sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Maior Espetáculo da Terra (1952): A Arte Cinematográfica e o Espetáculo de Cecil B. DeMille.


O nome de Cecil B. DeMille (1881-1959) ficou para sempre associado às superproduções da Sétima Arte, sendo sinônimo de suntuosidade quando se trata de grandes espetáculos. Entretanto, até 1952, quando dirigiu e produziu O Maior Espetáculo da Terra (The Great Show On Earth), este foi o filme que mais lhe rendeu honras, tanto por parte da crítica quanto da opinião pública. De forma grandiosa e impressionante, foi até aquele momento o maior êxito comercial do veterano cineasta em toda sua longa carreira, arrecadando só no mercado norte-americano 14 milhões de dólares, conquistando o Oscar de melhor filme e argumento de 1952, e ainda o Prêmio Irving Thalberg para DeMille. 


O Lendário Diretor Cecil B. DeMille 
O diretor iniciando o preparo das filmagens
Foi o penúltimo título da filmografia deste grande diretor, iniciada na fase ainda silenciosa do cinema, em 1913, e terminada em 1956, quando dirigiu outro grande espetáculo, Os Dez Mandamentos. Mas para poder realizar a proeza de dirigir tamanha obra a altura do seu título original, a Paramount pagou aos empresários John Ringling North (1903-1985) e Henry Ringling North (1909-1993), os donos do famoso Ringling Brothers & Barnum & Bailey, considerado então o mais famoso circo do mundo, a quantia de 250 mil dólares pelo uso da marca e pela cessão de artistas.


DeMille em seu escritório, entre projetos e
roteiros.

DeMille e alguns artistas do Ringling Brothers
e Barnum & Bailey.
Cecil e sua estrela Betty Hutton.
O filme pode ser espalhafatoso, como a maioria dos épicos de DeMille, mas aqui tudo funciona. Mas o que é o circo a não ser uma combinação de luzes, fantasias, e cores? Naturalmente, alguns críticos não foram tão clementes para com o cineasta. Segundo a revista Time Magazine, DeMille reforça sua reivindicação para outra distinção: "A Grande amostra da Terra provavelmente será vender mais pipocas do que qualquer filme feito". Outros críticos acharam que o filme era banal e com uma estúpida história de amor. O New York Times respondeu a favor do veterano diretor: "A história romântica é reflexo do romance diário da realidade do circo".


Charlton Heston e Cecil B. DeMille.
Brad (Heston), Holly (Betty Hutton) e Sebastian (Cornel Wilde):
Um provável triangulo amoroso.

Charlton Heston e um dos empresários
do Ringling Brothers, John Ringling North.
O filme poderia se sair melhor sem o apelo romântico do diretor para com os personagens de Charlton Heston e Betty Hutton, e o tendencioso triângulo amoroso entre os dois com Cornel Wilde, e isto sendo opinião de outros críticos, que acham que o circo não passa de uma meretriz um tanto conveniente para os personagens. DeMille não concordou com essa visão, mas tinha razão numa coisa: transformar sua fita numa novela de dimensões teatrais era tarefa para atrair o público para os cinemas, e foi isso que aconteceu, quando O Maior Espetáculo da Terra bateu recorde nas bilheterias.

Ramon Gomez de La Serna, o "primeiro"
Crítico de Circo.
James Stewart como o carismático
palhaço Buttons

Com toda a certeza, quem poderia nos falar da poesia do circo (sim, o circo não é só um espetáculo de entretenimento, mas como o cinema, também é uma arte) seria Ramon Gomez de La Serna (1888-1963), famoso escritor espanhol, inventor das famosas greguerias, uma espécie de varieté do humor, e que foi também o “primeiro” cronista de circo (e de certo, o único). Quando assistimos a O Maior Espetáculo da Terra, se reflete que só mesmo o espanhol La Serna poderia fazer uma crônica do jeito que o filme mereceria, afinal, toda a atmosfera do circo impregna inteiramente na fita, nos transbordando para o mundo maravilhoso e fascinante do circo, nos impedindo ao mesmo tempo de falar sobre ele com nossa prosa cotidiana, e muitas vezes, banal. 

