domingo, 17 de dezembro de 2017

Sansão e Dalila (1949): A Magia em Cores e a Tradição do Espetáculo Épico Bíblico por Cecil B. DeMille.


Cineasta visionário considerado um exemplo de profissionalismo e perfeccionismo, Cecil B DeMille (1881-1959) foi não somente um dos pioneiros do cinema americano, mas um dos primeiros profissionais a promover a Sétima Arte como forma de entretenimento, através de grandes espetáculos cinematográficos de cunho religioso, onde muitas vezes, também poderia haver uma leve pitada de erotismo profano, mas sem ultrapassar os limites. DeMille tinha ciência dos escândalos hollywoodianos, e como se não bastasse, ele próprio não admitia este tipo de comportamento com seus atores e membros de equipe. Isto tudo fez com que o cineasta filmasse dramas religiosos e admitir que gostasse de fazê-los: “A Bíblia sempre foi um Best-Seller ao longo dos séculos. – dizia o cineasta – “Por que iria eu desperdiçar dois mil anos de publicidade gratuita?”- DeMille não estava blefando quando escreveu isso em suas memórias.

O Jovem Cecil B. DeMille.
O REI DOS REIS, de Cecil B. DeMille, 1926.
Mas ao mesmo tempo em que o próprio cineasta gostasse de filmar histórias da Bíblia e que exigisse que seus atores se comportassem condizentes com seus papéis, podemos dizer que DeMille descobriu como a fé, além de remover montanhas, também pôde produzir o milagre da multiplicação de renda nas bilheterias. Quando realizou O Rei dos Reis (The King Of Kings), em 1927, DeMille impôs nos sets de filmagem um clima de retiro religioso, obrigando toda equipe a assistir as missas celebradas todas as manhãs, e num requinte de veneração, fez questão de filmar a crucificação de Cristo em plena noite de natal. O efeito, na época, chegou a comover, e The King Of Kings é até hoje um dos mais importantes trabalhos da iconografia cristã.

O diretor Cecil B. DeMille (1881-1959)
O cineasta DeMille, supervisionando Victor Mature e Olive Deering, nas filmagens de SANSÃO E DALILA (1949)
DeMille sobreviveu com a transição do cinema mudo para o cinema sonoro, e com grande êxito. Mas esperou dezessete anos (desde O Sinal da Cruz/The Sign Of The Cross, 1932) para produzir mais um superespetáculo épico-religioso, agora com toda a tecnologia a sua disposição do jeito que queria, abusando dos efeitos especiais e da fotografia em cores. SANSÃO E DALILA (Samson and Delilah, 1949) foi o antepenúltimo filme do diretor a seguir a tradição demilleana do superespetáculo bíblico (três milhões de dólares em orçamento, 600 extras), e juntamente com Quo Vadis (de Mervyn LeRoy, 1951), da Metro, e Davi e Betsabá (David and Bathsheba, de Henry King, 1951) da Fox, trouxe o gênero épico de volta a Hollywood no pós-Guerra.

DeMille supervisionando a cena em que Sansão (Victor Mature) combate sozinho os filisteus
No final dos anos de 1940, DeMille queria filmar algo que dizia ser “uma das maiores histórias de amor da História e da Literatura, que é também um comovente drama de fé: a história de Sansão e Dalila”. Parece que outros executivos demonstraram ceticismo quanto à geração pós-guerra, supostamente mais sofisticada, em querer ver um filme bíblico. Então, o cineasta mandou um desenhista da equipe fazer o croqui de um cartaz com um “atleta alto e robusto e uma jovem esguia, atraente e encantadora olhando para ele com ar ao mesmo tempo sedutor e friamente calculista”.

Victor Mature é Sansão, juiz dos hebreus, conhecido por sua extraordinária força física. Entretanto...
...não resiste aos encantos de uma bela filisteia chamada Dalila (Hedy Lamarr).
Numa reunião com executivos da Paramount, segundo contou em suas memórias, DeMille mostrou o desenho e disse: “Senhores, isto é Sansão e Dalila”. Todos ficaram impressionados. O diretor contratou como o protagonista Victor Mature (1913-1999). Foi o último nome que o cineasta cogitou para interpretar Sansão, pois queria o mais talentoso e atlético Burt Lancaster, mas este recusou o papel. Em seguida, DeMille pensou em Steve Reeves, que acabara ganhando recentemente o concurso de Mr. América, mas a Paramount o achou jovem demais e sem experiência alguma de atuação. Para viver Dalila, o diretor chegou a pensar em Lana Turner, mas a parte coube como uma luva para a austríaca Hedy Lamarr (1914-2000), sendo, provavelmente, o papel mais famoso da atriz no cinema.


