sábado, 7 de outubro de 2017

Pacto de Sangue (1944): O Envolvente Poder de Manipular da “Femme Fatale” Barbara Stanwyck, em Absoluto Clássico de Billy Wilder.


Realizado há mais de 70 anos, PACTO DE SANGUE (Double Indemnity), do diretor Billy Wilder (1906-2002) se consagra entre os maiores filmes de todos os tempos. Em 1940, a Paramount comprou para o cineasta o romance original de James M. Cain (1892-1977) por 15 mil dólares, entretanto, Wilder não pôde contar com seu colaborador habitual Charles Brackett para redigir o roteiro. Wilder tentou com o próprio Cain, mas este estava de contrato com a Fox, fazendo argumento para o western Os Conquistadores (Western Union, 1941) de Fritz Lang.  Três anos depois, o produtor Joseph Sistron (1912-1966) sugeriu a Wilder um escritor de histórias de detetive relativamente desconhecido até então, Raymond Chandler (1888-1959).

O cineasta Billy Wilder.
O escritor Raymond Chandler
Wilder nunca tinha ouvido falar de Chandler, mas Sistrom lhe deu um exemplar do romance The Big Sleep, publicado quatro anos antes. O cineasta gostou do que leu e se surpreendeu quando descobriu que o escritor morava próximo a ele em West Hollywood. Mas Chandler era um homem estranho e cheio de manias, que havia abandonado o álcool. Quando chamado a Paramount para uma conferência sobre a trama, confessou que nem sabia onde era o estúdio. Depois veio o desastroso encontro entre ele e o diretor. Os dois não se simpatizaram. Wilder avisou ao escritor, de forma truculenta, que ele teria que ganhar 150 dólares por semana para fazer o roteiro. Joe Sistrom disse a Chandler que a Paramount tinha pensado em lhe pagar 750 dólares semanais.

Raymond Chandler e Billy Wilder: tensão entre o escritor e o cineasta ao longo de quatro meses que escreveram juntos o roteiro para PACTO DE SANGUE (1944).
Chandler avisou que nunca havia escrito nada para cinema e que pudesse precisar de três a quatro semanas para terminar o roteiro. Wilder estava habituado a gastar meses nesses projetos, e ofereceu ao escritor um modelo de seus scripts, esperando que Chandler pudesse se basear para fazer o roteiro de PACTO DE SANGUE. O escritor voltou um mês depois cheio de impressionantes instruções técnicas, com enquadramentos para close-ups.  Wilder não gostou nem um pouco, mas convidou Chandler a escrever a trama junto com ele em seu escritório.  Ao longo de quatro meses em que foi feito o script para PACTO DE SANGUE, foi torturante para o cineasta ter que trabalhar com Raymond Chandler, que fazia pouco caso dele. Wilder respeitava seu talento, mas exigia respeito em troca, e era o diretor que entendia sobre escrever de cinema. Se Chandler reclamava com amigos que trabalhar com o cineasta encurtou sua vida, da mesma forma Wilder dizia que trabalhar com o escritor o fez envelhecer cinco anos. A tensão entre os dois  fez com que o antes abstinente ao álcool Chandler retornasse ao uísque. 

Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, e Edward G. Robinson, os astros de PACTO DE SANGUE (1944).
Fora as desavenças entre o cineasta e Chandler, o fato que as plateias foram beneficiadas com uma excitante obra prima absoluta da quintessência cinematográfica. PACTO DE SANGUE consegue impactar, prender, arrepiar, e intrigar até os dias atuais. Afinal, não é de hoje que a florada de crimes pode ser liderada por femme fatales ou sex appeals, cuja força e poder de manipulação são imensamente investidos. A maneira mais ou menos original de contar a história, cujo criminoso é conhecido nas primeiras cenas, e o incontestável valor cinematográfico de seu diretor e de seus intérpretes principais – Fred MacMurray (1908-1991), Barbara Stanwyck (1907-1990), e Edward G. Robinson (1893-1973) – fazem deste thriller, um dos mais populares filmes criminais de toda a história. 

