domingo, 11 de setembro de 2016

Paixão dos Fortes (1946): Wyatt Earp na visão Lírica e Romântica do Mestre John Ford.


É sabido que o Marshal, o Homem da Lei Wyatt Earp (1848-1929) é um dos grandes mitos do Velho Oeste americano, cuja figura e história já foram retratadas inúmeras vezes nas telas de cinema, recebendo até mesmo grande exaltação por parte de muitos diretores e produtores. Earp se tornou popular da noite para o dia no ano de 1931, quando o escritor Stuart Lake (1889-1964) publicou o livro “Wyatt Earp, Frontier Marshall” (Wyatt Earp, o Delegado da Fronteira), narrando as “façanhas” do então desconhecido delegado, que dois anos antes apenas havia falecido. Diferente de outros mitos do Oeste americano, cuja fama já havia alcançado ainda em vida, com Wyatt Earp foi o contrário. Ele só ficou famoso mesmo dois anos depois de sua morte, em 1929.


JOHN FORD (1895-1973): Um dos maiores cineastas de todos os tempos!
PAIXÃO DOS FORTES (1946) - As filmagens.
O livro por ser quase inteiramente escrito na primeira pessoa, fez crer a todos que se tratava de uma verdadeira autobiografia. Stuart Lake assegurava aos seus leitores ter transcrito para o papel as palavras que ouvira do próprio Wyatt, sobre si mesmo e os acontecimentos. Mas anos depois, enquanto o livro atingira seu sucesso editorial, Lake declarou que tudo que havia escrito era de sua autoria e de sua inteira responsabilidade. Desmentia sua afirmação anterior, revelando que Wyatt não lhe havia fornecido dado algum e que o livro divulgava apenas boatos, sem fatos comprobatórios. 


Henry Fonda, Linda Darnell, e Victor Mature:
PAIXÃO DOS FORTES (1946).
Henry Fonda é Wyatt Earp, o Implacável
"mocinho" de Tombstone.
Mas produtores de cinema e roteiristas não se importaram com isso, e viu que mesmo sendo “boatos”, as “façanhas” de Wyatt Earp poderiam render uma boa bilheteria. Mas para isso, Hollywood precisou erguer um monumento ao finado “Leão de Tombstone”, como um heroico e implacável lawman e “homem sem máculas”, um “mocinho” ao estilo dos filmes de faroeste que o verdadeiro Earp nunca fora na vida. Foi assim que o cinema investiu na legenda romântica dos verdadeiros mitos do Velho Oeste, e um dos maiores cineastas de todos os tempos colaborou muito para a personificação de muitos destes, onde a lenda sempre é mais impressa do que os verdadeiros eventos.


Fonda é Wyatt Earp - Victor Mature como Doc Holliday, e
Linda Darnell como sua amante 
Chihuahua 

Paixao dos Fortes (My Darling Clementine), de 1946, é uma das versões cinematográficas mais clássicas da “história” do famoso Marshall, derivado justamente do livro de Stuart Lake, cujo enredo já havia sido lançado no cinema em 1939 com Randolph Scott no papel de Earp e Cesar Romero como Doc Holliday, no filme A Lei da Fronteira (Frontier Marshall), e cujo roteiro também serviu de base para Paixão dos Fortes. Sete anos depois o cineasta John Ford (1895-1973) resolveu recontar a saga de Wyatt e seus irmãos, e de suas ligações com o jogador John “Doc” Holliday (1851-1887), sem se preocupar com fatos históricos, mas impondo o lirismo romântico tipicamente fordiano na evocação da legenda.


Victor Mature é Doc Holliday, um médico fracassado que
virou alcoólatra e tuberculoso, mas um dos homens fortes de
Tombstone. 
Wyatt Earp (Fonda) rende "Old Man" Clanton, vivido por
Walter Brennan.
Paixão dos Fortes é uma das obras primas que lançou a mitologia do western no cinema americano, particularmente em torno do famoso confronto de OK Corral, um dos mais célebres tiroteios do Velho Oeste, ocorrido a 26 de outubro de 1881, entre Doc Holliday, Wyatt Earp e seus irmãos, contra os homens de Ike “Old Man” Clanton. Mas o que mais podemos contar a não ser a pretensão do diretor John Ford em contar as lendas e os mitos? Sem dúvida, ele era um bom contador de “causos” das lendas do Oeste Americano, se tornando até mesmo um “Homero” na cultura cinematográfica, e isto porque tal e qual o contador de histórias da Grécia Antiga, Ford criou um imaginário de heróis, mitos, bravura, e moral. Logo, a pretensão do diretor de Paixão dos Fortes não era de contar o que realmente aconteceu e sim em retratar a integridade e a coragem de alguns homens que formaram Oeste americano, que por sua vez, acabou formando os Estados Unidos.


Henry Fonda como Wyatt Earp
Walter Brennan em um desempenho impecável como o vilão
"Old Man" Clanton.
Henry Fonda (1905-1982) vive Wyatt Earp, que acaba aceitando o posto de Xerife de Tombstone, Arizona, a fim de se vingar do assassinato de seu irmão caçula, James (Don Garner, 1923-2012), morto por “Old Man” Clanton (Walter Brennan, 1894-1974) e seus filhos. Para enfrenta-los, Earp conta com a ajuda de seus irmãos Morgan (Ward Bond, 1903-1960) e Virgil (Tim Holt,1918-1973), e ainda do jogador  “Doc” Holliday (Victor Mature, 1913-1999), médico fracassado que acabou se tornando alcoólatra e tuberculoso, que vive tumultuado romance com a mexicana Chihuahua (Linda Darnell, 1921-1965).


Doc Holliday (Mature) e Chihuahua (Linda Darnell) - Um
romance tórrido.
Wyatt e seus irmãos Morgan (Ward Bond) e Virgil (Tim Holt)
Quando Chihuahua e Virgil são eliminados pelo bando dos Clanton, Wyatt parte para a desforra contra “Old Man” e seus filhos, no famoso tiroteio de OK Corral, planejando um futuro pacífico com a doce Clementine Carter (Cathy Downs, 1926-1976), ex-noiva de Holliday, por quem se apaixonou.


Wyatt e Clementine (Cathy Downs), ex-noiva de Doc, que
chega a cidade.
Mesmo sendo um homem da lei, Wyatt é um exímio jogador,
sendo observado por 
Chihuahua 
Paixão dos Fortes marcou a volta de John Ford ao Western, pois desde 1939 quando lançou uma de suas obras máximas do estilo, No Tempo das Diligências, o cineasta não rodava um filme do gênero. Além disso, o filme é seu único Western a focalizar personagens históricos (sem contar um dos episódios que ele dirigiu para A Conquista do Oeste, em 1962), e passados 70 anos de seu lançamento, continua sendo para os críticos uma das mais admiráveis criações do Mestre John Ford.


Chihuahua, a namorada de Doc Holliday, antipatiza com Earp
Doc e Wyatt: amizade selada, confrontos à vista.
Henry Fonda, em magistral atuação, é um Wyatt Earp bem antológico, que não se preocupa em mostrar sua bravura, um ser sensível, mesmo que sem coragem para demonstrar, solitário, mas um amigo fiel e leal até o fim. Victor Mature, sempre considerado um canastrão ao longo de sua carreira, tem aqui o seu melhor papel (junto com outro western, O Tirano da Fronteira, de Anthony Mann, em 1956), graças aos esforços de Ford em lhe arrancar uma sólida interpretação como um decadente Doc Holliday, um médico que veio do mundo refinado do Leste, mas que foi atrás de aventuras no Oeste violento, onde acabou se tornando amigo de Wyatt, e ao lado dele combater os homens de Clanton.  Uma das coisas a fugir dos eventos verdadeiros neste clássico de Ford é ver Holliday como um médico, quando na verdade ele era um dentista formado, e outra que em Paixão dos Fortes, ele acaba morrendo no confronto de Tombstone, quando o verdadeiro Doc Holliday morreu num sanatório seis anos depois acontecimento, a 8 de novembro de 1887, de tuberculose. 