Hedy Lamarr como a sensual e traiçoeira Dalila. O papel mais popular da erudita atriz austríaca.
Nas bilheterias, a Paramount, através de SANSÃO E DALILA, arrecadou onze milhões e meio de dólares – uma fortuna para a época. E na distribuição dos prêmios da Academia de Hollywood, em 1950, o filme conquistou os Oscars de melhor cenografia em cores e melhor vestuário em cores (Edith Head, 1897-1981). Ao lado de O Maior Espetáculo da Terra (1952) e Os Dez Mandamentos (1956), SANSÃO E DALILA despontou como um dos trabalhos mais populares da fase sonora da extensa carreira de Cecil B. DeMille, que realizou entre 1913 e 1956 setenta filmes. Embora com toda a popularidade e angariação de prêmios conquistados pela Academia, não havia quem fizesse críticas ao filme por seu exagero no Technicolor ou mesmo pela atuação muitas vezes caricata de Victor Mature como o herói. Após seu lançamento oficial em 1949 (no Brasil, o filme chegou em 1951), SANSÃO E DALILA teve relançamentos e reprises pelo mundo nas grandes salas de cinema, e também pela televisão, como um dos cardápios principais da Semana Santa ou Natal. Justamente pelas reprises ao longo dos últimos cinquenta anos, que críticos divergem entre si quanta as qualidades de sua produção. DeMille era de extremo perfeccionismo, e isso pode ter atrapalhado (ou não) na confecção de sua obra ao ultrapassar os limites do espetáculo. Seria isso verdade?

Sansão se enamora de Semandar (Angela Lansbury), irmã de Dalila.
Dalila se apaixona pelo herói hebreu, e uma oferta de paz é oferecida pelo Saran de Gaza (George Sanders), rei dos filisteus.
Rejeitada por Sansão, Dalila (Hedy Lamarr) une-se ao Saran de Gaza (George Sanders) para capturar o líder hebreu.
Em 1949, o processo em cores era ainda algo muito inovador para as plateias. Filmes coloridos já existiam desde os primórdios da Sétima Arte (ainda pintadas à mão), e obras clássicas como E O Vento Levou (1939) e As Aventuras de Robin Hood (1938) de Michael Curtiz receberam tratamento em Technicolor. Assim como em Sansão e Dalila, se vistas hoje por um espectador moderno mais exigente, este muito provavelmente não vai entender as razões que levaram um cineasta que fez seu nome na cultura cinematográfica realizar uma obra que beira, segundo alguns críticos maldosos, a um desfile carnavalesco, indo atingir a meta do ridículo. No entanto, tais críticas são injustas. O cineasta tinha seu estilo e foi um dos muito poucos diretores que sabia dirigir cenas de multidão, que se preocupava desde elaboração do script, dos figurinos, e da fotografia. DeMille introduziu um espetáculo de proporções realmente monumentais ao exagerar nas cores, mas isto não quer dizer que caísse no estrambólico, pois sua produção Sansão e Dalila é a reminiscência de uma era de glamour para o cinema hollywoodiano, e não somente: é um registro indelével de um tempo quando o cinema não era apenas comercial ou espetacular, mas era a arte somada à diversão. Para DeMille, o espetáculo vinha em primeiro lugar, mas sua extensa e respeitosa filmografia é prova cabal que o cineasta soube introduzir juntos a magia, o espetáculo, e o artístico ao mesmo tempo.


Angela Lansbury como Semandar
O jovem Russ Tamblyn, aos quinze anos, como Saul.
George Reeves, o futuro "Super-Homem" da TV, numa ponta como um mensageiro ferido.
Baseado em conhecido episódio bíblico do Velho Testamento (Juízes 14:6; 15:14; 16:23), o cineasta trata com sua habitual espetaculosidade e uma ligeireza de aventura de histórias em quadrinhos, o relato com 128 minutos de projeção, abrigando a saga do famoso juiz dos hebreus Sansão (Victor Mature), conhecido por sua força descomunal, cujo segredo estava no cumprimento de seus cabelos. Ao mesmo tempo em que serve a Deus para defender seu povo dos inimigos filisteus, ele acaba se apaixonando por uma jovem filisteia, Dalila (Hedy Lamarr). Mas Dalila acaba traindo Sansão. O resto da trama, a humanidade inteira conhece ou ouve falar. O que poucos sabem é que diversas sequencias de SANSÃO E DALILA hoje constam das antologias do cinema épico - como a luta do herói contra um leão (aqui, Victor Mature foi substituído por um dublê, Mel Koontz, 1910-1992), o embate de Sansão contra os filisteus (Mature novamente substituído por um dublê, Ed Hinton, 1919-1958), e a destruição do templo do deus filisteu Dragon, controlado seguramente por um esquadrão de dinamites e outros efeitos especiais.