Brad Braden (Charton Heston) e o
palhaço Buttons (James Stewart).
Além do Oscar conquistado por melhor filme de 1952, Cecil B. DeMille recebe das mãos do ator Henry Wilcoxon (que com o diretor também produziu o filme) o prêmio Irving Thalberg.
Uma obra prima de proporções à altura de seu diretor, vista por todos os ângulos em que se queira apreciar a este celuloide de sucesso, vindo de um cineasta experiente, o Mestre do Espetacular.  Com O Maior Espetáculo da Terra, o bom e velho DeMille chegou ao apogeu de sua carreira e de sua arte. Pode ser verdade que o venerando cineasta tenha sempre preferido o cinema mais como diversão do que propriamente arte, ou melhor dizendo, que tenha condicionado sempre ao longo de sua prolífica carreira a arte cinematográfica ao primado do divertimento.  


Jimmy Stewart (o palhaço Buttons) e o
palhaço mais aplaudido da América,
Emmett Kelly.
Na Plateia, Bob Hope e Bing Crosby.
Dorothy Lamour e Gloria Grahame,
"artistas" do Ringling Brothers.
Cecil pode ter cometido erros (e quem não os comete?), ter se enganado duas, dez vezes, através de sua copiosa obra de cinema. Contudo, tudo isto é perdoado e deixado de lado quando um diretor de idade provecta e que poderia estar aposentado (e que levaria sua função quase até as ultimas consequências, quando em 1956, ao dirigir Os Dez Mandamentos, DeMille, aos 77 anos, sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens no Monte Sinai, mas se recuperou e voltou à ativa) consegue realizar uma película como O Maior Espetáculo da Terra, onde a técnica, a arte, e os valores humanos se combinam na mais perfeita química. 


A atriz Helen Hayes visitou o set
durante as filmagens.
Betty Hutton e Gloria Grahame,
que disputam o afeto do patrão Brad.
Gloria Grahame é Angel, uma
domadora de elefantes.
Isso sem perder de vista o espetacular, nem o sentido de evasão do cotidiano que o cineasta imprime em todos os seus filmes, certo de que a multidão ingresse nas salas de cinema para fugir a realidade do ambiente, sem esquecer o toque poético no lirismo que transborda no próprio assunto: o circo – esta, por si mesma, a poesia do encanto e do mistério, e acima de todos os valores, nota-se a atmosfera, através de seus artistas humanos e sublimemente poéticos. A partir daí, o diretor nos transporta ao ambiente e passamos a viver em pleno circo.  É através desse clima que todo espectador ao assistir a este penúltimo trabalho de Cecil B. DeMille se torna também participante da obra, tal como os espectadores dos atos a que vamos assistindo ao longo da fita (que tem 152 minutos de projeção) e que é a anteface do outro espetáculo, aquele que não se desenrola no picadeiro, mas na existência dos artistas do circo, dos palhaços, dos trapezistas, da moça do elefante, do domador de leões, enfim. 



A atlética Betty Hutton treinou muito
no trapézio para viver Holly
Se DeMille conseguiu o máximo da manipulação de seus efeitos, um dinamismo plástico extraordinário, que segue num ritmo ágil e vibrante, e que por toda a fita, em perfeita harmonia, conduz como ninguém suas grandes manobras com multidões (sim, DeMille era craque em dirigir cenas de multidão), por outro lado seu sentimento épico, tanto linear e profundo tirou de seu elenco all-star um rendimento efetivo dos mais convincentes.


Brad Braden (Charlton Heston) e sua
namorada, a trapezista Holly (Betty Hutton)
Holly implora ao namorado e patrão Brad para ser a estrela do picadeiro central. Mas para segurança e investimento do espetáculo, Brad contrata o "Grande Sebastian" (Cornel Wilde).
A domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame) tem uma queda pelo patrão Brad (Charlton Heston).
A trama da obra se concentra num dos maiores circos do mundo, o Ringling Brothers –Barnum & Bailey. Seu gerente é o jovem Brad Braden (Charlton Heston), que anda cheio de problemas. O negócio anda fraco, e para piorar, um empresário inescrupuloso e meio gangster, Mr.Henderson (Lawrence Tierney, 1919-2002) quer comprar o circo abaixo do preço. A namorada de Brad, a trapezista Holly (Betty Hutton, 1921-2007), entende que a preocupação dele é fazer o espetáculo continuar e se consagrar exclusivamente para o trabalho. Entretanto, quando Brad resolve contratar outro trapezista, o astro francês “O Grande Sebastian” (Cornel Wilde, 1915-1989) para substituir Holly no picadeiro central, esta não aceita. 