Chihuahua e Doc Holliday
Na "Paixão" de Ford, Doc Holliday perde a vida no confronto
do OK Corral.
Adeus, querida Clementine!
Com roteiro de Samuel G. Engel (1904–1984), que também é o produtor, e Winston Miller (1910–1994), Paixão dos Fortes tem a fotografia em preto & branco de Joseph MacDonald (1906-1968), e musica de Cyril J. Mockridge (1896–1979), com arranjos de Alfred Newman (1901-1970). No Brasil, o filme foi lançado em abril de 1947.


Exibido nas salas cariocas em abril de 1947.
FICHA TECNICA
PAIXAO DOS FORTES

ANO DE PRODUÇÃO: 1946

TÍTULO ORIGINAL: MY DARLING CLEMENTINE

DIREÇÃO: JOHN FORD

PRODUÇÃO: SAMUEL G. ENGEL - PARA 20th CENTURY FOX

ROTEIRO: SAMUEL G.ENGEL, WINSTON MILLER – Baseado em livro de STUART LAKE

FOTOGRAFIA: JOSEPH MACDONALD (PRETO & BRANCO)

MUSICA: CYRIL J. MOCKRIDGE- ARRANJOS DE ALFRED NEWMAN

METRAGEM: 97 MINUTOS

ELENCO

HENRY FONDA – WYATT EARP
LINDA DARNELL – CHIHUAHUA
VICTOR MATURE – DOC HOLLIDAY
CATHY DOWNS – CLEMENTINE CARTER
WALTER BREENAN – OLD MAN CLANTON
TIM HOLT – VIRGIL EARP
WARD BOND – MORGAN EARP
ALAN MOWBRAY – GRENVILLE THORNDYKE
JOHN IRELAND – BILLY CLANTON
ROY ROBERTS – PREFEITO
JANE DARWELL – KATE NELSON
GRANT WITHERS – IKE CLANTON

PRODUÇÃO E PESQUISA DE

PAULO TELLES

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EM TEMPO
IN MEMORIAN 


HUGH O’ BRIAN (1925-2016)

Esta semana o cinema e a televisão perdeu um de seus grandes ícones, Hugh O’ Brian, que participou de centenas de filmes, e foi um nome muito conceituado no gênero Western, participando de inúmeros trabalhos do gênero, tanto que em 1955 estrelou a série de TV Wyatt Earp, em seis temporadas entre 1955 a 1961, onde viveu o legendário Marshall. A série impulsionou a notoriedade de O’ Brian, que já havia feito inúmeros trabalhos no cinema, como em A Lei do Bravo (1955, de Robert D. Webb), A Lança Partida (1954, de Edward Dmytryk), Pacto de Honra (1954, de Raoul Walsh), Tambores da Morte (1954, de Nathan Juran), entre outros.


Hugh O' Brian junto a Earl Holliman, Robert Wagner, Jean
Peters, e Richard Widmark: A LANÇA PARTIDA (1954)
Hugh O' Brian e Jeffrey Hunter, índios Cheyennes em
A LEI DO BRAVO (1955)
Hugh O`Brian, nasceu a 19 de abril de 1925, em Rochester, Nova York. Foi descoberto para a televisão pela atriz e diretora Ida Lupino (1918-1995), que lhe abriu as portas para um contrato com a Universal Studios, mas ficando restrito a papéis secundários. Ao término do contrato com a Universal, em 1955, estabeleceu um grande sucesso na televisão com a série Wyatt Earp por um período de seis anos. Direcionou seus talentos como cantor e atuou em espetáculos da Broadway. 


Hugh O' Brian como Wyatt Earp, na famosa série de 1955 a 1961.
Hugh O' Brian na década de 1980
Em 1976, O’ Brian participou do último filme de John Wayne, O Último Pistoleiro, de Don Siegel, onde interpretou um dos tantos pistoleiros que queriam mata-lo. Em 1994, O' Brian, então com 69 anos, reviveu Wyatt Earp num filme especial para a TV. Na vida particular, permaneceu um solteirão convicto praticamente a vida inteira, até se casar em 2006, quando já contava 81 anos de idade, com Virginia Barber, sua companheira de relacionamento durante 18 anos. O’ Brian, que não atuava desde o ano 2000, estava cotado para participar de um filme esse ano. 


Foto mais recente de Hugh, ao lado de outra lenda
televisiva do faroeste, o gigante Clint Walker.
Hugh O' Brian e Robert Wagner (com quem contracenou em
A LEI DO BRAVO e A LANÇA PARTIDA), em evento de 2015.
Hugh O’ Brian morreu a 5 de setembro em sua casa em Beverly Hills, de causas naturais, aos 91 anos de idade.

PAULO TELLES -  EDITOR

domingo, 4 de setembro de 2016

Casa de Bambu (1955): Samuel Fuller e um conto sobre Gangsters em Tóquio.


Casa de Bambu (House of Bamboo) realizado em 1955 pelo cineasta Samuel Fuller (1912-1997) foi uma das mais brilhantes utilizações do Cinemascope já exploradas no mundo da Sétima Arte. Com o surgimento desta nova técnica em formato de projeção que acabou revolucionando esteticamente todo o cinema desde então, nada mais imperativo do que levar suas câmeras para a “Terra do Sol Nascente”, o Japão.  O novo processo de tela exigia que fossem produzidas fitas onde as locações fossem lugares autênticos, e logo as plateias clamavam por novas paisagens. Se a Metro-Goldwyn-Mayer foi a pioneira no “continente negro”, a África, através da obra As Minas do Rei Salomão (King Solomon's Mines, 1950), de Andrew Marton e Compton Bennett- A Fox seria a primeira in loco a explorar o misterioso oriente.


O Cineasta Samuel Fuller (1912-1997)
Coube a Buddy Adler (1909-1960), produtor e roteirista, a responsabilidade de coordenar os quatro primeiros filmes da Fox rodados no Japão. Um deles conquistou as plateias, obtendo enorme sucesso de bilheteria: Suplício de uma Saudade, em 1955. Depois, dois filmes dirigidos por Edward Dmytryk, que em realidade nada acrescentaram de novo a sua carreira de diretor, embora fosse curioso ver Humphrey Bogart vestido de padre em Do Destino Ninguém Foge, e Clark Gable como “soldado da fortuna” em O Aventureiro de Hong Kong, ambos realizados também em 1955.  Entretanto, um quarto filme produzido por Buddy Adler chama a atenção por elevar-se acima dos três já destacados, e é justamente Casa de Bambu. Como podemos observar 1955 foi um ano de boa safra para a indústria de cinema da 20th Century Fox. 


O Produtor Buddy Adler (1909-1960)
Produzido há 61 anos, a fita não envelheceu e continua a fazer jus como um espetáculo de destaque onde resiste à erosão do tempo, esta, inimigo implacável do cinema e de tudo.  No entanto, é justamente quando se faz uma revisão dos clássicos, alguns podem perder parte da magia cinematográfica, mas não é o que ocorre com essa obra de Samuel Fuller, que soube solidar Casa de Bambu como um dos grandes trabalhos da fase pioneira do Cinemascope.

CASA DE BAMBU (1955) - Um Conto sobre Gangsters em Tóquio.
De fato, a trama não apresenta novidades, onde se trata de um conto de gangsters, cuja ação em vez de se passar em Chicago ou Nova York é transferida para Tóquio, sem todavia mudar os métodos de um excitante filme policial. Para o diretor Fuller, representou um de seus mais expressivos triunfos em sua carreira irregular, cheia de altos e baixos, onde o equilíbrio aqui exposto é tão raro que, quando corre, parece ser obra do acaso.


