark o tirou da sarjeta e o colocou para ser seu “leão de Chácara”, mas no fim, este não conseguiu salvar a vida de Willie, que no chão, em agonia, balbucia algumas palavras, possivelmente de arrependimento, por ter enterrado todo o idealismo inicial de suas campanhas, que se deixou levar pelo luxo e poderio de seu cargo.
Baseado na obra de Robert Penn Warren (1905-1989), que ganhou o Prêmio Pulitzer, A Grande Ilusão é mais um excelente filme da época de ouro do cinema. Esse drama gira em torno da corrupção na política, temática esta que não envelhece, e como estamos a ver isto com tanta frequência, não é mesmo?
Considerando o trabalho excepcional Rossen , supera, em termos, a de Orson Welles em Cidadão Kane, de 1941, ou de Frank Capra em A Mulher Faz o Homem, de 1939, ou ainda, O Último Hurrah!, de John Ford, de 1958. Outra curiosidade na fita é a narração num estilo semi-documental, onde procura mostrar como pessoas bem intencionadas podem se tornar cruéis e corruptas após sentirem o gosto do poder.
A Grande Ilusão nos apresenta uma grande mensagem, diálogos inteligentes (e bem atuais ainda), um ritmo perfeito, um roteiro imprevisível e um final surpreendente. Adicionando-se a tudo isso, a bela fotografia em preto & branco de Burnett Guffey (1905-1983) e magníficas atuações de seus principais atores, só se pode obter, como resultado final, um filme fascinante do início ao fim.
Broderick Crawford e Mercedes McCambridge estão ótimos em seus respectivos papéis. Embora tenha sido uma atriz excepcional, tendo inclusive ganho o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua participação neste filme, chama atenção o fato de McCambridge nunca ter atingido o estrelato, apesar de grande outros desempenho magistrais, como em Assim caminha a Humanidade, de 1956, direção de George Stevens (1904-1975) e Jonny Guittar, de 1954, direção de Nicholas Ray (1911-1979).
O Filme é um estudo do fascismo e da corrupção politica, onde retrata de forma veemente e verdadeira a Ascensão e Queda de um político rebelde do interior, a princípio ignorante, mas cujas convicções iniciais eram verdadeiras. Queria ele mudar o sistema para algo mais justo, exigindo reformas e justiça social, mas por fim, acabou embriagado pelo próprio poder (como tantos outros políticos REAIS, principalmente em nossa política brasileira).
Como muitos políticos, Stark tem o carisma e o dom da oratória, mas a Máquina de Imprensa, o Quarto Poder, dá a ele toda a ajuda que precisa para sua subida.
BRODERICK CRAWFORD nos brinda com, talvez, o seu mais espetacular desempenho nas telas. Nascido a 9 de dezembro de 1911 (teria completado se fosse vivo nesta sexta feira última 100 anos), era filho de atores que trabalhavam em rádios e vaudevilles. Alto e forte, com o corpo de um touro ou um de lutador profissional de Wrestling daqueles tempos, angariava papéis ao seu porte físico, abrutalhado, de fala rápida, o que levou este gigantesco talento proporcional ao seu tamanho físico a papéis estereotipados.



Até desempenhar o papel que lhe rendeu o merecido Oscar, Crawford só havia feito pequenos papéis de pequena representação no cinema, com exceção de A Pecadora (Seven Sinners), de Tay Garnett (1894-1977), onde vem a dividir às honras da tela com Marlene Dietrich e John Wayne, no papel do guarda costa de Dietrich, em uma performance bem humorada e engraçada.
Mesmo ganhando vários prêmios, além do Oscar, nesse ano de 1949 o maior cumprimento veio de sua mãe, a comediante Helen Broderick (1891-1959): “Não consegui achar nada de errado na sua atuação”.
Enfrentando sérios problemas de álcool, os trabalhos no cinema começaram a ficar um pouco difíceis, muito embora pudesse ter momentos memoráveis em grandes clássicos do faroeste como Gatilho Relâmpago, antagonizando com Glenn Ford, ou Estrela do Destino, em que luta a socos numa verdadeira luta livre com Clark Gable, enamorada de sua irmã Ava Gardner.
Corajosamente, aderiu à Televisão nos anos de 1950, e estrelou três séries televisivas: Patrulha Rodoviária (Highway Patrol); Homens de Branco (King of Diamonds); e The Interns. Tristemente, chegando a década de 1960, assim como muitos astros americanos que não conseguiam mais filmar nas terras do Tio Sam, Broderick Crawford partiu para a Europa, passando grande parte daquele período na Itália e na Espanha, participando de épicos “Sandálias & Espadas”, e westerns baratos. Broderick Crawford morreu em 26 de abril de 1986.
FICHA TÉCNICA: A GRANDE ILUSÃO (All the King’s Men): Diretor: Robert Rossen. Elenco: Broderick Crawford, John Ireland, Joanne Dru, John Derek, Mercedes McCambridge, Shepperd Strudwick, Ralph Dumke, Anne Seymour, Katharine Warren, Raymond Greenleaf, Walter Burke, Will Wright, Grandon Rhodes. Produção: Robert Rossen. Roteiro: Robert Rossen, baseado em romance de Robert Penn Warren
Duração: 109 min.
Ano: 1949
País: EUA
Gênero: Drama
Cor: PRETO & BRANCO
Estúdio: Columbia Pictures Corporation

16 comentários:

  1. Vi o filme anos atrás, quando foi lançado em coleção clássicos do cinema (no extinto vhs). Preciso rever.

    Obra que merece ser vista, com certeza, mais de uma vez.