Dalila desarma o herói, descobrindo o segredo de sua força.
A fúria de Sansão
Arrependida, Dalila visita Sansão no calabouço.
SANSÃO E DALILA tem grandes nomes no elenco, como George Sanders (1906-1972) como o Saran de Gaza, líder dos filisteus que em certas ocasiões é capaz de demonstrar humanidade para com o inimigo Sansão; Henry Wilcoxon (1905-1984), ator da trupe demilliana, no papel do Príncipe Ahtur; Angela Lansbury, a Dama do Cinema e uma lenda viva da Sétima Arte, como Semadar; Russ Tamblyn, outro sobrevivente da obra, aos 15 anos como o menino Saul (creditado como Russell Tamblyn); e ainda Fay Holden (1894-1973), William Farnum (1876-1953), Moroni Olsen (1889-1954), Olive Deering (1918-1986), Julia Faye (1892-1966), Mike Marzurki  (1907-1990), Tom Tyler (1903-1954), e George Reeves (1914-1959), o futuro Super-Homem da TV, como um mensageiro filisteu ferido.

Dalila leva Sansão até o templo de Dragon, sustentado por colunas.
O último ato do herói dos hebreus.
Victor Young, o compositor do clássico SANSÃO E DALILA (1949).
A Lux Radio Theatre, popular programa de rádio nos Estados Unidos dirigido e apresentado por Cecil B. DeMille, onde transmitiam em versão radiofônica adaptações de grandes clássicos do cinema, transmitiu também uma adaptação de 60 minutos de Sansão e Dalila, numa segunda-feira, dia 19 de novembro de 1951, com Hedy Lamarr e Victor Mature reprisando seus papéis como haviam feito nas telas. O Imortal Soundtrack de Victor Young (1899-1956) de fundo exuberante é considerado uma das mais marcantes trilhas musicais para o cinema épico, em seu hino à Canção de Dalila.








Divulgação do filme nos jornais cariocas nas décadas de 1950 e 60.

O cineasta Billy Wilder (1906-2002) também incumbiu-se de homenagear e eternizar SANSÃO E DALILA e seu próprio diretor DeMille no clássico Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd, 1950), em que Gloria Swanson (Norma Desmond) é vista visitando o set do filme e dialogando com Cecil. Nos Estados Unidos, Sansão e Dalila foi lançado na semana de Natal, em 21 de dezembro de 1949. No Brasil, chegou as grandes salas em 1951. Em 1984, a obra de DeMille teria um remake feito para a TV, dirigido por Lee Philips (1927-1999), com Anthony Hamilton (1952-1995) como Sansão, Belinda Bauer como Dalila, Max Von Sydow como o Saran, Maria Schell (1925-2005) como Deborah - a mãe de Sansão, e Victor Mature (o Sansão do eterno clássico) como Manoah, o pai do herói. 


Ficha tecnicA


SANSAO E DALILA
(Samson and Delilah)

País – Estados Unidos
Ano: 1949
Gênero: Épico Bíblico
Direção: Cecil B. DeMille
Produção: Cecil B DeMille, para a Paramount Pictures.
Roteiro: Fredric M. Frank, Jesse Lasky Jr.
Música: Victor Young.
Fotografia: George Barnes, Dewey Wrigley, em Cores.
Figurino: Edith Head, Gile Steele, Dorothy Jeakins, e Eloise Jensson.
Metragem: 128 minutos. 