Fred MacMurray é Walter Neff, um simpático vendedor de seguros, seduzido por uma bela cliente...
Phyllis Dietrichson, vivida por Barbara Stanwyck.
Walter e Phyllis se unem para concretizar um plano macabro.
Melodrama, sim, ou talvez uma história de amor misturada com o crime, porém algo menos superficial, já que a trama se baseia em um crime ocorrido em março de 1927, em Nova York, cometido pela dona-de-casa Ruth Snyder e por seu amante, Judd Gray, um vendedor de 32 anos. Além do excelente roteiro de Wilder e Chandler, o elenco fez a diferença, com uma história de pessoas comuns, nem intelectuais, nem sofisticados, e nem granfinizantes. O filme se aproxima mais do espectador, com uma linguagem de fácil acesso ao público. 

Edward G. Robinson é Barton Keyes, um astuto investigador de seguros.
Keyes é chefe de Walter, e gosta do rapaz. Mas nem desconfia que por trás do então bom moço, tem um assassino...
seduzido e manipulado por uma bela mulher.
A trama versa sobre um simpático vendedor de seguros de Los Angeles, Walter Neff (MacMurray), que se envolve com a sedutora Phyllis Dietrichson (Stanwyck), que quer se livrar do marido milionário, Sr. Dietrichson (Tom Powers, 1890-1955) para poder receber apólice de seu seguro de vida. Não demora para que ambos tramem o assassinato do marido, no entanto, Neff se sente acuado pelo seu chefe e colega de trabalho Barton Keyes (G. Robinson), um veterano investigador de seguros capaz de farejar qualquer tipo de fraude dos clientes.



Walter e Phyllis sempre se encontram as escondidas para melhor execução do plano, seja em um supermercado ou no apartamento de Neff.
Assim como faria em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boullevard, 1950), Wilder conta a história a partir do fim. Depois de desiludido com Phyllis, esta é morta por Neff, que registra no gravador de Keyes uma confissão que servirá a partir daí como narração em off, no melhor estilo noir da Sétima Arte, caracterizado na arte sombria com temáticas direcionadas ao submundo.Teremos aqui o anti-herói endurecido e cínico atraído por uma mulher fatal para um terreno moralmente movediço. A predominância das cenas noturnas, em que as sombras são usadas de modo dramático e estilizadas, e o dinheiro e a libido como motores da ação, são pontos marcantes em PACTO DE SANGUE, onde há o contraste entre a ensolarada costa californiana e a caracterização sombria dos ambientes fechados, quase sempre com uma contraluz filtrada por persianas.

A caracterização sombria dos ambientes fechados com uma contraluz filtrada por persianas, como se vê nesta cena.
Após matarem o marido de Phyllis, ela e Neff precisar criar um álibi. Mas...
Keyes desconfia que a morte do Sr. Dietrichson não foi um acidente.
Fred MacMurray sem dúvida pegou o melhor papel de sua carreira e quase recusou depois que soube que George Raft e Alan Ladd não queriam desempenhar Walter Neff.  Barbara Stanwyck também quase recusou sua parte como a loura e fatal Phyllis, pois ao ler o roteiro ficou aterrorizada com o enredo. O final da trama chegou a ser alterada. Neff era condenado à câmera de gás numa prisão de Folson. Wilder voltou atrás e achou que este fim era bruto demais e sem sutileza, fora os 150.000 dólares investidos só para recriar a câmera de gás. Novamente, o diretor bateu de frente com Chandler, que não queria reescrever o final, mas a Paramount negociou com o escritor fora dos estúdios.

Finalmente, Keyes descobre que o assassino do Sr. Dietrichson era seu amigo Neff.
Vale transcrever que a cena final é antológica, quando se vê MacMurray ferido e sangrando muito, pedindo a Edward G. Robinson, o investigador da companhia de seguros que ao mesmo tempo também representava uma figura de autoridade paternal, que desse 24 horas a ele para atravessar a fronteira do México:

    - Vc não vai chegar nem no elevador – diz Robinson, acendendo o último cigarro para MacMurray.

MacMurray diz que Robinson não tinha conseguido desvendar o crime porque o assassino “estava muito perto, do outro lado da sua mesa”. Robinson replicou: “mais perto que isso”.