Robert Ryan é Sandy Dawson, o líder da organização criminosa.
Robert Stack é o Sargento Eddie Kenner, escalado para investigar
e desbaratar a quadrilha de Dawson.
Contudo, Sam Fuller era um cineasta imprevisível, admirado por Jean-Luc Godard, mas que mesmo sendo um dos grandes nomes da cinematografia mundial, foi um diretor que não soube manter seus filmes a altura dos prólogos. Quanto a isso, já se fez até piadas de humor bem construtivo sobre o cineasta e com alguma razão, pois as sequencias que antecedem os letreiros é sempre o que há de melhor em seus filmes. Entretanto, o mesmo não ocorre com Casa de Bambu, pois seu prólogo não oferece nenhuma surpresa excepcional, servindo apenas como introdução da trama, onde se revela os métodos da gang chefiada pelo mafioso americano Sandy Dawson (Robert Ryan, 1909-1973).


Sob uma identidade falsa, de Spanier, Kenner procura a todo
custo a localização da quadrilha.
Enfim, Kenner os localiza, e ainda se infiltra na quadrilha, conquistando a simpatia de Dawson (Robert Ryan), sob os olhares enciumados de Griff (Cameron Mitchell)
Em Tóquio na década de 1950, um soldado americano é morto durante assalto ao trem militar onde foram roubadas armas e munições. Contudo, é enviado para o Japão o sargento do exército americano Eddie Kenner (Robert Stack,1919-2003) para investigar e desbaratar esta quadrilha liderada por Dawson, formada por americanos que agem no Japão e que foram combatentes durante a Segunda Guerra. Para isso, o sargento precisa assumir uma nova identidade, sob o nome de Eddie Spanier.


Breve, Eddie Kenner tem um relacionamento amoroso com Mariko
(Shirley Yamaguchi), ex-namorada de um dos membros da
quadrilha de Dawson.
Mariko e Eddie.
O modus operandi de Sandy Dawson e sua quadrilha são muito peculiares. Eles assaltam os trens, mata quem estiver por perto estrangulando com correntes, e como norma de conduta da operação, é nunca socorrer os colegas feridos, mas sim elimina-los. A quadrilha sempre age como se estivessem em território americano, cujos métodos brutais eles fazem questão de repercutir em território japonês. Mais tarde, sem que a câmera revele, outro assalto desse porte é executado, ficando mortalmente ferido um membro da quadrilha com o mesmo tipo de projétil que foi morto o soldado americano.  Este fato e mais uma foto da amante japonesa do assaltante morto, permite que o sargento Kenner a conheça e trave contato com ela. O nome da amante é Mariko (Shirley Yamaguchi, 1920-2014) e o sargento a pressiona, contudo ele tem que se passar por chantagista barato para conseguir informações que podem leva-lo a quadrilha.


Sandy Dawson entre Eddie Kenner e Mariko
Eddie Kenner se torna braço direito de Dawson.
Após algumas investigações, Kenner descobre que a quadrilha “controla” a região, além de casas de jogos, e em um destes estabelecimentos, é que inesperadamente o sargento leva um soco de um dos membros da gang, Griff (Cameron Mitchell, 1919-1994), que acaba caindo aos pés do líder da quadrilha, Sandy Dawson. Após várias experiências, Kenner convence Dawson a entrar para a quadrilha, e convencido que ele pode ser de grande ajuda para a organização, Dawson o convida para ingressar, mal sabendo que é um espião infiltrado para desbaratar sua quadrilha. Mas Kenner implacavelmente combate de modo repressivo os marginais, onde ao fim se tem a clássica e vistosa perseguição deste a Dawson, com a indiscutível vitória da lei sobre o crime, perseguição esta que remete o espectador a um clima de suspense Hitchcockiano.


Uma das cenas mais fortes do filme: o assassinato de Griff (Cameron Mitchell) enquanto tomava banho, por Dawson (Robert Ryan)
Dawson descobre um traidor e informante...mas ele acabou
matando a pessoa errada.
Embora tenha um objetivo definido, Casa de Bambu não segue apressado numa linha reta, preferindo fazer algumas revelações ocasionais, deter-se no comportamento psicológico dos personagens, na questão racial, levantada através do suave romance de Kenner com Mariko. Talvez por influencia do ritmo oriental, Samuel Fuller conduz a narrativa com segurança sólida e tranquilidade, num clima de tensão latente, que por vezes  explode violentamente na cena em que Dawson (Robert Ryan) mata Griff (Cameron Mitchell) em pleno banho.


Robert Ryan, ator de competência, é o maior destaque entre
os intérpretes em CASA DE BAMBU (1955)
Fora esses rompantes sempre oportunos e cinematograficamente eficientes, Casa de Bambu é um filme tranquilo e dosado apesar do tema violento, onde o cineasta Fuller evidencia completo domínio do Cinemascope, e numa época em que este processo de projeção ainda era um problema, pois entre outras coisas, tinha a tendência a padronizar os estilos.  Quando exibido no Brasil, em abril de 1956, fez parte de um Festival de Cinemascope, promovido pelo Cine-Palácio, no Rio de Janeiro.


Robert Stack e Shirley Yamaguchi
O que torna Casa de Bambu capaz de despertar seu interesse é a inegável e absoluta competência do diretor Samuel Fuller, um realizador que deu provas constantes do domínio difícil de suas atividades. Fuller além de cineasta também era jornalista, romancista, e roteirista. Em Casa de Bambu, Fuller não é somente um artesão capacitado que soube manejar os recursos meramente técnicos. Sua direção é viva, através de uma narrativa ágil e na maneira inspirada de muitas das cenas, ou no controle vigoroso dos intérpretes. Além disso, o diretor soube captar com muita sensibilidade os exteriores japoneses, que valorizam o filme.


Robert Ryan e Robert Stack
Casa de Bambu em realidade é baseada no roteiro de Harry Kleiner (1916-2007) para o filme Rua Sem Nome (The Street with No Name), de 1948 e dirigido por William Keighley, onde a trama se concentra justamente sobre um agente do FBI (vivido pelo inexpressivo Mark Stevens) que se infiltra numa quadrilha liderada por um gangster (vivido por Richard Widmark) com o objetivo de desbaratá-la. O roteirista Kleiner reescreveu a história, dessa vez passando toda a ação para o Japão, e Samuel Fuller colaborou com diálogos adicionais. A trilha sonora de Leigh Harline (1907–1969) é também um dos pontos altos da fita.De acordo com o diretor Fuller, Gary Cooper estava praticamente escalado para interpretar Eddie Kenner, entretanto, por Cooper ser bastante conhecido no Japão, seria muito difícil ele passar incógnito no meio de tantos transeuntes  sem ser reconhecido, por isso, Robert Stack, menos popular na época, foi escolhido para o papel. Victor Mature também chegou a ser considerado para o mesmo papel. 


CASA DE BAMBU (1955) - Shirley Yamaguchi, Robert Stack, Robert
Ryan, e Reiko Sato
Entre os membros da equipe técnica, destaca-se a fotografia de Joseph MacDonald (1906-1968), fotógrafo de alto gabarito, grande aliado de qualquer diretor. O nível de interpretações é de alto nível, onde Robert Ryan lidera e domina graças a sua vigorosa presença, chegando a ofuscar até mesmo o desempenho de seu xará, Robert Stack, o herói da trama. Ryan era um dos atores prediletos de Samuel Fuller (outro era Lee Marvin), entretanto foi uma única que vez que esse brilhante ator atuou para o cineasta. Entre os coadjuvantes, destaque para o ótimo Cameron Mitchell, cuja figura tensa lhe proporciona uma de suas melhores atuações, no papel do enciumado braço direito de Sandy Dawson, cujo lugar perderá com a admissão de Kenner na quadrilha. 


CASA DE BAMBU foi exibido nas salas cariocas em abril de 1956, dentro de um Festival de CinemaScope promovido pelo Cine-Palácio, no Rio de Janeiro, juntamente com outras obras do estúdio.
Enfim, Casa de Bambu é um policial cheio de vícios e virtudes, próprios e naturais em histórias do gênero, mas realizado com muita competência e habilidade, em estilo inconfundível de Samuel Fuller.