ELENCO
Victor Mature - Sansão
Hedy Lamarr  - Dalila
George Sanders - Saran de Gaza
Angela Lansbury - Semadar, irmã de Dalila
Henry Wilcoxon - Príncipe Ahtur
Olive Deering - Miriam
Fay Holden - Hazel
Russ Tamblyn     - Saul
Julia Faye - Hisham
William Farnum - Tubal
Lane Chandler – Teresh
George Reeves – Mensageiro filisteu ferido
Moroni Olsen - Targil
William Davis - Garmiskar
Victor Varconi     - Senhor de Ashdod
John Parrish - Senhor de Gath
Fritz Leiber - Senhor Sharif
Frank Wilcox - Senhor de Ekron
Russell Hicks - Senhor de Ashkelon
Boyd Davis - Sacerdote de Dagon
Mike Mazurki - Líder dos soldados filisteus
Pedro de Cordoba - Bar Simon
Crauford Kent     - Astrólogo da Corte
Cecil B. DeMille  - Narrador

Paulo Telles
Produção e Pesquisa

domingo, 26 de novembro de 2017

Meu Ódio Será Sua Herança (1969): A Obra de Sam Peckinpah Que Revitalizou o Western Americano.




MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (The Wild Bunch), produzido em 1969 e dirigido por Sam Peckinpah (1925-1984) é considerado um divisor de águas no cinema, em especial para o Western, visto que o gênero genuinamente americano precisou evoluir por conta do sucesso dos faroestes europeus que eram a popularidade da época. Com argumento do próprio cineasta, The Wild Bunch marcou por estilizar a violência (coreografada ritualisticamente em câmera lenta), desglamurizando “mocinhos”, e por mostrar um Velho Oeste verdadeiramente sujo e cruel, com personagens anacrônicos e decadentes, corrompendo todas as legendas românticas apresentadas desde então pelos cineastas John Ford e Howard Hawks. Entretanto, seu lançamento provocou polêmicas, pois o produtor Phil Feldman (1922-1991) cortou a revelia do cineasta 16 minutos da metragem original, provocando protestos de Peckinpah e da crítica. As versões lançadas no mercado de Vídeo Home System (VHS) nos Estados Unidos na década de 1980 tinham 145 minutos de projeção (a mesma lançada, atualmente, em DVD e Blu-Ray pela Warner), enquanto as que foram lançadas exclusivamente para a televisão tinham apenas 134 minutos. 


O cineasta Sam Peckinpah.
O faroeste americano começou a declinar nos Estados Unidos no começo da década de 1960, sendo superados pelos faroestes italianos dirigidos por Sergio Corbucci (Django, 1966) e Sergio Leone, que realizou uma trilogia inesgotável (Por um Punhado de Dólares, 1964; Por Uns Dólares a Mais, 1965; Três Homens em Conflito, 1966). Diretores e produtores em Hollywood precisaram se reinventar se não quisessem ver o gênero cinematográfico americano por excelência perder concorrência. E eis que surge o ousado Sam Peckinpah para salvar e dar sobrevida ao gênero, que em realidade, nunca foi extinto, mas ficou adormecido por alguns anos entre os finais da década de 1970 até a primeira metade da década seguinte. Sam trazia em seu sangue uma mistura de irlandeses e índios paiute. Nasceu e cresceu numa fazenda no Norte da Califórnia aos pés de um monte que leva o nome de seus antepassados pioneiros. Era herdeiro de uma longa linhagem de criadores de gado, advogados e aventureiros, mas acabou se tornando a Ovelha Negra da família, pois não demorou e o jovem Peckinpah se rebelou contra o estilo de corte marcial que o pai implantou em casa. Foi para a Escola Militar, tornou-se fuzileiro naval, e serviu durante alguns anos na China.


Sam Peckinpah analisando o panorama para uma das cenas de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969).
Justamente por possuir uma personalidade estourada e agressiva que Peckinpah foi despedido pela produção da Columbia Pictures depois do mal sucedido Juramento de Vingança (Major Dundee, 1965), seu trabalho anterior. Ficou três anos desempregado, até que em 1967, recebeu o projeto de um western que a Warner Brothers estava desenvolvendo, sobre a história de dois amigos bandoleiros que se traem na fronteira do Texas com o México na virada do século XX. Peckinpah se interessou pelo pré-argumento e achou que poderia transforma-lo numa saga de violentas proporções. O cineasta não queria realizar um Western de cowboys durões recheada de velhos clichês, mas levar a trama a um teor psicológico e denso através de seus principais personagens, que almejam realizar a última missão em suas vidas: assaltar um importante banco de uma cidade, e com todo dinheiro reunido, cada um partiria para seu caminho. O roteiro para The Wild Bunch mudou a vida de Sam Peckinpah e revitalizou para sempre o Western americano, que com seu apelo para a violência, reinventou o gênero. 


Peckinpah posando ao lado de seu astro William Holden, Ernest Borgnine, um ator mexicano, e Ben Johnson (atrás).