O ousado e arrogante trapezista Sebastian...
Que sofre uma queda quase fatal, que o deixa com o braço paralisado, acudido por Brad e Buttons.
Angel e o domador Klaus, que tem pela
artista uma paixão não correspondida.
Arrogante e ousado, Sebastian acaba sofrendo uma dramática queda, e Holly fica a balançar o coração por ele e Brad. Toda essa atuação é explorada pela domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame, 1924-1981, em papel destinado a Lucille Ball, que desistiu porque engravidou), que também cobiça Brad. Isso vem a provocar ciúmes no treinador Klaus (Lyle Bettger, 1915-2003).  Este acaba sendo demitido por Brad. Outra trama paralela envolve o palhaço Buttons (James Stewart, 1908-1997), na realidade, um médico que nunca tira sua maquiagem, pois é procurado por um agente do FBI (Henry Wilcoxon, 1905-1984) pelo crime de eutanásia (matou a própria mulher que sofria de uma doença incurável).  


Holly se sente atraída por Sebastian,
mesmo amando Brad.
O terrível desastre de trem onde viajavam
todos os artistas do circo.

Entre os feridos, Brad se encontra em estado
mais grave, e precisará de uma transfusão
de sangue.
Ambas as tramas paralelas tem um fim em comum: um espetacular desastre de trem, justamente o trem que conduz o circo, desastre este provocado pelo ex-adestrador de elefantes Klaus, que tem morte trágica. Este acidente vem a provocar a descoberta da verdadeira identidade do palhaço Buttons, quando se percebe que ele é o único médico para atender os feridos, entre os quais se encontra Brad. 


Sabendo do passado de Buttons, um outrora
médico que matou a esposa por eutanásia e
que esta sendo procurado pelo FBI, Holly
implora ao amigo que salve a vida de Brad.
Na metade da década de 1960, James Stewart voltou a se maquiar como Buttons, em um evento beneficente. Notem atrás do ator o poster do filme A História de Dr. Wassell, filme dirigido por Cecil B.DeMille.

Esta obra de Cecil B.DeMille apresentou um dos grandes desastres de trem em toda a história das telas, somente equiparado à outra superprodução,
A Conquista do Oeste (How The West Was Won), em 1962. Embora o Western dirigido por John Ford, Henry Hathaway, e George Marshall, usou trens reais para as cenas de ação, O Maior Espetáculo da Terra usou de modelos de miniaturas pertencentes ao diretor, hoje um tanto ineficaz, mas para a época foi de impressionar. Como em todos os filmes do diretor, não é a história que conta e sim o espetáculo, e o cineasta conseguiu construir um em 2 horas e 32 minutos de duração, bem ao gosto da típica família americana dos anos de 1950 (o espectador de hoje deve assistir como se transportasse para este tempo. Muitos padrões de moralidade e conduta vieram a desabar, e o público era outro).
O Famoso palhaço norte-americano Emmett Kelly.
Os palhaços Buttons e Emmett.
Buttons fazendo a alegria da criançada.
Foi o último filme que DeMille fez em três tiras de Technicolor. No entanto, em termos de realidade cinematográfica, é uma impressionante nota de rodapé. Uma câmera dirigível de DeMille era do tamanho de uma mesa. O “garoto” Charlton Heston, como era carinhosamente chamado pelo diretor, lembrou o que certa vez DeMille lhe disse: "Você estará realmente empreendendo algo se você fizer um take de rastreamento com um daqueles bebês (as câmeras)".A película é recheada de grandes astros e com artistas de circo de verdade, como o maior palhaço americano Emmett Kelly (1898-1979), e entre os espectadores do circo estão Bing Crosby (1904-1977) e Bob Hope (1903-2003), e no picadeiro, o cowboy Hopalong Cassidy, vivido por William Boyd (1895-1972), amigo pessoal de DeMille.  Enfim, todo o filme é perfeito, graças à direção e a atuação dos atores, principalmente Jimmy Stewart, que como o dramático palhaço faz lembrar uma pintura viva de aquarela, que aparece sempre como uma pincelada de vermelho. 