Barbara Stanwyck, em estilo de erotismo.
O erotismo também chega a ser ousado, quase opressivo (pelo menos, para a época), quando Phyllis, em sua primeira aparição, chega com uma toalha envolta do corpo.  Barbara Stanwyck, loura, esta mais linda, atraente, e fatal. Grande intérprete que era, conseguiu fazer muito bem uma personagem dúbia e perigosa, do tipo manipuladora, que todo homem odeia, mas não consegue se livrar. Pode-se dizer que com Stanwyck em PACTO DE SANGUE, a era das grandes fascinadoras e damas fatais chegou a seu auge, depois de Theda Bara e Marlene Dietrich, sendo ainda Barbara precursora de outras femme fatale do cinema moderno, como Sharon Stone e Angelina Jolie. 

Porter Hall no papel de uma testemunha que alega ter conversado com o Sr. Dietrichson antes de morrer.
Embora não tenha sido agraciado com nenhum Oscar, Pacto de Sangue recebeu sete indicações da Academia de Hollywood.  Perdeu os principais para o sentimental O Bom Pastor, de Leo McCarey. Na cerimônia de premiação, quando McCarey se encaminhava ao palco para receber a estatueta de Melhor Diretor, Wilder estendeu o pé à sua frente, fazendo o rival se estatelar de cara no chão. 

Presença do Corpo Policial, acompanhando as filmagens de PACTO DE SANGUE (1944).



FICHA TÉCNICA
PACTO DE SANGUE
(DOUBLE INDEMNITY)
País – Estados Unidos
Ano – 1944
Gênero - Criminal
Direção - Billy Wilder
Produção - Buddy G. DeSylva e  Joseph Sistrom,  para a PARAMOUNT
Roteiro – Billy Wilder e Raymond Chandler.
Fotografia -   John F. Seitz, em Preto & Branco
Figurino – Edith Head
Música – Miklos Rozsa

Metragem – 107 minutos


ELENCO
Barbara Stanwyck - Phyllis Dietrichson
Fred MacMurray  - Walter Neff
Edward G. Robinson  - Barton Keyes
Porter Hall - Sr. Jackson
Jean Heather - Lola Dietrichson
Tom Powers - Sr. Dietrichson
Byron Barr - Nino Zachetti
Richard Gaines - Edward S. Norton Jr.
Fortunio Bonanova - Sam Garlopis
John Philliber - Joe Peters
Douglas Spencer - Lou Schwartz
Edmund Cobb - Condutor do trem
Betty Farrington - Nettie, empregada dos Dietrichson
Bess Flowers - Secretária de Norton
Miriam Franklin - Secretária de Keyes
Sam McDaniel -  Charlie

PAULO TELLES
Produção e Pesquisa.

domingo, 27 de agosto de 2017

Sargento York (1941): Obra Bélica com Misto de Canto Pastoral, com Gary Cooper Arrebatando seu Primeiro Oscar, Sob Direção de Howard Hawks.



1941 foi o ano do ataque japonês à Pearl Harbor, o que motivou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra no ano seguinte. Entretanto, 1941 foi também o ano do lançamento de SARGENTO YORK (Sergeant York, 1941), dirigido e produzido pelo lendário Howard Hawks (1896-1977). A história real de Alvin C. York (1887-1964), fazendeiro do Tennessee, homem pacato, pacifista e religioso, que acaba se conscientizando da importância da guerra, tornando-se herói da I Guerra Mundial (1914-1918)e o soldado americano mais condecorado do conflito, matando 25 soldados alemães e capturando sozinho outros 132 inimigos. York compreende que, para conquistar a paz e a liberdade, às vezes pode ser preciso lutar com armas nas mãos.

O Verdadeiro Sargento Alvin C. York
(1887-1964)
York era um herói democrático, e a obra de Hawks fez questão de frisar que não há nenhuma noção aristocrática e nem hierarquia implicada em seu conceito de democracia. Alvin York, a quem o povo americano rendeu entusiásticas homenagens, era um homem simples e bastante comum, um camponês rústico e laborioso, com noção rígida do dever, que dava a sua honestidade estrutural uma feição muito marcada de puritanismo.  Em seu retumbante heroísmo no front, York não agiu levado por desejo de fama ou egocentrismo, e mesmo com o fim do conflito, seus ideais religiosos e ideológicos permaneceram os mesmos, onde deixou até mesmo  de aceitar pompas maiores, regressando a vida que sempre desejou: seus trabalhos rurais nos campos do Tennessee. 

