domingo, 4 de julho de 2010

Paulo Perdigão: Tributo a um Crítico de Cinema Brasileiro


Este artigo é para prestar um tributo a um talentoso e incrível profissional do jornalismo, falecido em dezembro de 2006, e tristemente esquecido (O BRASIL é um país sem Memória, tenho dito) a não ser por seus amigos e admiradores de seus artigos, e que foi crítico de cinema do Jornal O Globo, onde realizava uma série de sinopses em sua seção FILMES DE HOJE NA TV, destinado a exibição de filmes que seriam apresentados no dia nas TVs brasileiras, além dele mesmo ter sido por mais de 20 anos programador dos filmes da Rede Globo. Seu nome:. PAULO PERDIGÃO. Nascido em 1939, ele não foi apenas crítico de cinema e cinéfilo. Talvez para quem tenha a lembrança dele como eu tenho de apenas um elaborador de sinopses para filmes e crítico, engana-se que ele foi apenas isso. Perdigão também foi filósofo, escritor, jornalista.

Como Filósofo, era admirador de Jean-Paul Sartre. Como cinéfilo, era admirador do filme "Shane", que no Brasil, segundo ele, recebeu o ingrato título de "Os Brutos Também Amam” (título que Perdigão abominava), dirigido por George Stevens (1904-1975) em 1952, e estrelado pelo baixinho atlético Alan Ladd (1913-1964), como o pistoleiro que sai em busca de sua regeneração através da amizade de um menino, o pequeno Joey, interpretado por Brandon De Wilde (1942-1972).



Contudo, Shane (o personagem de Ladd) terá que voltar a empunhar as pistolas para defender os pais do menino que o idolatra e que estão sendo ameaçados por um latifundiário e seu pistoleiro contratado, interpretado por Jack Palance. Daí o leitor que estiver a ler se perguntará: O que isto tem a ver com Perdigão?
Simples!


Além de fã ardoroso deste clássico do cinema mundial, que segundo uma entrevista concedida por ele no programa Globo Repórter, em 1989, pela Rede Globo de Televisão, onde admitiu ter visto 82 vezes a película de Stevens e contado Perdigão assistiu esta obra da Sétima Arte pela primeira vez em 8 de abril de 1957, no auditório do MEC do Rio de Janeiro, em sessão promovida pelo extinto CCC (Centro de Cultura Cinematográfica), e conforme sempre declarou ao longo de sua vida, foi paixão à primeira vista, e desde então nunca cansou de reexaminá-lo, à luz dos novos conhecimentos, nele sempre descobrindo categorias e dimensões ainda por explorar, uma riqueza inexaurível e renovável com o próprio saber que pode ser investido em seu entendimento.

NÃO SOMENTE SHANE era seu filme "a menina dos olhos". Aqui vai uma lista de 20 filmes (além do já tão mencionado) que o saudoso crítico e jornalista mais admirava e os aplaudia de pé:
01) OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (Shane, 1953), de George Stevens. Já muito se falou sobre a paixão de Paulo Perdigão sobre este western clássico de Stevens. O crítico tinha uma admiração profunda e não cansava de revê-lo até que conseguiu, indo aos Estados Unidos, fazer uma entrevista com o seu diretor, que foi publicada pela revista Filme/Cultura.

02) PUNHOS DE CAMPEÃO (The set up, 1949), de Robert Wise. Wise foi um diretor renovador nos anos 40 e 50, principalmente por este filme, escolhido em segundo lugar por Perdigão, e Quero viver (I want live, 1959), o melhor filme sobre a pena de morte com interpretação inexcedível de Susan Hayward. Punhos de campeão é, talvez, a obra mais brilhante que tem o boxe como tema, e estrelado pelo talentoso Robert Ryan (1909-1973), que além de estar convincente no ringue (fôra campeão de boxe amador em sua juventude) dá um show de interpretação na pele de um lutador decadente.

03) BRINQUEDO PROIBIDO (Jeux interdits, 1952), de René Clement. Na época fez muito sucesso entre a crítica, mas, passados mais de 50 anos, o filme não mantém a mesma magia de antanho. Clement sempre foi um bom cineasta, apesar de criticado e difamado pelo pessoal do Cahiers du Cinema.


04) UM LUGAR AO SOL (A place in the sun, 1951), de George Stevens. Como se pode observar, Perdigão gostava mesmo de Stevens. Neste filme, o autor de Shane faz uma adaptação de Uma tragédia americana, de Theodore Dreiser (que Eisenstein quisera filmar em 1930). Rapaz mata namorada pobre para poder casar com moça milionária (Montgomery Clift, Shelley Winters, Elizabeth Taylor).


05) ROCCO E SEUS IRMÃOS (Rocco i suoi fratelli, 1960), de Luchino Visconti. A tragédia viscontiana sobre uma família de imigrantes que chega a Milão vinda do interior do sul da Itália. Afresco magnífico, obra singular, que, na sua época, traumatizou toda uma geração e, ainda hoje, causa impacto e estupefação. É, sem dúvida, um dos monumentos da sétima arte.