DeMille e William Boyd, o famoso Hopalong
Cassidy, que aceitou o convite para uma
pequena participação.
O filme em divulgação nas grandes salas
do Rio de Janeiro, na metade dos anos de
1950.
E certamente, DeMille nos legou uma grande obra, um filme sensacional que veio a marcar não somente sua carreira, mas que com o Oscar conquistado por melhor filme, marcou no cineasta uma vitória extraordinária em sua vida. O Maior Espetáculo da Terra pode assim ser definido como arte cinematográfica e como espetáculo. Música de Victor Young (1900-1956). 



FICHA TÉCNICA

O MAIOR ESPETACULO DA TERRA

(THE GREATEST SHOW ON THE EARTH)

Ano de Produção: 1952

Direção: Cecil B. DeMille

Produção: Cecil B. DeMille e Henry Wilcoxon, para a Paramount.

Argumento: Fredric M. Frank, Theodore St. John, Frank Cavett.

Roteiro: Fredric M. Frank, Barré Lyndon, Theodore St. John.

Fotografia: George Barnes – em Cores

Montagem: Anne Bauchens

Direção de Arte: Hal Pereira e Walter H. Tyler

Figurinos: Edith Head, Dorothy Jeakins, e Miles White

Música: Victor Young

Metragem: 152 minutos

ELENCO

Betty Hutton – Holly

Cornel Wilde – O Grande Sebastian

Charlton Heston – Brad Braden

James Stewart – Palhaço Buttons

Dorothy Lamour – Phyllis

Gloria Grahame – Angel

Henry Wilcoxon – Agente Gregory, FBI

Lyle Bettger – Klaus

Lawrence Tierney – Mr. Henderson

Emmett Kelly – ele mesmo.

John Kellogg – Harry

Frank Wilcox – Médico da trupe

Lillian Albertson – Mãe de Buttons

Julia Faye – Birdie

PARTICIPACOES ESPECIAIS

Bing Crosby, Bob Hope, William Boyd (Hopalong Cassidy), e CECIL B.DeMILLE como narrador.

PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A Um Passo da Eternidade (1953): Consciência e Integridade na Obra Ousada de Fred Zinnemann



No final de 1952, o cineasta Fred Zinnemann (1907-1997) estava enfrentando problemas com o fracasso de seu último filme, Cruel Desengano (The Member of The Wedding ), sob produção de Stanley Kramer. Zinnemann, apesar da falta de êxito quanto a este trabalho, ainda angariava os louros por Matar ou Morrer (High Noon), realizado também em 1952, entretanto, o insucesso por Cruel Desengano quase impediu o diretor de realizar uma de suas obras mais geniais, que se tonou uma das marcas registradas em toda sua filmografia: A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity), produzido em 1953. Entretanto, adaptar para as telas o volumoso Best-Seller de James Jones (1921-1977), publicado em 1951, não foi tarefa fácil. O livro From Here to Eternity tem uma linguagem pesada (cercada de palavrões) e situações fortes, mas isso não desmotivou o chefão da Colúmbia Pictures, o famoso Harry Cohn (1891-1958) de levar a frente o projeto, mesmo sendo considerado um homem polido dentro da esfera cinematográfica.


O Chefão da Columbia Harry Cohn.
O Cineasta Fred Zinnemann
O Astro Montgomery Clift


Cohn detestou Cruel Desengano e relutou muito para atender o apelo do roteirista Daniel Taradash (1913-2003) pela convocação de Zinnemann. E não demorou muito logo começaram as discussões pela escolha de elenco. Zinnemann insistiu muito para que seu ator preferido, Montgomery Clift (1920-1966), ganhasse o papel do atormentado soldado Prewitt, que Cohn pretendia entregar para Aldo Ray. E o diretor conseguiu. Monty havia atuado no ano anterior para um filme de Alfred Hitchcock, A Tortura da Suspeita (I Confess), onde interpretou um papel semelhante, e durante quase toda sua carreira haveria de interpretar o mesmo tipo: o do homem que luta pela sua integridade e consciência. Entretanto, Zinnemann não conseguiu que Julie Harris interpretasse a prostituta Lorene, por quem Prewitt é apaixonado, e Cohn optou por Donna Reed (1921-1986). 