O Cineasta Howard Hawks
Justamente por essa defesa do conceito democrático do herói e pela sua justificação ideológica da guerra, é que Sargento York age também como um filme de propaganda. A circunstância, no entanto, não lhe prejudica o mérito artístico e técnico. Trata-se de uma obra prima vista pela ótica de seu realizador, ou então, pela primorosa atuação do elenco. Howard Hawks realizou um filme autoral, principalmente pelo ritmo que nunca é acelerado e se mantém num compasso mais ou menos retardado, para se ajustar aos efeitos psicológicos do personagem, lento nas suas reações. 

Gary Cooper viveu o SARGENTO YORK (1941) no cinema
Há cenas magníficas na fita de Hawks, merecendo destaque como as mais belas e bem realizadas no cinema, através do ângulo da emoção, como as que seguem com a conversão de York, que nem sempre fora um homem pacífico e religioso. No começo, Alvin era um arruaceiro e bêbado, que arranjava confusões nos campos do Tennessee, para desgosto da mãe, uma mulher religiosa. A rebeldia e a fúria de York só são aplacadas quando, em certa noite chuvosa, um raio atinge seu rifle, sem que Alvin e seu burro em que estava montado fossem feridos. Ao ver o estado do rifle destruído, York interpretou isto como um sinal divino. Imediatamente, se dirige a um culto, onde é recebido e abençoado pelo pastor local. É daí, como em muitas outras sequencias que dão brilhantismo ao filme, é que a obra de Hawks se impõe com admirável coerência, onde as cenas são articuladas com muita habilidade pelo diretor.

Alvin York (Gary Cooper), bom com um rifle
bem antes de ingressar na guerra
Há sequencias que já parecem pré-anunciar outras passagens do filme. A cena inicial com o sermão baseado na parábola da ovelha perdida do Evangelho de Lucas - Capítulo 15 e versículos de 1 ao 7- prepara a cena de conversão do personagem principal. O concurso de tiro, onde Alvin abate um peru, já antecipa o que ele fará com os alemães no front. Destarte, SARGENTO YORK mostra uma feliz harmonia de conjunto, onde se tem uma aventura bélica adicionada a um canto pastoral com importante mensagem de fé, esperança, patriotismo, coragem, e otimismo – valores importantes para os americanos no então momento, que atravessavam os horrores da II Guerra Mundial.

O Fotógrafo Sol Polito
O Compositor Max Steiner
SARGENTO YORK foi levado às telas sob uma equipe técnica para ninguém botar defeito. Além da direção perfeita de Hawks, o cineasta John Huston (1906-1987) colaborou com o script (outros roteiristas foram Howard Koch, Harry Chandlee, e Abem Finkel), que teve como base dois livros sobre York e no diário de guerra do próprio biografado. Max Steiner (1888-1971) contribuiu com a trilha sonora, e Sol Polito (1892-1960) com a magistral fotografia em preto & branco, denegrido anos depois quando resolveram colorizar o filme por computador na década de 1980.

A Família de York: a mãe (Margaret Wycherly) e os irmãos George (Dickie Moore) e Rosie (June Lockhart).
A trama
Em 1916, no Tennessee, Alvin York (Gary Cooper) vive com sua mãe (Margaret Wycherly, 1881–1956) e os irmãos mais jovens, George (Dickie Moore, 1925-2015) e Rosie (June Lockhart), numa fazenda cujas terras não são boas para cultivo.  Juntamente com os amigos Ike Botkin (Ward Bond, 1903-1960) e Buck Lipscomb (Noah Beery Jr, 1913-1994), Alvin se mete em brigas e bebedeiras. Quando se apaixona pela bela Gracie Williams (Joan Leslie), York lhe diz que vai trabalhar para conseguir uma boa fazenda e, assim, poder casar-se com ela.  Ao participar de um concurso de tiro ao alvo, York ganha todos os prêmios, mas fica desapontado ao saber que Zeb Andrews (Robert Porterfield, 1905-1971), um fazendeiro um pouco mais abastado, comprara as terras que ele tinha em vista. Furioso, pretende matar Zeb em certa noite chuvosa, mas um raio atinge seu rifle sem feri-lo, e Alvin interpreta isso como um sinal de Deus. Ajudado pelo pastor Rosier Pile (Walter Brennan, 1894-1974), ele se volta para a religião, e assim, o antes arisco e encrenqueiro Alvin York se torna um homem pacífico e responsável.