As filmagens de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA foram feitas integralmente no México, nas cidades de Torréan, El Rincon de Montero, e El Romeral. Em março de 1968, a equipe de filmagem chegou a Parras para iniciar os primeiros trabalhos. Parras foi escolhida a dedo por Peckinpah por ser um local de vários combates e batalhas durante a Revolução Mexicana, período em que enreda o filme. A produção foi orçada em U$S 3, 5 milhões de dólares, com cronograma para ser realizado em 70 dias. Um regimento de cavalaria foi contratado pela Warner, que pagou também a prefeitura da cidade para que atrasasse as instalações de energia elétrica no local por seis meses (na época, um lugar pequeno onde o poder econômico do local era a produção de vinhos, por ser uma área cercada de vinhedos).


O diretor vendo se esta tudo nos conformes para uma grande cena em MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969).
O elenco principal é impecável, fazendo jus ao espetáculo - William Holden (1918-1981), Ernest Borgnine (1917-2012), Robert Ryan (1909-1973), Ben Johnson (1918-1996), Warren Oates (1928-1982), e Edmond O’ Brien (1915-1985). Tudo começa na fronteira mexicana em 1913, quando Pike Bishop (Holden) e sua horda selvagem – Dutch Engstrom(Borgnine), Lyle Gorch (Oates), Tector Gorch (Johnson), e o jovem mexicano Angel (Jaime Sanchez), após assaltar a cidade de San Rafael, são perseguidos pelos caçadores de recompensa de Deke Thorton (Ryan), outrora amigo e parceiro de Pike. A horda foge para o México, onde outro comparsa, o velho Sykes (O'Brien), os espera com cavalos e suprimentos, mas logo descobrem que foram logrados, pois os sacos que haviam roubado do banco continham apenas arruelas sem valor. O fracasso em San Rafael faz logo o grupo refletir se não estariam decadentes e ultrapassados. 


A quadrilha selvagem de Pike Bishop (William Holden), perseguida pelos...

...caçadores de recompensas liderados por Deke Thorton (Robert Ryan), outrora seu amigo e ex-companheiro de crimes.

Pike e seus homens vão para Água Verde, a vila de Angel, onde ficam alguns dias. Pike fica sabendo que a vila fora saqueada pelo General Mapache (Emilio Fernandez, 1904-1986), um bandido protegido pelo governo de Victoriano Huerta e que o pai de Angel fora morto. A horda de Bishop então vai para o quartel-general de Mapache, para negociar seus cavalos. Angel vê Teresa (Sonia Amelio), sua ex-namorada, com o general mexicano e atira nela. Ela cai nos braços de Mapache que, bêbado, não se importa e apenas ri de Angel. Pike e Dutch negociam um roubo de armas do exército com o líder mexicano e seu conselheiro militar alemão, mas deixam que Angel leve uma parte da munição para os rebeldes. Mapache fica sabendo do roubo e o captura e tortura. Pike e seus homens resolvem enfrentar Mapache e resgatar Angel e com isso selam seu destino.
 


William Holden é Pike Bishop, o líder da horda de veteranos e decadentes bandoleiros. 
Ernest Borgnine como Dutch, o braço direito de Pike.

Robert Ryan como o ressentido Deke Thorton. De bandido a caçador de recompensas.
Considerações importantes devem ser destacadas. Para Sam Peckinpah, a selvageria era a defesa da vida e da vitalidade. Ele definia os personagens não como um grupo de meros ladrões e assassinos, mas um grupo que também sabia exercer seu lado humano. No começo da trama, são cruéis com suas vítimas, mas ao mesmo tempo são humanos uns com os outros. É o caso da sequencia de Pike (William Holden) intervendo em ajudar o velho Sykes (Edmond O’ Brien), prestes a ser agredido por Tector (Ben Johnson), que não tolera o ancião. Pike dá uma lição a todos sobre companheirismo e tolerância: “Se você não pode estar com um amigo, você é pior que um animal. Esta acabado. Todos estão acabados!”. O realismo desta e outras cenas imortalizaram definitivamente a obra, como é o caso do divertido banho de Ben Johnson e Warren Oates com três prostitutas dentro de um gigantesco barril. Peckinpah ousou dar conhaques pela manhã para Johnson e Oates cerca de quatro ou cinco horas antes de filmar a sequencia, que foi realizada pela tarde. É percebível notar os dois atores ligeiramente embriagados, mas conscientes em suas interpretações. 