Donna Reed e Montgomery Clift
Deborah Kerr é Karen Holmes.


Karen (Deborah Kerr) e Warden (Burt Lancaster)
Joan Crawford seria Karen Holmes, mas desentendimentos com seu guarda roupas (devido aos ombros largos, Joan sempre teve problemas com os figurinos) a afastaram da produção. Nisso entra o agente de Deborah Kerr (1921-2007), que ofereceu a atriz para viver a personagem, aceitos por insistência de Zinnemann, Taradash, e do produtor encarregado Buddy Adler (1909-1960). Mais uma vez, Cohn bateu de frente com os três, pois acreditava que uma atriz com perfil aristocrático inglês como Deborah Kerr não daria conta para um papel que exigia sensualidade e um toque de erotismo. Robert Mitchum e Edmond O’ Brien eram os reservas do favorito Burt Lancaster (1913-1994). Lancaster só conseguiu o papel do humanitário sargento Warden porque como ator contratado da Paramount, um dos chefões deste estúdio, Hal Wallis, permitiu que o ator aderisse à produção dirigida por Zinnemann.

O Sargento Milton Warden (Lancaster) e
o soldado Robert Lee Prewitt (Monty)
Montgomery Clift, Burt Lancaster, Frank Sinatra


Frank Sinatra no papel do desafortunado
soldado Maggio.
Mas certamente um dos fatos mais comentados sobre a produção de A Um Passo da Eternidade foi à integração de Frank Sinatra (1915-1998) no elenco, e cuja carreira estava em declínio. O cantor/ator estava numa verdadeira fase de ostracismo em sua carreira, e antevia antecipadamente uma possibilidade de reabilitação. Mas para isso, Sinatra teve que se submeter a um teste para o papel do soldado ítalo-americano Angelo Maggio, o melhor amigo de Prewitt. Na verdade, o papel já estava destinado a Eli Wallach, mas este ficou impossibilitado devido a um compromisso com a Broadway. De jeito nenhum Cohn queria Sinatra, mas Wallach estava obrigado a atuar na peça El Camino Real, de Tennesse Williams. Por um salário bem inferior ao que costumava receber, Sinatra, enfim, incorporou o infortunado Maggio e de quebra ainda arrebataria um Oscar como melhor ator coadjuvante pelo papel.

James Jones, o autor do romance A UM PASSO DA ETERNIDADE,
publicado em 1951.

Daniel Taradash, o roteirista que adaptou
o livro para o cinema.
Apesar do teor antimilitarista do relato (suavizado no preciso script de Taradash), A Um Passo da Eternidade contou com a colaboração das Forças Armadas, que acabaram franqueando suas instalações no Havai para as locações. Fred Zinnemann tempos depois recordou:

- Isto se deveu aos esforços de Buddy Adler, que havia sido oficial. Eles apenas fixaram duas condições: Uma, que não mostrássemos o ambiente de prisão onde Frank Sinatra é aprisionado. A outra, que o capitão culpado pelo abuso de autoridade, no livro de James Jones promovido a Major, que no filme fosse forçado a abandonar o Exército. Achei necessário aceitar estas condições, que as achei razoáveis. Chamem de concessão se quiserem, mas se eu não as aceitasse seria obrigado a usar um monte de civis no lugar dos soldados, e todo sentido do filme seria jogado pela janela. 

O Beijo Clássico entre Karen e Warden
Os preparativos para a cena, gastos
ao longo de um dia inteiro de filmagem.


A obra foi filmada durante 41 dias, sendo que um deles foi dedicado inteiramente a ardente cena do beijo (clássico) de Kerr e Lancaster na praia. A Um Passo da Eternidade é uma das fitas mais coerentes com o pensamento do seu diretor. Junto com o roteirista Taradash, teve que suar para mandar para as telas uma história que fosse aceitável para os padrões americanos da época. Se no livro de James Jones tem soldados irreverentes, sexo e violência bem acentuados, esses ingredientes na obra cinematográfica teriam que ser atenuados, muito embora a sequência de amor entre Burt Lancaster e Deborah Kerr na praia seja de tirar o fôlego até os dias de hoje. 