York (Gary Cooper) com o amigo de farras e bebedeiras Ike Botkin (Ward Bond, em um desempenho bem humorado).
O Pastor Rosier Pile (Walter Brennan) e outros tentando conter a ira de Alvin (Gary Cooper).
Alvin se interessa por Gracie Williams (Joan Leslie).
Quando os Estados Unidos entram na I Guerra Mundial, Alvin encontra-se ensinando a Bíblia para um grupo de crianças.  Inicialmente, resiste à ideia de se alistar, pois matar é contra seus princípios religiosos.  Entretanto, aconselhado pelo pastor Pile, ele se despede da família e de Gracie, e se alista no exército. Durante os treinamentos, sua habilidade com o rifle chama a atenção do Oficial Comandante.  No entanto, ele recusa uma promoção, justificando que matar é contra seus princípios bíblicos.  O Oficial lhe entrega um livro sobre a história dos Estados Unidos, com informações sobre Daniel Boone e outros homens que, no passado, lutaram pela liberdade, e lhe dá uma licença de 10 dias para que ele o leia e pense a respeito. Depois de ler o referido livro, ele retorna ao exército convencido de que, muitas vezes, as pessoas devem lutar pela liberdade e pela Pátria.  Assim, após o período de treinamento, ele segue para o front, na França.

Alvin acaba aderindo a religião, se tornando um cristão convicto e pacifista.
Mesmo motivado pelas convicções religiosas, Alvin é obrigado a se alistar no Exército e lutar na guerra. Para isso, ele tem como conselheiro o Pastor Rosier Pile (Walter Brennan), que o orienta a como servir à Deus e a Pátria.
No front, York tem como companheiros de luta
"Pusher" Ross (George Tobias) e o Sargento Early (Joe Sawyer).
Em 8 de outubro de 1918, quando da ofensiva de Argonne, França,  Alvin York mata 25 alemães com 25 tiros e consegue capturar outros 132 soldados.  O então soldado é promovido a Sargento York e agraciado com a Medalha de Honra. Ao terminar a guerra, Alvin retorna à sua terra e aos braços de sua amada Gracie.  Uma vez lá, recebe do Estado do Tennessee, a título de doação, uma boa fazenda, como gratidão por seus atos de heroísmo e patriotismo.


O OSCAR PARA
GARY COOPER
Gary Cooper (1901-1961) era então o astro mais popular e requisitado em Hollywood no início da década de 1940, e estava sob contrato de Samuel Goldwyn (1879-1974) pela United Artists. A popularidade de Cooper era tanta que seu salário era maior até que o do Presidente dos Estados Unidos. Entretanto, seria a Warner a rodar o filme baseado nos feitos e heroísmo do Sargento Alvin. C. York. 

O verdadeiro Sargento York e sua mãe, em 1918.
O casamento do Sargento Alvin York e Grace Williams, tendo o governador do Estado do Tenneesse como testemunha, em 1919.
O Produtor Jesse L. Lasky promove o encontro entre Gary Cooper e Alvin C. York.
O verdadeiro Alvin York já tinha quase 55 anos quando SARGENTO YORK foi lançado nos cinemas americanos. Entretanto, uma cinebiografia sobre o herói já era planejada desde 1919 pelo produtor Jesse L. Lasky (1880-1958), com York fazendo o próprio papel, mas na ocasião ele recusou, alegando que sua farda “não estava à venda”. Na época em que vivia como um jovem fazendeiro no Tennessee e recrutado para o exército, Alvin tinha cerca de 20 e 21 anos de idade, e a Warner buscava astros mais próximos para desempenhar o biografado – entre eles Henry Fonda, Ronald Reagan (este mais de preferência com o estúdio), e James Stewart. Mas Alvin York reprovou todos os três e veio com a exigência de que o filme baseado em sua vida e em seus feitos gloriosos na I Guerra Mundial só seria rodado se Gary Cooper fizesse seu papel.  O mesmo Lasky estaria por trás da produção, juntamente com Hal B. Wallis e o diretor Howard Hawks.