06) LADRÕES DE BICICLETA (Ladri di biciclette, 1948), de Vittorio De Sica. Obra-prima do neo-realismo italiano, filme emblemático do período, mostra a angústia de um operário que, conseguindo um emprego de colador de cartazes, tem sua bicicleta, seu instrumento de trabalho, roubada. Todo o filme é a sua busca por ela. Pleno de humanismo, sensível e poético.


07) RASTROS DE ÓDIO (The searchers, 1956), de John Ford. O melhor western do cinema? De qualquer maneira, um dos pontos altos da expressão cinematográfica em toda a sua história. Perdigão, muito antes deste filme virar referência na contemporaneidade, já em 1967, ano que fez a lista, já incluiu The searches como uma obra que deve figurar entre as maiores de todos os tempos, e as notáveis interpretações de John Wayne, Jeffrey Hunter, e Natalie Wood.


08) MATAR OU MORRER (High noon, 1952), de Fred Zinnemann. Paráfrase do macarthismo, que, na época do lançamento, estava inclemente nos Estados Unidos, a perseguir os intelectuais e a comunidade cinematográfica com a paranóia anticomunista, este filme virou um clássico, apesar de Zinnemann, austríaco, não ter uma expertise no gênero. O tempo real se conjuga com o tempo dramático, assim como em The set up. Oscar de melhor ator (o segundo) para Gary Cooper (1901-1961).


09) O TESOURO DE SIERRA MADRE (The treasure of Sierra Madre, 1947), de John Huston. Uma aventura e seus aventureiros. Huston, realizador notável pela capacidade de diversificação temática, ainda que não um autor, fez, deste, um espetáculo que marcou época pela destreza de seus personagens (entre eles, Humphrey Bogart) e a concepção da aventura humana e seus dissabores


10) MORANGOS SILVESTRES (Smultronstallet, 1957), de Ingmar Bergman. Um velho professor sai de sua cidade para ir a capital receber o título de Professor Honoris Causa da universidade. Durante a viagem, de carro, pela estrada, faz uma reflexão sobre a sua vida, percebendo o quanto fora egoísta e cruel. Bergman mistura, com singular engenho e arte, o passado e o presente dentro de um mesmo plano.


11) MONSIEUR VERDOUX (idem, 1957), de Charles Chaplin. De uma idéia de Orson Welles, diz o letreiro inicial dessa obra atípica de um gênio do cinema. Mas, na verdade, Verdoux, não seria o avesso do vagabundo? Humor negro e um peculiar sentido de observação da condição humana com momentos antológicos que o faz um dos filmes mais sublimes do autor de Luzes da cidade. Perdigão tinha razão em nomeá-lo e elegê-lo.


12) A TRAPAÇA (Il bidone, 1955), de Federico Fellini. Se instado a fazer uma relação dos meus melhores, eu, André Setaro, colocaria, talvez mesmo em primeiro ou segundo lugar Oito e meio, de Fellini. Mas A trapaça faz parte da primeira fase do artista antes da explosão que foi La dolce vita. Nem por isso, no entanto, menos importante ou menos admirável.


13) DO MUNDO NADA SE LEVA (You can't take it with you, 1938), de Frank Capra. Alguns talvez preferissem A felicidade não se compra como o melhor Capra. Mas o escolhido pelo crítico também representa a quintessência desse notável realizador que assinalou, com suas temáticas e seu estilo, um momento de grande expressão do cinema americano clássico


14) VIDAS AMARGAS (East of Eden, 1955), de Elia Kazan. O melhor trabalho de James Dean no cinema numa primorosa adaptação de Kazan de uma parte do livro de Steinbeck. Com ressonâncias bíblicas, o filme tem uma estimulante mise-en-scène que faz transcender a mera fabulação para emergir, nela, um sentido poético bem condizente com a visão de cinema do autor.


15) O GRITO (Il grido, 1957), de Michelangelo Antonioni. Quando elaborou a relação, Blow up ainda não havia sido lançado no Brasil. Mas, questão subjetiva, elegeria ao invés de Il grido, A aventura, primeira opus de uma trilogia constituída de A noite e O eclipse. Mas o fato é que o escolhido pelo crítico é, também, um filme admirável e menos estilizado. Talvez, por isso, a opção, como sucedeu com Il bidone, de Fellini.


16) VIVER (Ikiru, 1953), de Akira Kurosawa. Um dos mais belos filmes do autor japonês. Um funcionário público, ao tomar conhecimento que tem câncer terminal, decide provocar a burocracia de sua repartição para que saia do papel o projeto de um parque de diversões para crianças. Belo e poético. Poético e belo. O final, com o velho, cansado e morrendo, vendo a realização de seu sonho, no balanço do parque, é ponto alto do cinema.