Sensualidade e erotismo, ousado para a época.
Em marcha, os soldados Prewitt e Maggio.
O soldado Prewitt não cede as pressões
de oficiais para que ele participe do
campeonato de Boxe.


O filme tem o seguinte enredo: Numa base americana em Pearl Harbor, pouco antes do ataque japonês (ocorrido em 7 dezembro de 1941), ocorre os dramas pessoais vividos por esses personagens: O soldado Robert Lee Prewitt (Montgomery Clift), recém transferido, não cede as pressões do capitão Dana Holmes (Philip Ober, 1902-1982) para que o soldado integre a equipe de Boxe do quartel para o campeonato anual. Prewiit , um exímio boxeador, prometeu não mais lutar após deixar cego um oponente, mas logo é hostilizado pelo capitão Holmes e os demais oficiais e soldados. Contudo, o soldado não cede as pressões dos companheiros, mantendo sua consciência e integridade para seguir em diante, lutando contra tudo e contra todos sem se importar com o bullyng

Prewitt encontra no Sargento Warden a
solidariedade e o apoio que precisa.
Ernest Borgnine interpreta o sádico
Sargento "Fatson" Judson.

"Fatso" Judson e Angelo Maggio, inimigos
mortais.
A esposa do Capitão Holmes, a promíscua Karen (Deborah Kerr), tem um caso tórrido com o Sargento Milton Warden (Burt Lancaster), subordinado do marido. Warden, sendo um soldado de linha dura, tem características humanitárias. Solidariza-se com o soldado Prewitt quando este é vitimado pela hostilidade de seus colegas de farda e ainda intervém quando um sargento truculento de outro pelotão, o sádico “Fatso” (Gordo) Judson (Ernest Borgnine, 1917-2012), tenta agredir o soldado Angelo Maggio (Frank Sinatra), um ítalo-americano que integra o pelotão de Warden e melhor amigo de Prewitt.  Não demora e Maggio se mete em confusões, acaba preso, e na cadeia é morto pelo Sargento Judson.

Karen (Deborah Kerr) e Warden (Burt
Lancaster): Um amor proibido.
Robert Prewitt (Montgomery Clift) e Alma
(Donna Reed): Um amor fora das convenções
de sua época.


Prewitt (Clift) acode Maggio (Frank Sinatra),
prestes a morrer vítima da brutalidade de
Judson.
Lorene (Donna Reed) é uma prostituta que trabalha num estabelecimento de diversão para homens, mas seu verdadeiro nome é Alma. Uma mulher do interior com sonhos e ambições que sonha em ser dama da sociedade. Apesar da profissão, ela se apaixona por Prewitt ao seu modo. Ele a pede em casamento, mas ela não aceita, embora os dois venham a morar juntos numa casa próximos a Pearl Harbor. William Bayer, um crítico americano autor do livro The Great Movies, publicado em 1973, classificou  A Um Passo da Eternidade como um dos 60 (sessenta) melhores filmes de todos os tempos, assim ele descreve:

- A Obra de Zinnemann provoca impacto por seu apelo antimilitar e densidade humana de seus personagens centrais, sendo uma das raras obras do cinema cujos heróis parecem existir mesmo na vida real e não apenas nos limites da tela de projeção. 

Prewitt (Monty) encontra Judson (Borgnine)
para um definitivo acerto de contas pela
morte de Maggio.
7 de Dezembro de 1941, os japoneses atacam
Pearl Harbor, e o Sargento Warden (Lancaster)
e seu pelotão entram em ação para defender
a base militar.


Zinnemann sem dúvida pelejou para que seu filme saísse como ele queria, comendo o pão que o diabo amassou como o personagem Prewitt para fazer valer suas ideias em Hollywood. As desavenças entre ele e o chefão Harry Cohn se estenderam do Havaí, aos sets de filmagem, até a sala de montagem. O chefão estipulou a metragem em duas horas, obrigando o cineasta a eliminar cenas importantes, e chegou a reeditar uma cena sem o conhecimento do diretor. Em compactos 118 minutos, as situações paralelas, desnudadas com toda maestria pela câmera de Zinnemann, foram devidamente defendidas por elenco de primeira grandeza, exercendo instantâneo fascínio sobre as plateias. Só no mercado norte-americano, o filme faturou nas bilheterias 2,5 milhões de dólares, a maior renda da Columbia até o então momento.