Bette Davis visitou o amigo Gary Cooper no set de filmagem de SARGENTO YORK (1941).
Samuel Goldwyn.
A princípio, Cooper ficou com receio de interpretar uma celebridade que ainda estivesse viva e relutou bastante em pegar o papel. E ainda havia outro problema, porque Gary não era um ator contratado pela Warner e sim dos estúdios de Samuel Goldwyn. Mas após longas negociações entre os executivos da Warner e os executivos de Samuel Goldwyn, ficou resolvida que a empresa de Goldwyn cederia para Warner Brothers Gary Cooper para fazer Sargento York, e em troca, a contraparte emprestaria sua estrela de maior constelação, Bette Davis, para fazer Pérfida (The Little Foxes, 1941) de William Wyler, a ser realizado pela companhia de Samuel Goldwyn e distribuído pela RKO.

Gary Cooper e Alvin C. York.
Cooper, que já tinha 40 anos, era considerado velho para viver um jovem matuto do Tennessee, mas isto não impediu que o verdadeiro York requisitasse o astro para desempenhar seu papel, pois segundo palavras do próprio biografado, somente Gary Cooper exercia este poder. York participou como consultor técnico e acompanhou inúmeras filmagens ao lado de Howard Hawks. Mas certo dia, um membro da equipe, sem o menor tipo de noção ou tato, lhe perguntou quantos alemães ele havia matado. York começou a soluçar de forma tão veemente que acabou passando mal no set de filmagem. Este membro da equipe só não foi demitido porque, de forma muito nobre, York pediu que não o despedissem.

Joan Leslie, de 16 anos, viveu a personagem Gracie Williams, namorada de York.
Além da exigência de ter Gary Cooper fazendo seu papel, Alvin York ainda exigiu que parte das rendas do filme fosse beneficiada para a escola bíblica que ele havia construído no Tennessee, e que nenhuma atriz adepta do tabagismo interpretasse Gracie, sua esposa, muito embora Ann Sheridan e Jane Russell, fumantes inveteradas, fossem consideradas para o papel. A parte da esposa do biografado recaiu para a jovem Joan Leslie (1925-2015), de 16 anos, a mesma idade da verdadeira Gracie na época em que namorava York. 

Alvin York se torna o bastião de seu pelotão durante a Primeira Guerra Mundial...
matando 25 soldados alemães e capturando outros 132. Por sua bravura e coragem demonstradas no front...
SARGENTO YORK recebe as maiores condecorações e honras concedidas à um herói.
Cineastas como Victor Fleming, Michael Curtiz, Henry Koster, e Norman Taurog, se recusaram a dirigir o filme antes mesmo que o projeto fosse oferecido a Howard Hawks, que aprovou a atuação de Gary Cooper, sendo o diretor um dos grandes responsáveis pela sua indicação para um prêmio na Academia. A festa anual da premiação da Academia de Hollywood havia sido cancelada, pois dois meses antes, com o ataque a Pearl Harbor pelos japoneses, os Estados Unidos entraram na II Guerra. Mas Bete Davis, que era então presidente da Academia naquele ano, resolveu abrir a cerimônia para o público, vender entradas, e entregar os prêmios num grande auditório, e doar os lucros a Cruz Vermelha. Os diretores do evento, no entanto, acharam que, apesar da Guerra, a cerimônia deveria continuar, sendo privativa da indústria cinematográfica. Bette não concordou com isso e prontamente pediu renúncia do cargo. Ao jantar, compareceram 1.600 pessoas – recorde até então.

O regresso do Sargento Alvin York (Gary Cooper) aos Estados Unidos, e ao seio da família.
De volta ao lar, o Sargento York (Gary Cooper) recebe mais honrarias e condecorações.
Gary Cooper recebe sua primeira premiação ao Oscar nas mãos do Tenente James Stewart (que estava servindo na II Guerra) por seu desempenho como o SARGENTO YORK (1941).