FICHA TÉCNICA
CASA DE BAMBU
(House Of Bamboo)

País – Estados Unidos (locações no Japão)
Ano: 1955
Direção: Samuel Fuller
Estúdio: 20th Century Fox
Roteiro: Harry Kleiner e Samuel Fuller
Trilha Sonora: Leigh Harline
Fotografia: Joseph MacDonald (em cores)
Metragem: 102 minutos

elenco
Robert Ryan – Sandy Dawson
Robert Stack – Eddie Kenner
Shirley Yamaguchi- Mariko
Cameron Mitchell – Griff
Brad Dexter – Capitão Hanson
Sessue Hayakawa – Inspetor Kito
Biff Elliot – Webber
Robert Quarry – Phill
De Forest Kelley – Charley
Reiko Sato – Garota de Charley

PRODUÇÃO E PESQUISA
Paulo Telles

domingo, 28 de agosto de 2016

Ben-Hur: A Saga Imortal Através dos Tempos – Parte 2


Continuando a matéria sobre BEN-HUR onde já foi abordada sobre a origem do romance publicado em 1880 e escrito pelo General Lewis Wallace (1827-1905), militar e político americano, herói da União durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), como também sobre as três versões cinematográficas (1907, 1926, e 1959), sendo que a mais popular é a dirigida por William Wyler e estrelada por Charlton Heston, insuperável em prêmios da Academia (11 Oscars), inesgotável em arte e estilo.

Agora em vista da nova versão que já chegou aos cinemas, sob direção do russo Timur Bekmambetov e  estrelada por Jack Huston no papel principal, Morgan Freeman como Ilderin, e o brasileiro Rodrigo Santoro como Jesus Cristo, daremos prosseguimento a matéria contando sobre outras homenagens que a superprodução de Wyler recebeu ao redor do mundo e a essência do filme de 1959. Também será falado de versões do romance de Wallace em desenho animado, sendo que em uma delas o veterano Charlton Heston, então com 80 anos, emprestou sua voz para dublar o personagem. A versão televisiva de 2010 e comentários do editor sobre a nova versão também serão consideradas.

Fiquem agora com a segunda parte de BEN-HUR: A SAGA IMORTAL ATRAVÉS DOS TEMPOS.

Boa Leitura!
Por PAULO TELLES

A primeira Parte se encontra neste link: 



I –A ESSÊNCIA DE BEN-HUR DE 1959

Indelevelmente, de todos os superespetáculos épicos-religiosos que já assistimos – tais como Quo Vadis (1951), O Manto Sagrado (1953), e Os Dez Mandamentos (1956), todos estes espetaculares – inquestionavelmente Ben-Hur dirigido por William Wyler (1902-1981) talvez seja o Rei de todos os shows cinematográficos das grandes superproduções do cinema pós-moderno.  As mais devidas honras promovidas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a lhe conferir testifica a qualidade de obra prima da Sétima Arte.

Charlton Heston e William Wyler durante as filmagens.
Podem existir poucas pessoas no mundo que não apreciam o filme, entretanto, não há como negar que a fita de Wyler (um dos maiores artesãos que o cinema já possuiu, embora não gostasse de ser rotulado como um “autor”, segundo a crítica francesa) possui esplêndidas qualidades artesanais e que acabou constituindo num bom espetáculo de entretenimento popular, onde no Brasil (assim como pelo restante do mundo) ficou em cartaz por mais de 20 anos nas salas de cinema sempre em reprises constantes, especialmente durante os períodos de Semana Santa ou Natal. 

Stephen Boyd, Charlton Heston, Haya Harareet, e Ramon Novarro
(o "Ben-Hur" de 1926) - Na noite da premiere de BEN-HUR em 1959.
Ben-Hur é pictoricamente espetacular, graças à primorosa fotografia colorida de Robert Surtess (1906-1985), bastante valorizada pela câmera 65mm, além da cuidadosa e brilhante reconstituição de época de fastígio romano e dos primeiros anos do Cristianismo. Riqueza e pobreza, simplicidade e sofisticação, combinam-se para dar ao espetáculo uma impressão realística da Roma Antiga, garbosa e conquistadora, e da Judeia oprimida e conquistada.  E isso tudo acompanhado da marcante trilha sonora do incomparável Miklos Rozsa (1907-1995), que por sua composição para o filme acabou arrebatando o Oscar de melhor compositor de 1959. Rozsa se tornou um ás das composições cinematográficas para o gênero épico, pois já havia feito trilhas para os filmes Quo Vadis (1951), Ivanhoé, o Vingador do Rei (1952), e Os Cavaleiros da Távola Redonda (1953), e depois de sua premiação por Ben-Hur (o mesmo compositor já havia ganhado o mesmo prêmio pela composição para o filme Quando Fala o Coração em 1946), ainda comporia para El-Cid (1961) e Rei dos Reis (1961). 


Ben-Hur com sua amada romana Flávia (vivida pela italiana
Marina Berti). Um breve relacionamento em Roma, não
muito explorado na obra de Wyler.
Charlton Heston, Stephen Boyd, e Terence Longdon, numa cena
de BEN-HUR, 1959.
Ben-Hur preso as galés.
Sobre Ben-Hur de 1959, trata-se de um épico grandioso e espetacular sobre a agitada e emocionante vida de um príncipe hebreu que, devido a inesperadas circunstâncias, se torna escravo, nobre romano, e é aclamado como herói das corridas de quadrigas,  e cujo destino se cruza, por mais de uma vez, com o de Jesus Cristo. William Wyler, dispondo de um orçamento fantástico, assinou um filme admirável, pela sua dimensão aventureira, romântica, religiosa, mística e heroica, que continua até hoje, passados quase 60 anos de seu lançamento, impressionar pela sua grandiosidade espetacular e pela sua comovente dimensão humana. 

Maria e José chegando a Belém para o Censo de Augusto,
e o nascimento do Redentor.
O Poder e a Glória de Roma.
O Ano do Senhor. É onde começa a história.
Entretanto, em sua essência, é muito mais do que um superespetáculo em sua grandeza épica de cenários, figurinos, e atores inesquecíveis, que fez arrastar multidões aos cinemas de todo mundo. É também um filme cuja história retrata a trajetória de um judeu que vive um conflito entre sua fé, seu patriotismo, nutrido posteriormente pelo desejo de vingança, e por fim ao amor e redenção.

OS TRÊS REIS MAGOS de BEN-HUR de 1959: Finlay Currie
(Balthazar), Richard Hale (Gaspar) e Reginald Lal Sing (Melchior)
Ben-Hur recebido em Roma.
Messala (Stephen Boyd) cruel com Tirzah (Cathy O' Donnell) e
Miriam (Martha Scott).
Sem dúvida, Charlton Heston dá vida ao personagem, em uma atuação segura, viril, e sólida, ao contrário do “quase menino” feito por Ramon Novarro na versão muda de 1926 dirigida por Fred Niblo. O Ben-Hur de Wyler já é um homem formado e bem feito como príncipe e homem de negócios em Jerusalém, mas de índole pacífica, que não esperaria jamais uma traição vinda de um amigo que o tem como um irmão. Stephen Boyd (1931-1977) também esta soberbo como o infame Messala, onde este ator irlandês conseguiu também atingir seu sucesso. 

Charlton Heston como Judah Ben-Hur.
Ben-Hur enfrentando nas pistas seu maior inimigo.
A essência do filme de 1959 não esta apenas na religiosidade e nos conflitos do personagem principal. A grande sequencia da Corrida de Quadrigas, anunciado pelo Departamento da MGM como o Climax Máximus da História do Cinema, foi essencial para o sucesso deste clássico, uma cena que dura apenas quinze minutos nas telas e que propriamente a corrida dita foi filmada em nove meses.  Do momento inicial das fanfarras até que o herói vence e é coroado pelos louros, a sequencia é empolgante e superlativa, seja pela beleza da sua composição plástica, seja pelo emprego admirável da câmera. Aplausos para Andrew Marton (1904-1992) e Yakima Canutt (1895-1986) que foram responsáveis pelo soberbo espetáculo, juntamente com o diretor William Wyler (embora não tenha dirigido esta cena marcante das corridas por determinação sua no contrato, já que o cineasta supervisionou a mesma sequencia na versão de 1926). 