Prewitt também era corneteiro.
George Reeves, o Super-Homem da TV nos
anos de 1950, como o Sargento Stark, ao
lado de Frank Sinatra.


E ainda de quebra, sem contar todo o faturamento nas bilheterias, From Here to Eternity foi bombardeado de prêmios. Fred Zinnemann ganhou seu primeiro Oscar (um dos oito dados ao filme), e conquistou ainda os lauréis da Crítica de Nova Iorque e do Directors Guild of America.


 OS OSCARS
A UM PASSO DA ETERNIDADE ganhou oito
Oscars. Frank Sinatra e Donna Reed foram premiados como os melhores atores coadjuvantes do ano.

O Diretor Fred Zinnemann, o produtor Buddy Adler, e o roteirista Daniel Taradash, também
foram premiados, juntamente com Donna Reed
Uma pausa para descontração das filmagens,
onde vemos Zinnemann em agradável conversa com Reed, Monty, e Sinatra.
A Um Passo da Eternidade foi a grande barbada do Oscar de 1953. Na noite de 25 de março de 1954, a obra de Zinnemann levou nada menos do que 8 (oito) Oscars. Melhor Filme de 1953 (sobrepujou os outros filmes indicados para categoria do ano, que foram Julio César/Julius Caesar, de Joseph L. Mankiewicz;  O Manto Sagrado/The Robe, de Henry Koster; A Princesa e o Plebeu/Roman Holliday, de William Wyler; e Os Brutos Também Amam/Shane, de George Stevens.), Melhor Diretor (Fred Zinnemann), Melhor Ator Coadjuvante (Frank Sinatra, que com o Oscar conquistado reabilitou consideravelmente sua carreira), Melhor Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Melhor Fotografia em Preto & Branco (Burnett Guffey, 1905-1983), Melhor Trilha Sonora (George Duning, 1908-2000), Melhor Montagem (William A. Lyon, 1903-1974), e Melhor Roteiro Adaptado (Daniel Taradash, 1913-2003). Em 1979, houve um remake da obra literária de James Jones para a televisão, em forma de minissérie exibida em três partes sob direção de Buzz Kulik, onde estrelaram Natalie Wood, William Devane, Steve Railsback, Joe Pantoliano, Kim Basinger, e Peter Boyle, nos papéis respectivamente vividos por Deborah Kerr, Burt Lancaster, Montgomery Clift, Frank Sinatra, Donna Reed, e Ernest Borgnine no clássico absoluto de 1953. A Um Passo da Eternidade, segundo fontes do site IMDB, estreou no Brasil a 19 de outubro de 1953. 


Marlon Brando visitou os amigos Montgomery Clift e Fred Zinnemann durante as filmagens.
Fred Zinnemann orienta Ernest Borgnine para
uma das cenas.

FICHA TÉCNICA
A UM PASSO DA ETERNIDADE
(FROM HERE TO ETERNITY)

País: Estados Unidos
Ano de Produção: 1953.
Direção: Fred Zinnemann
Produção: Buddy Adler, para a Columbia Pictures
Roteiro: Daniel Taradash, com base no livro de James Jones.
Fotografia: Burnett Guffey – Em Preto & Branco.
Música: George Duning
Metragem: 118 minutos.



ELENCO
Burt Lancaster – Sargento Milton Warden
Montgomery Clift – Soldado Robert Lee Prewitt
Deborah Kerr – Karen Holmes
Donna Reed – Alma, vulga Lorene.
Frank Sinatra – Soldado Angelo Maggio
Philip Ober – Capitão Dana Holmes
Mickey Shaughnessy – Sargento Leva
Harry Bellaver – Soldado Mazzioli
Ernest Borgnine – Sargento “Fatso Gordo” Judson
Jack Warden – Cabo Buckley
John Dennis – Sargento Ike Galovitch
Claude Akins – Sargento “Baldy” Dhom
George Reeves – Sargento Maylon Stark
Robert  J. Wilke - Sargento Henderson
Kristine Miller – Georgete

Produção e Pesquisa de
PAULO TELLES

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