E SARGENTO YORK concorreu para sete indicações: melhor filme, melhor diretor (Howard Hawks), melhor ator (Gary Cooper), melhor ator coadjuvante (Walter Brennan), melhor atriz coadjuvante (Margaret Wycherly), melhor montagem, e melhor roteiro adaptado. E o filme foi premiado com duas estatuetas: Melhor montagem (William Holmes, 1904-1978) e melhor ator do ano para Gary Cooper, que conquistou seu primeiro Oscar (o segundo viria 11 anos depois, por sua performance em Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann). Ao receber a premiação das mãos de James Stewart, que então estava servindo como Tenente da Força Aérea e que havia vencido no ano anterior por seu papel em Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story), Gary Cooper dedicou o prêmio ao verdadeiro Sargento York, que estava na plateia. Cooper lamentou não poder ter se alistado na II Guerra como os demais astros de sua época devido à idade e a uma antiga lesão em seu quadril, mas sentiu que seu desempenho em SARGENTO YORK foi uma forma de contribuir para a causa. Cooper ainda ganhou pelo papel o Prêmio da Crítica de Nova York em 1941. 


Gary viria a dizer tempos depois:

- O Sargento Alvin C. York e eu tínhamos algumas coisas em comum antes mesmo que eu pudesse interpreta-lo: nós dois fomos criados nas montanhas. Ele vem das montanhas do Tennessee e eu das montanhas de Montana, e ambos aprendemos a andar e a atirar como parte do crescimento. “Sargento York” me deu um Oscar, mas não é por isso que seja meu filme favorito. Eu gostei do papel porque, no fundo, eu retratava um ícone que simbolizava o caráter e a grandeza dos Estados Unidos.

O Herói real e seu intérprete nas telas.
A estreia americana de SARGENTO YORK foi em Nova York, a 2 de julho de 1941, tendo como anfitriões Gary Cooper e o próprio Alvin. C. York. No Brasil, a obra de Howard Hawks chegou aos nossos cinemas em 1943, onde o público brasileiro prestigiou a quieta e energética atuação de Gary Cooper. Sua atuação foi base de um filme de inteligente manipulação a favor da causa americana na II Guerra, mas ao mesmo tempo, se tornou um delicioso entretenimento com misto de drama pastoral adicionada à uma eletrizante aventura bélica aos moldes da era de ouro de Hollywood.

O busto do Sargento Alvin C. York, no Tennessee.
E o autêntico Alvin Cullom York morreu em sua casa, em Nashville, Tennessee, a 2 de setembro de 1964, três anos depois da morte de Gary Cooper, seu intérprete no cinema, deixando sua esposa Gracie (falecida em 1984) e sete filhos. 

Divulgação do filme pelos jornais do Rio de Janeiro, em 1943.
FICHA TECNICA

SARGENTO YORK
(SERGEANT YORK)

País – Estados Unidos

Ano – 1941.

Gênero: Guerra/Biográfico

Direção: Howard Hawks.

Produção: Howard Hawks, Jesse Lasky, e Hal B. Wallis, para a Warner Brothers.

Roteiro: John Huston, Abem Finkel, Harry Chandlee, e Howard Koch, baseado no diário de Guerra do Sargento Alvin C. York.

Música: Max Steiner.

Fotografia: Sol Polito, em Preto & Branco.

Edição: William Holmes.

Metragem: 135 minutos.



ELENCO
Gary Cooper -  Alvin C. York
Walter Brennan - Pastor Rosier Pile
Joan Leslie      - Gracie Williams
George Tobias - Ross
Stanley Ridges -    Major Buxton
Margaret Wycherly      - Mãe de Alvin York
Ward Bond - Ike Botkin
Noah Beery Jr. - Buck Lipscomb
June Lockhart - Rosie York
Dickie Moore - George York
Clem Bevans - Zeke
Joe Sawyer      - Sgt. Early
Gig Young - Soldado
Harvey Stephens - Capt. Danforth
Carl Esmond - Major alemão
Pat Flaherty - Sgt. Harry Parsons
Frank Wilcox - Sargento
Charles Middleton - Alpinista
Charles Trowbridge - Cordell Hull
David Bruce - Bert Thomas
Robert Porterfield - Zeb Andrews
Erville Alderson - Nate Tomkins
Tully Marshall- Tio Lige
Douglas Wood - Major Hylan

PAULO TELLES
Produção e Pesquisa.

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