Ben-Hur encontra Jesus de Nazaré.
Wyler realizou muito mais do que um filme ganhador de prêmios, ou um espetáculo grandioso ou visualmente bonito. Ele conseguiu realizar uma obra prima sobre as atitudes humanas através da fé ou do ódio, sendo assim uma poderosa essência de como uma obra cinematográfica pode levar um espectador a seus questionamentos ou reflexões. E não foi a toa, pois em 1995, durante as celebrações do Centenário do Cinema, Ben-Hur figurou numa lista de 45 filmes na categoria de Religião promovida pelo Vaticano, juntamente ao lado de obras culturais como O Evangelho Segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini, Nazarin (1959), de Luis Buñuel, e A Paixão de Joana D’Arc (1928), de Carl Dreyer. Afinal, trata-se de um filme capaz de subverter alguns dos preceitos mais fulcrais de todos os gêneros nos quais se insere, injetando ação em uma história religiosa e arrependimento em uma trama de vingança. No percurso, Ben-Hur transforma-se na obra cristã por excelência, pois indo além da encenação de um relato evangélico, busca traduzir fielmente a noção da misericórdia.


Uma das cenas mais memoráveis do clássico de 1959.
II –O CRISTO SEM FACE DE WYLER

Realmente tocante em sua essência é como o cineasta William Wyler apresentou Cristo do nascimento até sua crucificação, sendo que Jesus é um personagem incidental na trama, mas sua presença é marcante quando ela aparece. Entretanto, sua face nunca é mostrada.

Ben-Hur amparando Jesus durante sua caminhada ao Golghota.
A PAIXÃO DE CRISTO segundo William Wyler em BEN-HUR (1959)
A escolha de não mostrar o rosto de Jesus partiu de Wyler, como uma demonstração de respeito ao autor do romance que deu origem ao seu filme, Lewis Wallace (1827-1905). Considerava essa uma forma de referenciar a crença na divindade de Cristo. Nesse contexto, dar-lhe um rosto seria necessariamente torná-lo mundano segundo sua concepção. Entretanto, este pensamento não vinha só de Wyler. Muitos cineastas de sua época não ousavam mostrar uma face para Jesus se ele não fosse um personagem central, tal como ocorreu nas obras religiosas Quo Vadis (1951) e O Manto Sagrado (1953).

Charlton Heston e Jeffrey Hunter (que foi "Cristo" em REI DOS REIS,
de Nicholas Ray, em 1961) num evento em 1962. Ao fundo, o perfil da
Senhora Heston, Ligia Clarke.
Cecil B. DeMille ousou fazer isso quando lançou sua obra mais importante sobre a vida de Jesus, O Rei dos Reis, em 1927, ainda na fase silenciosa do cinema, com H. B Warner no papel de Cristo. Depois de muito tempo, em 1961, Jesus voltou a ser o centro das atenções para uma fita própria, e Nicholas Ray lançou Rei dos Reis, onde Jeffrey Hunter foi o primeiro ator do cinema contemporâneo a expressar o rosto de Jesus Cristo, com sua apolínea beleza e olhos azuis que fez ser consagrado por alguns críticos como o “mais belo Cristo do Cinema”.

A FACE DE JESUS segundo William Wyler que as câmeras
não focalizaram, o ator Claude Heater, intérprete de Jesus no
BEN-HUR de 1959.
Claude Heater, ator, cantor, e barítono.
No caso do filme Ben-Hur de 1959, cabe aqui destacar a atuação de Claude Heater, que personificou o “Cristo sem face” para William Wyler. Heater nasceu a 25 de outubro de 1927, em Oakland, Califórnia. Sua família era de Mórmons e foi missionário até 19 anos quando decidiu se dedicar a música. Quando serviu na Marinha Americana, entre 1945 e 1946, Heater entrou num curso para aperfeiçoar sua voz, já que manifestava desejo de ser cantor. 

Claude Heater - conceituado barítono e artista.
Adquirindo voz e dicção perfeitas, principalmente como tenor, Claude Heater estreou na Broadway em 1950, onde cantava e fazia até shows de malabarismos. A carreira de Heater em outros espetáculos teatrais e nas óperas chegou tanto ao ápice que recebeu convites para trabalhar na Europa. No final da década de 1950, Claude Heater já era um nome conhecido entre todos os envolvidos nas camadas teatrais dos Estados Unidos e era requisitado frequentemente pelos dramaturgos para algum papel em operetas importantes.

Teste de Claude Heater para o papel de Jesus em BEN-HUR (1959)
Em uma coluna da famosa Louella Parsons (1881-1972), fofoqueira de Hollywood, datado de 31 de julho de 1958, ela menciona Heater: "A difícil tarefa de lançar o papel de Jesus em “Ben-Hur” foi concluída em Roma e surgiu de uma forma incomum. Harry Henningson, o gerente de produção, foi para o concerto de uma jovem cantora americana em Roma e ouviu Claude Heater, cuja voz não é apenas magnífica, mas ele tem um rosto espiritual bonito. Henningson disse a William Wyler e Sam Zimbalist sobre o jovem Heater, e como resultado, fizeram com ele um teste e lhe deram o papel de Jesus. Agora aqui a parte mais estranha: Wyler e Zimbalist tiveram que ir a Europa encontrar esse menino que nasceu em Oakland, Califórnia".

O SERMÃO DA MONTANHA - Uma das cenas em que o rosto de Cristo
nunca é focalizado na versão de BEN-HUR (1959).
Como havia restrições no cinema americano em não exibir a imagem de Jesus ou mesmo mostrar sua voz, a menos que Cristo fosse um personagem central, houve algumas discussões em se fazer duas versões para o filme de 1959. Entretanto, nas primeiras rodagens com Claude Heater, William Wyler ficou satisfeito com o resultado de não mostrar o rosto do cantor e barítono para as plateias, embora fosse um homem muito bonito. 

O diretor William Wyler dando instruções a Claude Heater.
Wyler jamais mostra o rosto do Cristo de Heater, mas lhe dá sempre uma suavidade confortadora, chegando a atingir uma elevação comovente tanto nas sequencias do julgamento de Jesus por Pilatos (Frank Thring), o caminho para o calvário, e a agonia na cruz. 

Jesus é julgado por Pilatos (Frank Thring)
A morte de Jesus.
Após seu trabalho em Ben-Hur de 1959, Heater nunca mais voltou ao cinema, se dedicando sempre ao teatro e as óperas, aonde no ramo teatral chegou também a dirigir grandes espetáculos tanto nos Estados Unidos como pelo resto da Europa. Mas realizou um trabalho na TV belga em 1970, Tristão e Isolda, onde fez o papel de Tristão.

Claude Heater em TRISTÃO E ISOLDA, filme para a televisão
belga em 1970.
Em 2003, Claude Heater e o astro Charlton Heston se reencontraram
em Los Angeles para uma exibição especial do clássico de Wyler.
Em 2003, Claude Heater e Charlton Heston se reencontraram num evento nas dependências da Academia de Artes e Ciências de Los Angeles, para uma exibição especial de Ben-Hur de William Wyler, como os dois últimos astros sobreviventes até então deste grandioso épico.  Heater ainda vive e ainda se dedica a trabalhos no teatro como tenor, produtor, e diretor, e tem um site que ele mesmo administra: http://www.claudeheater.com/


Charlton Heston colhendo os louros em Cannes para a
exibição de BEN-HUR.

III – A GLÓRIA EM CANNES

A posição de Ben-Hur na História da Sétima Arte corresponde no setor material aquela que Cidadão Kane (de Orson Welles, 1941) representa no plano estritamente artístico. Se a obra de Welles reuniu todos os recursos de expressão até então utilizados por diversas escolas no campo visual e sonoro, se tornando o coroamento de sua época e o resumo final de uma fase de investigações estilísticas do cinema, Ben-Hur de William Wyler por sua vez marcou o ponto alto até então na exploração das possibilidades técnicas e materiais da Sétima Arte.