Ben Johnson e Warren Oates são os irmãos Tector e Lyle Gorch.
Jaime Sanchez é Angel, o membro mais novo da quadrilha de Pike. 
Emilio Fernandez como o cínico e cruento General Mapache.
Peckinpah era um diretor imprevisível. De temperamento agitado, ansioso, e às vezes até violento, ele recorreu ao álcool e a cocaína como meio de fuga depois de 1965. Poderia falar bem ou mal de seus atores, mas quando falava mal, nem sempre era no cara a cara. Teria tido um desentendimento com Robert Ryan (que na época já estava doente) e pensou em chama-lo para brigar. Mas ao informarem o cineasta que o veterano astro (morto em 1973) havia sido pugilista e campeão de boxe amador na faculdade, Peckinpah teria se esquivado e passado a tratar melhor o ator. Vale lembrar que Ryan é notório justamente por seu desempenho ligado ao esporte em Punhos de Campeão (The Set-Up, 1949), de Robert Wise, onde sem recursos de dublês utilizou suas experiências no ringue. 


Pike (Holden) intervém para ajudar o velho Sykes (Edmond O' Brien) das agressões de Tector (Ben Johnson).
Peckinpah, de costas e em sua cadeira de diretor, dirigindo Robert Ryan e Albert Dekker em uma das cenas.
Albert Dekker é Harrigan, o dono de uma firma de caçadores de recompensas. Foi o último trabalho do ator no cinema, que morreu em 1969.

MEU ÓDIO SÉRÁ SUA HERANÇA apresenta a virada do século XX. O velho Oeste já não era mais o mesmo e estava mudando de acordo com o avanço do progresso. Os cavalos davam lugar aos automóveis e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) se aproximava. A última cena rodada foi a explosão da ponte, onde todo o bando de Thorton (Robert Ryan) que perseguia Pike e seus homens foi jogado ao rio. A sequencia era altamente arriscada e não havia na época efeitos especiais por computação. As dinamites tiveram que ser explodidas de baixo das plataformas da ponte. Peckinpah estava preocupado que algo saísse errado e houvesse feridos, pois no dia havia ventos fortes e a correnteza do rio estava agitada. Havia botes salva-vidas para todos os cantos e os dublês prontos para ação. Mas ao fim, tudo saiu perfeito e a ponte foi explodida no domingo, 30 de junho de 1968, as 13h55m. Cinco dublês e cavalos foram resgatados com segurança.


Os homens de Thorton partem em busca de Pike e sua gangue.
O destino selado para Pike e seus homens...

...que revidam traição e morte com massacre.

A cena mais violenta, a Batalha do Pátio Ensanguentado, onde Pike e seus homens massacram o bando de Mapache e seu líder (e também são mortos), levou 12 dias para ser concluída. Quando questionado do porque dos bandidos serem os “heróis”, o diretor explicava sua fascinação pelos criminosos do Velho Oeste. Ele mesmo acreditava ser um deles. Em MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, para todos os pecados existe uma penitência, e para cada ato de traição, a redenção. A relação de Pike Bishop e Deke Thorton é sentida ao longo da obra, onde se nota que mesmo perseguindo o ex-companheiro, Thorton demonstra respeito por Bishop.


Angel (Jaime Sanchez) abre mão de sua parte no roubo de armamentos em troca de uma caixa de dinamites, para liquidar Mapache.
Os irmãos Gorch (Ben Johnson e Warren Oates), tomando banho em uma adega com três prostitutas de Mapache. 
Dutch (Borgnine) e Pike (Holden), fazendo planos para um possível assalto.
Quando tudo esta acabado para Pike e sua quadrilha, Thorton não demonstra interesse em voltar com seu bando de caçadores e receber sua recompensa. Fica um longo tempo sentado fora do pátio, acompanhando a saída dos sobreviventes do massacre. É assim que termina THE WILD BUNCH, num reencontro entre velhos amigos - Thorton e o velho Sikes. Tal como o final de O Tesouro de Sierra Madre (1949), o filme de Peckinpah por um momento nos remete a reminiscência do clássico de John Huston. Tudo termina numa transloucada risada entre Robert Ryan e Edmond O’ Brien, do mesmo efeito como ocorreu com Walter Huston e Tim Holt.  Definitivamente, a mensagem que fica que mesmo em tempos de derrotas, sangue e crueldade, é possível olhar para um novo horizonte e ter disposição para se investir em uma nova chance, uma nova cartada, ou numa nova etapa. É preciso ter ânimo diante dos fracassos e insucessos. As situações não são otimistas, mas nem por isso se pode permitir abalar pelo desânimo e pela derrota. Thorton e Sykes optaram em dar uma nova chance a eles, ao organizarem uma nova horda selvagem composta por velhos e veteranos, certamente tentando provar para o mundo que não são obsoletos e, muito menos, decadentes, em um giro estrondoso de mudanças sociais.