17) O SOL POR TESTEMUNHA (Plein soleil, 1960), de René Clement. Numa relação de apenas 20 filmes, o nome de Clement é citado por dois filmes: este e Jeux interdits. Perdigão, portanto, ao contrário de François Truffaut, que o detestava, admirava muito Clement, cineasta francês que se dizia da ancien vague. Plein solein é baseado em livro de Patricia Highsmith.


18) EM BUSCA DE UM HOMEM (Will success spoil Rock Hunter?, 1957), de Frank Tashlin. Realmente, uma comédia genial mas pouco conhecida. Tashlin revela os mecanismos de ascenção numa empresa capitalista, o que faz pensar em filme que influencia Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder, três anos depois.


19) DESENCANTO (Brief encounter, 1948), de David Lean. Obra intimista de rara sensibilidade no tratamento temático, que já revela em Lean um realizador promissor e acima da média, ele que, nas décadas de 50 e 60, viria a se transformar num dos mais perfeitos narradores do cinema em filmes como Lawrence da Arábia, A ponte do rio Kawai, Passagem para a Índia, entre muitos outros.


20) RIO VERMELHO (Red river, 1948), de Howard Hawks. Para o admirador de Shane, outro western que se tornaria um clássico exemplar e que, com o passar dos anos, daria origem a uma trilogia constituída de Rio Bravo (Onde começa o inferno, 1959), Rio Lobo (1976), ou, Eldorado (que é filmagem disfarçada de Rio Bravo). De qualquer maneira, entre os melhores do crítico, três são westerns, o cinema americano por excelência.



Paulo Perdigão também entrevistou o lendário diretor de Shane (por duas vezes: uma em 25 e 27 de julho de 1969, cuja entrevista foi publicada na revista filme cultura, do extinto Instituto Nacional do Cinema, nº 14, abril-maio de 1970; Perdigão voltou a encontrar o cineasta em agosto de 1973), que também dirigiu entre inúmeros clássicos Giant(Assim Caminha a Humanidade, 1956) e Gunga Din (1939), GEORGE STEVENS(Na foto, Perdigão com Stevens, em Marina Del Rey, Los Angeles, em 1973).

Toda sua trajetória referente à sua admiração pelo filme de Stevens ele escreveu no seu livro "Western Clássico- Gênese e estrutura de "SHANE" "- 1985, L&PM.



Além de George Stevens, Perdigão também admirava diretores como John Ford e Alfred Hitchcock. Quanto a relação de atores, Paulo nunca ligou para astros e estrelas, pois segundo ele era mais fácil pensar somente nos filmes e no autor da obra, além é claro da trilha sonora, mas admirava os trabalhos dos atores Gary Cooper e Steve McQueen, e das atrizes, Marilyn Monroe. Dizia sempre gostar das starlets do cinema dos filmes.



Quando menino, Perdigão era fascinado por histórias em quadrinhos, desses que não estudava e escondia seus desenhos para a profesora não ver, mas desde a mais tenra idade já demonstrava bom gosto, cultuando as trilhas sonoras do cinema. Tempos depois, um amigo o convidou a uma amostra do diretor Billy Wilder (1906-2002), onde deixou se seduzir de vez pelas telas grande.


COMO JORNALISTA E CRÍTICO DE CINEMA, Perdigão diariamente escrevia para o Jornal O GLOBO, onde fazia as sinopses de todos os filmes que iriam a passar na TV no dia, e conhecia cinema como ninguém. Era mais do que acadêmico, era detalhista, e isto era cativante em seus artigos. Aos domingos, no mesmo jornal, no CADERNO DE TV, escreveu a coluna FILMES DA SEMANA, onde fazia uma apresentação geral de muitas das películas que viriam a estrear na TV no decorrer da semana. Uma coluna totalmente dedicada e de página inteira. Isto, na década de 1980.



Muitas de suas sinopses fiz questão de guardá-las e editá-las em um livro pessoal, como referência mesmo para consulta, uma vez que como cinéfilo que também sou, possuo um acervo pessoal de filmes antigos. Em matéria de comentários e sinopses, ninguém até hoje superou Paulo Perdigão, e duvido que alguém o supere.



O PERDIGÃO FILÓSOFO, escreveu "Existência e liberdade — uma introdução à ficonhecedor e admirador deste grande pensador.
Se foi um grande intelectual de nosso tempo, um brasileiro admirador da arte e dos bons filmes, que com seu estilo inigualável proporcionou excelentes comentários. É somente triste como este país sofre de amnésia. Mas existem os seus admiradores, que de certo, o manterão vivo em suas memórias.



Produção e pesquisa de Paulo Telles

BIBLIOGRAFIA: Western Clássico- Gênese e Estrutura de "SHANE"- Ed L&PM- 1985.

JORNAL O GLOBO- SEGUNDO CADERNO- Entrevista Paulo Perdigão- Seduzido pela Tela: "Paulo Perdigão é o cinéfilo que programa os filmes da Rede Globo". 1987

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