Charlton Heston, Stephen Boyd, e William Wyler.

O cineasta Wyler em ação.
Esta produção colossal reduz as dimensões liliputianas tudo que se fez até hoje em matéria de superespetáculos, mesmo com obras modernas como O Gladiador, de 2000. Afinal, foram dez anos de preparos, um ano para elaborar o roteiro e mais um ano consumido de filmagens. Cem mil figurantes (e tudo sem efeito de computador ou efeitos visuais modernos). Um equipamento elétrico capaz de iluminar uma cidade grande. 375.000 metros de rolo de película. 50 galeras de tamanho real construídas especialmente para as sequencias da batalha naval num lago artificial dos estúdios de Cinecittá, em Roma. Seis câmeras gigantes de 65, ao custo de cada uma US$ 100.000 dólares. Quarteirões inteiros da velha Jerusalém reconstruídos.  

Todo o Cast e equipe posando para uma foto na Arena das corridas.
Cenários com mais 3 hectares para a famosa corrida de quadrigas. Todo esse enorme esforço teve bom resultado. Ben-Hur de William Wyler obteve sucesso comercial nos Estados Unidos, na Inglaterra, e no Japão, indicando que a Metro não teve dificuldades em recuperar mais do que os bons US$ 15.000.000 de dólares de sua produção (uma quantia titânica para a época, ainda mais para um estúdio a beira da falência).

William Wyler se "arriscando" a conduzir uma das quadrigas
Falando aos jornalistas no XIII Festival de Cannes em maio de 1960 quando o filme abriu o evento, William Wyler, falando num francês praticamente sem sotaque, chamou a atenção para o fato de ser o filme, assim como o romance original de Lewis Wallace, uma história de aventuras, antes de tudo, não se devendo excluir do gênero o estilo mais do que ela comporta. E ainda frisou aos jornalistas franceses que seu filme tinha uma profunda mensagem política, pregação de paz e concórdia mundial, sendo uma mensagem de 2000 anos e hoje essencial diante do domínio bélico armazenado pelas nações.

O cineasta Wyler ainda declarou em Cannes:

Jerusalém conquistava para lutar contra os romanos, a liberdade. Hoje, luta  para manter a liberdade ameaçada pelo árabes”. 

Jack Hawkins, Haya Harareet, e Charlton Heston, em intervalo
de filmagem.
Judah e Esther (Haya Harareet)
Wyler ainda deplorou o fato de o filme ter sido proibido pela República Árabe Unida, por dois motivos: havia uma atriz israelense no elenco, Haya Harareet, que viveu Esther (a amada de Ben-Hur) e a caracterização do ator inglês Hugh Griffith (1912-1980), que deu vida ao Xeique Ilderin. Sua atuação considerada pitoresca e divertida por Wyler rendeu ao ator o Oscar de melhor ator coadjuvante, mas os árabes não gostaram nem um pouco da interpretação feita pelo ator inglês. Griffith não estava presente na cerimônia de premiação, sendo representado pelo cineasta para o recebimento do Oscar. 

Ben-Hur e o Xeique Ilderin (Hugh Griffith)
Por conta desses boicotes promovidos pelos árabes a sua obra cinematográfica, o cineasta ainda falou:

São boicotadas na República Árabe Unida as obras em que participaram Edward G. Robinson e Elizabeth Taylor, porque esses artistas contribuíram para a criação e o desenvolvimento do Estado de Israel. Ora, assim sendo, também deveriam ser interditados pelos árabes todos os filmes de Hollywood, pois neles há sempre um ator, um diretor, um produtor ou técnico, que de uma maneira ou outra, ajudaram o Estado de Israel”. 

Charlton Heston carregando o filho Fraser, que cumprimenta
William Wyler, numa pausa das filmagens. 
Apesar dos protestos e críticas bem construtivas do inteligente cineasta contra a ridícula censura, a noite em Cannes foi memorável, e Ben-Hur de 1959 foi aplaudido de pé por mais de 200.000 espectadores e convidados em um dos mais badalados festivais de cinema do mundo.

Charlton Heston e sua publicidade para BEN-HUR, em 1960.
IV- CHARLTON HESTON


A força de Ben-Hur, através de Charlton Heston.
Charlton Heston é uma fortaleza – Declarou William Wyler – ele não poderia ter dado conta de seu papel se não fosse um homem de excepcional força física e resistência, além de ser um ator talentoso. O seu desempenho foi de alto nível. Assim o cineasta William Wyler definiu Charlton Heston.  

Ben-Hur subjugado pelos romanos.
Ben-Hur como remador das galés.
Heston, por sua vez, definiu a si mesmo quando entrevistado em janeiro de 1960:“Conservo-me em boa forma com exercícios. Exercícios enfadonhos e detestáveis. Minha alimentação se resume a bifes e saladas, e tomo constantemente banhos a vapor. Tudo isso me aborrece, mas tenho que estar em forma para ajustar aos meus papéis. Dirigir aquela quadriga em “Ben-Hur” não foi brincadeira, e não tive substitutos na maioria das cenas".

Ben-Hur Vitorioso.
E Heston ainda falou mais sobre seu trabalho em Ben-Hur:

 “Passei nove meses em ensaios e filmagens, em loucas corridas naquela quadriga e fugindo daquela galera em fogo com vigas em brasa desabando sobre mim. Quando ao fim de semana anunciava meu desejo de dar um passeio a cavalo, o diretor (Wyler) e o produtor (Sam Zimbalist) se alarmavam: “Você esta louco, Chuck! Você pode se machucar!””

Adotado por Quintus Árrius, assume Ben-Hur uma identidade romana:
QUINTUS ÁRRIUS, O MOÇO.
Ben-Hur finalmente conquista a liberdade através do
cônsul Quintus Árrius (Jack Hawkins)
Quando Heston foi questionado sobre isso e de declarar estar um pouco farto dos filmes épicos, tendo a oportunidade em atuar em um novo filme do gênero, El-Cid, de Anthony Mann, prestes a ser rodado na Espanha:

“Sim, é verdade que falei que estava um pouco cansado de trabalhar no estilo épico. Eu queria um papel que pudesse me fazer por as mãos no bolso. Não há bolsos em túnicas, togas, mantas, ou batinas como devem saber. Na verdade atuei em um não faz muito tempo: “O NAVIO CONDENADO”, com Gary Cooper, mas infelizmente ninguém foi assisti-lo. E os produtores disseram: “ Estão vendo? Ponham Heston com roupas modernas que ele fracassa””.

Ben-Hur, o Herói símbolo de luta pela liberdade.
Ainda na mesma entrevista, Heston declara:-“Sei que não sou uma grande atração de bilheteria, mas não sou falsamente modesto. Acho que me saí bem em “BEN-HUR”, e acredito nas minhas próprias opiniões. Me lembro bem do que aconteceu durante as filmagens de “DA TERRA NASCEM OS HOMENS”, sob direção de William Wyler. Discordei dele no desempenho de uma cena e discutimos. Entretanto, tirei uma lição com isso, visto que Wyler me fez lembrar de seu currículo e de toda sua obra cinematográfica, sendo que três deles foram premiados com o Oscar. Logo, só pude me calar e dizer a Wyler que faria o que ele quisesse”.

Pôncio Pilatos (Frank Thring) e Judah Ben-Hur (Charlton Heston)
Por sua atuação na obra de Wyler, Heston ganhou o Oscar de melhor ator de 1959. Na premiação, dedicou a estatueta a Sam Zimbalist, produtor do épico, que morreu de um súbito ataque do coração perto do fim das filmagens. O astro se imortalizou no papel de Ben-Hur e se consagraria ainda mais em outros personagens épicos e históricos. Havia interpretado Moisés em Os Dez Mandamentos (1956), o Presidente Andrew Jackson em O Destino me Persegue (1953) e em Lafitte, o Corsário (1958), e ainda seria El-Cid (1961), Michelangelo em Agonia e Êxtase (1965), São João Batista em A Maior História de Todos os Tempos (1965), Cardeal Richelieu em Os Três Mosqueteiros (1974), e São Thomas Morus na refilmagem para a TV de O Homem que não Vendeu sua Alma, em 1988. Um ator como poucos que exercia carisma em seus desempenhos, e convencia como ninguém como o herói épico ou ícone histórico por excelência.