Dutch pronto para a ação.
O velho Sykes (O'Brien) e Pike (Holden), prontos para a aventura.

Tector (Ben Johnson) em apuros.
A Warner convocou uma comitiva de imprensa para o lançamento de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA nos Bahamas. Mais de 400 jornalistas tiveram presentes e assistiram a sua pré-estreia. Opiniões foram divididas. A extrema violência para os padrões da época redundou em protestos da crítica, que achou o filme niilista e depravado. Uma jornalista do conceituado Reader’s Digest perguntou a Sam Peckinpah por que fizeram um filme tão violento. O diretor e William Holden, ambos de ressaca e com óculos escuros, se entreolharam e inclinaram suas cabeças como se quisessem fugir da situação. Mas o crítico Roger Erbert (1942-2013), que estava entre os presentes, pronunciou-se em defesa de Peckinpah, declarando que THE WILD BUNCH era uma OBRA-PRIMA.  E não foi por acaso que com o reconhecimento e sucesso pelo trabalho que o cineasta foi consagrado por grande parte da crítica como o "Poeta da Violência". Até hoje, muitas de suas obras são sentidas pelos cinéfilos e demais críticos e espectadores. 

Vale reproduzir algumas críticas positivas de alguns jornais importantes na época de seu lançamento:


General Mapache (Emilio Fernandez), na realidade, um bandido rebelde protegido por um ditador.
Mapache sela o destino de Angel...
...como vingança, Pike e sua quadrilha resolvem massacrar os inimigos no pátio.
- “The Wild Bunch” é a mais complexa pesquisa de Peckinpah, sobre a metamorfose do homem em mito. Não Incidentalmente, é também uma violenta e poderosa proeza de criação do filme americano. Por diversas razões, o filme é igualmente o triunfo de Sam Peckinpah e é suficiente para confirmar que seu diretor, ao lado de Arthur Penn e Stanley Kubrick, pertence ao que há de melhor entre os cineastas americanos.
(Time)




A violência e a arte se misturam, na visão de Sam Peckinpah. 

- Acima de tudo, o filme é bem interpretado. Holden, Borgnine, Ryan, e os demais personificam o tipo dos heróis obsoletos das fronteiras, guiados por complexos tão automáticos quanto o gatilho de um rifle. Eles sabem que seus destinos já foram cumpridos. Só lhe resta servir de pastos aos animais. Seus revólveres, entretanto, continuam ativos.
(Evening Standard)


Pike e seus homens, todos mortos.
Toda sorte de depravações na "côrte" de Mapache.

Os caçadores de recompensa de Thorton, que como abutres, além de recolher os corpos, procuram ver se os cadáveres tem ouro nos dentes. 

- “The Wild Bunch” é um estudo da violência, do horror, da crueldade e da inutilidade, mas também da ESTRANHA BELEZA DA VIOLÊNCIA. Trata-se de um western que tem uma significação moderna, pelo menos é o que se espera. As pessoas podem ficar chocadas com o filme, porque ele toca deliberadamente qualquer coisa de instintiva que elas tem em seu próprio interior e que tem medo de olhar em frente: “o rosto fascinante da violência”. É assim que o próprio diretor da fita, Sam Peckinpah, explica “The Wild Bunch”.
(La Figaro)


O Grupo Selvagem de Pike Bishop.
A serenidade de Thorton, que não acompanha seus homens para receber a recompensa.

A violência e a mudança dos padrões do gênero no cinema americano fizeram com que MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA fosse um marco definitivo para consagração, considerado um dos grandes últimos clássicos do Western dos últimos quarenta anos. Em 1999, o U.S National Film Registrary o selecionou para preservação na Biblioteca do Congresso Americano, como sendo de grande relevância histórica, cultural, e estética. A obra ainda foi considerada o 80º melhor filme norte-americano pelo American Film Institute (AFI). Em 2008, o AFI também o classificou como o 6º melhor western de todos os tempos. 