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  2. Não me canso de rever este filme. Bem pertinente aos nossos dias, e ainda mais em épocas de eleições(rs) como uma boa reflexão. Boa semana.

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  3. Esse filme-denúncia é fabuloso, Paulo Néry. Sensacional atuação de Crawford, um ator que gosto muito, destacando suas atuações em "Nascida Ontem", "Desejo Humano" e "A Trapaça".

    O Falcão Maltês

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  4. Crawford trabalhava muito bem sem dúvida, e o filme em post não somente é fabuloso, mas possivelmente o melhor sobre política em toda História do Cinema.Obrigado, Nahud.

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  5. Excelente resenha sobre um grande filme. Mercedes McCambridge era uma atriz que compunha personagens fortes. Sua 'Luz Benedict' de Giant é memorável.

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  6. Decerto, Darci. Pena que ela não teve em sua vida o merecido reconhecimento da crítica. Era uma Senhora Atriz.

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  7. Grande Paulo,Como Vai?
    Gostei muito de seu comentário em minha última postagem, você trouxe informações que realmente eu iria escrever em meu texto e que acabei deixado de lado sobre o desinteresse do público pelos épicos no fim dos anos 60 e etc. Como meu intuito em meu blog é abordar todos os filmes que assisto e possuo em coleção, é fato que de vez em quando vai surgir um filme que não satisfaça a todos...kkk mas vc como sempre expressa suas opiniões da maneira mais educada e inteligente. Quanto ao seu Post, A Grande Ilusão, perfeito e comovente, ainda não tenho em minha coleção mas já tive o privilégio de assisti-lo. Ótimo texto, ótimo post. Abração

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  8. Salve Jefferson! Acabei de dar um novo parecer no seu blog quanto a seu último post e concordo com vc (estive em viagem de trabalho e somente hoje vejo seu comentário). Procuro dar um adicional como meio de contribuição, mas fico feliz que também esteja ciente do assunto.

    A GRANDE ILUSÃO é um marco, e todo bom cinéfilo, amante dos filmes antigos, não deve deixar de ter esta obra consagrada, e como bem disse o Antonio Nahud, é uma Obra-Denúncia. É assistir, e guardar para novas ocasiões.

    Forte Abraço
    Paulo Néry

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  9. Amigo Paulo, criei um Meme sobre as 10 coisas pelas quais vale a pena viver e gostaria de te repassar a função de nos contar quais as 10 coisas escolhidas por você. http://gilbertocarlos-cinema.blogspot.com/2011/12/10-coisas-pelas-quais-vale-pena-viver.html

    Abraços.

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  10. Salve Gil. Amigo, comparecerei com toda satisfação em seu espaço. Agradeço o repasse. Forte Abraço.

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  11. Desde tempos remotos a política serve apenas como trampolim para proveitos pessoais. Assisti a esse filme há muito tempo e, realmente, nada muda em nossos dias. O político, as pessoas de menor poder aquisitivo e cultural e um ciclo que conduz apenas aos interesses de ambos. É o famoso "toma lá, dá cá"! Como eu gostaria de ainda ver um país administrado por pessoas de caráter e honestas! Difícil, né?

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  12. É Verdade, minha amiga. Pelo menos, nos Estados Unidos existe punição de verdade para casos de corrupção, e aqui??? tudo acaba classicamente em pizza. Mas a culpa pior é do povo, que ainda assim elege os "Willies Starks" mesmo em vista de todo escândalo. É Difícil.

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  13. A politica é como um cancer; incurável, inalterável, corroente. Quem se infiltra neste sistema, neste ramo, jamais consegue levar à frente seus ideais liberais. Por forças circunstanciais os conceitos de modificações se alteram e a aderencia à corrupção é mais que um passo certo.
    O poder é uma força incombativel. É como dizia o prisioneiro Coffe de À Espera de um Milagre; tudo foi sempre assim, vai ser tudo sempre assim. Isso acontece sempre, todos os dias.
    A Grande Ilusão é uma fita que será sempre atual. Atual porque politica nunca muda.
    Tem o filme todos os méritos para os louvoures, assim como seus astros fizeram seus papéis muito acima da média de qualquer outra fita dentro do gênero.
    Para o tema, não tem O Ultimo Hurrah, nem A Mulher Faz o Homem ou mesmo Cidadão Kane (que nunca chegará aos pés de A Grande Ilusão e nem é o melhor filme já feito).
    Rossen fez um trabalho para a eternidade.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  14. Saudações Jurandir. Vc especificou muito bem a situação, e justificou porque uma obra como A GRANDE ILUSÃO nunca vai envelhecer. Forte abraço e uma excelente semana.

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  15. EXCELENTE TRABALHO, NOBRE AMIGO...
    QUALQUER SEMELHANÇA COM A NOSSA POLÍTICA E MERA COINCIDÊNCIA!!!!!!!
    QUEM TAMBÉM ESTÁ MUITO BEM É JOHN IRELAND, QUE REPUTO O SEU MELHOR PAPEL. O RESTANTE VOCÊ JÁ DISSE TUDO.
    IN FINE, EU DIRIA, SERÁ QUE NÃO TINHAM UM OUTRO TÍTULO, JÁ QUE TEM UM OUTRO FILME FAMOSO FRANCÊS COM O MESMO TÍTULO?

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    1. É Verdade!!! falta de criatividade nos títulos major

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