O jornalista Artur da Távola (1936-2008)

V- ARTUR DA TÁVOLA SOBRE BEN-HUR DE 1959

Depois de 20 anos em temporadas nos cinemas brasileiros (muitos destes já extintos), e principalmente em exibições nas épocas de Semana Santa ou Natal, Ben-Hur estreou na TV brasileira em início de setembro de 1984, pela Rede Globo de Televisão, sendo o épico de William Wyler de quase 4 horas de projeção exibido em duas partes no horário nobre. 

BEN-HUR (1959): Sucesso nos cinemas de todo o Brasil até as
décadas de 1970 e início de 80
O sucesso do filme de William Wyler foi tão estrondoso após
o seu lançamento que o público carioca exigiu mais alguns dias
de exibição
Na coluna do saudoso jornalista, crítico, escritor, político, e notável humanista, o saudoso Artur da Távola (1936-2008), em um de seus artigos dominicais no Jornal O Globo, pela “Revista da TV” a 9 de setembro de 1984, dedicou umas breves linhas para falar de Ben-Hur com Charlton Heston em sua primeira exibição pela TV brasileira.  Abaixo, será reproduzida a pequena matéria que o grande crítico escreveu sobre a obra prima de William Wyler:

Charlton Heston é BEN-HUR (1959)
Ben-Hur Não Envelheceu

De Artur da Távola
(originalmente de sua coluna da “Revista da TV”, Jornal O Globo, a 9/9/1984, domingo).

Uma das oportunidades trazidas pela televisão é a de funcionar como cinemateca. Permite ver velhos filmes com outros (novos) olhos. O caso de Ben-Hur é bastante expressivo. Revi-o esta semana. Cresceu em meu conceito. O mesmo ocorrera este ano com filmes como Dr.Jivago e Guerra e Paz. Revê-los levou-me a considera-los melhores que a época do lançamento.

Por causa do gênero sempre semelhante e das concessões ao grandioso que Hollywood precisava fazer devido à sua vinculação ao gosto médio do mercado mundial, a gente se acostumou a ver os filmes épicos ou bíblicos todos da mesma maneira. E não são. Ben-Hur possui sequencias lindíssimas e intensas, não tivesse a dirigi-lo o Mestre William Wyler.

Vendo esses filmes hoje sem a preocupação artística ou puramente artística da época de sua exibição, mas apreciando-os pelo exercício mitológico neles contido, devo confessar a alegria por realizar uma leitura completamente nova, surpreendente até para mim.
Artur da Távola




Vi- CHARLTON HESTON VOLTA A INTERPRETAR O PERSONAGEM EM DESENHO ANIMADO.

Cartaz divulgando o desenho, tendo Charlton Heston emprestando
sua voz ao personagem.
Em 2003, Charlton Heston, que completava então 80 anos, voltou a viver o personagem que o consagrou nas telas de cinema, Judah Ben-Hur, num desenho animado baseado no clássico romance literário de Lewis Wallace: Ben-Hur- Um Conto de Cristo.  O filho do ator, Fraser Heston, foi um dos produtores executivos da animação (que teve o roteiro da escritora Abi Estrin Cunningham) que trazia de volta o pai ao personagem apenas em dublagem. A direção ficou a cargo de William R. Kowalchuk Jr.

O próprio Heston faz a apresentação do desenho animado.
O desenho teve a apresentação do próprio Charlton Heston, que fez questão de explicar a essência da obra original de Wallace, que como militar e estrategista de guerra, poderia ter redigido uma obra sobre guerreiros e batalhas. Contudo, o escritor decidiu escrever uma história de fé, amor, perdão, e redenção. Ele ainda disse que as adaptações podiam variar de acordo com cada roteirista, podendo até mesmo ao fim Ben-Hur e Messala se perdoar e reconciliarem.

O desenho BEN-HUR, realizado em 2003.
O anime foi produzido por uma empresa cristã canadense, a Agamemnon Films. Heston era um dos poucos sobreviventes do filme que o consagrou em 1959, e para substituir os atores já falecidos da obra original de William Wyler em suas respectivas partes para a animação, como Stephen Boyd, Jack Hawkins, Cathy O’ Donnell, Hugh Griffith, ou Finlay Currie - entraram Duncan Fraser (como Messala), Richard Newman (como Quintus Árrius), Willow Johnson (como Tirzah), Dale Wilson (como Xeique Ilderin), e Long John Baldry (como Balthazar) que emprestaram suas vozes para esses personagens. O desenho difere muito do filme de 1959 (e tem metragem de 80 minutos), tendo uma linguagem mais apurada para o público infantil, mas a essência da obra de Wallace prevalece, onde Charlton Heston emprestou sua voz ao personagem principal em uma de suas últimas e marcantes atividades artísticas.

Poster da minissérie para a TV de 2010.
ViI- A MINISSÉRIE TELEVISIVA DE 2010

Joseph Morgan é Ben-Hur na versão televisiva canadense
de 2010, tendo ainda Kristin Kreug como Tirzah e Alex Kingston
como a mãe do herói, Ruth.
Em 2010, a emissora televisiva canadense CBC produziu (em preparo de dois anos) a primeira adaptação para TV do romance de Lewis Wallace Ben-Hur. A adaptação ficou a cargo de Alan Sharp, com direção de Steve Shill e produção de David Wyler, filho do cineasta William Wyler (diretor do clássico de 1959), para a Muse Entertainment, empresa canadense, em associação à Drimtim Entertainment, da Espanha, Zak Productions, de Marrocos, e Akkord Film, da Alemanha.

Seria Joseph Morgan uma cópia juvenil de Charlton Heston?
Para o papel-título convocaram o inglês Joseph Morgan, de 28 anos, que fisicamente lembra um “Charlton Heston juvenil”, magro e louro embora não tão alto quanto o intérprete da versão cinematográfica de 1959. Até o figurino de Morgan lembra o utilizado por Heston em sua versão clássica. Contudo, sua atuação como o herói de Lewis Wallace é sem o brilho e a solidez que tanto consagrou o astro da versão absoluta para o cinema que tantos louros obteve da Academia de Artes e Ciências 50 anos antes. 


Stephen Campbell Moore é Messala.
Kristin Kreug, Simon Andreu, e Alex Kingston - BEN-HUR (2010)
A versão televisiva de 2010 esta disponível em DVD no Brasil.
Filmada em Marrocos, a produção também traz no elenco os atores Stephen Campbell Moore, que interpreta Messala;  Emily VanCamp no papel de Esther; Ray Winstone como Quintus Árrius; Kristin Kreuk, a Lana Wood da série de TV Smalville, como Tirzah; Ben Cross como o imperador Tibério; Alex Kingston como Ruth, aqui o nome dada a mãe de Ben-Hur; Simon Andreu  como Simonides; e o paquistanês Art Malik como o Xeique Ilderin. 



 ViII- BEN-HUR 2016
Uma Crítica do Editor.



Com um orçamento de 100 milhões de dólares, este é o remake mais recente (seus produtores alegam que é um reboot, ou seja, uma releitura do personagem) e polêmico do livro de Lewis Wallace, que até aqui, já tem quatro versões cinematográficas, uma para a TV como minissérie, e outras poucas adaptações em desenho animado, sendo que a mais popular é o desenho produzido em 2003 e que tem Charlton Heston dublando o personagem.