Bo Hopkins como Crazy Lee, um dos homens de Pike, morto em San Rafael.
L.Q.Jones e Strother Martin são T.C e Coffer, dois caçadores de recompensas.
MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969) foi um dos grandes trabalhos de William Holden.
Considerado por muitos críticos americanos até mesmo superior a Rastros de Ódio (The Searchers, 1956), de John Ford, tal observação fez com que a obra de Sam Peckinpah fosse reprisada constantemente nos cinemas a partir de 1976, com seu relançamento mundial. Mais U$S 52 milhões de dólares foram então contabilizados, mas segundo a contabilidade da Warner, MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA continuava no vermelho. Dada à importância do western de Peckinpah, ocorreram outros relançamentos, até a morte do cineasta, em 1984. Somente os herdeiros de Peckinpah é que passaram a receber dividendos referentes aos direitos do diretor, o mesmo acontecendo com o astro William Holden, falecido em novembro de 1981. O produtor Phil Feldman, que faleceu em 1991, teve mais sorte e recebeu alguns milhares de dólares liberados pelos contadores da Warner. Na década de 1990, o cineasta Martin Scorsese encabeçou um movimento pela restauração de The Wild Bunch, com sua metragem original de 145 minutos e 38 segundos, em cópia remasterizada e com som Dolby.


Sam Peckinpah e William Holden.
O cineasta com Edmond O' Brien.
Numa folga das filmagens, Robert Ryan (sem o bigode postiço) mostra uma câmera Super-8 para o amigo e colega Ernest Borgnine.
MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA ainda conta com grandes nomes no seu cast, como L. Q. Jones, Strother Martin (1919-1980), Albert Dekker (1905-1969, em seu último trabalho), Bo Hopkins, Dub Taylor (1907-1994), e Elsa Cardenas. Quando as filmagens terminaram, Peckinpah se afastou da equipe e chorou por alguns minutos em um canto isolado. Isto fez com que o diretor fizesse o seguinte comentário: “O Fim de um Filme é o Fim de Uma Vida”. Sem sombra de dúvidas, The Wild Bunch é um dos melhores trabalhos cinematográficos do "Poeta da Violência" (ou seria, o melhor entre todos?). A trilha sonora foi composta por Jerry Fielding (1922-1980). A fotografia é do experiente Lucien Ballard (1908-1988), e o filme chegou às salas do Rio de janeiro em  1970. 


Com uma garrafa, Peckinpah se despediu de um de seus melhores trabalhos cinematográficos (ou talvez, o maior!): "O Fim de um Filme, é o Fim de uma Vida" (Sam Peckinpah).
O Poeta da Violência: Sam Peckinpah (1925-1984).
Divulgação do filme pelos jornais cariocas em 1970. A obra prima de Peckinpah foi exibido no Cinema Roxy, em Copacabana - uma das raras salas de rua ainda hoje sobreviventes na cidade do Rio de janeiro. 
FICHA TECNICA


MEU ODIO SERA SUA HERANCA
(The Wild Bunch)
PAÍS – Estados Unidos
ANO – 1969
GÊNERO - Western
DIREÇÃO – Sam Peckinpah
PRODUÇÃO – Phil Feldman e Roy N. Sickner, para Warner Brothers e Seven Arts.
ROTEIRO – Sam Peckinpah e Walon Green, baseado em história de Roy N. Sickner
MÚSICA – Jerry Fielding
FOTOGRAFIA – Lucien Ballard, em Cores
EDIÇÃO - Lou Lombardo
VESTUÁRIO - James R. Silke

METRAGEM – 145 minutos (versão do diretor)/134 minutos (em exibições na TV)



ELENCO
William Holden – Pike Bishop
Ernest Borgnine -   Dutch Engstrom
Robert Ryan - Deke Thornton
Edmond O’ Brien - Freddie Sykes
Warren Oates - Lyle Gorch
Ben Johnson – Tector Gorch
Jaime Sanchez – Angel
Emilio Fernandez – Mapache
Strother Martin – Coffer
L. Q. Jones – T.C
Albert Dekker – Harrigan
Bill Hart - Jess
Bo Hopkins – Crazy Lee
Dub Taylor – Wainscoat
Jorge Russek – Zamorra
Alfonso Arau – Herrera
Elsa Cárdenas – Elsa
Fernando Wagner – Mohr
Enrique Lucero – Ignacio
Sonia Amelio – Teresa
Elizabeth Dupeyrón – Rocio

Graciela Doring - Emma



Produção e Pesquisa de

PAULO TELLES

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