Jack Huston, Toby Kebbell, e o diretor Timur Bekmambetov.
BEN-HUR (2016)
Desta vez, a religiosidade esta mais ativa, afinal a obra presente foi produzida por especialistas em filmes religiosos, liderados pela atriz Roman Downey, que produz filmes para católicos ou crentes consumidores, e O Filho de Deus foi uma destas fitas já produzidas. O cineasta desta nova versão é o russo Timur Bekmambetov, emigrado para os Estados Unidos e que por lá fez O Procurado com Angelina Jolie, Guardiões da Noite, e Abraham Lincoln Caçador de Vampiros. Em verdade, é um mestre nos efeitos digitais, testificado na Corrida de Quadrigas (e não bigas!), contudo tudo margeia a falsidade e artifícios, e não como no filme de 1959 dirigido pelo Mestre Wyler, que foi tudo íntegro, pra valer, e a custoso trabalho de operários, dublês, e mesmo dos atores principais para a sequencia, e no caso Charlton Heston e Stephen Boyd, que precisaram de três meses de treino com Yakima Canutt.


Jack Huston é o novo BEN-HUR (2016)
A corrida de Quadrigas foi filmada no mesmo estúdio da versão de 1959, em Cinecittá, próximo à Roma. Contudo, a corrida de 1959 supera a de 2016, por justamente ser mais longa e de ter o maior número de figurantes, sem precisar dos recursos digitais para ampliar plateias de um estádio (como feito em Gladiador, de Ridley Scott, em 2000). 



Nesta versão de 2016, a adaptação feita por Keith R. Clarke e John Ridley colocam Ben-Hur e Messala como irmãos adotivos. No filme de 1959, eram amigos de infância, “como se fossem irmãos”, e o roteiro frisava que o comportamento de Messala sofreu transformação quando este se deixou guiar pela corrupção romana. Pelo fato dos dois já terem sido amigos, e Messala levar a cabo todo ódio que sentia pelo ex-amigo que jurou vingança, torna a obra clássica de William Wyler muito mais dramática. 


Judah Ben-Hur é traído pelo irmão romano.
Morgan Freeman é o Xeique Ilderin.
No novo filme, não existem personagens centrais que são muito importantes para a trama, como o cônsul Quintus Árrius, vivido por Jack Hawkins na versão de 1959. Ele era o esteio do personagem principal, pois este acabou lhe salvando a vida durante o ataque pirata nas galés. Aqui, esse personagem foi eliminado, e o esteio se transferiu para o Xeique Ilderin, que na versão de 2016, é vivido pelo talentoso Morgan Freeman. 


Ilderin ajuda Ben-Hur a executar sua vingança.
BEN-HUR (2016)
Ben-Hur escapa de um naufrágio após sua galera onde estava aprisionado ser destruída, e vai parar as margens de uma praia, onde é salvo por Ilderin. Este o ampara e começa a treina-lo para um dos esportes mais violentos da antiguidade, as corridas de quadrigas, e só assim, ele conseguirá sua revanche contra o irmão Messala e decidirá os pontos. No filme original de 1959, assim como no romance original de Wallace, Ben-Hur se torna um atleta na modalidade em Roma, e quando conhece o llderin ele já é um auriga experiente. 


Ben-Hur pronto para a Corrida de Quadrigas.
Rodrigo Santoro e Jack Huston na divulgação do filme em São Paulo.
E quanto aos atores? Morgan Freeman dispensa comentários por seu brilhantismo em qualquer papel, onde pode valorizar um pouco o filme. Mas voltemos nossas atenções ao britânico Jack Huston, que interpreta Judah Ben-Hur. Oriundo do clã dos Huston – neto do lendário cineasta John Huston (1906-1987) e sobrinho da atriz Angelica Huston – Jack pode ser carismático, mas não convence nada em um papel que exige certa virilidade e atletismo. Mesmo o ar voluntarioso de Charlton Heston  fazia o espectador se convencer de que ele sabia conciliar seu porte físico à sua arte dramática para o papel. Por isso que até hoje fica difícil de imaginar outro ator que não seja Charlton para Ben-Hur, que pudesse ser altivo, mas ao mesmo tempo, soubesse ser humano e sofrido. Logo, Jack Huston não se encaixa em nenhum momento como o personagem de Lewis Wallace, embora seja um bom ator. 


Toby Kebbell é um violento Messala.
Haluk Belginer é Simonides. Nazarin Boniadi é Esther.
Toby Kebbell vive Messala, que aqui ganha até um sobrenome, Messala Severus, muito mais violento que Stephen Boyd da versão de 1959. Já a atriz Nazanin Boniadi que faz a Esther (aqui esposa de Ben-Hur) não tem a beleza da israelense Haya Harareet que foi a Esther de Wyler na versão de 1959, mas executa bem a sua parte. Ayelet Zurer, atriz também israelense, vive a mãe do herói, que na versão atual recebe o nome de Naomi (na versão de 1959, a personagem vivida por Martha Scott recebe o nome de Miriam, e na versão televisiva de 2010, o nome de Ruth). 


O brasileiro Rodrigo Santoro como Jesus Cristo.
Rodrigo Santoro, um dos pontos positivos do filme.
Deus tem um Plano Pra você
E nosso Rodrigo Santoro? Juntamente com Morgan Freeman, Santoro é um dos poucos que sustenta esta versão atual, mesmo atuando em quatro cenas como Jesus Cristo, incluindo a morte na cruz. Mesmo que ao contrário de Claude Heater, onde pode mostrar finalmente o “rosto de Jesus”, as cenas não são tão memoráveis como as de 1959, embora nesta adaptação atual tenha uma mensagem do Redentor para com o herói quando este lhe dá água no caminho do deserto e lhe diz: “Deus tem um plano pra você”. Isso já era perceptível mesmo na versão de William Wyler, sem qualquer dialogo entre Ben-Hur e Cristo.


Ben-Hur tenta ajudar Jesus no caminho do Calvário.
A Paixão de Cristo na versão de BEN-HUR 2016

Em suma, a versão atual de 2016, em nenhuma circunstância, pode ser comparada com as versões cinematográficas anteriores (1907, 1926, e 1959 principalmente). Seus produtores e o diretor alertam que se trata de outro universo para a história escrita por Lewis Wallace no século retrasado. Vale lembrar que mesmo  se tratando de um remake, isto sem dúvida não isentará a superioridade do filme dirigido por William Wyler, que obteve as láureas máximas da Sétima Arte, consagradamente uma obra prima do cinema. Além disso, refilmagens tem 95% de chances de não darem certo, e tendo em vista esta estimativa, os mais saudosistas não tem o que temer nada, e podem e até devem assistir a nova versão de 2016 sem receios. Para os mais jovens, pode apetecer a curiosidade de conhecer a versão de Wyler (disponível em DVD e Blu-Ray no Brasil pela Warner) depois de conhecer a versão moderna do diretor russo Timur Bekmambetov, pois são justamente os remakes que podem motivar a curiosidade de conhecer uma versão anterior da mesma trama.



Então, sem preconceitos ou receios, podemos assistir esta nova adaptação para as telas de um grande clássico da literatura mundial publicada em 1880, se tornando um dos livros mais vendidos e lidos de toda a História. É verdade que não temos um ator a altura do papel como Charlton Heston, e nem um diretor versátil e de índole criativa como William Wyler, mas para os modernos padrões cinematográficos, tem ótimos atores como Morgan Freeman e o brasileiro Rodrigo Santoro, e um roteiro no mínimo interessante. A trilha sonora de Marco Beltrami não transmite a mesma emoção da versão de Wyler composta por Miklos Rozsa em 1959. A atual adaptação pode ser sim um bom filme, mas não passará disso, pois a versão cinematográfica estrelada por Heston ainda é uma obra insuperável e inesgotável, persistindo as ações do tempo e do vento. Alguém se habilita a fazer uma nova versão da pintura Monalisa de Leonardo Da Vinci? Pode sair bonito, mas nunca será como o original, e muito menos superior. 


Por Paulo Telles


Assista ao trailer do novo filme
Legendado




ESPECIAL: DOIS TRAILERS ORIGINAIS  DO
FILME DE 1959
Estrelando CHARLTON HESTON.
Dirigido por WILLIAM WYLER




PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES

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